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10/09/2006 O Evangelho segundo Precário Jorge Costa; Luis Leiria Stefano Obino é o realizador de O Evangelho segundo
Precário, um filme muito especial, não só pelo tema que escolheu, como
também pela forma como conseguiu financiamento para realizá-lo. São quatro
histórias cruzadas de pessoas que têm vidas precárias, relações de trabalho
angustiantes, que são maltratadas por chefes prepotentes. Algumas reagem,
outras adaptam-se. O filme foi exibido na noite de ontem numa sessão da
Marcha pelo Emprego em Espinho, com a presença do realizador, que deu a
seguinte entrevista ao Esquerda. – Como lhe ocorreu a ideia de fazer um filme sobre a
precariedade? A ideia veio de uma conversa sobre o cinema italiano, e
de como ele não reflecte os problemas sociais, mas apenas as relações
pessoais. Pensámos que era importante falar sobre o problema da precariedade,
porque é o maior problema da Itália nos dias de hoje. Abrange mais de quatro
milhões de pessoas, jovens e menos jovens. E ninguém fala deste problema da
maneira correcta, ninguém mostra a realidade. Quisemos fazer um filme que fosse um documento para
expor esta situação. Mas não um documentário, porque algumas pessoas têm
dificuldades de ver documentários, acham que são aborrecidos. Por isso,
decidimos fazer um filme que mostrasse o problema de uma forma mais fácil, de
forma a atingir mais gente. – O próprio Stefano já trabalhou num call center.
Como foi a sua experiência com esse trabalho? Antes de me tornar realizador, passei por muitos
trabalhos. Trabalhei em dois call centers, num restaurante... tive
muitos trabalhos. Estive junto de muitas pessoas que são diferentes de mim.
Eu tinha um sonho, o objectivo de vir a tornar-me nalguma coisa. O problema é
quando as pessoas não têm esse sonho, quando pensam que aquela é a vida
deles, e que se tem de viver assim a vida inteira. É difícil, para um jovem
de 30 anos pensar no futuro. Foi o que vi, quando trabalhei como precário.
Também para mim é um problema, porque para os artistas não há trabalho fixo,
não há segurança social para ninguém na Itália. É difícil ser um trabalhador
flexível, trabalha‑se dois ou três meses, depois pára-se e mais tarde
volta a haver trabalho... Ficamos com buracos na nossa vida, sem dinheiro. E
o governo não ajuda. – Sobre o filme. Apesar de ter um orçamento baixo,
como é que conseguiram dinheiro para o fazer? Pedimos às pessoas, através do nosso site na Internet,
que comprassem antecipadamente o filme, Custava dez euros e dava direito a
receber uma cópia do DVD e ter o nome inscrito na parte final do genérico do
filme. No início, conseguimos a adesão de apenas um grupo pequeno. Mas depois
associaram-se também alguns sindicatos e associações que queriam falar deste
problema de uma forma nova, o que permitiu reunir dinheiro suficiente para
fazer o filme. Para ajudar a fazer o guião, pedimos no site que nos
mandassem histórias que tivessem ocorrido envolvendo a flexibilidade e a
precariedade. E assim escrevemos o guião e começámos a filmar. Nem todos os
actores são profissionais. Alguns dos personagens são pessoas que nunca
tinham actuado mas que tinham uma experiência, algo muito forte a dizer sobre
a precariedade. – Que audiência conseguiram? Foi um verdadeiro milagre. Fizemos mais de 800
exibições em sala de cinema e mais de 10 mil cópias do DVD foram enviadas.
Demos uma volta à Itália durante um ano, e, no final da exibição, sempre
havia gente que queria falar, debater o filme. Isso não é habitual na Itália,
onde as pessoas têm uma espécie de repulsa de falar sobre os filmes, há até
uma famosa cena do Nani Moretti que retrata essa situação. Por isso foi muito
bom, porque, por um lado, demonstrou que tivemos uma ideia que foi ao
encontro dos problemas das pessoas. O problema foi que nesses debates as
pessoas perguntavam qual é a solução. Ora eu sou um realizador e não sei o
que lhes dizer...Mas essa situação demonstrava que quem tinha a obrigação de
encontrar as soluções não o fez... O que é um problema. – Que repercussão teve o filme noutros países? Estive na Suíça, e o filme, sem a minha presença, foi
exibido na Bélgica, Holanda e França. E agora também em Portugal. E a
resposta é sempre a mesma. As pessoas vêem o filme e dizem: “Isto é a realidade”.
O que significa que a precariedade é um problema em toda a Europa. Temos os
mesmo problemas e até os mesmos nomes, por exemplo a Manpower, e a forma como
trata as pessoas, não como trabalhadores, mas no plano individual. Tratam-nas
como “falhadas”, “fracassadas”. – Dizia-me há pouco que o tema precariedade pode ser
absorvido pelo sistema... O sistema quer tornar a precariedade numa coisa glamourosa, quer vender livros, ou camisas, ou até filmes. Assim, um problema torna-se parte do mercado global. Isso, para mim, é um problema. Temos de fazer um outro projecto para demonstrar que esta não é a solução, não somos apenas compradores, somos pessoas com problemas. |