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Mundo

21/04/2006

 

V for Vendetta

 

Pimenta Negra

 

Está actualmente em exibição nas salas de cinema do Porto e de Lisboa um filme que pretende ser a adaptação para o cinema da banda desenhada V for Vendeta criada por Alan Moore e David Lloyd (desenho) no início dos anos 1980, e cuja publicação começou pela editora Warrior com uma série a preto e branco, mas que depois foi retomada e republicada, já a cores, pela Vertigo/DC Comics nos Estados Unidos, e pela Titan Books no Reino Unido, nunca tendo sido editada em Portugal.

 

Esta banda desenhada tornou-se célebre por inspirar-se nas ideias sociais anarquistas de uma organização social caracterizada por uma ordem livremente construída, assente na liberdade individual. Esta marca ideológica está aliás bem patente nas capas dos livros desta banda desenhada pois o V de Vendetta é apresentado graficamente como o A do anarquismo.

 

 

O enredo consiste na denúncia de uma sociedade totalitária e o combate contra a tirania instalada.

 

A acção desenrola-se em 1997 na cidade de Londres, reconstruída depois de ter sido devastada por uma guerra nuclear, e que é dominada por um governo e um regime totalitário, cujos governantes se intitulam a mão, o ouvido e a cabeça, conforme as suas funções. O governo impõe uma tirania que não reconhece quaisquer direitos civis e impõe a censura, perseguindo e impedindo qualquer manifestação de oposição.

 

Trata-se de um estado que vigia os cidadãos através de câmaras de vigilância e que monta campos de concentração para quem não segue nem obedece a essa ordem social totalitária, onde são interrogados, torturados e mortos os contestatários. O paralelismo com a distopia de Orwell é óbvio, mas os criadores da banda desenhada tinham em mente criticar e contestar a política da então primeira­‑ministra inglesa, Margareth Thatcher que no início da década de 80 foi o alvo preferido dos comics ingleses pela sua política de liberalismo selvagem e, responsável, pelos ataques aos direitos sociais.

 

A dada altura surge um justiceiro solitário para fazer frente a este totalitarismo. Conhecido simplesmente por V (a Vendetta pretendia ser uma espécie de justiça popular anónima, uma retaliação contra a injustiça e os abusos de poder), o vingador solitário aparece vestido com trajes do século XVII e uma máscara reproduzindo a cara de Guy Fawkes, um personagem histórico que viveu entre 1570 e 1606 e que participou numa conspiração de católicos contra o rei inglês Jaime I, que pretendiam fazer explodir o edifício do Parlamento em 5 de Novembro de 1605, quando ali estivessem reunidos o rei, a rainha, o herdeiro do trono, os ministros e os parlamentares. A conjura abortou por acção da denúncia de um traidor, o que levou Fawkes a ser preso, torturado e executado em frente ao edifício do Parlamento.

 

A banda desenhada começa exactamente com V a salvar uma jovem de ser violada por polícias do regime, que a leva em seguida para o cimo de um edifício onde ambos pudessem observar a explosão do edifício do Parlamento que ele preparara. V adopta então a jovem Evey e transmite-lhe a sua visão de liberdade e explica­‑lhe o significado das palavras anarquia e anarquismo, cujo significado sempre foi adulterado e pervertido pelo poder, nada interessado na difusão dos ideais libertários.

 

Nota-se ainda que a personagem V é uma mistura de características de vários heróis. Tem uma cara sorridente e age como aqueles heróis de capa e espada, tipo Scaramouche, mas é também um poeta espadachim como Cyrano de Bergerac. A sua agilidade e força faz lembrar a dos super-heróis, ao mesmo tempo que o seu esconderijo está repleto de livros, obras de arte e uma jukebox que toca, por exemplo, Cole Porter e o tema Martha and the Vandelas. Além disso, o nosso herói cita frequentemente Shakespeare, William Blake, Lou Reed, Rolling Stones, etc.

 

Ora foi esta história em banda desenhada que foi supostamente passada para o cinema pelos irmãos Andry e Larry Wachowski (os autores de Matrix) num filme realizado por James McTeigue, com a participação dos actores Hugo Weaving no papel de V, e de Natalie Portman como Evey.

 

Dizemos supostamente porque na verdade o filme esvazia completamente a mensagem subversiva que se encontrava nos comics de Alan Moore e David Lloyd, cuja filosofia política sai totalmente branqueada tornando­‑se num filme asséptico e incaracterístico, inócuo mesmo, que obrigou o autor do comics, Alan Moore a exigir que o seu nome fosse retirado do genérico do filme e que a sua pessoa não estivesse associada ao argumento montado pelos irmãos Wachowski.

 

O filme começa por mostrar Fawkes, em 1605, a encher as caves do Parlamento com pólvora, e depois a ser preso e enforcado. Mostra ainda a protagonista feminina a ser molestada pelos Apontadores (polícia secreta) e a ser salva por V. Mas os grandes momentos da fita são as explosões dos edifícios do Parlamento ao som da 1812 de Tchaikovsky. O problema é que estas explosões que visam o símbolo por excelência do poder, que é o Parlamento inglês, não têm o sentido político que Alan Moore imprimiu na sua banda desenhada, tendo os argumentistas do filme convertido a forte carga política dos ataques ao poder totalitário num acto de pura vingança pessoal do sujeito que teria sido objecto de experiências médicas às mãos dos seus inimigos. O filme destrói e faz desaparecer qualquer conexão com a filosofia e a prática anarquista, ao arrepio e em oposição à vontade manifestada pelos autores do comics V for Vendetta. Um ou outro resquício dessa mensagem releva da pura insignificância que passa perfeitamente despercebida a quem veja unicamente a fita, sem conhecer a banda desenhada que lhe serviu de base e inspiração. Os Estados Unidos, por exemplo, são ligeiramente beliscados quando no filme a sigla EUA pretende significar “Esfíncter Ulcerado da Asnérica”…

 

Em suma, trata-se de mais um filme-espectáculo da dupla Wachowski (que também fez o Matrix), adulterando grosseiramente o obra V for Vendetta de Alan Moore, o que faz com que o resultado final se aproxime mais de uma fita do Batman do que uma real adaptação para o cinema da banda desenhada V for Vendetta, já tornada clássica na História recente dos Comics.

 

Um colectivo de libertários norte-americanos decidiu rectificar e expor os inúmeros [erros] cometidos na adaptação da banda desenhada para o cinema e criou um site para denunciar a situação:

http://www.aforanarchy.org

 

Há também um site em castelhano:

http://vvvvv.vdevendetta.info

 

Mais info:

http://en.wikipedia.org/wiki/V_for_Vendetta

http://en.wikipedia.org/wiki/Alan_Moore

http://www.alanmoorefansite.com

http://www.shadowgalaxy.net/Vendetta/vmain.html

 

O site oficial do filme:

http://vforvendetta.warnerbros.com

 

(...)