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02/03/2005 O
pesadelo de Darwin: Notas de intenções do realizador Hubert
Sauper (doc) AS ORIGENS DO PESADELO A ideia deste filme nasceu durante a investigação para outro
documentário, Kisangani Diary – Loin du Rwanda, cujo assunto eram os refugiados
da revolução no Congo. Foi em 1997 que fui testemunha pela primeira vez do
tráfico destes enormes aviões. Enquanto um avião chegava da América com
comida para os refugiados dos campos da ONU, um segundo avião descolava para
a União Europeia com 50 toneladas de peixe a bordo. O encontro e os laços de amizade que pude estabelecer com alguns dos
elementos da equipa de um dos aviões de carga russos permitiram-me descobrir
o impensável. Os aviões não traziam só ajuda humanitária dos países
desenvolvidos, mas também traziam armas. Os aviões traziam a comida que os
alimentava durante o dia e as armas que os matavam à noite. De manhã, a minha
câmara que tremia filmava nesta selva os cadáveres e os campos destruídos. Conhecer a cronologia e os rostos de uma realidade tão cínica
tornou-se o objectivo de O pesadelo de Darwin, o meu mais longo
engajamento cinematográfico. O CENTRO DO MUNDO A Região dos grandes lagos é o centro verde, fértil e mineral da
África e é considerado como o berço da Humanidade. Esta região é conhecida
pela sua vida selvagem única, os seus vulcões cheios de neve e os seus
parques nacionais. E ao mesmo tempo é o “coração das trevas”. As guerras
civis que assolam este local têm origem numa espécie de esquecimento moral.
Elas são, de longe, os conflitos mais mortíferos desde a Segunda Guerra
Mundial. No Congo, cada dia do ano, o número de mortos ligados à guerra é
equivalente ao número de vítimas do 11 de Setembro em Nova Iorque. Sem serem
completamente ignoradas, as inumeráveis guerras são frequentemente
classificadas como “conflitos tribais”, como os do Ruanda ou do Burundi. As
causas escondidas destas perturbações são, na maioria das vezes, interesses
imperialistas por causa dos recursos naturais. NO CORAÇÃO DAS TREVAS Éramos uma pequena equipa a filmar O pesadelo de Darwin: Sandor, o meu habitual companheiro de viagem, a
minha pequena câmara e eu. Devia aproximar-me das “personagens” e seguir as
suas vidas durante longos períodos. Era por isso fácil arranjar imagens
impressionantes, porque a realidade que filmava era impressionante. Mas também
era fácil ter problemas. Na Tanzânia, devíamos esconder a nossa actividade
das autoridades. Para subir aos aviões de carga, tivemos de fingir que éramos
pilotos e ter bilhetes de identidade falsos. Nas aldeias, pensaram que éramos
missionários humanitários. Os directores das fábricas pensaram que éramos
inspectores de higiene da União Europeia. Também fingimos ser homens de
negócios australianos nos bares de hotel da moda ou turistas inofensivos na
savana africana, “que andavam só a tirar fotografias”. Perdemos imensos dias
a enfrentar polícias corruptos e interrogatórios, em postos de controle e nas
prisões locais. Uma grande parte do dinheiro do orçamento do filme foi gasto
a dar “luvas” para pagar a nossa liberdade. Para nós tratou-se de uma rotina
morosa: não trabalhar, ficar sentado debaixo do implacável sol equatorial
rodeado de milhões de esqueletos de percas do Nilo, tentando não enlouquecer.
A LEI DO MAIS FORTE? A eterna questão de saber que estrutura social e política é a melhor
para o mundo parece ter encontrado uma resposta. O capitalismo ganhou. As
sociedades futuras serão regidas por um “sistema consumista”, considerado
“civilizado” e “bom”. No sentido darwiniano, o “bom sistema” ganhou. Ganhou
ao convencer os seus inimigos ou então eliminando‑os. Em O pesadelo de Darwin tentei transformar a história do sucesso de um
peixe e o boom efémero à volta deste animal “perfeito” numa alegoria irónica
e assustadora sobre a nova ordem mundial. Mas a demonstração seria a mesma na
Serra Leoa e em vez de peixes teria diamantes, nas Honduras seriam bananas,
no Iraque, na Nigéria e em Angola... seria petróleo. Para mim, o cinema é o único meio que consegue transmitir, com um
verdadeiro impacto, algumas realidades. A maior parte de nós conhece os mecanismos
destruidores do nosso tempo sem ter verdadeiramente consciência. Por exemplo,
em todo o lugar onde um recurso natural é descoberto, os habitantes morrem na
miséria, os seus filhos tornam-se soldados e suas filhas criadas ou
prostitutas. Depois de centenas de anos de escravatura e colonização europeia em
África, os efeitos da globalização dos mercados estão a infligir humilhações
mortais aos habitantes deste continente. A atitude arrogante dos países ricos
no que diz respeito ao Terceiro Mundo cria perigos futuros para todos os
povos. «Não teríamos percas do Nilo nos nossos supermercados se não houvesse guerra em África.» Neste documentário, tentei filmar o mais intimamente possível. Sergey,
Dimond, Raphael, Eliza… são personagens verdadeiras que representam
maravilhosamente a complexidade deste sistema e, para mim, elas representam o
verdadeiro enigma. «Poderia fazer a mesma demonstração na Serra Leoa
e em vez de peixes teria diamantes, nas Honduras seriam bananas, no Iraque,
na Nigéria e em Angola... seria petróleo.» ______ * Hubert Sauper nasceu numa pequena aldeia tirolesa nos Alpes austríacos. Viveu na Grã-Bretanha, na Itália, nos Estados Unidos e dez anos em França. Estudou cinema em Viena e em Paris. Dá aulas na Europa e nos Estados Unidos. Os últimos dois documentários que realizou receberam doze prémios internacionais. |