|
Informação Alternativa |
|
Mundo |
|
29/03/2005 O filme Million Dollar Baby - Sonhos
Vencidos, a
eutanásia, o aborto e a Igreja Católica Inesperadamente, a eutanásia, como prática consumada sem qualquer
contestação, surge no final do filme Million Dollar Baby – Sonhos Vencidos.
Aproveitei parte da folga de ontem e, depois de ter colocado no correio a
edição n.º 127, do Jornal Fraternizar, relativa ao trimestre
Abril/Junho 2005, fui ver o filme. Também aqui, antes de ser um facto
consumado, a eutanásia foi um grave problema de consciência para a personagem
protagonizada pelo actor principal do filme, quando a sua pupila, depois de
ter vencido todos os combates na arena, não suporta a realidade nua e crua
que era ter de ficar o resto da vida estendida num leito, sem quaisquer
hipóteses de voltar aos combates que fizeram dela a mulher realizada que ela
antes sempre havia sonhado ser e que acabou por conseguir com exemplar e
inexcedível força de vontade. Um golpe traiçoeiro e assassino da sua rival,
durante aquele que veio a ser o seu último combate, poderia tê-la deixado
morta na arena, mas, em vez disso, deixou‑a totalmente paralisada e
estendida num leito, ainda que cerebralmente lúcida e em condições mínimas de
continuar em comunicação com as pessoas à sua volta. Ao ser informada pelos
médicos que essa seria a sua condição para o resto da vida, ela própria
recusou viver assim em condições tão limitadas e cem por cento dependente. E
de imediato pede ao seu “chefe” e quase pai adoptivo que lhe faça o que ela
nem sequer possibilidades tem de fazer. Concretamente, que ponha termo a este
seu tipo de vida. O filme assume, nestas alturas, uma intensidade dramática de tirar a
respiração. Por sinal, a sala onde vi o filme estava completamente lotada,
com espectadores de todas as idades. E o silêncio era de cortar à faca. Pena
foi que, no final, não houvesse a possibilidade de passarmos por um espaço
alternativo, cheio de luz natural e de ar sem ser condicionado, para podermos
partilhar os sentimentos que nos nasceram na consciência, durante a projecção
do filme. As empresas que promovem diariamente a exibição de filmes em
grandes centros comerciais têm objectivos puramente comerciais e, por isso,
não se preocupam com as pessoas nem com os seus sentimentos. Terá de ser cada
pessoa a procurar criar essas ocasiões, o que, provavelmente, não acontecerá
na maior parte dos casos. Tornamo-nos, assim, pessoas que consomem tudo o que
nos aparece pela frente, quando, ao invés, apenas com um pouco mais de
cuidado, poderíamos ser pessoas a crescer em consciência crítica e em
protagonismo cívico. O mundo seria então muito mais humano e muito mais
fraterno/sororal. Também muito mais de paz e de bem-estar. Felizmente, o próprio filme levantou o problema da eutanásia, sim ou
não, quando mostrou a personagem principal, um católico tradicional de missa
ao domingo, a procurar o respectivo pároco para partilhar com ele o seu
problema de consciência: deveria ou não atender o pedido da sua pupila. O
momento é patético e paradigmático duma Igreja sem coração, sem entranhas de
humanidade. O pároco, bastante mais novo que o seu interlocutor, é o exemplo
acabado de funcionário eclesiástico que está ali, qual fariseu do tempo de
Jesus de Nazaré, para lembrar a letra da lei moral, sem querer saber, em
momento algum, do caso concreto em si e das circunstâncias em que se encontra
a pessoa em causa, a sua história pessoal, o seu percurso. É bem o rosto duma
instituição sem rosto, descarnada, fria, cruel, monstruosa, arrogante, nos
antípodas de Deus, pelo menos, o Deus que se nos revelou definitivamente em
Jesus, o de Nazaré. Fala sempre do alto do seu pedestal, não acolhe, não
dialoga, apenas repete a letra da lei moral, certamente, uma lei moral que
ela própria inventou e que não tem nada a ver com os seres humanos, nem com o
Deus criador da vida. É impossível ver e ouvir aquele padre, naquele momento,
e não pensar de imediato na Cúria romana e nos seus cardeais celibatários à
força, completamente desprovidos de entranhas de humanidade e de ternura,
cruéis quanto baste na sua “pureza” e na sua “perfeição” legal, mas
totalmente incapazes de gestos criadores de vida e de esperança. Valeu àquele católico de missa ao domingo o seu funcionário de
confiança do ginásio, um velho lutador negro que nunca frequentou a missa ao
domingo, nem nunca fez um sinal da cruz, nem nunca entrou numa igreja, nem
nunca ajoelhou diante duma imagem. Ao ver o seu patrão assim tão de rastos e
tão atormentado com a decisão mais difícil da sua vida, se haveria ou não de
realizar o pedido da sua pupila, acolheu‑o com toda a humanidade que
só mesmo um negro que conhece na própria carne séculos de escravatura e de
discriminação é capaz de ter e de partilhar. Mas não só. Também lhe disse
palavras cheias de humanidade, de compreensão, de bom senso, de sentido que
toda a vida sempre tem, também a da sua pupila, independentemente daquele
momento de tragédia. Sublinhou-lhe que a sua pupila havia conseguido, em
curto espaço de tempo, tudo o que mais tinha desejado na vida. Em poucos
anos, graças ao esforço dela e dele, tinha-se tornado uma das mulheres mais
realizadas da terra. De modo que agora, em seu entender, só lhe restava
avançar para o passo seguinte. E esse, só ele, seu “chefe” e amigo, lho
poderia proporcionar, a pedido dela. O católico ouviu e deixou-se evangelizar/humanizar por aquelas
palavras ditas com tanta ternura e compreensão, afinal, de um homem muito
mais próximo de Deus do que o padre católico que ele tinha começado por
consultar, dentro da igreja paroquial. E não teve mais dúvidas: haveria de
encontrar maneira de realizar o pedido que a sua pupila lhe fizera. O momento
que se segue é intenso, mas ninguém na sala completamente lotada sussurrou a
mais leve discordância. Pelo contrário, um majestoso silêncio acompanhou cada
um dos seus gestos e cada um dos seus passos. Até ao derradeiro instante, em
que tudo é consumado. Num clima de serenidade, de ternura, de vida que se
extingue/despede com invulgar dignidade e tranquilidade. O filme termina pouco depois e ninguém fala, quando abandona a sala.
Estes momentos finais foram como um murro no estômago e ninguém, no imediato,
se atreve a condenar aquele homem, nem a sua pupila. No meu lugar, também eu
compreendi o gesto derradeiro da personagem, o pedido da mulher completamente
imobilizada numa cama, os argumentos do funcionário negro do ginásio, embora,
por mim, admita que, nas mesmas circunstâncias, teria certamente reagido de
outra maneira. Mesmo assim, sinto-me incapaz de condenar quem entendeu e
procedeu daquela maneira. Para mim, companheiro da mesma Fé de Jesus, a vida
humana é sempre um dom, uma graça, mesmo quando, como no caso concreto que o
filme nos põe diante dos olhos, ela teima em manter-se no limite do possível,
melhor, no limite do (quase) absurdo. Posso não entender toda a sua dimensão,
todo o seu mistério, mas não deixo de a reconhecer e de a experimentar como
um dom, uma graça. Entretanto, e por isso mesmo, jamais poderei impor a outras pessoas
este meu ponto de vista, muito menos arvorar-me em juiz das outras pessoas
que (ainda) não partilhem deste meu ponto de vista. Assim como jamais poderei
pretender que este meu ponto de vista se torne lei no país onde vivo, ou no
mundo que partilho com milhares de milhões de outros seres humanos, das mais
variadas culturas e línguas. Poderei e deverei partilhar com todas as pessoas
este meu ponto de vista, dialogá‑lo, conversá-lo, confrontá-lo com os
pontos de vista delas. Mas sempre na mais pura gratuidade, na maior das
fragilidades, como quem dá testemunho, nunca como quem impõe, como quem
exige, muito menos como quem condena ao anátema as pessoas com pontos de
vista diferentes do meu. Creio que é aqui que tem falhado a hierarquia da Igreja de que faço
parte. Deixa sempre nos demais a impressão de que tem o monopólio da moral e
que já sabe, antecipadamente e duma vez por todas, independentemente das
circunstâncias concretas em que se encontram as pessoas, qual tem que ser o
comportamento moral a seguir. É a postura moralista da lei, própria dos
fariseus hipócritas de todos os tempos, por isso, sempre cruel e tanto mais
cruel quanto mais justiceira for. Ora, o que é de esperar da Igreja é a
defesa duma moral de responsabilidade, a qual humildemente sempre remete para
a consciência de cada pessoa, nas circunstâncias concretas em que cada pessoa
vive e é chamada a decidir. Neste como em tantos outros campos, não me revejo, evidentemente, na
orientação da hierarquia católica e não tenho mais remédio senão assumir-me
como dissidente. Em nome da moral. Em nome da dignidade da pessoa humana. Em
nome da Fé cristã jesuânica. Em nome do Evangelho da libertação para a
liberdade. Faço‑o sem qualquer hesitação. Alimentado com o exemplo de
Jesus, o de Nazaré, condenado à morte por ter ousado colocar os seres humanos
concretos acima da letra da lei moral proveniente de Moisés, ao garantir que,
até para Deus Criador, os seres humanos estão sempre antes do próprio sábado:
«O sábado foi feito para o ser humano, não o ser humano para o sábado». Por isso, perante a possibilidade de o nosso país vir a ser chamado
a votar uma lei que despenalize a prática da eutanásia em certas
circunstâncias, assim como duma lei que despenalize a prática do aborto em
certas circunstâncias, todas elas manifestamente sensatas e reveladoras de
grande compreensão humana, é manifesto que nem Jesus de Nazaré votaria contra
essa lei. Para mim, é suficiente que uma lei sobre estas e outras matérias de
consciência não obrigue ninguém a ter que a pôr em prática, mesmo contra a
sua consciência. Desde que esteja garantido que a decisão de realizar a
eutanásia ou de fazer um aborto seja sempre da pessoa que está na situação, e
por isso, nunca aconteça sem ser quem está directamente metido na situação a
decidir, já me basta. Porque não é pelo facto de uma lei dessas existir que a
eutanásia ou o aborto passam a realizar-se a torto e a direito. A decisão
nunca será do Estado, mas das pessoas que estão directamente envolvidas na
situação. E estas têm sempre a liberdade de dizer não, como de dizer sim. Aliás, há-de ser sempre e só neste campo da liberdade de cada pessoa que a Igreja, se quiser ser sacramento de Deus que se nos revelou em Jesus de Nazaré como a Boa Notícia para a Humanidade, tem moralmente que actuar. Se, em vez disso, a Igreja privilegiar o campo do poder, para o obrigar a não consentir que este tipo de leis sejam aprovadas, deixa de ser Igreja, discípula de Jesus, para voltar a ser Cristandade, poder religioso que impede as pessoas e a Humanidade em geral de crescerem e de se tornarem senhoras dos seus próprios destinos, que é, afinal, o que Deus Criador mais quer a nosso respeito, desde que começou a criar-nos à sua imagem e semelhança. Como tal, é uma Igreja que nem sequer merece o respeito das pessoas. |