|
Informação Alternativa |
|
Mundo |
|
13/09/2004 Mike
Leigh: «Que
o aborto continue a ser um crime parece‑me de todo ridículo» Irene Hdez. El Mundo; traduzido de Rebelión Mike Leigh é um senhor muito sério. Extraordinariamente educado mas
implacável, desses que, ante uma pergunta idiota, não perdem ocasião de fazer
notar ao jornalista de turno (sempre com grande correcção, isso sim) que o
que acaba de propor‑lhe é uma solene imbecilidade. No fundo, é pura
deformação profissional: toma tão a sério o seu trabalho que não suporta que
os demais não façam o mesmo. Mas, desde há já umas horas, Mike Leigh está como que a flutuar numa
nuvem. Tudo graças a Vera Drake, o último filme dirigido por este
britânico e triunfador absoluto do 61º Festival de Cinema de Veneza. Um filme
que obriga o espectador a enfrentar os dilemas morais do aborto através da
história de uma mulher da classe trabalhadora que, na Inglaterra dos anos 50
em que a interrupção voluntária da gravidez ainda era um crime, se dedica em
segredo e desinteressadamente a ajudar jovens que desejam pôr fim à sua
gravidez. Vera Drake levou nada menos que o Leão de Ouro para o melhor
filme e a Copa Volpi para a melhor actriz. Mike Leigh não duvida que grande parte do sucesso do filme se deve a
que aborda um assunto universal. «O aborto é uma questão que diz respeito a todos.
O planeta não aumenta de tamanho, mas a população não deixa de aumentar.
Muitos dos dilemas morais que o aborto propõe eliminaram‑se ao longo
do século XX, mas ainda assim continua a gerar atitudes diversas», assegurava
a semana passada numa entrevista com um reduzido grupo de jornalistas. E, contra o que em princípio seria de esperar, o facto de que o
filme esteja ambientado na Inglaterra dos anos 50 não lhe tira um ápice de actualidade,
porque a essência do aborto continua a ser a mesma. «Pareceu‑nos uma boa ideia. O primeiro motivo é óbvio:
naquela época, a interrupção voluntária da gravidez era ainda um crime, assim
que ao situar o filme nesses anos obrigávamos a audiência a confrontar a ideia
da ilegalidade do aborto. É Vera Drake uma criminosa ou uma pessoa decente
que só quer ajudar os demais? Creio que este filme expõe de maneira muito descarnada
o que ocorreria se houvesse um retrocesso e voltássemos a penalizar o aborto:
voltaríamos à época de Vera Drake e, é isso o que queremos?», reflectia o
realizador. Apesar de que a verdade é que não seja preciso viajar ao passado
para encontrar lugares em que o aborto é ilegal. Hoje em dia continuam a
existir países, incluída a muito católica República da Irlanda, membro da
União Europeia, nos quais a interrupção voluntária da gravidez é um delito
castigado com severas penas de prisão. «Sim, em muitos lugares continua a ser
um crime, e parece‑me de todo ridículo», sentencia Mike Leigh. O que é indiscutível é que o cineasta se documentou em profundidade.
Durante seis meses, ele e a sua equipa estiveram a investigar até dar vida a
um personagem de ficção como Vera Drake que, no entanto, parece absolutamente
real. «Falei com muitas mulheres como ela», assegura o cineasta. Leigh sempre se distinguiu por preparar os seus filmes muito a
fundo. Mas o que nunca até agora tinha feito nos seus mais de 30 anos de
carreira como realizador tinha sido intitular um dos seus filmes com o nome
de uma das suas personagens. «É verdade, nunca até agora o tinha feito. Os meus
filmes anteriores abarcavam mais do que a história de uma personagem e Vera
Drake representa milhares de mulheres em todo o mundo. É verdade que sempre
houve também homens e mulheres que praticavam abortos de forma cínica,
pensando unicamente em lucrar e sem se importarem com mais nada. Mas também
houve gente, a imensa maioria mulheres, que praticaram abortos com um sentido
altruísta e com o fim de ajudar mulheres que queriam interromper a sua gravidez.
Mulheres às quais jamais passou pela cabeça que pudessem estar a cometer um
delito. Não há ninguém que não tenha um parente, uma avó, uma bisavó ou uma
tia longínqua que não saiba do que falamos». O papel que os homens representam em relação ao aborto reduz‑se
a um plano secundário no filme. «Parecia‑me interessante explorar o
papel que os homens representam em relação ao aborto. Decidi introduzir no
filme uma violação, como exemplificação da pior manifestação do papel
masculino, mas em contraste aparecem personagens masculinos compreensivos.
Nada disso diminui o facto de que, historicamente, nas nossas sociedades o
aborto foi uma questão de mulheres». Leigh tinha sete anos em 1950 e não oculta que deitou mão a algumas
das suas recordações de infância. «Eu cresci num mundo muito parecido ao que o
filme retracta, o Manchester do pós guerra, cinzento, monocromático e muito
funcional. Recordo pessoas similares às da família de Vera Drake. Mas, para além
disso, o filme não é em absoluto nada autobiográfico». O realizador confessa que num primeiro momento considerou a
possibilidade de introduzir no filme o ponto de vista da Igreja sobre o
aborto, dado que esta instituição é uma das mais influentes em termos morais.
«Mas finalmente pensei que era irrelevante no discorrer da história central»,
indica Leigh. «Para mim este é um filme que trata de assuntos humanos e esses assuntos
só podem tratar-se de um ponto de vista humano, não divino. A opinião da
Igreja já a conhecemos todos: estão contra o aborto e para promover o tipo de
debate moral que eu queria promover com este filme não precisava dela». O que ninguém imagina é o que ocorreria se alguém tão independente e ideologicamente militante como Mike Leigh fosse abordasse por algum dos grandes estúdios de Hollywood... «Isso é algo que já ocorreu», assegura soltando uma risada ácida. «Quando Segredos e mentiras ganhou a Palma de Ouro em Cannes, um dos principais estúdios de Hollywood contactou‑me oferecendo-me uma enorme quantidade de dinheiro em troca dos direitos do filme porque queriam fazer uma versão do mesmo com Whitney Houston como protagonista. Disse-lhes que fossem à merda». Esse é Mike Leigh. |