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Mundo

01/05/2007

 

Banco Mundial: a hora de fechar loja

 

Éric Toussaint, Damien Millet

CADTM

 

O Banco Mundial atravessa o pior período da sua história. Debilitado como nunca, rejeitado por um crescente número de movimentos sociais, descredibilizado pelo nepotismo comprovado do seu presidente Paul Wolfowitz, sofre, ao mesmo tempo, os assaltos de vários governos da América Latina que organizam actualmente a construção de um Banco do Sul de opções radicalmente diferentes. E se o golpe de graça estivesse próximo?

 

É antes de mais devido ao fiasco da sua acção desde há 60 anos que o Banco Mundial está tão fortemente desestabilizado. Ele deve prestar contas sobre inúmeros pontos, dos quais eis uma lista não exaustiva:

 

– durante a guerra fria, o Banco Mundial utilizou a dívida com um fim geopolítico e sistematicamente sustentou os aliados do bloco ocidental, nomeadamente regimes ditatoriais (Pinochet no Chile, Mobutu no Zaire, Suharto na Indonésia, Videla na Argentina, o regime do Apartheid na África do Sul, etc.) que violaram os direitos humanos e desviaram somas consideráveis, e continua a apoiar regimes com a mesma natureza (Déby no Chade, Sassou Nguesso no Congo, Biya nos Camarões, Musharraf no Paquistão, etc.);

 

– na viragem dos anos 1960, o Banco Mundial transferiu para vários países africanos recém independentes (Mauritânia, Gabão, Argélia, Congo-Kinshasa, Nigéria, Quénia, Zâmbia, etc.) as dívidas contraídas pela sua antiga metrópole para os colonizar, em total contradição com o direito internacional;

 

– uma muito grande quantidade dos empréstimos concedidos pelo Banco Mundial serviu para conduzir políticas que provocaram danos sociais e ambientais consideráveis (grandes barragens frequentemente ineficazes, indústrias extractivas como minas a céu aberto e oleodutos, agricultura de exportação e abandono da soberania alimentar, etc.), com o objectivo de facilitar o acesso a menor custo às riquezas naturais do Sul;

 

– após a crise da dívida de 1982, o Banco Mundial apoiou as políticas de ajustamento estrutural promovidas pelas grandes potências e pelo FMI, que conduziram a uma redução drástica dos orçamentos sociais, à supressão das subvenções aos produtos básicos, a privatizações maciças, a uma fiscalidade que agrava as desigualdades, a uma liberalização impetuosa da economia e a uma aposta na concorrência desleal dos produtores locais com as grandes multinacionais, medidas que deterioraram gravemente as condições de vida das populações e vão no sentido de uma verdadeira colonização económica;

 

– o Banco Mundial conduziu uma política que reproduz pobreza e exclusão em vez de combatê­‑la, e os países que aplicaram à letra os seus pretendidos remédios afundaram­‑se na miséria; em África, o número de pessoas que devem sobreviver com menos de 1 dólar por dia duplicou desde 1981, mais de 200 milhões de pessoas sofrem da fome e, para 20 países africanos, a esperança de vida desceu abaixo da barra dos 45 anos;

 

– apesar dos anúncios tonitruantes, o problema da dívida dos países do terceiro mundo continua a ser inteiro, pois, longe de uma anulação total, o Banco Mundial satisfaz-se com desnatar a parte superior da dívida de alguns países dóceis sem tocar no mecanismo em si; em vez de representar o fim de uma dominação implacável, a redução da dívida é apenas uma cortina de fumo que, em contrapartida, dissimula reformas económicas draconianas, na linha recta do ajustamento estrutural.

 

Nestas condições, a situação tornou-se explosiva. Um acontecimento recente é um de molde a acender a mecha… O actual presidente do Banco Mundial, Paul Wolfowitz, reconheceu ter intervido pessoalmente a fim de obter um forte aumento de salário (+45%!) para a sua companheira. O Comité ad hoc do Banco Mundial acaba de sabê­‑lo no âmbito de um inquérito diligenciado por violação das regras internas.

 

As declarações multiplicaram-se para reclamar a sua demissão: a associação do pessoal e de antigos quadros do Banco Mundial; um dos dois directores executivos, o neozelandês Graeme Wheeler; altos responsáveis do Partido Democrata nos Estados Unidos como John Kerry; redes internacionais como o CADTM; o Parlamento Europeu, etc. Mas o governo dos Estados Unidos contínua a apoiá-lo custe o que custar e, ao agarrar-se ao seu lugar, Wolfowitz vincula o seu futuro ao do próprio Banco Mundial.

 

Um mês após estas divulgações, nenhuma solução foi encontrada. O passivo do Banco Mundial é demasiado pesado para que se possa aceitar o statu quo. Portanto, só uma saída se torna possível: a abolição do Banco Mundial e a sua substituição no âmbito de uma nova arquitectura institucional internacional. Um fundo mundial de desenvolvimento, no âmbito das Nações Unidas, poderia ser ligado a Bancos regionais de desenvolvimento do Sul, directamente dirigidos pelos governos do Sul, funcionando de maneira democrática na transparência.

 

O caminho está traçado e dois godos acabam de ser lançados ao mar neoliberal. A Venezuela anunciou no dia 30 de Abril passado que vai deixar o FMI e o Banco Mundial. Alguns dias antes, o Equador tinha decidido a expulsão do representante permanente do Banco Mundial, Eduardo Somensatto. Pois o presidente equatoriano, Rafael Correa, tem memória: em Julho de 2005, enquanto que era ministro da Economia, quis reformar a utilização dos recursos petrolíferos, dos quais uma parte, em vez de servir ao reembolso da dívida, devia servir para as despesas sociais, nomeadamente para as populações indígenas. Em represália, o Banco Mundial bloqueou um empréstimo de 100 milhões de dólares e as pressões de Washington forçaram Correa a demitir­­‑se. Ofendido, declarou que «ninguém tem o direito de punir um país se ele mudar as suas leis».

 

Rafael Correa foi eleito democraticamente para a presidência do Equador em Novembro de 2006 e acaba de ganhar amplamente o referendo para a convocação de uma assembleia constituinte. Ao expulsar o representante do Banco Mundial, quer reafirmar a dignidade e a soberania do Equador perante uma instituição que se permite violar sistematicamente os seus estatutos que lhe interditam qualquer interferência nos assuntos políticos internos de um Estado Membro.

 

Vários países latino-americanos (Argentina, Bolívia, Brasil, Equador, Paraguai, Venezuela) estão a lançar as bases de duas instituições fundamentalmente novas: um Fundo Monetário do Sul e um Banco do Sul. Diferentes peritos, entre os quais vários membros do CADTM, participaram nestas discussões que visam uma verdadeira modificação da relação de forças mundial, sobre os escombros do Banco Mundial…