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28/07/2006 «Exigir o pagamento da dívida externa é um crime» – Entrevista a Eric Toussaint – Como, e para o benefício de quem, funcionam as finanças globais?
Eric Toussaint, activista belga, historiador, cientista político, membro da
CADTM (Comité pela Anulação da Dívida do Terceiro Mundo), membro do conselho
científico da ATTAC francesa e membro do conselho internacional do Fórum
Social Mundial, defende, juntamente com Damien Millet, o perdão da dívida
externa dos países em desenvolvimento. No livro 50 Perguntas, 50 Respostas
sobre a Dívida. O FMI e o Banco Mundial (Boitempo, 2006), ele analisa os
mecanismos utilizados pelos países ricos para exercer um domínio, que se
constitui como «uma nova forma de colonização», praticada por intermédio das
dívidas dos países de terceiro mundo e da acção das instituições
multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BIRD). O livro e o seu pensamento foram o tema da entrevista que a IHU
On-Line realizou com ele, por telefone. Nela, ele também fala da conjuntura
nacional e latino-americana. IHU ON-LINE – Porque a dívida externa é definida como um grande
estelionato? ERIC TOUSSAINT – O montante pagável em termos de serviço da dívida
externa ou interna pública é calculado em uma quantidade muito maior do que a
dívida inicial. Através do pagamento, os países endividados transferem, a
preços muito altos, a dívida original. A segunda questão é que os países ou
os órgãos credores são, na sua maioria, bancos privados ou o que se chama de
investidores institucionais, que são os fundos de pensões ou sociedades
secretas de segurança pública. São esses credores privados os possessores do
dinheiro e os países endividados têm a dívida que é, na sua maioria, em
muitos aspectos, uma dívida odiosa, nula, por várias razões. O país que
contrai a dívida possui um regime do tipo despótico, militar. É o caso do
Brasil, onde houve o regime de ditadura militar entre 1964 e 1985. Em outros
países, as ditaduras militares prolongaram‑se até aos anos 1990, como
a Indonésia, onde a ditadura durou de 1965 a 1998, o Congo, de 1965 a 1995,
ou o regime do Apartaid, na África, dos anos 1940 até 1994. Grande parte da
dívida dos países ditadores em desenvolvimento é uma dívida na sua maioria
odiosa, e as novas dívidas que foram contratadas depois da queda das
ditaduras servem para pagar as antigas dívidas contraídas pela ditadura.
Então, continuar a exigir o pagamento da dívida externa, para mim, é de certa
forma um crime. Uma exigência que não tem base nem ética, nem moral, nem é
economicamente aceitável. Não há um resquício de fundamento moral da dívida externa? Se uma dívida tivesse sido contratada por um regime democrático, com
um projecto que tivesse verdadeiramente permitido ajudar o país, e em boas
condições económicas, com taxas de juros normais, por exemplo, poderíamos
dizer que tal dívida moralmente tem o compromisso da parte de um dos dois
lados para reembolsá-la. Mas, como respondi na pergunta anterior, a maioria
das dívidas actuais não responde a esses critérios, portanto é imoral exigir
o pagamento desse tipo de dívida, e também me parece imoral um governo do sul
continuar a pagar tal dívida odiosa. Quais são as principais mentiras ou distorções no que diz respeito à
dívida externa? A principal mentira refere‑se a algo que é absolutamente
fundamental, e que está, em parte, na origem do problema: os grandes órgãos
financeiros internacionais, sejam eles públicos, como o Fundo Monetário
Internacional, ou sejam eles privados, como os grandes bancos privados, assim
como os governos do norte, afirmam há décadas que os países em vias de
desenvolvimento precisam de ter dívidas se quiserem desenvolver‑se.
Explico-me: a teoria económica dominante nas universidades afirma que os
países em desenvolvimento encontram um obstáculo na sua via de
desenvolvimento, porque a sua conta poupança anterior é insuficiente. Então, diz‑se
que a poupança local é insuficiente. Falta capital no país. Logo, o país em
desenvolvimento, se quiser desenvolver-se, deve procurar capital no exterior,
endividando‑se, contratando empréstimos junto dos órgãos estrangeiros,
sejam eles privados ou públicos. A FUGA DO CAPITAL Diz-se também, e é a corrente actual, que os países em vias de
desenvolvimento devem atrair o capital estrangeiro. Para mim, isso é uma
grande mentira. Pois, na verdade, o problema dos países em desenvolvimento
não é uma insuficiência de poupança local. O problema dos países em
desenvolvimento é que os capitais que existem nesses países, em geral, deixam
o país. Há uma fuga de capital e, em segundo lugar, quando eles investem no
país, fazem‑no de uma maneira improdutiva. Eles investem, por exemplo,
em investimentos rentáveis, principalmente nos empréstimos. Se olharmos hoje,
no Brasil, há muitos capitais, mas eles são emprestados pelos bancos
brasileiros privados ou por instituições públicas no contexto da dívida
pública e do endividamento público dos poderes públicos, o que serve para
pagar a dívida pública. O SUL EM CÍRCULO VICIOSO Quero dizer que há um círculo vicioso. Os capitais do sul não são
utilizados no investimento produtivo. Eles são, na maioria das vezes,
emprestados para o pagamento da dívida pública. Aí é que está o problema. É
que nos países do sul há uma má utilização da poupança interna e dos
capitais. Principalmente pelas classes ricas, a classe que dispõe de capital
e que não o utiliza suficientemente para um investimento produtivo. E há uma
má utilização de capitais pelo poder público, que não investe suficientemente
na criação de empregos, nas despesas sociais para aumentar a qualidade de
vida, nas despesas de infra‑estrutura para aumentar o potencial económico
do país. O poder público dos países do sul, e principalmente o poder público
do Brasil, destina mais da metade do orçamento do Estado ao pagamento da
dívida pública interna e externa. Então, o problema, em resumo, dos países do
sul, não é uma insuficiência de capitais, mas a sua má utilização no quadro
do sistema capitalista globalizado e da hierarquia que existe na economia
mundial. Na sua opinião, o que é verdadeiramente a dívida externa? A dívida externa é um mecanismo de transferência de riquezas
produzidas pelos assalariados e pelos pequenos e médios produtores dos países
em desenvolvimento. É um mecanismo de transferência dessa riqueza, que é
produzida pelo trabalhador, para os credores e os financiadores que são as
classes mais ricas da sociedade, sejam as classes ricas dos países do sul ou dos
países do norte. Então, o mecanismo da dívida é um mecanismo de transferência
de riquezas dos pobres aos ricos, dos pobres que trabalham para os ricos que
dispõem de capitais. E, em segundo lugar, a dívida é um instrumento político,
de dominação política. No momento em que um país está endividado, os seus
credores, que são em parte organizações multilaterais, como o Banco Mundial
de Acções Monetárias Internacionais, ou um clube multilateral, que é o Clube
de Paris, um órgão informal que agrupou os 19 governos dos países mais ricos,
exercem uma chantagem sobre os países endividados. Fazem pressão política
sobre os países endividados para ditar‑lhes políticas que correspondem
aos interesses das empresas privadas e às grandes estratégias dos países mais
ricos. A dívida é transformada num mecanismo de domínio político. Em resumo,
a dívida economicamente falando, em primeiro lugar, é um mecanismo de
transferência de riquezas e, em segundo lugar, um mecanismo e um instrumento
político de dominação. O Presidente Lula priorizou no seu mandato o pagamento da dívida
externa. O que o senhor diz ao presidente e aos brasileiros sobre essa
decisão? Penso que é um erro fundamental. Acredito que o presidente Lula
esqueceu de forma voluntária o que ele mesmo dizia, há uma década. Ele próprio
afirmava que uma grande parte da dívida pública do Brasil era a dívida
inapropriada, pelos argumentos que citei no início desta entrevista. Esses
argumentos eram expressos por Luís Inácio Lula da Silva quando ele era
dirigente do Partido dos Trabalhadores. Aliás, tive a oportunidade de
entrevistá-lo em 1990, 1991, 1992 e 1993. Encontrei-o várias vezes quando ele
era presidente do PT. Quando Lula se tornou presidente do Brasil, esqueceu
voluntariamente o que ele próprio afirmava. Fernando Henrique Cardoso, quando se tornou presidente do Brasil,
esqueceu também o que escreveu nos seus livros quando era um dos teóricos da
independência. Lula teve o mesmo problema de amnésia voluntária. Penso na
decisão de pagar a dívida e ainda de pagá‑la de uma forma antecipada
em décadas, como o Brasil fez no início deste ano, pagando 15 mil milhões de
dólares ao Fundo Monetário Internacional. É uma grave decisão, pois, fazendo
isso, o Brasil gasta recursos orçamentários absolutamente enormes e estes
recursos deveriam antes servir verdadeiramente ao desenvolvimento do Brasil,
à aplicação de políticas de reformas estruturais, à aplicação de políticas
visando uma melhoria verdadeira das condições de vida da população. O BOLSA FAMÍLIA Penso que é totalmente insuficiente conduzir uma política, por
exemplo, assistencialista, como o Bolsa Família. Não digo que se deva
suprimir esse programa. Digo que o Bolsa Família é totalmente insuficiente.
Ele pode ser uma política de curto prazo para melhorar o poder de compra dos
mais pobres do Brasil. Mas não é de forma alguma uma política de médio ou
longo prazo. As políticas de médio e longo prazo devem consistir em reforços
estruturais. É preciso aplicar um outro modelo económico e social no País. O
problema do Brasil é que ele reembolsou antecipadamente essa dívida ao Fundo
Monetário Internacional, enquanto ele não deveria mais aplicar a mesma
disciplina económica e financeira que era imposta pelo FMI. O Brasil, que não
é obrigado a fazer isso, por um acordo com o FMI, continua a aplicar o mesmo
tipo de política, que corresponde perfeitamente ao Consenso de Washington,
que consiste em manter a taxa de juros muito elevada, manter uma liberdade de
circulação de capitais total. Logo, ele está a suprimir todo o controle sobre
a movimentação de capitais, favorecendo a abertura comercial total,
favorecendo os investidores, gastando muito pouco em educação e saúde
pública, desenvolvendo muito pouco o sector público a nível industrial e económico,
em geral. São políticas perfeitamente conformes ao Consenso de Washington,
com os interesses das grandes empresas multinacionais e do grande capital
brasileiro, como o sector de agro‑exportação, que quer uma política
agressiva de exportação de produtos agrícolas que nem mesmo são
transformados, como a soja que o Brasil exporta no mercado mundial. O senhor acha que é coerente a função do programa Bolsa Família e o
facto do presidente empregar, ao mesmo tempo, essa política submissa ao
Consenso de Washington? Sim. Tudo é coerente. O Consenso de Washington prevê o que se chama uma
política direccionada para os mais pobres. É uma política que existe também
nos países neoliberais como os EUA e a Grã‑Bretanha. Pode-se combinar
uma política bastante favorável aos grandes capitais e, ao mesmo tempo, em
relação aos sectores da população que estão na indigência, fazer alguns
programas sociais. Fazer programas sociais assistencialistas não é, em
absoluto, romper com o modelo neoliberal. Romper com este modelo é tentar
terminar com a pobreza e não reduzi‑la. Um modelo económico que tenta
romper com o modelo neoliberal não consiste em um programa assistencialista
direccionado aos pobres, mas em um programa de ruptura integrado, em garantir
o direito dos pobres e em fazer com que os pobres não sejam mais pobres.
Principalmente criando empregos. Isso exige reforçar o sector público e ter
uma política ofensiva de criação de emprego. Não digo que é preciso suprimir
o sector privado, digo que é preciso reforçar o sector público. E que é
preciso reforçar o sector privado dos pequenos e médios produtores, das
cooperativas no sector agrícola, na produção urbana, lutando para transformar
o sector informal em sector formal, funcionando com normas salariais, com
contratos de trabalho legais. O que implica, principalmente, favorecer um
regime de artesãos, de trabalhadores independentes, cooperativas, etc. Então,
um modelo alternativo é um modelo que favorece fortemente o emprego no sector
público e no sector dos pequenos produtores urbanos e rurais, em diferentes
formas de trabalho e de empresas. Isso poderia fornecer milhões de empregos
decentes para os brasileiros e isso permitiria combater radicalmente a
pobreza. O que o senhor pensa dos governos actuais na América latina? O
senhor acha que há casos de presidentes populistas? Depende do que chamamos de populismo. Se o populismo consiste em
fazer o assistencialismo para ser eleito, para ter uma clientela que vai
reeleger o presidente, Lula é populista. Se (é seguidamente a direita quem
diz isso), ser populista é tentar redistribuir a riqueza dos ricos para os
pobres, então penso que o termo populista, neste caso, não é um termo pejorativo.
A direita considera negativo redistribuir a riqueza, favorecendo os pobres,
mas, para mim, isso não é nem um pouco pejorativo. Se ser populista é tentar
redistribuir a riqueza em favor dos pobres, então desejo que haja muitos
populistas. Se você me perguntar se há governos na América Latina, hoje, que
tentam fazer transformações sociais e económicas, que vão além da política do
governo Lula, diria que, de maneira nuançada, o governo do presidente Evo
Morales, na Bolívia, e o governo do presidente Hugo Chávez, na Venezuela,
tentam ir além do que Lula faz. Penso que há uma tentativa de realizar,
nestes países, transformações estruturais. Penso, principalmente, que pela
decisão tomada por Evo Morales de retomar o controle sobre os recursos
naturais da Bolívia, principalmente sobre o gás, e de impor às sociedades
estrangeiras, como a Petrobrás, renegociações de contratos de maneira que
estas empresas estrangeiras redistribuam, de forma que a população boliviana
tenha uma parte importante dos benefícios. Parece-me uma medida muito
positiva. Não se trata ainda de grandes mudanças estruturais, mas vai ao
menos mais longe do que Lula, e vai em boa direcção. É por isso que sou tão
crítico em relação a Lula. Apoio com espírito céptico Evo Morales e Hugo
Chávez, pois penso que eles tentam, em todo o caso, ir mais longe. Na sua opinião, qual seria o argumento que os países emergentes
poderiam utilizar para renegociar a dívida externa com os países credores do
norte? O senhor acha que este é o bom momento para fazer isso? Sim, penso que a conjuntura actual é muito favorável, pois todos os
países em desenvolvimento, ou quase todos, são bastante condicionados. A
maioria dos países da América Latina, da Ásia e alguns da África estão em
condições financeiras, monetárias, económicas, de conjuntura favorável. O
nível das suas reservas, em divisas fortes, aumentou sensivelmente nos três
últimos anos, graças a uma situação internacional na qual o preço da
matéria-prima aumentou (e os países do sul são exportadores de
matéria-prima), bem como os seus rendimentos em divisas fortes, como o dólar,
o euro, o yen japonês, a libra esterlina. Os pagamentos em divisas
aumentaram. Então, essas são excelentes condições para fazer um fundo de
países endividados e exigir uma renegociação completa com vista a obter a
redução da dívida. É uma situação favorável, porque se os países do norte
podem cessar as represálias, os países do sul têm reservas em moedas
estrangeiras que lhes permitem controlarem, importar os produtos dos quais
eles têm necessidade para o seu funcionamento econômico. O mais difícil para impor‑se
numa renegociação económica, quando se é um país endividado, é quando se tem
pouco dinheiro no cofre, quando se tem pouco dinheiro em reserva. AGORA É O MOMENTO Temo, infelizmente, que os governos do sul não utilizem a conjuntura
actual favorável. Temo que a conjuntura mude progressivamente nos próximos
anos. E isso pode ser bem rápido, pois o preço da matéria‑prima corre
o risco de baixar fortemente. O preço das matérias‑primas está
elevado. O que conduz normalmente a um grande investimento nesse sector.
Então, aumenta-se fortemente a oferta de matéria‑prima no mercado
mundial. Isso vai provocar a queda no seu preço. Não falo do petróleo, que é
um caso diferente. Mas no sector de minerais há uma grande produção actual e
o preço corre o risco de cair. Em segundo lugar, os EUA e a Europa, e até
mesmo o Japão actualmente tentam aumentar muito a taxa de comissão nos seus
países. A comissão era bastante baixa nos países do norte, muito mais baixa
que no Brasil, por exemplo. E os países do norte aumentam a taxa de comissão
para atrair os capitais que se encontram nos países do sul. Principalmente
nas bolsas do sul, como a Bovespa, ou a bolsa de valores na Índia, na Tailândia,
no México. Então, o que está a acontecer e que se vai reforçar nos próximos
meses e anos é que há novamente uma fuga de capitais, do sul em direcção ao
norte. E, talvez, a mais ou menos curto prazo, haverá uma queda do preço da
matéria-prima. Isso vai tornar a situação dos países em desenvolvimento muito
mais difícil. Isso vai certamente forçar os governos a repensar a negociação
da dívida em condições muito mais desfavoráveis do que hoje. Na sua opinião, quais são os países que administram bem a questão do
pagamento da dívida externa? Infelizmente penso que nenhum governo hoje administra correctamente
a questão da dívida. A maioria dos governos, e é o caso mesmo do governo de
Hugo Chávez, continua a pagar regularmente a dívida pública enquanto que uma
boa política consistiria em organizar, enquanto governo, uma auditoria da
dívida pública externa e interna. Seria também necessário inspirar-se no
governo do presidente Rodriguez Saá, na Argentina, em Dezembro de 2001, e depois
no presidente Kirchner, que durante 3 anos pararam de pagar a dívida externa
pública aos credores privados. Isso durou todo o ano de 2002, 2003 e 2004.
Eles negociaram com os credores privados e obtiveram uma redução da dívida
externa, da ordem de 60%. Isso demonstra que é possível, por atitude firme, o
não pagamento da dívida. É possível obter‑se uma redução desta. Mas
penso que a Argentina deveria ter ido mais longe e teria obtido uma maior
redução. Mas, pelo menos, a Argentina demonstra que com certa firmeza
podem-se obter resultados interessantes. O que pode acontecer no caso dos países em desenvolvimento não
aproveitarem a conjuntura actual para renegociar o pagamento da dívida? Vão continuar a fazer depósitos extremamente grandes para pagarem a
dívida externa e, para poderem fazer esses pagamentos, vão aumentar ainda
mais as suas dívidas. Pois é preciso saber que, para pagar, os países
contratam novas dívidas. Então, Lula anunciou que estava a pagar
antecipadamente ao FMI 15 mil milhões de dólares. Mas, para poder fazer isso,
o Brasil fez duas coisas: desfez-se das suas reservas e contraiu novas
dívidas junto a organismos privados. Para reembolsar o FMI, que é um órgão
público, ele contraiu novas dívidas junto a órgãos privados. Então como esses
países actualmente não fazem auditoria e não constituem um grupo de países
endividados, para não pagarem? Como esses países continuam a pagar, aumentam as
suas dívidas externas e internas? O Brasil aumenta muito a dívida interna. E
isso produz um círculo vicioso como falei antes. Acredito que isso vai
terminar provocando protestos populares importantes. Como, talvez, o que
vimos em Dezembro de 2001 na Argentina, quando o povo se manifestou contra o
presidente De La Rua. Talvez isso aconteça em caso de degradação da situação económica
internacional. Talvez isso vá provocar grandes mobilizações populares e aí os
governos estarão com a mesma pressão de De La Rua, obrigados a mudar de
política. Qual país representa actualmente a liderança na América Latina? Do ponto de vista das iniciativas latino-americanas mais
importantes, incontestavelmente é a Venezuela. Enquanto que teria sido
perfeitamente normal que fosse Lula, que foi eleito em Outubro de 2002 com
excelente resultado eleitoral. Teria sido legítimo que o Brasil do presidente
Lula, a partir de 2003, desempenhasse um papel de completa liderança,
reforçando iniciativas para o conjunto da América Latina. Ora, constatamos
que Lula, mesmo quando faz propostas internacionais, são propostas que se
parecem muito com as propostas feitas por presidentes de direita como Jacques
Chirac, na França, ou do primeiro‑ministro social‑democrata da
Espanha, Zapatero, ou ainda de Tony Blair, na Grã-Bretanha. E no plano
latino-americano, Lula não tem nenhuma iniciativa. É Chávez quem tem
iniciativa, propondo um banco do sul, uma universidade do sul, uma moeda do
sul. Propondo ao Brasil adoptar grandes projectos de comunicação e de
infra-estrutura. E Lula, em certos casos, aceita as propostas de Hugo Chávez
tentando moderá‑lo. Quando Chávez consegue tomar iniciativas, é
seguido por Evo Morales, pois a Bolívia é um pequeno país e não tem o tamanho
e o peso económico da Argentina. Então, as muito boas propostas de Chávez e
Morales são atenuadas no momento em que negoceiam com os seus colegas Lula,
Kirchner e Tabaré Vasquez. Foi o caso principalmente das discussões que
ocorreram no Fórum do Mercosul, há algumas semanas, em Córdoba. Chegou-se a
compromissos, mas as questões novas que foram abordadas sob o impulso de
Chávez foram muito moderadas. Principalmente sobre a criação de um banco do
sul. O que é um sinal positivo, mas insuficiente. Seria necessário, antes de
manter o Mercosul no seu quadro actual, reformar profundamente o Mercosul e
fazer um projecto continental e não somente um projecto económico que estaria
no contexto neoliberal. Seria necessário um projecto que visasse uma
transformação social. Qual é a definição da política económica do governo Lula e quais
seriam as consequências dessa política para o país? A definição é muito simples. É um modelo de desenvolvimento económico
neoliberal, submetido ao domínio do mercado mundial. O Brasil é algumas vezes
economicamente ofensivo no sector da agro‑exportação, mas num contexto
totalmente neoliberal. Ou seja, o Brasil apoia grandes empresas brasileiras
exportadoras, principalmente de soja, que é, aliás, uma soja transgénica.
Nesse caso, Lula é ofensivo, pois exige da parte dos EUA e da União Europeia
que abram os seus mercados. Então, é um modelo neoliberal de trocas livres
que é aplicado por Lula. E essa política, se houver uma degradação da
situação de políticas económicas nos próximos anos com, principalmente, uma
fuga de capitais do sul em direcção ao norte, um aumento das comissões no
plano internacional e uma queda nos preços das matérias-primas, isso vai causar
no Brasil uma degradação da sua situação no mercado mundial e uma estagnação económica.
E talvez, infelizmente, uma degradação das condições de vida da população.
Corremos o risco de constatar em 2 ou 3 anos um aumento bastante importante
do endividamento público interno e externo e da obrigação do Brasil em
receber grandes cortes no seu orçamento público para continuar a pagar uma
dívida que, no entanto, já foi paga diversas vezes. Como a mobilização pela anulação da dívida externa é vista nos
países ricos? Nos países do norte há importantes comissões que se estabeleceram. O grupo de sindicatos e das organizações não governamentais, movimentos religiosos progressistas, organizações cidadãs, conduzem campanhas junto à opinião pública, junto aos parlamentares para pedir a anulação da dívida dos países do sul, para pedir uma reforma radical ou a abolição das instituições internacionais que são o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e o Clube de Paris. Obtivemos um eco importante na opinião pública. Isso constata‑se em sondagens, observa‑se quando colectamos assinaturas em petições. Por exemplo, há alguns anos, colectamos até 24 milhões de assinaturas à escala mundial, das quais 10 milhões que foram colectadas em países do norte, pela anulação da dívida dos países pobres. Temos também uma acção junto a parlamentares. Temos grupos de parlamentares de diferentes partidos progressistas que apresentam projectos de lei que exigem que se faça a auditoria da dívida dos países do sul. Obtivemos resultados interessantes. |