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17/10/2005 Dívida: novos desafios – Intervenção na conferência internacional “Resistências e alternativas à dominação da dívida”, Havana 28-30 de Setembro de 2005 [1] – Eric Toussaint 1. MUDANÇAS OCORRIDAS ENTRE 1985 E 2005 NO QUE DIZ RESPEITO À DÍVIDA
DO TERCEIRO MUNDO 1.1. Em 1985, quando se reuniram em Cuba várias conferências sobre o
tema «a dívida não pode ser reembolsada» («a dívida é impagável»), a crise da
dívida, que tinha explodido em 1982, tinha afectado principalmente a América
Latina e as Caraíbas [2]. A iniciativa tomada pelo governo de Cuba referia-se
em primeiro lugar ao hemisfério ocidental. Durante os doze anos que se seguiram, todos os países em
desenvolvimento (excepto a China) e o conjunto do ex‑bloco soviético
foram atingidos pela crise da dívida. As políticas neoliberais de ajustamento
estrutural foram aplicadas progressivamente em mais de 160 países. Os países mais industrializados não escaparam à crise da dívida
pública e todos os governos aplicam hoje políticas neoliberais que se
assemelham fortemente às impostas nos países do Sul. As políticas governamentais aplicadas no conjunto do planeta, com
algumas raras excepções, rimam com privatizações, aumento dos impostos pagos
pelo povo enquanto que os pagos pelos detentores de capitais diminuem,
mercantilização de todas as relações sociais e de todos os bens comuns,
aumento das desigualdades sociais, aumento da precariedade, ataque contra os
sistemas de segurança social baseados na solidariedade, desrespeito pelos
equilíbrios ecológicos, produtivismo desenfreado, livre circulação dos
capitais, das mercadorias e dos serviços mas graves restrições à circulação
das pessoas (salvo os capitalistas de todas as nacionalidades), corrida ao
armamento, recurso crescente à força e à agressão por parte das potências dos
países mais industrializados... 1.2. Para além das semelhanças entre as políticas neoliberais que
são aplicáveis ao Sul e ao Norte, há contudo uma diferença significativa. A
crise da dívida dos países do Sul é principalmente uma crise da dívida
externa e esta é utilizada como um instrumento para reforçar a dominação que
sobre eles exercem os países mais ricos, que podem contar com a docilidade,
ou mesmo a cumplicidade, da maior parte dos governos do Sul. A crise da
dívida dos países do Norte é sobretudo uma crise da dívida pública interna. É
utilizada pelos capitalistas do Norte para reforçar a utilização do Estado
para seu benefício. A parte que retorna aos capitalistas no rendimento
nacional dos países do Norte aumentou fortemente desde os anos 1980 às
expensas da parte que retorna aos trabalhadores. Há por conseguinte ao mesmo
tempo semelhanças e diferenças na crise da dívida pública nos países do Norte
e do Sul. 1.3. Entre as evoluções que marcaram os últimos 20 anos em matéria
de dívida, é necessário notar o aumento da dívida pública interna na maior
parte dos países do Sul. É particularmente notória na América Latina e na
Ásia. A explosão da dívida pública interna deve pôr-se em relação com o
cocktail formado pela crise da dívida pública externa, pelas crises
financeiras repetidas dos anos 1990 e pela aplicação dos remédios de choque impostos
pelo Banco Mundial e pelo FMI. Sistematicamente, uma grande parte das dívidas
dos bancos e das empresas privadas foi tomada a cargo pelos poderes públicos.
As dívidas privadas tornaram-se públicas graças à alquimia neoliberal. Isso
atinge todos os continentes. Entre os casos mais famosos: o México entre 1995
e 1998 e a Indonésia em 1998-1999. Na medida em que uma parte importante dos bancos dos países do Sul
foi comprada por grandes grupos bancários do Norte, a dívida pública interna
é detida em parte pelos mesmos credores da dívida pública externa. Desde há
três anos, o Banco Mundial recomenda cordialmente aos poderes públicos do Sul
de completar a dívida externa pela dívida interna [3]. De notar que uma parte
da dívida interna está indexada a uma das moedas fortes (dólar, iene ou
euro), o que a aproxima igualmente da dívida externa. 1.4. Desde há 20 anos, a dívida do Terceiro Mundo funcionou ao mesmo
tempo como um potente instrumento de subordinação dos países do Sul aos
países do Norte e como um mecanismo permanente de transferência de riqueza
dos produtores do Sul para os capitalistas do Norte, o Banco Mundial, o FMI,
o Clube de Paris, os governantes e capitalistas do Sul, que de passagem tiram
a sua comissão. Este último mecanismo de bombagem de recursos veio completar
e reforçar outros mecanismos já em funcionamento: a troca desigual, a fuga
dos cérebros, a pilhagem dos recursos naturais... 2. REGRESSO AOS ANOS 1980 2.1. A iniciativa pioneira tomada por Cuba em 1985 encontrou um eco
fora das fronteiras da América Latina. Na África subsaariana, o jovem
presidente de Burkina Faso, Thomas Sankara, dirigiu-se nestes termos a todos
os chefes de Estado africanos presentes na 25ª conferência da OUA
(Organização da Unidade Africana) a 29 de Julho de 1987 em Addis Abeba [4]: «A dívida é ainda o neocolonialismo ou os colonialistas que se
transformaram em “assistentes técnicos”. Com efeito, deveríamos dizer em
assassinos técnicos. E foram eles que nos propuseram fontes de financiamento,
“mutuantes de fundos”. (...) Estes mutuantes de fundos foram-nos
aconselhados, recomendados. Apresentaram-nos dossiês e montagens financeiras
tentadoras. Endividamo-nos por cinquenta anos, sessenta anos e mesmo mais.
Quer dizer que nos levaram a comprometer os nossos povos durante cinquenta
anos e mais. A dívida, sob a sua forma actual, é uma reconquista sabiamente
organizada de África, para que o seu crescimento e o seu desenvolvimento
obedeçam a normas que nos são totalmente estrangeiras. Fazendo de modo que
cada um de nós se torne o escravo financeiro, ou seja, o escravo
simplesmente, daqueles que tiveram a oportunidade, a astúcia, a velhacaria de
colocar fundos nos nossos países com a obrigação de reembolsar (...) Quem, aqui, não deseja que a dívida seja pura e simplesmente
apagada? Aquele não o deseja pode sair, tomar o seu avião e ir imediatamente
ao Banco Mundial pagar. Não quereria que se tomasse a proposta do Burkina
Faso como a que viria da maior parte dos jovens sem maturidade, sem
experiência. Também não quereria que se pensasse que há apenas
revolucionários a falar desta maneira. Gostaria que se admitisse que é
simplesmente a objectividade e a obrigação. Posso citar, nos exemplos dos que disseram para não pagar a dívida,
revolucionários assim como não‑revolucionários, jovens como velhos.
Citarei por exemplo: Fidel Castro. Ele já disse para não pagar. Ele não tem a
minha idade, mesmo se é revolucionário». Três meses mais tarde, o impetuoso Thomas Sankara era assassinado.
Desde então, o seu país tornou-se um aluno dócil do Banco Mundial, do FMI e
do Clube de Paris sob a condução de Blaise Compaoré. 2.2. Na América Latina, a década dos anos 1980 vê o fim dos vários
regimes ditatoriais que tinham sido instaurados durante os anos 1960 (Brasil)
e 1970 (Chile, Argentina, Uruguai...). Estes regimes tinham tentado destruir
o movimento popular a fim de instaurar um modelo neoliberal subordinado aos
países mais ricos. Aquando do regresso destes países a regimes civis, os
governantes decidiram assumir as dívidas odiosas contraídas pelas ditaduras.
O objectivo visado pela ditadura militar em termos de submissão aos
interesses das potências do Norte e dos capitalistas locais concretizou‑se
então graças à ditadura dos credores. 2.3. Entre 1980 e 2004, a América Latina e as Caraíbas reembolsaram
aos credores a soma de 2.109 mil milhões de dólares, que equivale a quase 9
vezes o montante que se devia [5]. Por 1 USD devido em 1980, a América Latina
reembolsou quase 9, mas hoje deve mais de 3. Se tomarmos em consideração o conjunto dos 165 países em
desenvolvimento (incluído o ex-bloco soviético), o total dos reembolsos
efectuados entre 1980 e 2004 atinge a soma de 5.300 mil milhões de dólares, o
que representa quase 10 vezes a soma devida [6]. Por 1 USD devidos em 1980,
os PED reembolsaram quase 10, mas hoje devem quase 5. 2.4. Ao nível dos protestos populares contra as políticas do FMI e
do Banco Mundial, eles começaram a tomar um carácter massivo e por vezes
violento a partir de Abril de 1984 quando o povo dominicano se levantou e foi
reprimido duramente. Motins estoiraram de maneira repetida nos quatro cantos
do planeta. O levantamento de Fevereiro de 1989 em Caracas foi esmagado ao
preço de vários milhares de mortes. Certas explosões provocaram a queda dos
governos. Do Equador à Indonésia, passando pela Bolívia e pela Argentina, os
povos deram caça aos presidentes que aplicaram políticas neoliberais. 3. O EXEMPLO DA ARGENTINA A Argentina demonstrou que um país podia suspender de maneira
prolongada o pagamento da dívida. Na noite de 19 para 20 de Dezembro de 2001,
o povo argentino levantou-se contra a política anti-social do presidente De
la Rua e do seu sinistro ministro da Economia Domingo Cavallo. A Argentina,
solta pelo FMI, suspendeu o pagamento da sua dívida externa pública relativa
aos credores privados num montante de mais de 80 mil milhões de dólares. O FMI, o Banco Mundial, os governos dos países mais
industrializados, a grande imprensa internacional tinha anunciado que o caos
se instalaria se a Argentina suspendesse os pagamentos. Ora, o que se passou?
A Argentina, longe de se enterrar definitivamente na recessão, começou a
restabelecer-se com um crescimento sustentado a partir de 2003 e este
prosseguiu em 2004. O governo argentino propôs aos detentores privados da dívida
argentina que troquem os seus títulos por novos de menor valor. Após longas
negociações que se estenderam de 2002 até ao início de 2005, mais de 76% dos
credores privados aceitaram uma proposta de troca através da qual renunciam a
cerca de 50% do valor dos antigos títulos que detinham. A Argentina fez a demonstração de que é possível desafiar os
credores privados suspendendo por um período prolongado os pagamentos. Devemos por isso felicitar o governo argentino? Não o penso. Com
efeito, o governo fez mal em não romper os acordos com o FMI e o Banco
Mundial. O governo argentino quis manter estes e comprometeu-se a libertar um
excesso fiscal de maneira a garantir o reembolso da dívida às instituições de
Bretton Woods. O governo teria podido apoiar-se na sentença Olmos e decretar
que a dívida reclamada pelo FMI e pelo Banco Mundial era odiosa e,
consequentemente, nula. O FMI e o Banco Mundial estavam fortemente fragilizados em
2001-2002-2003 na sequência do seu malogro patente na Argentina, no Brasil,
na Rússia e no Sudeste da Ásia. O montante da dívida cujo pagamento
reclamavam era importante e uma falta de pagamento por parte da Argentina
tê-los-ia posto numa situação extremamente difícil. Eram o FMI e o Banco Mundial que tinham necessidade de um acordo com
a Argentina, não esta. No que diz respeito ao acordo final com os credores privados,
garante a alguns dentre eles um aumento da sua remuneração proporcional ao
crescimento económico do país. Porque é que os credores teriam direito a
beneficiar do crescimento enquanto que este é fruto dos esforços realizados
por aqueles e aquelas que produzem a riqueza de uma nação, numa palavra, o
povo? Os montantes que o governo argentino se comprometeu a reembolsar nos
próximos anos são de tão elevados que tornarão impossível pôr em prática uma
política alternativa ao modelo neoliberal. As demandas sociais, no porquanto
justas, não poderão ser satisfeitas. Dito isto, não deixa de ser menos verdadeiro que a Argentina
demonstrou que um país podia actualmente suspender o reembolso da dívida de
forma prolongada sem que os credores sejam capazes de organizar represálias
eficazes. Se os peronistas Rodriguez Saa, Duhalde e Kirchner, que se sucederam
na presidência da Argentina desde Dezembro de 2001, puderam, ainda que apenas
timidamente, opor-se aos credores privados durante três anos, como se
compreende que Lula, presidente do Brasil, tenha sido perfeitamente dócil e
não tenha posto em causa em nenhum momento o reembolso da dívida? Uma aliança
de vários países latino-americanos face aos credores teria alterado a
situação em benefício dos povos. Se a Argentina sozinha o fez, apesar dos limites assinalados acima,
é evidente que uma aliança latino‑americana contra os credores poderia
dar resultados muito positivos. 4. SITUAÇÃO INÉDITA EM 2004-2005 A combinação das baixas taxas de juro, dos prémios de risco em baixa
e dos preços das matérias primas em alta, produziu um muito forte aumento das
reservas de câmbio dos países em desenvolvimento (PED). Estas ascendiam no
final de 2004 a quase 1.600 mil milhões de dólares [7]. Uma soma nunca
atingida anteriormente. Uma soma superior ao total da dívida externa pública
do conjunto dos PED! O aumento da solvabilidade dos principais PED permitiu-lhes
endividar-se (mais de 200 mil milhões de dólares de novas dívidas de 2002 a
2004) emitindo títulos da dívida pública e privada nos mercados financeiros
do Norte. Se bem que certos PED se desendividem parcialmente no exterior
(Rússia, Venezuela, por exemplo), outros continuam a endividar‑se
fortemente (Brasil, México... aos quais se junta a Argentina após a conclusão
das negociações com os seus credores). Todos ou quase aumentam a sua dívida
pública interna. A conjuntura actual oferece um ocasião excepcional aos governos dos
PED para modificar substancialmente ou mesmo radicalmente a sua situação. É
possível realizar o desendividamento. A China com 600 mil milhões de dólares de câmbio poderia só ela, se
o seu governo autocrático o desejasse, alterar a situação internacional em
prol dos povos dos PED. Que dizer de uma unida China‑Rússia face aos
governos dos principais países industrializados? Estes dois países poderiam
alterar as cartas no plano mundial se tivessem um projecto comum alternativo.
Mais amplamente, os governos de um número importante de PED repartidos por
quatro continentes (Ásia, América Latina, África e Europa oriental - se
incluirmos a Rússia como fazem o FMI e o BM) detêm provisoriamente a chave da
mudança. São credores netos da principal potência mundial e dos bancos
privados do Norte tomados globalmente. Poderiam em princípio prescindir
totalmente do FMI reembolsando o que ainda lhe é devido. Poderiam criar um
fundo de apoio aos outros PED mais bem dotados que eles em divisas (a começar
pelos 50 países menos avançados – PMA) para lhes permitir desendividar‑se
muito rapidamente (o montante a reunir para desendividar os PMA é fraco). Nunca anteriormente, a situação foi tão favorável aos países
periféricos de um ponto de vista financeiro. E, no entanto, ninguém não fala
de uma mudança das regras do jogo. É que os governos da China, da Rússia e
dos principais PED (Índia, Brasil, Nigéria, Indonésia, México, África do
Sul...) não exprimem nenhuma intenção de alterar na prática a situação
mundial em benefício dos povos. E todavia, no plano político, se quisessem, os governos dos
principais PED, 50 anos após Bandung, poderiam constituir um potente
movimento capaz de impor reformas democráticas fundamentais de todo o sistema
multilateral. Poderiam adoptar uma política moderada – reembolsar de maneira
antecipada as dívidas com um importante abatimento – ou uma política radical
– repudiar a dívida e aplicar um conjunto de políticas rompendo com o
neoliberalismo. O contexto internacional é-lhes favorável porque a principal
potência mundial está atascada na guerra no Iraque, na ocupação do
Afeganistão; é confrontada com muito fortes resistências na América Latina
que desembocam em revezes agudos (Venezuela, Cuba, Equador...) ou num impasse
(Colômbia). Estou persuadido que isso não se materializará: nem o cenário
moderado, nem o cenário radical serão postos em prática a curto prazo. A
esmagadora maioria dos dirigentes actuais dos PED
está totalmente engodada pelo modelo neoliberal. Na maioria dos casos, estão
inteiramente ligados aos interesses das classes dominantes locais que não têm
nenhuma perspectiva de afastamento real (para não falar de ruptura) em
relação às políticas seguidas pelas grandes potências industriais. Os
capitalistas do Sul acantonam-se num comportamento de accionista e, quando
não é o caso, procuram no máximo ganhar partes de mercado. É o caso dos
capitalistas brasileiros, sul-coreanos, chineses, russos, sul-americanos,
indianos... que pedem aos seus governos que obtenham dos países mais
industrializados tal ou tal concessão no âmbito das negociações comerciais
bilaterais ou multilaterais. Além disso, a concorrência e os conflitos entre
governos dos PED, entre capitalistas do Sul, são reais e podem exacerbar‑se.
A agressividade comercial dos capitalistas da China, da Rússia, do Brasil em
relação aos seus concorrentes do Sul provoca divisões tenazes. Só a irrupção dos povos na cena histórica poderia alterar o curso
das coisas, mas não se vê ainda sinais sólidos que vão nesse sentido. 5. A CONJUNTURA EXCEPCIONAL ACTUAL DEMONSTRA O IMPASSE DO MODELO
NEOLIBERAL PARA OS POVOS DOS PAÍSES DO SUL De acordo com a teoria económica dominante, o desenvolvimento do Sul
está atrasado devido a uma insuficiência de capitais domésticos
(insuficiência da poupança local). Sempre de acordo com a teoria económica
dominante, os países que desejam empreender ou acelerar o seu desenvolvimento
devem recorrer aos capitais externos utilizando três vias: primeiramente,
endividar-se no exterior; em segundo lugar, atrair os investimentos
estrangeiros; em terceiro lugar, aumentar as exportações para obter as
divisas necessárias para a compra de bens estrangeiros que permitem
prosseguir o seu crescimento. Para aos países mais pobres, trata‑se
também de atrair donativos comportando-se como bons alunos dos países
desenvolvidos. A realidade contradita a teoria: são os países em desenvolvimento
que fornecem capitais aos países mais industrializados, à economia dos
Estados Unidos em especial. O Banco Mundial não diz outra coisa: «os países
em desenvolvimento considerados no conjunto são prestamistas netos em relação
aos países desenvolvidos» [8]. Não é verdade que os PED devem recorrer ao endividamento para
financiar o seu desenvolvimento. Hoje em dia, o recurso ao empréstimo serve
essencialmente para assegurar a continuação dos reembolsos. Apesar da
existência de importantes reservas de câmbio, os governos e as classes
dominantes locais do Sul não aumentam o investimento e as despesas sociais.
Uma excepção no mundo capitalista: o governo da Venezuela, que se opõe às
classes dominantes locais e ao imperialismo dos Estados Unidos e da União
Europeia. Cedo ou tarde, os povos libertar-se-ão da escravidão da dívida e da
opressão exercida pelas classes dominantes a Norte e a Sul. Obterão pela sua
luta a posta em prática de políticas que redistribuem as riquezas e que põem
termo ao modelo produtivista destruidor da natureza. Os poderes públicos serão
então obrigados a dar a prioridade absoluta à satisfação dos direitos humanos
fundamentais. 6. PROPOSTAS PARA O FUTURO Estamos de acordo para pedir a anulação da dívida externa pública do
conjunto dos PED? Estamos de acordo para rejeitar as condicionalidades impostas pelos
credores? Estamos de acordo em apoiar os PED que põem termo ao reembolso das
dívidas e que aumentam as despesas sociais? Estamos de acordo em apoiar os países que quebram os acordos com o
FMI e o Banco Mundial? Estamos de acordo para apoiar as auditorias da dívida, sejam elas realizadas
por iniciativa dos cidadãos ou das autoridades, ou dos dois? Estamos de acordo para exigir a reparação da dívida histórica e da
dívida ecológica do Norte para com o Sul? 7. NOVOS DESAFIOS Em 1985, um governo tomou a iniciativa pioneira de lançar uma
campanha para o não pagamento da dívida. Esta campanha dizia principalmente respeito
à América Latina e às Caraíbas. Em 1998-1999, o movimento Jubileu, no qual as
igrejas cristãs desempenhavam um papel demasiado importante, reuniu mais de
vinte milhões de assinaturas. Massivo, certamente, mas também demasiado
moderado na sua reivindicação de anulação da parte impagável da dívida dos
países mais pobres. Esta campanha dizia respeito quase exclusivamente às
comunidades cristãs. Seremos capazes em 2006-2007 de lançar uma potente campanha mundial
global em relação a um máximo de comunidades? Creio que é possível porque
largas convergências apareceram nestes últimos anos entre movimentos sociais
e campanhas que, até há pouco, experimentavam dificuldades em agir juntos. Esperemos estar à altura desafio. ________ [1] Este texto é uma versão retrabalhada e aumentada da intervenção de
Eric Toussaint aquando da sessão inaugural da conferência “Resistências e Alternativas
à dominação da dívida” que se realizou em Havana de 28 a 30 de Setembro e que
reuniu mais de 400 delegados que provenientes de uma meia centena países.
Esta conferência foi organizada pela coligação internacional Jubileu Sul, a
rede internacional CADTM, a secção cubana da Aliança Social Hemisférica, a
Aliança dos Povos do Sul Credores da Dívida Ecológica, Afrodad – Zimbabwe,
Kairos – Canadá, SLUG Noruega, o Observatório da Dívida na Globalização – ODG
– Barcelona, 50 anos, já chega – Estados Unidos –, Christian Aid – Grã-Bretanha
–, o programa Globalização e Justiça Económica do Conselho Mundial das
Igrejas, o programa sobre a dívida ilegítima da Federação Luterana Mundial,
Eurodad, Action Aid International – Grã-Bretanha –, a Coalizão Dívida e
Desenvolvimento – Irlanda –, Jubilee Debt Campaign – Grã-Bretanha. Esta
conferência seguiu‑se à conferência de Dakar de Dezembro de 2000
intitulada “Resistências às alternativas”, que tinha sido convocada pelo
CADTM, Jubileu Sul, o CNCD -11.11.11 – Bélgica – e o CONGAD – Senegal. [2] Para ser completo, tinha igualmente afectado a Europa central e do Leste (principalmente a Polónia, a Roménia e a Hungria) que faziam parte, à época, do bloco soviético. [3] Ver nomeadamente GDF 2005. [4] Ver texto completo reproduzido em Damien Millet, L’Afrique sans dette, CADTM-Syllepse, Liège‑Paris, 2005, p. 205. [5] Em 1980, a dívida externa da América Latina e das Caraíbas
ascendia a 243 mil milhões de dólares. No final de Dezembro de 2004, atingia
a soma de 773 mil milhões de dólares. [6] Em 1980, a dívida externa dos países em desenvolvimento ascendia
a 541 mil milhões de dólares. No final de Dezembro de 2004, atingia a soma de
2.600 mil milhões de dólares. [7] Fonte: World Bank, Global
Development Finance 2005, Washington DC, Abril 2005, p. 165. No final de 2004, os PED dispunham de cerca de
1.600 mil milhões de dólares sob a forma de reservas de câmbio (1.591 mil
milhões de dólares, ver p. 165), ou seja, mais que o total da sua dívida
pública externa (1.555 mil milhões de dólares, p. 161). A China, a Malásia, a
Tailândia, a Índia, a Coreia do Sul, têm reservas de câmbio superiores à sua
dívida pública externa. Os PED da Ásia tomados em conjunto têm reservas de
câmbio que representam mais do dobro da sua dívida pública externa (ou ainda
30% mais que o conjunto da sua dívida externa pública e privada – ver quadro
p. 161 e 165). As reservas da China por ela só representam 7 vezes a sua
dívida pública externa. Para a África do Norte e o Médio Oriente, as reservas de câmbio
ascendem a 141 mil milhões de dólares, enquanto que a dívida externa pública
ascende a 127 mil milhões de dólares. As reservas da Argélia ascendem a 41 mil
milhões de dólares contra uma dívida pública externa de 27 mil milhões de dólares. [8] «Developping
countries, in aggregate, were net lenders to developed countries.» (World
Bank, Global Development Finance 2003, p. 13). Na edição de 2005 do Global Development Finance,
p. 56, o Banco escreveu: «Os países em desenvolvimento são agora exportadores
de capitais para o resto do mundo.» («Developping countries
are now capital exporters to the rest of the world.» World Bank, GDF 2005,
p. 56). |