Informação Alternativa

Mundo

07/09/2005

 

Uma agenda dos povos contra o torpedeamento da ONU

 

Eric Toussaint, Damien Millet, Julie Castro *

CADTM

 

A Organização das Nações Unidas (ONU) e os grandes textos internacionais são ameaçados cada vez mais: desde há alguns anos, os Estados Unidos lançam uma verdadeira ofensiva contra esta instituição no seio da qual não têm passagem tão franca como noutros lugares. O último ataque à data é a tentativa de John Bolton, embaixador dos Estados Unidos na ONU, de limitar drasticamente o alcance da próxima cimeira das Nações Unidas, que se realizará de 14 a 16 de Setembro de 2005, cimeira dedicada à luta contra a pobreza e à reforma da ONU. John Bolton com efeito tornou público a 25 de Agosto um relatório no qual não pede menos de 750 alterações ao documento preparatório elaborado por Jean Ping, presidente da Assembleia geral da ONU.

 

Estas alterações procuram inscrever no mármore um retrocesso em vários pontos. Em primeiro lugar, qualquer referência aos muito modestos Objectivos do Milénio é excluída, mesmo quando os Estados Unidos os reconheceram oficialmente em 2000. Para além das críticas virulentas emitidas sobre estes objectivos (nomeadamente o seu alcance muito limitado, a ausência de questionamento sobre as vias a seguir para atingi­‑los e a legitimação que operam do modelo económico que levou à situação actual), o seu desaparecimento da agenda internacional oficializaria a desobrigação completa das grandes potências nestes temas.

 

Mas isto não é tudo: Bolton pede também a supressão pura e simples do objectivo de uma ajuda pública ao desenvolvimento até 0,7% do rendimento nacional bruto dos países mais industrializados com o horizonte 2015. Este compromisso tomado em 1970 hoje é posto em prática apenas por um punhado de países. Outros recuos de importância estão contidos no documento estado­‑unidense: a supressão de qualquer referência ao protocolo de Quioto e ao aquecimento climático, o deslegitimação do Tribunal Penal Internacional, a recusa de um papel acrescido da Assembleia Geral da ONU, a ausência de qualquer referência ao desarmamento nuclear... O tom está dado.

 

Esta diligência da administração Bush inscreve-se numa empresa de grande amplitude que visa proteger custe o que custar a influência dos Estados Unidos, as suas empresas e as grandes potências que as apoiam. A dívida é um exemplo impressionante. A cimeira do G8 de Gleaneagles em Julho passado tinha terminado com anúncios tonitruantes sobre a anulação da dívida dos países pobres. Limitada pelo número de países em causa (18 países apenas em 165), o número de instituições junto das quais a dívida é anulada (FMI, Banco Mundial e Banco Africano de Desenvolvimento), pelas somas visadas (40 mil milhões de dólares durante 30 anos, para uma dívida externa pública dos países em desenvolvimento de 1600 mil milhões de dólares), esta iniciativa – a qual o FMI e o Banco Mundial procuram depois reduzir ainda o alcance – permite com efeito, sob a cobertura da generosidade, a manutenção do status quo. A dívida continua assim a organizar a transferência de riquezas das populações do Sul para os seus ricos credores, com a cumplicidade dos governos do Sul. As condicionalidades económicas e financeiras que estão anexadas, além de operar uma nova forma de colonialismo, continuam a devastar as sociedades que a elas estão sujeitas.

 

Outros acontecimentos da actualidade permitem compreender a lógica subjacente à acção de George W. Bush, que toma um prazer malicioso a espezinhar as Nações Unidas: a invasão do Iraque, onde os Estados Unidos e os seus aliados se enredaram numa guerra da qual não se vê a saída, fez-se em violação flagrante da Carta da ONU. Na mesma linha, enquanto Bush recusa categoricamente qualquer tentativa para fazer adoptar textos internacionais encarregados de proteger o ambiente, a terrível catástrofe natural que acaba de golpear em cheio as populações pobres do Louisiana e do Mississipi põe em destaque o carácter destrutivo de uma política neoliberal que consagra milhares de milhões de dólares para uma guerra imperialista mas não presta nenhuma atenção ao domínio social e ecológico.

 

Numerosos movimentos sociais, entre os quais o CADTM, apelam ao retorno ao espírito da Declaração Universal dos Direito do Homem, redigida em 1948 sob a égide da ONU, que começa «Nós, os povos...». Para tal, os povos do mundo devem elaborar uma verdadeira agenda do milénio que tenha em conta o respeito dos seus direitos fundamentais, oposta àquela que os grandes financeiros conseguem a impor actualmente.

 

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* Julie Castro é tesoureira do CADTM França (Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo); Damien Millet é presidente do CADTM França, autor de  L’Afrique sans dette, CADTM/Syllepse, 2005; Eric Toussaint é presidente do CADTM Bélgica, autor de La Finance contre les peuples, CADTM/Syllepse, 2004.