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Mundo

08/06/2005

 

Utopia para quebrar a espiral infernal da dívida

 

Eric Toussaint

CADTM

 

Os anos 2001-2005 foram dominados no plano económico pelas políticas decididas em Washington e em Pequim. As autoridades de Washington combateram a crise nos Estados Unidos em 2000­‑2001 pondo em prática uma política de reactivação: baixa radical das taxas de juro (estas tornaram­‑se negativas em termos reais, o que permitiu às famílias nos Estados Unidos continuar a endividar-se para manter o seu consumo, e às empresas desendividar­‑se), reforma fiscal que favoreceu o consumo e a acumulação dos ricos, aumento brutal do défice do Estado para relançar a economia, invasão do Afeganistão e do Iraque para dinamizar o complexo militar­‑industrial.

 

A entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001 e a sua abertura aos investimentos estrangeiros reforçaram o seu papel de grande fábrica capitalista do mundo que explora uma mão de obra abundante subpagada, disciplinada e educada. A China não se envolveu no terreno da concorrência internacional abrindo todas as barreiras: a sua moeda é inconvertível e fixada a um dólar cujo valor baixa (o que aumenta a competitividade da China nos mercados estrangeiros), mantém o controlo sobre as entradas e saídas de capitais, continua a proteger o seu mercado interno, os investidores estrangeiros não podem tomar o controlo de qualquer sector (o sector bancário chinês continua a ser chinês e público).

 

A decisão das autoridades de Washington de fazer baixar as taxas de juro respondia a problemas de política interna. Esta decisão tem um efeito colateral no plano internacional: aligeirou o peso do reembolso da dívida dos países em desenvolvimento (PED) que têm acesso aos mercados financeiros (trata­‑se grosso modo de 25 PED entre os quais a China, a Rússia, o Brasil, o México, a Venezuela, os países do Sudeste asiático, a Coreia do Sul, a África do Sul...).

 

Enquanto os prémios de risco (o spread) pagos pelos PED para ter acesso aos capitais privados sob a forma de empréstimos eram excepcionalmente elevados de 1998 a 2000, começaram a reduzir­‑se a partir de 2001. Em 2004-2005, atingiram uma taxa historicamente baixa.

 

Diferentes factores que não analisarei aqui provocaram um forte aumento do preço do petróleo em 2003­‑2004. O crescimento sustentado da China teve o efeito de uma potente lufada de ar num mercado mundial sufocante: o preço da maior parte das matérias primas (minérios de ferro, de cobre, de níquel, de combustível...) e dos produtos semiacabados (aço) escalou fortemente em 2003, 2004 e 2005. A China conquistou importantes partes do mercado a nível mundial (estas passaram de 2,5% para 5,4% entre 2000 e 2004). As reservas de câmbio dos PED aumentaram fortemente (isso refere-se a 101 PED).

 

A combinação das baixas taxas de juro, dos prémios de risco em baixa e dos preços das matérias primas em alta, produziu um fortíssimo aumento das reservas de câmbio dos PED!

 

Estas ascendiam no fim de 2004 a 1.600 mil milhões de dólares [1]. Uma soma nunca atingida anteriormente. Uma soma superior ao total da dívida pública externa do conjunto dos PED!

 

O aumento da solvabilidade dos principais PED permitiu-lhes endividar-se (mais de 200 mil milhões de dólares de dívidas novas de 2002 a 2004) emitindo títulos da dívida pública e privada nos mercados financeiros do Norte.

 

Embora certos PED se desendividem parcialmente no exterior (Rússia, Venezuela, por exemplo), outros continuam a endividar­‑se fortemente (Brasil, México... aos quais se juntou a Argentina após a conclusão das negociações com os seus credores). Todos ou quase todos aumentaram a sua dívida pública interna.

 

A conjuntura actual oferece uma ocasião excepcional aos governos dos PED para modificar substancialmente ou mesmo radicalmente a sua situação. É possível realizar o desendividamento.

 

A China com 600 mil milhões de dólares de câmbio poderia só ela, se o seu governo autocrático o desejasse, modificar a situação internacional em prol dos povos dos PED. Que dizer de uma frente unida China­‑Rússia face aos governos dos principais países industrializados? Estes dois países poderiam mudar as cartas no plano mundial se tivessem um projecto comum alternativo. Mais amplamente, os governos de um número importante de PED repartidos por quatro continentes (Ásia, América Latina, África e Europa oriental – se incluirmos a Rússia como o fazem o FMI e o BM) detêm provisoriamente a chave da mudança. São credores netos da principal potência mundial e dos bancos privados do Norte considerados globalmente. Poderiam em princípio passar totalmente sem o FMI reembolsando o que ainda lhe é devido. Poderiam criar um fundo de apoio aos outros PED menos bem dotados do que eles em divisas (a começar pelos 50 PMA) para lhes permitir desendividarem­‑se muito rapidamente (o montante a reunir para desendividar os PMA é fraco).

 

Nunca antes a situação foi tão favorável aos países periféricos do ponto de vista financeiro. E no entanto, ninguém não fala de uma mudança das regras do jogo. É que os governos da China, da Rússia e dos principais PED (Índia, Brasil, Nigéria, Indonésia, México, África do Sul...) não exprimem nenhuma intenção de alterar na prática a situação mundial em benefício dos povos.

 

E no entanto, no plano político, se o quisessem, os governos dos principais PED, 50 anos após Bandung, poderiam constituir um potente movimento capaz de impor reformas democráticas fundamentais de todo o sistema multilateral. Poderiam adoptar uma política moderada – reembolsar de maneira antecipada as dívidas com um importante abatimento – ou uma política radical – repudiar a dívida e aplicar um conjunto de políticas rompendo com o neoliberalismo. O contexto internacional é-lhes favorável porque a principal potência mundial está atascada na guerra do Iraque, na ocupação do Afeganistão; é confrontada com fortíssimas resistências na América Latina que desembocam em malogros agudos (Venezuela, Cuba, Equador...) ou num impasse (Colômbia).

 

Estou persuadido de que isso não se materializará: nem o cenário moderado, nem o cenário radical serão postos em prática a curto prazo. A esmagadora maioria dos líderes actuais dos PED estão totalmente embrenhados no modelo neoliberal. Na maioria dos casos, estão completamente ligados aos interesses das classes dominantes locais que não têm nenhuma perspectiva de afastamento real (para não falar de ruptura) em relação às políticas seguidas pelas grandes potências industriais. Os capitalistas do Sul acantonam-se num comportamento de accionista e, quando não é o caso, procuram no máximo ganhar partes de mercado. É o caso dos capitalistas brasileiros, sul-coreanos, chineses, russos, sul-americanos, indianos... que pedem aos seus governos que obtenham dos países mais industrializados tal ou tal concessão no âmbito das negociações comerciais bilaterais ou multilaterais. Além disso, a concorrência e os conflitos entre os governos dos PED, entre capitalistas do Sul, são reais e podem exacerbar­‑se. A agressividade comercial dos capitalistas da China, da Rússia, do Brasil em relação aos seus concorrentes do Sul provoca divisões tenazes.

 

Só a irrupção dos povos no cenário histórico poderia alterar o curso das coisas mas não se vêem ainda sinais sólidos indo neste sentido.

 

Nos PED, lutas radicais sucederam-se nestes últimos anos: Equador 2000, Bolívia 2000, Argentina 2001­‑2002, Venezuela 2002-2003, Bolívia 2003, China 2004, Coreia do Sul 2003-2004, Bolívia 2005, Equador 2005, Nigéria 2004­‑2005, Níger 2005... Sem falar das lutas de libertação ou resistência à ocupação, da Palestina ao Iraque passando pelo Afeganistão. Estes povos em luta demonstram uma coragem extraordinária. Algumas das suas lutas conduziram a sucessos parciais (Equador, Bolívia, Argentina, Venezuela, Níger...) mas não excederam o quadro local ou nacional.

 

O movimento altermundialista, o Fórum Social Mundial, os Fóruns sociais continentais, as grandes campanhas para a anulação da dívida, contra a OMC, contra a guerra, embora continuem a acumular forças, não estão infelizmente (ainda?) em condições de fazer convergir as lutas e avançar com uma estratégia ofensiva capaz de terminar com o neoliberalismo.

 

Além disso, a conjuntura temporariamente favorável aos PED corre com efeito o risco de se transformar em 2006­‑2007. Dois factores fundamentais podem intervir num sentido globalmente desfavorável: primeiramente, a continuação do aumento das taxas de juro iniciado nos Estados Unidos a partir de Junho de 2004; em segundo lugar, uma abrandamento da procura nos Estados Unidos repercutindo­‑se sobre a China e daí, sobre o resto da economia mundial (na ausência de uma reactivação da procura europeia ou japonesa) conduzindo a uma baixa dos preços das matérias primas.

 

Um aumento das taxas de juro combinado com uma queda dos preços das matérias primas: foi o que se passou entre 1979 e 1982 e provocou a crise da dívida de 1982. Se o aumento das taxas de juro se tornar brutal, se os preços das matérias primas se repercutirem em baixa e se uma série de PED fortemente endividados como o Brasil, a Turquia, o México, a Argentina (de novo), a Nigéria experimentarem dificuldades de pagamento..., não está excluído que uma nova crise da dívida estoire de maneira sincronizada.

 

A conjuntura excepcional actual demonstra o impasse do modelo neoliberal para os povos dos países do Sul.

 

De acordo com a teoria económica dominante, o desenvolvimento do Sul está atrasado devido a uma insuficiência de capitais domésticos (insuficiência da poupança local). Sempre de acordo com a teoria económica dominante, os países que desejam empreender ou acelerar o seu desenvolvimento devem recorrer aos capitais externos utilizando três vias: primeiramente, endividar-se no exterior; em segundo lugar, atrair os investimentos estrangeiros; em terceiro lugar, aumentar as exportações para obter as divisas necessárias para a compra de bens estrangeiros que permitem prosseguir o seu crescimento. Para os países mais pobres, trata­‑se também de jogar as cartas comportando-se como bons alunos dos países desenvolvidos.

 

A realidade contradiz a teoria: são os países em desenvolvimento que fornecem capitais aos países mais industrializados, à economia dos Estados Unidos em especial. O Banco Mundial não diz outra coisa: «os países em desenvolvimento considerados em conjunto são prestamistas netos em relação aos países desenvolvidos» [2].

 

Não é verdade que os PED devem recorrer ao endividamento para financiar o seu desenvolvimento. Hoje em dia, o recurso ao empréstimo serve essencialmente para assegurar a continuação dos reembolsos. Apesar da existência de importantes reservas de câmbio, os governos e as classes dominantes locais do Sul não aumentam o investimento e as despesas sociais. Uma só excepção: o governo da Venezuela, que se opõe às classes dominantes locais e ao imperialismo dos Estados Unidos e da União Europeia.

 

Mais tarde ou mais cedo, os povos libertar-se-ão da escravidão da dívida e da opressão exercida pelas classes dominantes no Norte e no Sul. Obterão pela sua luta a instauração de políticas que redistribuem as riquezas e que põem termo ao modelo produtivista destrutivo da natureza. Os poderes públicos serão então constrangidos a dar a prioridade absoluta à satisfação dos direitos humanos fundamentais.

 

__________

* Este texto constitui o prefácio da edição de La Finance contre les peuples. La Bourse ou la Vie nos Estados Unidos. Livro a aparecer sob o título Your Money or Your Life durante o Verão de 2005 nas edições Haymarket em Chicago.

 

[1] Fonte: World Bank, Global Development Finance 2005, Washington DC, Abril 2005, p. 165. No final de 2004, os PED dispunham de cerca de 1.600 mil milhões de dólares sob a forma de reservas de câmbio (1.591 mil milhões de dólares, ver p. 165), ou seja, mais do que o total da sua dívida pública externa (1.555 mil milhões de dólares, p. 161). A China, a Malásia, a Tailândia, a Índia, a Coreia do Sul, tinham reservas de câmbio superiores à sua dívida pública externa. Os PED da Ásia considerados em conjunto tinham reservas de câmbio que representavam mais do dobro da sua dívida pública externa (ou ainda 30% mais que o conjunto da sua dívida externa pública e privada – ver quadro p. 161 e 165). Só as reservas da China representavam 7 vezes a sua dívida pública externa. Para a África do Norte e o Médio Oriente, as reservas de câmbio ascendiam a 141 mil milhões de dólares, enquanto a dívida pública externa ascendia a 127 mil milhões de dólares. As reservas da Argélia ascendiam a 41 mil milhões de dólares contra uma dívida pública externa de 27 mil milhões de dólares.

 

[2] «Developping countries, in aggregate, were net lenders to developed countries». (World Bank, Global Development Finance 2003, p. 13). Na edição de 2005 de Global Development Finance, p. 56, o Banco escreve: «Os países em desenvolvimento são agora exportadores de capitais para o resto mundo». («Developping countries are now capital exporters to the rest of the world». World Bank, GDF 2005, p. 56).