Informação Alternativa

Mundo

13/06/2005

 

G8/Dívida: «É necessário desconfiar dos efeitos do anúncio»

– Entrevista a Eric Toussaint –

 

Véronique Kiesel

CADTM

 

Eric Toussaint, é presidente do CADTM­‑Bélgica (Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo). Como reage ao anúncio da iniciativa Blair-Bush?

 

Com sérias dúvidas. Temos o hábito deste tipo de anúncios, por vezes estrondosos, mas nunca seguidos de efeitos. Trata-se aqui de uma proposta que deve ser examinada neste fim­‑de­‑semana pelos ministros das Finanças do G7 antes de ser eventualmente ratificada aquando da cimeira de início de Julho.

 

Fala-se de um montante de 16,7 mil milhões de dólares para 18 países quando a dívida total dos 27 países pobres muito endividados (PPME) monta a 180 mil milhões, enquanto a dívida do terceiro mundo gira em torno de 2600 mil milhões. Trata-se pois de um muito pequeno passo e estamos longe de estar seguros da sua concretização. E não é absolutamente questão de uma anulação a 100%.

 

Já houve anulações de dívidas a 100%?

 

Em todo o caso, não durante os últimos 40 anos. Em 1991, quando deixou o pacto de Varsóvia, a Polónia beneficiou, por parte do Clube de Paris, de uma importante diminuição de dívida. A mesma coisa com o Egipto, aquando da primeira guerra do Golfo, ou com o Paquistão em 2001, antes da guerra no Afeganistão. Tratava­‑se sempre de anulações em países estratégicos em momentos chave. E nunca excederam 20% do total da dívida destes países. Mais recentemente, o Iraque beneficiou em Outubro de 2004 de uma importante diminuição da sua dívida: os ricos membros do Clube de Paris aceitaram anular 80% da dívida que o Iraque tinha para com eles. Para justificar esta diminuição de dívida, os Estados Unidos utilizaram um princípio internacional século XIX, o da “dívida odiosa” que implica que as dívidas contraídas por um regime despótico são anuladas com a sua queda. É um princípio muito bonito, é pena que não seja aplicado ao Haiti, ao Ruanda, ao Congo, à Nigéria. A lista é longa.

 

Importantes iniciativas foram no entanto anunciadas, nomeadamente para os PPME...

 

Houve com efeito declarações muito bonitas. Em 1996, o G7 tinha anunciado depois [da cimeira] de Lyon uma diminuição de dívidas para o terceiro mundo de 80%. Aquando da cimeira de Colónia em 1999, quando numerosos movimentos, dos quais o CADTM, tinham recolhido 17 milhões de assinaturas em prol da anulação da dívida do terceiro mundo, que tínhamos aliás apresentado com a ajuda de Bono, foi anunciado uma diminuição de dívida de 90%. Dois meses mais tarde, Clinton, depois Blair, depois o primeiro­‑ministro italiano comprometiam­‑se com 100%! Onde estamos hoje? As dívidas a pagar pelo terceiro mundo em 2005 e nos anos que vêm são mais elevadas do que os montantes pagos nos anos precedentes. A proposta de anulação anunciada por Bush e Blair deveria permitir fazer baixar um pouco este montante. Trata-se de cada vez de pequenos passos. Ainda não tivemos uma verdadeira grande notícia positiva a celebrar... E este anúncio foi feito porque a opinião pública foi sensibilizada para a questão dos Objectivos do Milénio para o desenvolvimento, enquanto uma grande cimeira da ONU em Setembro deverá fazer o ponto da situação sobre a luta contra a grande pobreza no mundo. Era bem necessário fazer algo.

 

Tem-se a impressão que, quando um país vê a sua dívida aligeirada, contrai imediatamente outros empréstimos...

 

O sistema é inteiramente construído desse modo. Quando um país é esmagado, que não pode pagar mais, aligeira-se a carga. Adiam­‑se então os seus pagamentos e propõe-se­‑lhe outros empréstimos. O pior, é que estas reduções são de cada vez condicionadas ao prosseguimento da abertura da sua economia. Estes países são obrigados a privatizar os seus serviços públicos e os seus recursos naturais, a abrir o seu mercado enquanto a sua economia é frágil. E isso reforça a precariedade na qual vivem as populações.

 

Viu-se com o tsunami que as promessas feitas aquando dos cataclismos naturais não são melhor cumpridas...

 

Com efeito, tudo o que a Indonésia e o Sri Lanka obtiveram, é uma moratória de um ano, durante o qual juros de mora correm! De acordo com o Banco Mundial, após o ciclone Mitch, as Honduras e a Nicarágua viram apenas 30% das promessas concretizadas. Moçambique, devastado por inundações em 2000, teve mais sorte: 50% das promessas foram cumpridas...