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29/04/2005 Tsunami, a hora do balanço global Eric Toussaint; Damien Millet * À priori, poder-se‑ia crer que as catástrofes naturais, como o
tsunami de 26 de Dezembro de 2004 ao largo da Indonésia, excedem os frágeis seres
humanos que nós somos. São naturais, é tudo. No entanto, é tão simples? A
actividade humana e as escolhas que envolve são realmente sem relação com
estas catástrofes? Para nós que trabalhamos diariamente sobre a problemática
da dívida e sobre os múltiplos impactos das políticas de ajustamento
estrutural que ela implica, a relação com o que se passou é evidente. O número de catástrofes naturais registadas foi multiplicado por 2,5
entre o conjunto do decénio dos anos 1970 e o dos anos 1990. Ao mesmo tempo,
o número de pessoas afectadas cada década por estas catástrofes passou de 740.000
para quase 2 milhões. De um ponto de vista quantitativo, certas regiões do globo
foram afectadas mais do que outras pelos desastres: as ilhas das Caraíbas, a
América Central, a zona mediterrânica, o Irão, o entorno do Oceano Índico...
Mas os países pobres são afectados mais do que os outros em termos de
consequências. Assim, entre 1992 e 2001, os países com fraco índice de
desenvolvimento humano conheceram 20% das catástrofes contadas mas registaram
metade dos falecimentos a elas ligados. Em média, as catástrofes fazem mais
vítimas nos países em desenvolvimento que nos países industrializados: no
final da década, cada uma delas provocou cerca de 44 falecimentos nos países
desenvolvidos, contra 300 nos países com fraco índice de desenvolvimento
humano. As destruições causadas pelas catástrofes naturais assumem
proporções gigantescas nos países pobres, como o prova o exemplo do ciclone
Mitch que golpeou a América Central no final de Outubro de 1998. Os estragos
que provocou nas Honduras representaram 70% do seu PIB e mais do triplo das
suas receitas fiscais anuais. Nos anos 1990, de acordo com o Banco Mundial,
as catástrofes amputaram o PIB da Nicarágua em mais de 15% e o da Jamaica em
mais de 12 %, números amplamente superiores aos atingido pelos países ricos.
As economias dos países afectados são postas a dura prova, mas já são frágeis
a montante, bem antes do desencadeamento da catástrofe. Nestas condições,
convém primeiro avaliar o impacto das políticas macro‑económicas neoliberais,
impostas via o mecanismo da dívida. A DÍVIDA, INSTRUMENTO SUBTIL DE DOMINAÇÃO Nos anos 1950 e 1960, enquanto os países da América Latina estão em fase
de industrialização, os países da Ásia e depois da África acedem à
independência. A sua dívida é incentivada pelos credores privados do Norte,
cujos cofres abundam de liquidez (eurodólares, depois petrodólares após o
choque petroleiro de 1973). Os governos dos países ricos, que fazem face à
crise nos anos 1970, propõem aos países em desenvolvimento cada vez mais
empréstimos condicionados pela compra das mercadorias do país prestamista: é
a ajuda atada. Do lado multilateral enfim, o Banco Mundial vai lançar, sob a
presidência de Robert McNamara, uma política ofensiva de estímulo à dívida.
Utiliza a dívida para fins geoestratégicos, nomeadamente para reforçar as
alianças estratégicas do bloco ocidental (Suharto na Indonésia, Marcos nas
Filipinas, Mobutu no Zaire, Pinochet no Chile, as ditaduras argentinas e
brasileiras, etc.). A dívida torna-se assim um instrumento central na
dominação dos países do terceiro mundo. Os anos 1980 marcam um momento decisivo. O aumento brutal das taxas
de juro, decidido pelos Estados Unidos em 1979, vai multiplicar as somas a
reembolsar. Além disso, a superabundância no mercado das matérias primas
exportadas pelo Sul provoca uma baixa severa do seu custo. É a fuga para a
frente numa política de “tudo para a exportação”: os rendimentos não vão
demorar a cair. Juros triplicados, rendimentos em baixa, forte redução dos
novos empréstimos: a situação torna‑se rapidamente insuportável. Em
1982, a crise estoira. O México, antes de outros, declara não estar mais em
condições de honrar as suas dívidas. Os credores mandatam então o Fundo Monetário Internacional (FMI)
para organizar e assegurar o reembolso da dívida. Ele consente novos
empréstimos aos países em desenvolvimento, a fim de evitar tanto quanto
possível a interrupção dos reembolsos. Em contrapartida, eles são obrigados a
aplicar políticas económicas ditadas pelo FMI, chamadas programas de
ajustamento estruturais (PAE), cujo objectivo explícito é atrair os capitais
estrangeiros e fornecer os recursos destinados ao reembolso da dívida. Os
meios para lá chegar implicam consequências sociais, económicas e humanas cataclísmicas.
Certos países são muito cedo afectados nos anos 1980, nomeadamente na América
latina e na África, outros como a Tailândia, a Indonésia, a Coreia do Sul ou
a Malásia, são golpeados aquando da crise de 1997 que desestabiliza o Sudeste
Asiático, provocando mais de 20 milhões de desempregados em alguns meses. UM DESAIRE AGUDO De um ponto de vista geral, os critérios macro‑económicos
privilegiados pelo FMI e pelo Banco mundial não permitiram melhorar em nada o
bem-estar das populações mais pobres. Pelo contrário, observa-se um
empobrecimento acrescido na totalidade das regiões que têm aplicado
docilmente o ajustamento estrutural, e um aumento importante das
desigualdades. No caso específico da Ásia, a cegueira do FMI e do Banco
Mundial ainda agravou a situação, como o confirma Joseph Stiglitz, economista
chefe do Banco Mundial de 1997 a 2000 e prémio Nobel de economia em 2001: «As
medidas do FMI não somente exacerbaram a crise, também a provocaram em parte».
O economista Jeffrey Sachs põe o dedo na ferida: em 1999, «o FMI enganou‑se
sobre tudo. A sua política de ajustamento estrutural no Brasil é o seu quinto
fiasco após a Tailândia, a Indonésia, a Coreia e a Rússia». Podemos portanto interrogar-nos porque é que medidas tão nefastas
para as populações são impostas com tanta constância e dedicação. A resposta
de Stiglitz é esclarecedora: «O FMI deixou de servir os interesses da
economia mundial para servir os da finança mundial. A liberalização dos
mercados financeiros talvez não tenha contribuído para a estabilidade económica
mundial, mas abriu certamente imensos mercados novos em Wall Street. (...) Se
examinarmos o FMI como se o seu objectivo fosse servir os interesses da comunidade
financeira, encontramos um sentido em actos que, sem isso, pareceriam
contraditórios e intelectualmente incoerentes». Os planos de ajustamento
estrutural conseguem perfeitamente defender os interesses das instituições
financeiras e das multinacionais do Norte. Para as populações que suportam as
consequências, são sinónimos de pobreza e miséria. Mas além disso, o impacto
dos PAE no domínio mais específico dos efeitos das catástrofes naturais é
múltiplo. UMA DESORGANIZAÇÃO ESTRUTURAL Os cortes claros nos orçamentos sociais traduzem-se em especial numa
incapacidade dos Estados financiar serviços de prevenção das catástrofes.
Quando as necessidades vitais não são satisfeitas, a prevenção passa
necessariamente para segundo plano. A desobrigação geral do Estado traduz-se finalmente
por uma esclerose, ou mesmo uma supressão pura e simples, dos organismos
susceptíveis de reduzir os riscos, de alertar eficazmente ou responder à
urgência. De resto, comparações permitem mostrar a importância da organização
social do país ameaçado para salvar vidas. Em Novembro de 2001, enquanto o
furacão Michelle (de classe 4) se aproximava das costas, os poderes públicos
de Cuba estiveram em condições de evacuar e pôr ao abrigo 600.000 pessoas,
apoiando‑se nomeadamente numa divulgação rápida da informação e numa
rede de voluntários que pôde ser mobilizada muito rapidamente. A ilha terá a
lamentar “apenas” 5 mortes. Quando os ciclones tocam a Flórida (Estados
Unidos), pode acontecer que os estragos sejam importantes, mas as perdas em
vidas humanos são sempre limitadas. Em contrapartida, em Setembro de 2004, o
furacão Jeanne (classe 3) espalhou a desolação no Haiti, onde a miséria reina
como senhora e onde o Estado está exangue: o balanço ascendeu a 2.400 mortes.
O exemplo do Mitch (classe 5) nas Honduras e na Nicarágua, ambos
classificados entre os países mais pobres e endividados, permaneceu nas
memórias: 10.000 mortes, dezenas de infra-estruturas destruídas. É pois
essencial que por um lado o governo esteja mais preocupado com o apoio à sua
população do que com o enriquecimento dos seus credores, e que por outro lado
tenha a possibilidade de libertar os recursos úteis neste objectivo. UMA FRAGILIDADE AMBIENTAL EXTREMA O desflorestamento maciço é também uma causa de agravamento das
catástrofes naturais. Este desflorestamento resulta às vezes da sobre‑exploração
das riquezas naturais: a exportação de madeiras raras é uma fonte preciosa de
rendimentos que permite o reembolso da dívida, nomeadamente na Ásia. Pode
também ser uma consequência directa da pobreza, dado que as populações
desfavorecidas às vezes são obrigadas desbastar os flancos das montanhas ou
as encostas dos vulcões, para praticar a criação ou para plantar milho, café...
A madeira é então utilizada para o aquecimento ou transformada em carvão. As
montanhas desbastadas não retêm mais a água, os estragos causados por um ciclone
são multiplicados, os aluimentos de terrenos mutilam a região. O “tudo para a exportação” tem outras consequências. Os dirigentes
dos países do Sul estão prontos a sacrificar o interesse das suas populações
para se conformarem aos gostos dos investidores estrangeiros. Assim, as
regiões costeiras por vezes profundamente desfiguradas e os mangroves, essas
florestas litorais de mangues muito densas, inicialmente muito presentes na
Ásia, constituem nomeadamente uma excelente protecção. Na condição de que não
seja feito tudo para os reduzir, como é o caso desde há várias décadas. O
dedo é apontado ao turismo e às criações industriais de camarões. Recordemos
que a Tailândia é o primeiro país exportador de camarões e arrasou 65.000
hectares de mangues para aí chegar... Além disso, os benefícios dos mangues
são preciosos para as populações locais (madeiras, peixes, frutos, mel),
enquanto que as indústrias turísticas ou piscícolas que os substituem em
geral aproveitam a multinacionais estrangeiras [1]. CONHECIMENTOS LAMINADOS O desenvolvimento preconizado pelo FMI e pelo Banco Mundial não é
respeitoso do humano e do ambiente. Nega as diferenças, as culturas locais,
os conhecimentos ancestrais para uniformizar, mundializar, ou antes
ocidentalizar. Nisso, comete um erro magistral: agrava a vulnerabilidade das
populações privando-se dos seus conhecimentos. No entanto, é indispensável
guardar viva esta memória colectiva, preservar os modos de vida e colocar o
respeito pela diversidade no cerne da solução a inventar no que diz respeito
à resposta a dar às catástrofes naturais. Aí está tudo o contrário do modelo
actual: o FMI impõe por toda a parte no mundo a lógica do ajustamento
estrutural, independentemente das vantagens dos países em dificuldade, da sua
história, das suas especificidades. É pois efectivamente uma mudança completa
de lógica que é necessária. _________ * Damien Millet, presidente do CADTM França, e Eric Toussaint,
presidente do CADTM Bélgica (Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro
Mundo) são autores do livro Les tsunamis de la
dette, ed. Syllepse/CADTM, Abril de 2005. [1] Para uma exposição mais profunda sobre este assunto, ler Devinder Sharma, Tsunami, mangues e economia de mercado, 09/01/2005 (n. IA). |