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16/04/2005 Instituições multilaterais tomadas como reféns Eric Toussaint; Damien Millet * Neste sábado 16 de Abril de 2005 termina em Washington a assembleia
de primavera do Banco Mundial e do FMI. Paul Wolfowitz, o novo presidente do
BM a partir de 1 Junho de 2005, entra em cena. A ocasião de reflectir sobre
aqueles que dirigem as instituições multilaterais, como são designados e qual
é a sua orientação. A ofensiva dos conservadores no seio das instituições internacionais
marcou pontos nestes últimos meses. Aqueles que, como nós, lutam por outra
lógica não terão direito imediatamente ao descanso... Em vingança, o nosso
espírito de revolta encontra‑se tanto mais alimentado... Cena 1: Em 18 de
Janeiro de 2005, Kofi Annan, secretário geral da Organização das Nações
Unidas (ONU), decidiu‑se por Ann Veneman, ministra de Agricultura da Administração
Bush, para o posto de directora executiva da UNICEF. Ora os Estados Unidos e
a Somália são os dois únicos países que se recusaram a ratificar a Convenção
das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança (189 países ratificaram‑na).
Imaginamos as pressões a que Kofi Annan foi sujeito por parte de Washington
para adoptar tal decisão. Cena 2: Em 28 de
Fevereiro de 2005, Kofi Annan decidiu nomear Supachai Panitchpakdi
(Tailândia) como secretário geral da Conferência das Nações Unidas para o
Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD), para quatro anos a contar de 1
Setembro. Esta nomeação não deixa de surpreender quando se sabe que aquele é
cognominado o Doutor Sup está actualmente à cabeça da Organização Mundial do
Comércio (OMC), o instrumento de predilecção dos que querem impor com fórceps
a desregulamentação da economia mundial, para o maior lucro da finança
internacional e das sociedades transnacionais. Defendendo o ponto de vista
dos países do Sul, a UNCTAD não tem nada a ganhar em ver chegar à sua cabeça
um homem que provou a sua capacidade de exigir medidas económicas
particularmente desfavoráveis para os mais pobres. Os países do Terceiro
Mundo, agrupados no G77, protestaram por não terem sido consultados antes
desta nomeação, contrariamente ao habitual. Mas corre o boato que Kofi Annan,
fragilizado pelas divulgações sobre o caso “petróleo por alimentos” relativo
ao Iraque, no qual o seu filho está implicado, teria cedido facilmente à
vontade dos Estados Unidos. Cena 3: Em 7 de
Março, George W. Bush escolheu John Bolton como embaixador junto das Nações
Unidas. Este ultraconservador sente um ódio real para com a ONU, não
hesitando em declarar: «O edifício do secretariado da ONU em Nova Iorque
conta com 38 andares. Se tivesse 10 a menos, isso não faria grande
diferença». Tentou fazer transferir Mohamed ElBaradei que dirigia a
instituição das Nações Unidas responsável pelo acompanhamento do programa de
desarmamento do Iraque imediamente antes da guerra de 2003. Foi ele que
conseguiu que os Estados Unidos não ratificassem o Tribunal Penal
Internacional e que se retirou da conferência das Nações Unidas sobre o
racismo celebrada em Durban em Agosto de 2001. Para ele, a ONU sobretudo não
deve obstruir a política externa dos Estados Unidos. Ousou mesmo declarar:
«As Nações Unidas só podem funcionar quando a América as dirige». Tem pelo
menos o mérito de ser claro, na falta de parecer eminentemente simpático. É
tão anti‑ONU que uma parte importante do Congresso americano
(incluídos certos Republicanos) tenta opor-se à sua nomeação. Cena 4: Em 10 de
Março, George W. Bush anunciou a sua decisão de propor Paul Wolfowitz, número
2 do Pentágono e partidário obstinado da invasão do Iraque em 2003, como
candidato ao posto de presidente do Banco Mundial. Pode-se afirmar sem temor
que é a cereja sobre o bolo destas últimas semanas. Em primeiro lugar, o procedimento de designação do presidente do
Banco Mundial é particularmente antidemocrático e emblemático de uma
concepção imperialista das relações diplomáticas. Enquanto a boa governança
está no cerne das recomendações dirigidas pelo Banco Mundial aos países do
Sul, é incapaz ele próprio de respeitar as regras mínimas da democracia.
Façam o que eu digo, não o que eu faço! A um tal ponto que o presidente
actual, James Wolfensohn, banqueiro em Nova Iorque mas australiano de
nascimento, teve de adoptar a nacionalidade estado-unidense antes de ser
nomeado em 1995. Ao ouvir os responsáveis do Banco Mundial, poderíamos acreditar que
os anos 1980 do ajustamento estrutural de sinistra memória estão bem
distantes, que a luta contra a pobreza se tornou a única causa digna de
interesse. No entanto, a política conduzida pelo Banco Mundial desde há
várias décadas inscreve-se numa lógica perfeita, sem ruptura, e faz-se sempre
em benefício exclusivo das grandes potências que estão na origem da sua
criação em Bretton Woods em 1944 (num momento em que a maior parte dos países
da África ou da Ásia ainda não tinham adquirido a independência) e que o
pilotam ainda hoje. É assim que a presidência retorna sempre a grandes
banqueiros ou antigos responsáveis do ministério da Defesa dos Estados
Unidos. Esse já foi o caso com a nomeação em 1968 de Robert McNamara, maestro
da guerra do Vietname e que utilizou o Banco Mundial como um verdadeiro instrumento
geopolítico ao serviço dos aliados estratégicos dos Estados Unidos. Durante
os cinco primeiros anos da presidência McNamara, o Banco Mundial atribuiu
mais empréstimos aos países em desenvolvimento que nos 23 primeiros anos da
sua existência. O seu objectivo era adquirir um direito de opinar sobre as
políticas praticadas pelos seus clientes... Apoiou assim os aliados
estratégicos dos Estados Unidos (como Mobutu no Zaire, as ditaduras
brasileira e argentina, Pinochet no Chile, Suharto na Indonésia, Marcos nas
Filipinas, etc.). Ninguém duvida que Wolfowitz se inscreverá na linhagem
deste género de presidente que utiliza o Banco Mundial para fins
geoestratégicos. Oficialmente, todos os administradores do Banco Mundial podiam
bloquear esta proposta de nomeação. Isso já se passou no Fundo Monetário
Internacional (FMI), onde o director geral é sempre europeu. Em 2000, aquando
da partida do francês Michel Camdessus, o secretário alemão das Finanças da
época, Caio Koch-Weser, que era o candidato europeu, tinha sido objecto de um
veto por parte dos Estados Unidos e os europeus puseram‑se
seguidamente de acordo sobre a candidatura de Horst Köhler. No Banco Mundial,
a nomeação de Paul Wolfowitz foi contudo aprovada por unanimidade, prova de
que os 24 grupos de países representados se adaptam finalmente extremamente
bem. É sem dúvida útil recordar que a maior parte dos países europeus espera
obter dos Estados Unidos um retorno de ascensor: o governo francês manobra de
modo que Pascal Lamy se torne director geral da OMC e que Bernard Kouchner
herde o Alto Comissariado para os Refugiados, o governo belga avança a
candidatura de Marc Verwilghen para o mesmo posto, o poder britânico traz
debaixo de olho o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Sem
contar os países que esperam ter o apoio dos Estados Unidos para obter um
assento permanente no conselho de segurança: a Alemanha, o Japão, o Brasil, a
Índia, a África do Sul, a Nigéria... O grande regateio continua, vergonhoso
mas bem real. Como se pode compreender que a presidência do Banco Mundial nunca
tenha calhado a um cidadão do Terceiro Mundo, na primeira linha perante os
desafios do desenvolvimento humano? O antigo número 2 do Banco Mundial e
prémio Nobel de economia 2001, Joseph Stiglitz, de resto declarou: «Escolher
o bom general na guerra contra a pobreza não garante a vitória, mas escolher
o mau aumenta os riscos de derrota». Esta escolha é sem dúvida devida ao
facto de o verdadeiro combate não ser aquele contra a pobreza, apesar dos
discursos oficiais daqueles que, ao mesmo tempo, impõem medidas que espalham
a miséria... A questão da legitimidade das instituições multilaterais como o
Banco Mundial e o FMI está posta. Forçoso é reconhecer que os acontecimentos
dos últimos meses demonstram que outra estrutura internacional é amplamente
necessária! _________ * Damien Millet, presidente do CADTM França, e Eric Toussaint, presidente do CADTM Bélgica (Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo) são autores do livro Les tsunamis de la dette, ed. Syllepse/CADTM, Abril de 2005. |