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Mundo

28/09/2004

 

Sexagésimo aniversário de Bretton Woods:

Banco Mundial e FMI: a obsessão produtivista

 

Eric Toussaint

CADTM (castelhano; francês)

 

Em matéria de desenvolvimento, o Banco Mundial interveio com um forte conteúdo produtivista dando prioridade à exportação; a revolução verde, as grandes barragens, as grandes centrais térmicas, a substituição de cultivos hortícolas por outros para a exportação... A revolução verde dos anos 1960, cuja finalidade era, oficialmente, o aumento da produção agrícola dos países do Sul para satisfazer as necessidades de alimentos da sua população, teve consequências desastrosas para o ambiente e aumentou progressivamente a dependência dos países que a aplicaram perante as multinacionais agro­‑industriais. A opção de privilegiar os cultivos para a exportação tomou­‑se em detrimento dos cultivos hortícolas, factor clave da segurança alimentar dos povos. A construção das grandes barragens, das grandes centrais térmicas, de gigantescas vias de comunicação terrestre (como a estrada trans­amazónica) levou-se a cabo sem ter em conta o impacto sobre o meio e, muitas vezes, atentando contra os direitos e condições de vida da população, em particular dos povos indígenas.

 

O Banco Mundial e o FMI nunca se afastaram de uma espécie de fé no crescimento económico. Esta é a condição sine qua non do desenvolvimento. Desenvolvimento é sinónimo de crescimento. Esta posição gera umas perspectivas ecológicas pouco realistas: para as instituições financeiras internacionais, os recursos que o planeta encerra parecem ser infinitos, e o ambiente parece ser capaz de suportar todas as agressões dos procedimentos industriais aplicados no âmbito dos modelos produtivistas.

 

O Banco, tal como o FMI, afirma que a redução da pobreza resultará mecanicamente do crescimento (e do livre comércio). Alguns autores demonstram que, ao invés, o crescimento pode empobrecer.

 

PRIORIDADE AOS CULTIVOS PARA A EXPORTAÇÃO, A GANADARIA E A EXPLORAÇÃO FLORESTAL

 

Ao longo da sua existência, o Banco contribuiu poderosamente para reforçar as actividades agrícolas destinadas à exportação. Substituição parcial dos cultivos hortícolas na Tailândia e na Malásia pelo caucho, na África ocidental pelo algodão, no sul do Brasil pela soja, no Senegal pelo amendoim, na Costa do Marfim pelo cacau... Países tradicionalmente auto-suficientes em cereais e legumes converteram­‑se progressivamente em importadores netos destes produtos, o que causou a perda de segurança e de soberania alimentares. A vontade deliberada do governo dos Estados Unidos de pôr fim à segurança alimentar dos PED foi expressada com crueza por John Block, secretário estado­‑unidense para a agricultura em 1986, no curso das negociações da ronda Uruguai, no marco do GATT: «A ideia de que os países em desenvolvimento teriam que se alimentar a si mesmos é anacrónica, provém de uma era superada. Os países em desenvolvimento podem perfeitamente assegurar a sua segurança alimentar importando produtos agrícolas dos Estados Unidos, que são, a maior parte das vezes, os menos caros» [1].

 

O reforço das actividades para a exportação vai acompanhado do despojo dos pequenos proprietários de terra (o que provoca ou aumenta a massa de camponeses sem terra e o êxodo do campo para as cidades) e o desenvolvimento de grandes empresas agrícolas (plantações). Em alguns países, os projectos impostos pelo Banco Mundial significaram a colonização de superfícies florestais, para desenvolver nelas a agricultura industrial (vários Estados da Amazónia brasileira, Tailândia, Malásia, Indonésia...). Consequências: desflorestamento, deslocamento de populações, ruptura do equilíbrio ecológico, diminuição da biodiversidade, degradação das condições de vida de povos que vivem da selva (geralmente indígenas). Além disso, o Banco Mundial apoiou sistematicamente projectos de exploração florestal para a exportação (Brasil, Congo, Costa do Marfim, Indonésia...) que com frequência significavam uma autêntica pilhagem dos recursos florestais, que se somam aos efeitos negativos antes mencionados.

 

Outro projecto que agrada ao Banco: o desenvolvimento da ganadaria em grandes explorações. Isto também leva ao desflorestamento. Em geral, o impacto ambiental e social não se tem em conta nos projectos apoiados pelo Banco [2].

 

O FRENESIM DOS MEGA­PROJECTOS ENERGÉTICOS

 

A lista das grandes barragens e das grandes centrais térmicas que foram apoiadas pelo Banco Mundial é impressionante. A parte que estas grandes obras representam na dívida externa pública actual de muitos países endividados está longe de ser marginal: só açude de Inga constitui 25 % da dívida externa do ex Zaire. Quanto aos danos ambientais e aos prejuízos causados à população, ainda não se acabou de fazer a lista e de avaliar todo o alcance negativo. À escala planetária, são muitas dezenas de milhões as pessoa que se viram obrigadas a deslocar­‑se, frequentemente com pouca ou nenhuma indemnização. Desde finais dos anos 1980, alguns projectos tiveram que ser abandonados, ou pelo menos o Banco teve que retirar o seu apoio (barragen do Narvada, na Índia, por exemplo). Foi o resultado da acção de diversos actores que obrigaram o Banco a dar marcha atrás em alguns projectos: a consciência da amplitude dos danos causados e a capacidade de mobilização da população afectada, a que se soma a solidariedade de uma série de movimentos de cidadania dos países mais industrializados. De qualquer modo, o Banco não renunciou aos grandes projectos de infra­‑estrutura (ver mais abaixo o exemplo do oleoduto Chade­‑Camarões).

 

A FÉ CEGA NO CRESCIMENTO E NO MODELO PRODUTIVISTA

 

O Banco Mundial nunca se afastou de uma espécie de fé cega no crescimento económico. O crescimento é a condição sine qua non do desenvolvimento. O desenvolvimento é sinónimo de crescimento. Barber Conable, presidente do Banco de 1986 a 1991, declarava em 1987: «É uma verdade primordial que não se pode deter o desenvolvimento, só se pode orientá­‑lo» [3]. É como se no tabuleiro de comandos do Banco e do FMI não houesse mais do que dois indicadores: um que assinala a taxa de crescimento (medido pelo crescimento do Produto interno bruto) e outro para o pagamento da dívida [4]. Os recursos que o planeta encerra parecem ser infinitos e o ambiente parece ser capaz de suportar todos as agressões dos procedimentos industriais aplicados no âmbito dos modelos produtivistas. Todos os problemas ambientais encontrarão a sua solução graças ao progresso técnico.

 

Lawrence Summers, economista chefe e vice-presidente do Banco de 1991 a 1996, e portanto secretário de Estado do Tesouro durante a presidência de William Clinton, declarou em 1991: «Não há (...) limites da capacidade de absorção do planeta que possam bloquear­‑nos num futuro previsível. O perigo de um apocalipse devido ao aquecimento do clima ou a qualquer outra causa é inexistente. A ideia de que o mundo corre para a sua perdição é profundamente falsa. A ideia de que deveríamos pôr limites ao crescimento por causa de limites naturais é um profundo erro; é ademais uma ideia cujo custo social causaria estupor se alguma vez se aplicasse» [5].

 

O CINISMO LEVADO AO EXTREMO DENTRO DO BANCO

 

Vale a pena fazer referência aqui a uma controvérsia que estourou no final de 1991, quando o semanário britânico The Economist publicou longos extractos de uma nota interna do Banco redigida por Lawrence Summers a 13 de Dezembro de 1991. Essa nota era dirigida a seis colegas da direcção do Banco, e talvez nunca tivesse chegado ao conhecimento do público se um vento favorável não a tivesse feito chegar ao Greenpeace, que se apressou a dar­‑lhe ampla difusão. Mas foi a sua publicação em The Economist o que desencadeou o escândalo, pois a direcção do Banco viu­‑se obrigada a reagir. Estes são alguns dos extractos da nota de Lawrence Summers:

 

«Entre nós, o Banco Mundial não teria que encorajar muito mais a transferência das indústrias sujas para os PMD [países menos desenvolvidos]? (...) A medida dos custos da contaminação prejudicial para a saúde baseia­‑se no lucro cessante devido ao aumento das doenças e da mortalidade. Deste ponto de vista, uma quantidade dada de contaminação prejudicial para a saúde teria que ser atribuída ao país com o custo mais baixo, isto é, aquele no qual os salários são os mais baixos. A lógica económica segundo a qual haveria que desembaraçar­‑se dos refugos tóxicos enviando­‑os aos países com os salários mais baixos é, a meu critério, impecável, e temos que a aceitar.» [6]

 

Summers prossegue: «Sempre pensei que os países subpovoados de África estão consideravelmente subcontaminados, a qualidade do seu ar está sem dúvida “subvalorizada” em comparação com a de Los Angeles ou do México» [7]. E mais adiante: «A inquietude [a propósito dos agentes tóxicos] será evidentemente muito maior num país onde as pessoas vivam mais anos e podem adoecer de cancro que num país em que a mortalidade infantil é de duzentos por mil aos cinco anos» [8].

 

A polémica durou vários meses, e o diário londrino Financial Times publicou na sua edição de 10 de Fevereiro de 1992 longos fragmentos da nota sob o título «Preservai o planeta dos economistas» [9].

 

A direcção do Banco comunicou que o conteúdo da nota não representava a opinião da instituição. Por sua vez, Lawrence Summers reprovou ao The Economist que publicasse uma nota interna. Ao que o semanário respondeu que se não o tivesse feito, o Banco não teria dado a conhecer a sua opinião.

 

No fundo, Lawrence Summers mantém uma posição produtivista sem fissuras. Numa carta dirigida ao semanário britânico, publicada a 30 de Maio de 1992, escreveu que, na sua opinião, ainda falando do cenário mais pessimista, «o aquecimento climático reduzirá o crescimento em menos de 0,1% anuais durante os próximos duzentos anos (...) Agitar o espectro dos nossos netos empobrecidos se não defrontamos os problemas ambientais globais é pura demagogia». E acrescentou; «O argumento de que as nossas obrigações morais com as futuras gerações exigem um tratamento especial dos investimentos ambientais é uma estupidez» [10].

 

O que o futuro economista chefe do Banco, Nicholas Stern, escreveu num livro financiado pelo Banco, para descrever o seu primeiro meio século de existência, é significativo da amplitude do escândalo causado pelo cinismo do seu economista chefe: «O compromisso do Banco no terreno ambiental foi posto em dúvida por alguns como resultado da publicação, em fins de 1991, pela revista The Economist, de uns fragmentos de uma nota de serviço interno escrita por Lawrence Summers, então economista chefe. A nota de serviço interno sugeria a possibilidade de que as questões ambientais estivessem sobrestimadas no que dizia respeito aos países em desenvolvimento, os quais poderiam reduzir os seus custos marginais negociando ou tolerando as substâncias contaminantes. Apesar de o Banco tomar distância energicamente sobre estas observações, a confiança na sua seriedade em matéria ambiental resultou afectada.» [11]

 

O FMI DEMONSTRA A MESMA CEGUEIRA ANTE O CRESCIMENTO

 

Segundo a lógica das IFI, as Cassandras que pretendem que certos recursos (como os combustíveis fósseis) só existem em quantidades limitadas serão refutadas pelos factos. As reservas de petróleo ou de gás são colossais e não conhecemos mais do que uma parte insignificante delas. Anne Krueger, economista chefe e vice­‑presidenta do Banco Mundial de 1982 a 1987 e directora geral adjunta do FMI desde o ano 2001, explicava a 18 de Junho de 2003 em São Petersburgo, por ocasião do 7º Foro económico internacional, que as reservas de petróleo são mais consideráveis hoje do que em 1950, que nenhum dano irreparável se causou ao ambiente do planeta [12]. Segundo ela, quanto mais avancemos no tempo, mais reservas de petróleo encontraremos e, ainda assim, depois de uma fase normal de degradação ambiental, a situação melhorará segundo umas leis objectivas da economia. Efectivamente, sempre segundo ela, a partir do momento que o crescimento permite a um país atingir o nível crítico do PIB de 5.000 dólares per capita, a sociedade começa a fazer os gastos necessários para a redução da contaminação, «Também não causamos danos irreparáveis ao ambiente. Está claro que depois de uma fase inicial de degradação, o crescimento económico provoca a seguir uma fase de reparação. O ponto crítico em que as pessoas optam por investir na prevenção da contaminação e na limpeza das zonas contaminadas situa­‑se em redor de um PIB por habitante de 5.000 dólares.»

 

O Banco, como o FMI, afirma que a redução da pobreza resultará mecanicamente do crescimento (e do livre comércio, como veremos mais adiante). O Relatório sobre o desenvolvimento no mundo de 1980, publicado pelo Banco afirma: «Com a prossecução de um crescimento lento, milhões de pessoas dos países em desenvolvimento serão progressivamente mais pobres; com um crescimento acelerado, quase todo o mundo gozará de um aumento dos seus rendimentos reais.» [13]

 

Analisámos dezasseis discursos pronunciados entre Março de 2002 e Março de 2004 por Anne Krueger, como primeira directora geral adjunta do FMI. Em todos põe o acento sobre o crescimento como meio de reduzir a pobreza. Num discurso pronunciado a 31 de Março de 2004 em Washington, Anne Krueger não se detém aí, acrescenta que o crescimento é geral nos PED e produz um excedente orçamental que lhes permite reembolsar a dívida. O raciocínio é o seguinte: o facto de gerar este excedente para pagar a dívida é uma pré­‑condição do crescimento, sendo este o melhor meio para reduzir a pobreza. «A evidência económica é terminante: um quadro económico estável que inclua um excedente primário que permita o pagamento da dívida é a condição prévia de um crescimento rápido e sustentado; este, por sua vez, é o melhor meio para reduzir a pobreza.» [14]

 

A vacuidade desta ideologia produtivista foi demonstrada, em particular, por François Perroux, que assegura que o crescimento pode ser empobrecedor.

 

«É assinalável que a análise do próprio conceito de crescimento, tal como foi definido, empregado teoricamente e formalizado no decurso dos últimos trinta anos, revela a sua insuficiência radical para fundar uma política económica a respeito dos países em desenvolvimento ou praticada por eles. O aspecto dos fenómenos que retém e isola por construção é, por si só, inapropriado para definir uma estratégia para uso dos países ricos, e com mais razão, dos países pobres.

 

“O crescimento para quê?”, “com vista a quê”, “o crescimento, benéfico em que condições?”, “o crescimento para quem?”, “para alguns membros da comunidade internacional ou para todos?” Como responder coerentemente se se trata de agregados supostos homogéneos por construção? Estas perguntas estão na base das reivindicações dos países em desenvolvimento, mas há que entender que elas se impõem a qualquer um que se preocupe com os modelos operativos e com a política concreta.

 

No universo dos objectos, das coisas, estes interrogantes incluem o ser humano, o indivíduo, o agente (actor), não só o produtor ou o consumidor, escravo do mercado e submetido ao sistema geral dos preços, mas também os indivíduos e os seus grupos capazes de mudar o seu ambiente pelas suas actividades intencionais e organizadas. Actualmente, ninguém ignora que o crescimento pode ser empobrecedor se, por exemplo, implica a destruição ou a deterioração dos recursos naturais. Ignoramos tudo o que há que incluir na expressão imaginária: amortização humana. [...]

 

Tomar em consideração o desenvolvimento é fazer compreender o perigo do crescimento sem desenvolvimento. Realiza-se manifestamente quando, nos países em desenvolvimento, a animação económica se limita às implantações de firmas estrangeiras ou de grandes obras sem irradiar-se a toda a sociedade [...]» [15].

 

UM EXEMPLO EMBLEMÁTICO DA PROSSECUÇÃO DO MODELO PRODUTIVISTA: O OLEODUTO CHADE­‑CAMARÕES

 

Trata­‑se de um projecto que serve directamente os interesses das multinacionais petrolíferas e dos Estados Unidos. Os trabalhos começaram em 2000 e concluíram em fins de 2003. O consórcio apoiado e financiado parcialmente pelo Banco Mundial é dirigido pela ExxonMobil Corp (Estados Unidos) e inclui ainda a ChevronTexaco (Estados Unidos) e a Petronas (Malásia). O objectivo é levar o petróleo cru mediante um oleoduto de mais de 1000 Km do Chade ao oceano Atlântico via os Camarões. Na costa camaronesa o crude é carregado em navios tanques para ser encaminhado para os lugares de refinação nos países industrializados.

 

Este projecto é parte da nova estratégia dos Estados Unidos que consiste em diversificar as suas zonas de abastecimento de petróleo, reforçando em particular a posição relativa de certos países africanos (Nigéria, Angola, Guiné Equatorial, Chade...). Trata­‑se de um dos inumeráveis projectos de extracção de matérias primas sem transformação no lugar. O projecto gera uma quantidade mínima de postos de trabalho fixos (umas centenas) nos dois países em questão, apesar de representar à partida um investimento de 3.500 milhões de dólares. Todo o material e todo o pessoal qualificado são estrangeiros. Nos Camarões, o oleoduto atravessa ou bordeja zonas florestais frágeis onde vivem dezenas de comunidades de pigmeus. As indemnizações concedidas às populações afectadas são irrisórias (ver Los Angeles Times, 17 de Junho de 2003).

 

Com frequência, o projecto é apoiado com entusiasmo pelas autoridades chadianas e camaronesas pois o contrato prevê que, num período de 30 anos, o Chade (onde se encontra o campo petrolífero) receberá 2.500 milhões e os Camarões 500 milhões. O Banco Mundial e o governo dos Estados Unidos realizam uma activa campanha de propaganda sobre os supostos benefícios do projecto. Localmente, as autoridades chadianas e camaronesas fazem o mesmo. A imprensa internacional não se fica atrás, como ilustra o seguinte fragmento de prosa. Sob o título «Na guerra contra a pobreza, o oleoduto do Chade desempenha um papel surpreendente: para libertar algumas riquezas enterradas, o Estado renúncia a controlar as suas despesas em líquido», o diário financeiro The Wall Street Journal (WSJ) publicou na primeira página da sua edição de 26 de Junho de 2003: «Noutro deserto levanta­‑se a poeirada de outro projecto fundador de Estado. Os enormes camiões e equipas de perfuração mobilizados pelo consórcio dirigido pela Exxon-Mobil rugem através da areia e do matagal de Kome (Chade), onde estão afectados a um dos mais importantes investimentos privados na África subsaariana (3.500 milhões)». Lendo o WSJ, imaginamo­‑nos de volta aos tempos de Livingstone e Stanley: «O crude percorre 663 milhas por um oleoduto que desliza sob os rios infestados de hipopótamos, de sabanas abrasadas pelo sol, da selva virgem e dos territórios de caça dos pigmeus Bakolas, antes de verterem nas cubas gigantescas ordenadas no mar atlântico ao largo da costa camaronesa. Esta é a parte mais simples.»

 

A seguir vem a copla humanitária: «O itinerário seguido pelo dinheiro do petróleo chadiano é mais aventuroso. Pela primeira vez um país aceitou renunciar a exercer o controle de como se gasta o dinheiro ganho com as suas reservas de petróleo. Os benefícios da venda do crude dos primeiros três campos de exploração chadianos (dos que se prevê que superarão os 100 milhões de dólares por ano, isto é, quase o dobro dos rendimentos fiscais do país) circularão por um canal concebido pelo Banco Mundial e outros organismos exteriores, e controlado por um comité chadiano constituído por personalidades cristãs e muçulmanas e outros dirigentes locais. A sua função é assegurar que o dinheiro se gaste correctamente em projectos de desenvolvimento, como escolas, dispensários e estradas, em lugar de desaparecer nas contas secretas no estrangeiro (como ocorreu na Nigéria), ou de servir para alimentar guerras civis (como em Angola e Sudão).» A dimensão estratégica não está ausente: «Se o projecto tem sucesso (...) poderia constituir um modelo que mostre como multinacionais, associações de cooperação e Estados podem colaborar para explorar as riquezas minerais do Iraque e outros países.» Os interesses dos Estados Unidos não se esquecem: «Para os Estados Unidos, o projecto chadiano representa uma importante fonte de petróleo junto do Médio Oriente e, portanto, mediante a Exxon, outra forma de se implantar em África.»

 

Enfim, a copla sobre a luta contra a pobreza: «O projecto também poderia abrir uma nova frente essencial na luta contra a pobreza que alimenta o ódio, sobre a qual floresce o terrorismo.»

 

O que o WSJ não recolhe é que no ano 2000, o Banco Mundial teve que suspender momentaneamente o envio de fundos, pois o ditador chadiano Idriss Déby empregou os primeiros milhões de dólares na compra de armas a fim de reforçar o seu regime. Em 2003, Idriss Déby destituiu o presidente do comité de supervisão encarregado de controlar a boa utilização dos fundos. De qualquer modo, todo o esquema montado pelo Banco Mundial e as multinacionais petrolíferas é de pôr em causa: extracção de recursos sem transformação no lugar, abandono do controle de recursos estratégicos, danos ambientais e sociais consideráveis, apoio a regimes antidemocráticos e corruptos...

 

EPÍLOGO

 

No ano 2000, o Banco Mundial encarregou um estudo independente sobre o impacto dos projectos que apoia no sector das indústrias extractivas [16]. A pergunta principal que o Banco formulava era, em essência, a seguinte: Em que medida o investimento que realiza o Grupo do Banco Mundial nas indústrias extractivas contribui para avançar para um desenvolvimento duradouro? Pergunta subsidiária: Qual deve ser no futuro o papel do Banco Mundial neste terreno?

 

No final de 2003, o relatório da comissão independente recomendava especialmente ao Banco «suprimir pouco a pouco o seu apoio a novos investimentos no sector do petróleo e das minas de carvão» e, em essência, pedir o consentimento prévio aos residentes do lugar onde o Banco pensa realizar um investimento, depois de os ter informado sobre a natureza do projecto. A direcção do Banco decidiu, em Agosto de 2004, não seguir estas recomendações.

 

__________

[1] In Bello, Walden. 2002, Deglobalization. Ideas for a new economy, Zedbooks, p. 53.

 

[2] Para uma análise sistemática destes projectos, ver Rich, Bruce, 1994 , Mortgaging the Earth.

 

[3] Citado por Bruce Rich, op. cit., p. 199.

 

[4] Em Março de 2002, na universidade de Praga, por ocasião de um debate público em que me opunha a Matt Carlson, vice­‑presidente do Banco Mundial, encarregado das relações com a sociedade civil, este respondeu­‑me que não devia preocupar­‑me pela situação de Moçambique pois este país registrava uma taxa excepcional de crescimento do seu PIB. Muitas vezes tive ocasião de comprobar até que ponto os representantes do Banco Mundial e do FMI se aferram a este enfoque, ainda em casos em que é público e notório que o crescimento económico coexiste com a degradação ou a estagnação das condições de vida da população.

 

[5] Lawrence Summers, registrado na conferência de Bangkok de 1991, no curso de uma entrevista com Kirsten Garret, «Background Briefing», Australian Broadcasting Company, segundo programa.

 

[6] Summers citado por George, Susan e Sabelli, Fabrizio, 1994, Crédits sans Frontières, p. 117.

 

[7] Summers citado por George, Susan e Sabelli, Fabrizio, Ibid., p.117.

 

[8] Summers citado por George, Susan e Sabelli, Fabrizio, Ibid., p. 119.

 

[9] Ver Rich, Bruce, Ibid., p. 248.

 

[10] “Summers on Sustainable Growth», carta de Lawrence Summers, The Economist, 30 de Maio de 1992.

 

[11] «The Bank’s commitment to environmental issues was questioned by some as a result of a leak to the Economist magazine, in bate 1991, of extracts from an internal memorandum of Lawrence Summers, then chief economist. The memorandum suggested the possibility that environmental issues were being overemphasized in relation to developing countries, and that those countries might actually have lower marginal costs in dealing with or tolerating pollutants. Although the Bank had to distance itself vigorously from these remarks, faith in its seriousness about environmental matters was shaken» in Kapur, Devesh, Lewis, John P., Webb, Richard. 1997. The World Bank, Its First Half Century, Volume 2: Perspectives, p. 566.

 

[12] «Tomemos esta inquietude imemorial de que um crescimento rápido esgotará os recursos em combustível e que, se isto se produzir, o crescimento se deterá. As reservas de petróleo são mais consideráveis hoje do que em 1950. Nesse momento calculava­‑se que as reservas mundiais de petróleo se esgotariam em 1970. Isto não ocorreu. Hoje, as reservas conhecidas podem durar 40 anos à taxa de consumo actual. Não cabe dúvida de que quando cheguemos a 2040, a investigação e o desenvolvimento terão conseguido novos avanços na produção e utilização da energia». Anne Krueger, extractos do discurso pronunciado a 18 de Junho de 2003 em São Petersburgo. Acessível no lugar do FMI.

 

[13] «with a continuation of slow growth, millions of people in many developing countries will become progressively poorer ; with faster growth, almost everybody in the world will enjoy some increase in real income». World Bank, World Development Report, Washington, 1980, p. 38, citado in Kapur, Devesh, Lewis, John P., Webb, Richard. 1997. The World Bank, Its First Half Century, Volume 2: Perspectives, p. 550.

 

[14] «The economic evidence is overwhelming – a stable macroeconomic framework, including a primary surplus consistent with debt service obligations, is an essential prerequisite for sustained, rapid growth; and this in turn is the best way of reducing poverty» www.imf.org/external/np/speeches/2004/033104.htm.

 

[15] François Perroux, Pour une philosophie du nouveau développement, Paris, Aubier, 1981.

 

[16] Na Internet encontram­‑se dados sobre o relatório da comissão independente bem como das actividades do Banco no sector das indústrias extractivas: www2.ifc.org/index.htm. O relatório em inglês está acessível em www.eireview.org.