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Mundo

26/08/2004

 

Sexagésimo aniversário de Bretton Woods:

Um Banco sob influência

 

Eric Toussaint

CADTM

 

O Banco Mundial celebra em 2004 sessenta anos de história. É a ocasião de empreender a publicação de uma série de textos sobre esta instituição e a sua irmã gémea, o Fundo Monetário Internacional. Neste texto, depois de uma breve exposição do que foi a Conferência de Bretton Woods de 1944, se analisará de forma sistemática a influência dos Estados Unidos sobre o Banco Mundial. A atitude do Banco em relação a uma série de países é passada em revista: a Nicarágua, a Guatemala, a Jugoslávia, o Chile, o Vietname, o Egipto, o Iraque.

 

A ideia segundo a qual o Banco Mundial se teria convertido numa enorme burocracia que se teria libertado progressivamente da influência dos Estados não corresponde à realidade. Esta concepção, ainda que não desprovida de todo fundamento, é errónea. Ela é notavelmente expressada pelo ecologista norte­‑americano Bruce Rich no seu agudo livro sobre o Banco Mundial [1]. Na realidade, o Banco Mundial está firmemente sob o controle do governo dos Estados Unidos. Este negocia com os governos de outras grandes potências capitalistas a política a seguir conjuntamente no seio do Banco Mundial. No entanto, ocorre de forma regular que não se dê ao trabalho de realizar os esforços necessários para chegar a um consenso com os seus principais sócios (desde finais dos anos 1950, trata­‑se do Japão, da Alemanha, da Grã­‑Bretanha e da França) e imponha directamente os seus pontos de vista ao Banco. Também lhe ocorre que chegue a situações de uma relação tensa com o presidente do Banco e/ou com a sua direcção em sentido lato. Há também que ter em conta a intervenção, mais ou menos activa segundo as épocas, do Congresso dos Estados Unidos. Em numerosas ocasiões, o executivo dos Estados Unidos teve que negociar com o Congresso a atitude a ter para com o Banco e as suas actividades [2]. O Banco mundial, ainda que submetido de forma sistemática ao exercício da influência dos Estados Unidos, não deixa de dispor de uma certa autonomia, sendo aí que se encontra o espaço para uma lógica própria que entra por vezes em conflito com os interesses imediatos do governo dos Estados Unidos. Por outro lado, não há que perder de vista os estreitos laços entre o grande capital dos Estados Unidos e o Banco.

 

1. BRETTON WOODS : NASCIMENTO DO FMI E DO BANCO MUNDIAL [3]

 

A 1 de Julho de 1944, na inauguração da Conferência monetária e financeira das Nações Unidas, conhecida sob o nome de conferência de Bretton Woods [4], ante os representantes de 44 países, o discurso de abertura de Henry Morgenthau, secretário do Tesouro dos Estados Unidos e presidente da conferência deu o tom da reunião e, aliás, encarnou o seu espírito. Contemplava «a criação de uma economia mundial dinâmica na qual os povos de cada nação serão capazes de realizar as suas potencialidades na paz e gozar cada vez mais dos frutos do progresso material sobre uma Terra abençoada por riquezas naturais infinitas».

 

Pôs o acento no «axioma económico elementar de que a prosperidade não tem limite fixo. Não é uma substância finita que se possa diminuir dividindo­‑a». E concluiu assim: «A oportunidade que se nos oferece, foi comprada com sangue. Façamos­‑lhe a honra mostrando a nossa fé num futuro comum» [5].

 

Este discurso consensual dissimulava as azedas discussões que se desenvolviam havia meses entre as delegações britânica (Lorde J. M. Keynes em primeiro lugar) e americana (H. Morgenthau e Harry White). O debate entre norte­‑americanos e britânicos tinha sido lançado desde antes da entrada na guerra dos Estados Unidos. Winston Churchill tinha declarado ao presidente Roosevelt: «Penso que você deseja abolir o império britânico. (...) Tudo o que diz o confirma. Apesar disso, sabemos que é a nossa única esperança. E você sabe que o sabemos. Sem a América, o império britânico não poderá aguentar» [6]. Os Estados Unidos realizaram os seus objectivos e as posições que J. M. Keynes defendeu em Bretton Woods, ainda que louvadas oficialmente, foram marginalizadas por H. Morgenthau.

 

 

A redacção dos estatutos do Fundo monetário internacional ocupou quase exclusivamente as primeiras semanas de reunião. A suas disposições estavam igualmente em discussão desde há meses. O primeiro objectivo dos Estados Unidos estava concentrado em pôr em pé um sistema que garantisse a estabilidade financeira do pós-guerra: nunca mais desvalorizações competitivas, restrições aos intercâmbios, quotas de importação e qualquer outro dispositivo que atrofiasse o comércio. Os Estados Unidos queriam o livre comércio sem discriminação para os seus produtos - reivindicação incontornável no sentido em que eram então o único país do Norte que dispunha de um excedente considerável de bens e serviços. Procuravam depois um clima favorável aos seus investimentos nas economias estrangeiras e, finalmente, o livre acesso às matérias primas, acesso limitado precedentemente pelos impérios coloniais europeus e japonês. Era portanto indispensável aos seus olhos organizar o sistema financeiro mundial para que a sua economia pudesse dispor de sócios comerciais fiáveis e crescer sem entraves.

 

A criação do FMI mobilizava pois todas as energias com o objectivo de facilitar um comércio mundial livre. Era o americano Harry White [7] quem dirigia as negociações com o seu concidadão Henri Morgenthau. Pelo contrário, no começo da conferência tratava­‑se apenas da questão de um banco, no entanto encarregado de uma missão precisa, técnica e limitada no tempo: a reconstrução do pós­‑guerra da Europa mas sem grandes vantagens. A palavra “desenvolvimento” em particular não tinha sido pronunciada na sessão inaugural e foi somente nos trabalhos da comissão dirigida por Keynes que a fórmula foi associada ao objectivo de reconstrução. Keynes, efectivamente, previa que, se a reconstrução era a principal ocupação do banco projectado, «quando fosse possível, e cada vez mais com o curso do tempo, deverá cumprir o dever de desenvolver os recursos e a capacidade produtiva do mundo, concedendo um atendimento particular aos países menos desenvolvidos, melhorar em todo o lado o nível de vida e as condições de trabalho, tornar os recursos do mundo mais plenamente disponíveis para toda a humanidade» [8].

 

2. A INFLUÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS SOBRE O BANCO

 

«Ao longo da história do Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento (o Banco Mundial), os Estados Unidos foram o maior accionista e o país membro mais influente. O apoio dos Estados Unidos ao Banco, as pressões que exerceram sobre ele, as críticas que lhe dirigiram jogaram um papel central no seu crescimento e na evolução das suas políticas, programas e práticas» [9]. É com estas frases que começa o capítulo sobre as relações entre os Estados Unidos e o Banco Mundial de 1945 a 1992 publicado no livro oficial encomendado pelo Banco Mundial para recordar os seus primeiros 50 anos de existência [10].

 

Outros extractos do mesmo texto reproduzidos a seguir não precisam de comentários de tal modo são explícitos:

 

«E a direcção do Banco passa muito mais tempo a reunir-se, a consultar e a responder aos Estados Unidos do que com qualquer outro país membro. Ainda que esta interacção intensa tenha mudado pouco no decurso dos anos, a forma como os Estados Unidos mobilizam outros países membros para que apoiem os seus pontos de vista mudou consideravelmente. Inicialmente, era tão predominante que as suas posições e a decisão da direcção eram virtualmente indistinguíveis» [11].

 

«Os Estados Unidos encararam todas as organizações multilaterais, incluindo o BM, como instrumentos da sua política externa, a utilizar em função das metas e objectivos dos Estados Unidos» [12].

 

«Os Estados Unidos ficam com frequência impacientes com o processo de construção do consenso sobre no qual assenta a cooperação multilateral» [13].

 

«A preocupação de conter o comunismo e a mudança no poder relativo dos Estados Unidos no mundo explicam grande parte da evolução das relações dos EUA com o Banco Mundial durante os últimos 50 anos» [14].

 

«A crise da dívida no Sul e a queda do comunismo na Europa de Leste resultaram num renovado interesse dos Estados Unidos pelo Banco Mundial» [15].

 

3. REGRESSO À ORIGEM DO BANCO MUNDIAL E A INFLUÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS

 

«Em contraste com o FMI, que é o resultado de uma negociação intensa entre os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, o Banco é em grande parte uma criação americana. O papel dos EUA foi reconhecido por John Maynard Keynes nas suas palavras de introdução à conferência de Bretton Woods» [16].

 

«O resultado foi uma influência poderosa e duradoura dos Estados Unidos sobre todos os aspectos do Banco, incluindo a sua estrutura, a orientação política geral, e forma de conceder os empréstimos» [17].

 

Entre os assuntos que dividiam os participantes na conferência de Bretton Woods figurava a localização da sede do FMI e do Banco. O Tesouro americano queria que fosse estabelecida em Washington, ao alcance da sua influência, enquanto várias delegações estrangeiras teriam preferido Nova Iorque de forma a pôr uma distância em relação ao governo dos Estados Unidos, por um lado, e que a aproximá­‑la da futura sede das Nações Unidas, por outro lado. J. M. Keynes tinha pedido explicitamente que se mantivessem o Banco e o FMI afastados do Congresso dos Estados Unidos e, acrescentava, da influência das embaixadas; era preciso escolher Nova Iorque como sede. O secretário de Estado do Tesouro, Henri Morgenthau, tinha respondido que era preciso deslocar o centro do mundo de Londres e de Wall Street para o Tesouro dos Estados Unidos. A argumentação de Morgenthau era hábil face às demais delegações na medida em que à saída da Segunda Guerra Mundial, o império britânico, ainda que cambaleando, permanecia ainda intacto; daí a vontade de não colocar a sede das novas instituições financeiras em Londres e ao lado da primeira praça financeira, a City de Londres. A segunda parte da argumentação é também hábil na medida em que Wall Street em Nova Iorque era sinónimo da dominação do mundo dos negócios que tinham produzido a catástrofe de 1929.

 

Mas para além da habilidade do argumento, era claro que no fundo, Morgenthau queria efectivamente, como declara, colocar o centro das novas instituições financeiras ao alcance do Tesouro. Mas o que ele não dizia explicitamente, pois isso teria reduzido a força do seu argumento, é que desejava uma relação estreita entre a direcção do Banco e o mundo dos negócios norte­‑americano. Dos oito presidentes do BM, seis, incluído o primeiro, provinham directamente do mundo dos negócios (ver acima).

 

Voltemos ao debate entre Keynes e Morgenthau a propósito do Banco Mundial. Para evitar uma influência demasiado forte do governo dos Estados Unidos sobre o comité de direcção do Banco, Keynes propunha que os seus membros (os directores executivos) compartilhassem a sua actividade entre o seu país de origem e a sede do Banco Mundial: propunha portanto que trabalhassem a tempo parcial [18]. A proposta do Tesouro prevaleceu: os directores executivos são residentes permanentes em Washington e a sede das duas instituições está a cinco minutos a pé da Casa Branca.

 

No voto no Congresso americano sobre a participação dos Estados Unidos no Banco Mundial e no FMI, saiu uma maioria esmagadora (345 contra 18 na Câmara de representantes; 61 contra 16 no Senado), o que não é muito habitual. Há que o comparar com a divisão, inclusive a oposição, do Congresso sobre a participação dos Estados Unidos na Organização Internacional do Comércio em 1947. Face ao perigo de ver a ratificação da carta de Havana rejeitada por uma maioria do Congresso, ou aprovada por uma débil maioria, o executivo dos Estados Unidos tinha decidido não submeter esta questão a voto. Philippe Vincent diz: «A Carta de Havana não entrou no entanto nunca em vigor. Os Estados Unidos nunca a ratificaram, devido às numerosas oposições encontradas no seio do Congresso (...). Uma Organização Internacional do Comércio sem participação dos Estados Unidos, primeira potência comercial mundial, já não tinha nenhum sentido. Como consequência da rejeição americana, os demais países signatários foram abandonando a ideia de ratificar a Carta» [19]. Na ausência de ratificação por parte dos Estados Unidos, a Organização Internacional do Comércio tinha nascido morta.

 

Enquanto o Banco tinha sido concebido principalmente para a reconstrução dos países devastados pela Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos preferiram lançar sós o plano Marshall pois assim controlavam totalmente a marcha das operações e porque podiam assim recorrer a donativos.

 

Ainda que tenha jogado um papel afinal de contas marginal em termos de reconstrução, o Banco concedeu no entanto alguns empréstimos, começando pelo primeiro da sua história: 250 milhões de dólares à França em Maio de 1947 [20]. Segundo a contribuição de Catherine Gwin, o governo dos Estados Unidos queria que o Banco concedesse um empréstimo à França na condição de que o Partido Comunista Francês (PCF) fosse afastado do governo. O departamento de Estado fez uma diligência explícita e formal nesse sentido. O PCF foi expulso da coligação governamental e, nas horas que se seguiram, o representante do Banco mundial anunciou que o empréstimo de 250 milhões de dólares tinha sido concedido. Este facto indica a influência directa exercida pelo executivo dos Estados Unidos sobre o Banco e as decisões políticas que presidiam a esta intervenção. No mesmo estudo, a autora indica que em 1947, os Estados Unidos intervieram com sucesso para impedir a concessão de um empréstimo à Polónia e à  Checoslováquia pois os governos desses países incluíam comunistas [21].

 

Desde o começo das suas actividades, a política do BM tem estado determinada pelo contexto da guerra fria e a orientação dos Estados Unidos nesse quadro.

 

4. O PRESIDENTE DO BANCO MUNDIAL FOI SEMPRE UM CIDADÃO DOS ESTADOS UNIDOS PROPOSTO PELO GOVERNO DESSE PAÍS

 

Desde a sua origem e até hoje, o presidente do Banco mundial é um cidadão dos Estados Unidos proposto pelo governo. Os membros do Conselho de Governadores contentam­‑se com ratificar o candidato apresentado pelos Estados Unidos. Trata­‑se de um privilégio e isso não figura nos estatutos do Banco. Se bem que o estatuto o permita, em nenhum momento, até agora, um governador do Banco Mundial se aventurou – em todo o caso, publicamente [22] – a propor um candidato de outro país ou sequer um candidato estado­‑unidense que não fosse o seleccionado pelo governo [23].

 

5. O DIREITO DE VETO DOS ESTADOS UNIDOS NO BANCO MUNDIAL

 

Desde a origem aos nossos dias, os Estados Unidos são os únicos que dispõem de um direito de veto no BM. No momento da sua criação, os Estados Unidos dispunham de 35,07% dos votos [24]; na última modificação dos direitos de voto, realizada em 2002, dispõem de 16,41%. Ao princípio, em 1947 (ano de início da actividade do Banco), a maioria requerida para modificar os estatutos era de 80% (detidos por pelo menos 60% dos países membros), o que dava aos Estados Unidos um direito de veto já que, naquele momento, dispunham de 37,20% dos direitos de voto. A onda de independências dos países do Sul aumentou o número de países membros do Grupo do Banco Mundial, diluindo progressivamente o peso em votos dos Estados Unidos. Mas estes tiveram o cuidado de preservar o seu direito de veto: em 1966, não dispunham de mais do que 25,50% dos direitos de voto mas essa percentagem era ainda suficiente para isso.

 

Quando em 1987, isto já era insustentável para eles, a maioria qualificada foi modificada de forma muito oportuna para eles. Efectivamente, nesse ano, o Japão [25] negociou com os Estados Unidos um aumento significativo dos seus direitos de voto, posicionando­‑o como o segundo país em importância, à frente da Alemanha e da Grã­‑Bretanha. A fim de conceder este aumento ao seu aliado japonês, os Estados Unidos aceitaram uma redução dos seus direitos de voto na condição de a maioria requerida ser elevada a 85%. Desta forma, ao mesmo tempo que satisfaziam o pedido do Japão, os Estados Unidos mantinham o seu direito de veto.

 

«Os Estados Unidos são também o membro dominante na direcção do Banco – mas só em parte é o principal accionista. Formalmente, a maior parte das decisões do Banco, incluídas as que se referem aos empréstimos e à concessão destes, requerem um voto de maioria simples do Conselho de Administração». O que quer dizer que os Estados Unidos poderiam ser postos em minoria. Mas o autor continua: «As decisões são, contudo, frequentemente trabalhadas entre os Estados Unidos e a direcção do Banco antes de chegarem ao Conselho de Administração, ou entre os membros do Conselho antes de irem a votação. E a maioria das decisões do Conselho de Administração são tomadas por consenso. É o peso da sua voz, portanto, mais do que o exercício do seu voto o que dá aos Estados Unidos poder efectivo sobre a direcção» [26].

 

6. A INFLUÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS SOBRE O BANCO EM CASOS CONCRETOS DE PAÍSES

 

Apresentaremos os casos de 5 países a fim de ilustrar a influência dos Estados Unidos nas escolhas operadas pelo Banco. Para isso, iremos basear­­‑nos­ unicamente nos dois livros encomendados pelo Banco Mundial para recordar a sua própria história [27]. Confirmámos as informações fornecidas por estes livros com outras fontes, geralmente críticas do Banco. A escolha não foi fácil, na medida em que dispomos de uma profusão de exemplos. De facto, segundo os dois livros mencionados acima, os casos em que a opinião do governo dos Estados Unidos não prevaleceu contam­‑se pelos dedos das duas mãos.

 

6.1. A NICARÁGUA E A GUATEMALA

 

A América central é considerada pelo governo dos Estados como fazendo parte da sua zona de influência exclusiva. A política adoptada pelo Banco mundial em termos de empréstimos aos países da região é directamente influenciada pela escolha política do governo dos estados Unidos. O caso da Nicarágua ou da Guatemala no decurso dos anos 1950 é totalmente claro. Retomamos aqui uma passagem: «Um dos principais países devedores do ponto de vista do número de empréstimos era a Nicarágua, um país de um milhão de habitantes controlado pela família Somoza [28]. “Washington e os Somoza consideravam a sua relação mútua como lucrativa. Os Estados Unidos apoiavam os Somoza e os Somoza apoiavam os Estados Unidos aquando das votações nas Nações Unidas ou nos organismos regionais. Somoza ofereceu o território nicaraguano como base de treino e de partida das forças cubanas no exílio que findaram num desastre na Baía dos Porcos em 1961” (Anthony Lake, Somoza Falling, Houghton Mifflin, 1989, p. 18). Entre 1951 e 1956, a Nicarágua recebeu novos empréstimos do Banco mundial e um em 1960. Uma base militar americana foi estabelecida em 1953 donde foi lançada a operação da Central Intelligence Agency (CIA) que permitiu o derrube do presidente guatemalteco Jacobo Arbenz que tinha legalizado o partido comunista e que ameaçava expropriar os bens da United Fruit Company. A própria Guatemala, que tinha uma população três vezes superior à da Nicarágua, e se bem que tenha sido um dos primeiros países a receber uma missão de estudos do Banco (publicados em 1951), teve de esperar por 1955 para receber o seu primeiro empréstimo depois do derrube do seu regime “comunista”» [29] (sou eu que traduzo).

 

Após a queda de Somoza em 1979, os Estados Unidos tentaram por diferentes meios políticos, económicos e militares desestabilizar e depois derrubar o novo regime sandinista. Isso foi objecto de um recurso ante o Tribunal Internacional de Justiça de Haia contra os Estados Unidos. Isso originou um julgamento em 1986 pelo qual ele condenou os Estados Unidos pela violação das obrigações impostas pelo direito internacional, em particular, a interdição da utilização da força (artigo 2 § 4 da Carta das Nações Unidas) e a interdição de atentar contra a soberania de um outro Estado [30].

 

Noque diz respeito à atitude do Banco para com o regime sandinista no decurso dos anos 1980 e a influência que sobre ele exerceu o governo dos Estados Unidos, citamos aqui um extracto do estudo de Catherine Gwin: «A Nicarágua dos anos 1980 constitui um exemplo mais recente demonstrando que a recusa de emprestar do Banco coincide claramente com a política dos Estados Unidos. A razão invocada para a suspensão dos empréstimos era a acumulação de atrasos. Contudo, em Setembro de 1984, o governo nicaraguano propôs formalmente uma solução para o problema dos atrasos» [31] (sou eu que traduzo).

 

Catherine Gwin explica de seguida as propostas concretas formuladas pela Nicarágua e explica que, se bem que as propostas fossem aceitáveis, nenhum esforço foi feito pelo Banco para ajudar o regime sandinista. Ela indica que isso contrasta com a flexibilidade adoptada pelo Banco para com outros regimes que eram os aliados dos estados Unidos.

 

6.2. A JUGOSLÁVIA

 

A fim de reforçar a distância tomada pelo regime do marechal Tito para com a União Soviética, o governo dos Estados Unidos levou o Banco a acordar um empréstimo à Jugoslávia no fim dos anos 1940. Como mostra a citação seguinte, o governo dos Estados Unidos preferiu ajudar a Jugoslávia via o Banco em vez de conceder uma ajuda bilateral directa, pois temia ser criticado no seio do Congresso pelos numerosos parlamentares que se opunham ao apoio a um regime comunista [32]: «O Banco emprestou à Jugoslávia logo depois da sua ruptura com o bloco soviético em 1948. George Kennan [33] recomendou «um apoio discreto e não ostentatório» da parte do Ocidente temendo a reacção russa e consciente de que o Congresso não queria apoiar um país comunista. O Banco mundial era um veículo apropriado para representar um tal papel e uma missão partiu para Belgrado no ano seguinte» [34] (sou eu que traduzo). O presidente do Banco Eugene R. Black viajou em pessoa para negociar directamente com o marechal Tito.

 

6.3. O CHILE

 

A seguir à eleição de salvador Allende em 1969 e a instalação do governo de Unidade popular, o Banco, sob pressão dos Estados Unidos, suspendeu os seus empréstimos ao Chile entre 1970 e 1973. O caso do Chile mostra que pode haver contradição entre o julgamento do Banco e a posição do governo dos Estados Unidos, este obtendo finalmente que aquele modifique a sua posição. Se bem que a direcção Banco considerasse que o Chile preenchia as condições para receber empréstimos, o governo dos Estados Unidos conseguiu que nenhum empréstimo fosse acordado ao governo de salvador Allende. Catherine Gwin resume da maneira seguinte este caso emblemático: «Os Estados Unidos exerceram pressão sobre o Banco a fim de que ele não emprestasse ao governo de Allende após a nacionalização das minas de cobre chilenas. Apesar da pressão, o Banco enviou uma missão a Santiago (tendo determinado que o Chile adoptava uma atitude conforme às regras do Banco que prevê que, para que um empréstimo seja concedido após uma nacionalização, procedimentos com vista a uma indemnização estejam em curso). Robert McNamara encontrou­‑se de seguida com Allende para indicar que o Banco estava disposto a fazer novos empréstimos na condição de o governo estar disposto a reformar a economia. Mas o Banco e o regime de Allende não puderam pôr­‑se de acordo sobre os termos de um novo empréstimo. Ao longo de todo o período do regime de Allende, o Chile não recebeu empréstimos. Logo depois do assassinato de Allende em 1973, após um golpe que levou ao poder a ditadura militar do general Pinochet, o Banco recomeçou com os empréstimos, fornecendo um crédito de 15 anos para o desenvolvimento de minas de cobre. (...) A suspensão dos empréstimos em 1970­‑73 foi citada no relatório do Tesouro para o ano de 1982 como um exemplo significativo de exercício frutuoso da influência dos Estados Unidos sobre o Banco. E se bem que o Banco tenha dado o seu acordo de princípio para um novo empréstimo em Junho de 1973, as propostas de empréstimo não foram tomadas em consideração pelo comité de direcção enquanto não tinha tido lugar o golpe de Setembro que levou o general Pinochet ao poder» [35] (sou eu que traduzo).

 

Note­‑se, para completar a informação, que nos arquivos do Banco mundial, encontra­­‑se um documento pelo qual o governo chileno na ocasião da reunião anual do Banco de Setembro de 1972, protesta contra a suspensão dos empréstimos e indica que projectos elaborados tinham sido submetidos ao Banco [36].

 

Vários documentos internos do Banco regressam de maneira crítica sobre a política do Banco em relação ao Chile sob Allende e sob Pinochet.

 

Alguns anos mais tarde, quando as atrocidades cometidas pelo regime de Augusto Pinochet provocavam vivos protestos nos Estados Unidos, incluído o Congresso, o governo dos Estados Unidos pediu ao Banco que relatasse uma discussão sobre a concessão de um empréstimo ao Chile de maneira a evitar a oposição do Congresso. Este pedido foi rejeitado pelo presidente do Banco, Barber Conable, numa carta dirigida a James Baker, vice­‑secretário do Tesouro, a 29 de Outubro de 1986. É razoável pensar que o pedido expresso pelo governo dos Estados Unidos não era mais do que uma concessão de fachada para com a opinião pública de modo a parecer sensível às preocupações democráticas expressadas, sabendo que, numa repartição dos papéis, o presidente do Banco iria manter a capa política desejada pelo governo. Em várias ocasiões, o governo dos Estados Unidos pediu à direcção do Banco que repetisse esta encenação.

 

6.3 O VIETNAME

 

Dos anos 1960 até ao fim da guerra do Vietname em 1975, os Estados Unidos estimularam com sucesso o Banco, via a sua dependência AID (Associação Internacional para o Desenvolvimento) a conceder de maneira regular empréstimos ao regime sul­‑vietnamita aliado dos Estados Unidos. Após o fim da guerra, o Banco mundial enviou duas missões de estudo sucessivas que concluíram que as autoridades vietnamitas, se bem que não conduzissem uma política económica de todo satisfatória, preenchiam as condições para receber concessões de empréstimos. Shahid Husain, director da missão do Banco, precisou que o desempenhos económicos do Vietname comunista não eram inferiores aos do Bangladesh ou do Paquistão, eles mesmos ajudados pelo Banco. Apesar disso, a direcção do Banco, sob pressão dos Estados Unidos, suspenderam os empréstimos ao Vietname e o seu presidente, Robert McNamara, afirmou no semanário Newsweek (20 de Agosto de 1979) que a suspensão tinha sido determinada na base do relatório negativo da missão. Esta afirmação é factualmente falsa, como o sublinha Catherine Gwin: «As conclusões da missão, ao contrário do que McNamara disse publicamente na Newsweek, eram que não havia fundamentos sólidos para parar os empréstimos ao Vietname» [37] (sou eu que traduzo).

 

6.4 CONCLUSÃO RESPEITANTE AOS CASOS ESPECÍFICOS DE PAÍSES

 

A direcção do Banco mundial justifica a concessão ou não de empréstimos com razões puramente económicas. Nós mostramos que, na realidade, a política de concessões de empréstimos era determinada pel intervenção do governo dos Estados Unidos junto do Banco na base de objectivos principalmente políticos.

 

Isto não quer dizer que os objectivos económicos não tenham importância, mas são subordinados ou complementares a escolhas políticas e estratégicas. Catherine Gwin, que defende o balanço globalmente positivo da influência dos Estados Unidos sobre o Banco mundial, do ponto de vista dos Estados Unidos, adopta uma conduta rigorosa em que não esconde os aspectos contraditórios da política tanto dos Estados Unidos como da direcção do Banco. A este título, a seguinte observação toma um relevo particularmente interessante: «Certamente, não é imperativo pôr em causa a avaliação feita pelo Banco quanto à situação económica do Chile de Allende, do Vietname ou da Nicarágua sob os sandinistas, mas é de qualquer modo interessante observar que julgamentos de igual modo negativos teriam podido ser feitos a respeito da Nicarágua de Somoza, das Filipinas sob Marcos ou do Zaire de Mobutu, tanto como serem regimes que eram aliados importantes dos Estados Unidos no contexto da guerra fria» [38].

 

7. A INFLUÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS EM MATÉRIA DE EMPRÉSTIMOS SECTORIAIS

 

A partir dos anos 1970, os Estados Unidos usaram sistematicamente a sua influência para tentar convencer o Banco a não conceder empréstimos para facilitar a produção de mercadorias que entrariam em competição com as produzidas pelos Estados Unidos. Foi assim que os Estados Unidos se opuseram regularmente à produção de óleo de palma [39], de citrinos e de açúcar. Os Estados Unidos obtiveram do banco que reduzisse drasticamente em 1987 os empréstimos concedidos à indústria siderúrgica na Índia e no Paquistão. Em 1985, os Estados Unidos opuseram­‑se com sucesso a um projecto de investimento da parte da Sociedade Financeira Internacional (SFI – grupo Banco mundial) na siderurgia do Brasil e mais tarde a um empréstimo do Banco para apoiar a reestruturação do sector siderúrgico do México. Também ameaçaram utilizar o seu direito de veto por causa de um empréstimo à China para a sua siderurgia nos anos 1980. Bloquearam igualmente um empréstimo da SFI a uma companhia mineira para a extracção de minerais de ferro no Brasil. Opuseram­‑se igualmente a um investimento da SFI na indústria do cobre no Chile.

 

Os Estados Unidos influenciaram igualmente activamente o Banco na sua política respeitante ao sector petrolífero. O governo norte­‑americano é favorável a empréstimos para favorecer a perfuração petrolífera, mas não para a refinação. Não são necessários comentarios.

 

8. CASOS DE CONVERGÊNCIAS ENTRE OS ESTADOS UNIDOS E UMA OUTRA POTÊNCIA (A GRí‑BRETANHA NA OCURRÊNCIA)

 

Em repetidas ocasiões, os interesses dos Estados Unidos coincidiram com os doutras potências, sendo a atitude do Banco a resultante de concertações estreitas entre os Estados Unidos, a [Grã­‑Bretanha] ou as outras potências concernentes e o Banco. Dois exemplos: o da atitude do Banco a respeito do projecto de construção da barragem de Assuão sob o regime de Gamal Abdel Nasser e o do Iraque depois da ocupação do seu território pelas tropas dos Estados Unidos, da Grã­‑Bretanha e dos seus aliados em Março de 2003.

 

8.1 O PROJECTO DA BARRAGEM DE ASSUÃO DE GAMAL ABDEL NASSER NO EGIPTO

 

O projecto de construção da barragem de Assuão no Nilo precede a ascensão do coronel Nasser ao poder em 1952. Tomou uma forma definitiva no decurso do ano de 1952 e, em Janeiro de 1953, o ministro das Finanças egípcio escreveu a Eugene Black, presidente do Banco mundial, para lhe propor cofinanciar este gigantesco projecto. Se bem que esta realização de infra­‑estrutura corresponda às prioridades do Banco, a direcção foi reticente em envolver­‑se plenamente na medida em que a Grã­‑Bretanha, nesse momento a segunda potência em direitos de voto no seio do conselho de governadores do Banco, considerava o regime dos militares progressistas como uma ameaça para os seus interesses estratégicos. De facto, os militares egípcios no poder punham em causa a ocupação do canal do Suez pelas tropas britânicas. O presidente Eugene Black visitou pessoalmente o Egipto, discutiu o projecto; o Banco enviou dois engenheiros, etc. O projecto previa uma barragem cuja capacidade de 130 mil milhões de metros cúbicos teria sido quatro vezes superior às maiores barragens artificiais já existentes. A amplitude dos trabalhos oferecia enormes perspectivas às empresas de construção internacionais.

 

As negociações entre o Egipto e a Grã­‑Bretanha para a saída das tropas britânicas tinham findado num acordo, o que diminuiu as reticências da Grã­‑Bretanha e as pressões que ela exercia sobre a direcção do Banco para não conceder os empréstimos. Desde então, os governos norte­‑americano e britânico deram luz verde à direcção do Banco para as negociações, mas fixaram restrições ao dividir a realização do projecto em duas fases: o financiamento da primeira fase estava garantido, enquanto o financiamento da segunda fase dependia da evolução política das autoridades egípcias. Claro, isso não estava explicitado nos acordos, mas foi assim que o governo egípcio o interpretou. Os egípcios que fazer arrancar os trabalhos em 1957, o que implicava assinar o contrato em Julho de 1956. Consequentemente, pediam ao banco que confirmasse o mais rapidamente possível a concessão do financiamento.

 

Em Dezembro de 1955, a reunião de directores executivos do banco deu luz verde a Eugene Black para ir mais longe na negociação com os egípcios na base das condições definidas pelos governos norte­‑americano e britânico. Os egípcios acolheram friamente as condições do Banco. Entretanto, as autoridades britânicas tinham tomado conhecimento que os egípcios tinham assinado um acordo comercial com a união Soviética com vista a trocar algodão contra fornecimentos de armas. Mais, os soviéticos ofereciam­‑se para participar no financiamento da barragem [40]. Os historiadores Mason e Asher comentam a entrada em cena da União Soviética da seguinte maneira: «Estas manobras tinham aumentado o desejo das potências ocidentais de serem elas próprias sócias da barragem» [41] (sou eu que traduzo). Eugene Black, antes de se deslocar ao Cairo a fim de finalizar o acordo com os egípcios, teve contactos aprofundados com o governo dos Estados Unidos que confirmou a sua luz verde. A caminho do Cairo, teve igualmente um contacto aprofundado em Londres com o primeiro­‑ministro britânico. Após dez dias de negociações no Cairo, um ponto fundamental de desacordo subsistia: os egípcios não aceitavam as condições fixadas pelos Estados Unidos e pela Grã­‑Bretanha. No seu regresso a Washington, Eugene Black propôs prosseguir a negociação pois queria chegar a um acordo. Pelo contrário, do lado de Washington e sobretudo de Londres, as reticências aumentavam na sequência da orientação nacionalista árabe do regime egípcio. A oposição dos britânicos aumentou ainda quando o rei da Jordânia dispensou a 1 de Março de 1956 todo o comando britânico da região. Eugene Black encontrava­­‑se desde então cada vez mais isolado, mas os governos deixaram­‑no prosseguir as negociações, dando a entender que poderiam concluir­‑se, quando parecia aos historiadores do Banco que a sua decisão de recusa já estava tomada.

 

No início de Julho de 1956, graças à sua vontade de negociação, Eugene Black obteve de Gamal Abdel Nasser, o primeiro­‑ministro, que declare aceitar as condições fixadas pelas potências ocidentais. Todavia, quando o embaixador do Egipto fez saber oficialmente a 19 de Julho que o Egipto dava o seu acordo, responderam­‑lhe que o governo dos Estados Unidos, nas circunstâncias presentes, decidiu não participar no financiamento da barragem de Assuão. A 20 de Julho, o parlamento britânico foi informado que o governo britânico se retirava do projecto. Mason e Asher precisam que o Departamento de Estado só comunicou ao Banco a sua decisão de se retirar do projecto cerca de uma hora antes da comunicação oficial ser feita na embaixada egípcia. Acrescentam que nesta comunicação os Estados Unidos entrincheiraram­‑se atrás de um juízo negativo do Banco justificado por razões económicas. Enquanto a versão impressa deste texto circulava já nas chancelarias, o vice­‑presidente do Banco obteve do governo americano que retirasse este argumento do texto que seria comunicado à imprensa.

 

Esta anedota é significativa pois mostra que, em certas circunstâncias, o governo dos Estados Unidos tratam de forma ligeira os dirigentes do Banco.

 

Para voltar às consequência políticas fundamentais, recorremos de novo ao parecer de Mason e Asher: «A sequência dramática é conhecida. A 26 de Julho de 1956, o primeiro­‑ministro Nasser anuncia que o governo nacionalizava e tomava o controlo das operações da Companhia do Canal do Suez. A 29 de Outubro, após uma série de incidentes de fronteira, as tropas israelitas invadiam o Egipto, e a 2 de Dezembro começava a acção militar franco­‑britânica contra o Egipto, com o pretenso objectivo de proteger a zona do canal mas, aos olhos de muitos observadores, na realidade, para derrocar o primeiro­‑ministro Nasser» [42] (sou eu que traduzo).

 

O caso da barragem de Assuão mostra que o governo dos Estados Unidos pode juntar os seus esforços a outro governo para exercer uma influência sobre as decisões do Banco mundial quando os seus interesses coincidem. Ele mostra ainda que os Estados Unidos podem entrincheirar­‑se atrás de uma suposta recusa do Banco para ir ao encontro de um projecto fazendo com que aquele enfie o chapéu do contratempo.

 

Num número limitado de casos, o governo dos Estados Unidos deixou outras potências tirar vantagem dos seus meios de influência sobre o Banco. Isso passou­‑se quando os interesses estratégicos dos Estados Unidos não estavam envolvidos nos casos em questão. Foi assim que a França pôde usar a sua influência sobre o Banco para o levar a adoptar uma política conforme aos interesses “franceses”, por exemplo, no que diz respeito à Costa do Marfim.

 

8.2 A OCUPAÇÃO E A RECONSTRUÇÃO DO IRAQUE EM 2003­‑2004

 

A intervenção militar contra o Iraque de Saddam Hussein, seguida da ocupação do seu território fez­‑se sem o acordo da ONU e contra a opinião de várias grandes potências como a França, a Alemanha, a Rússia e a China. Os Estados Unidos, que tomaram a liderança da coalizão que lançou o ataque contra o Iraque, beneficiaram do apoio activo de três outros membros do G7, a Grã­‑Bretanha, o Japão e a Itália, e de potências médias como a Espanha e a Austrália. Desde o mês de Abril de 2003, os Estados Unidos tomaram a iniciativa de negociar no G7 e no quadro do Clube de Paris uma redução substancial das dívidas contraídas pelo regime de Saddam Hussein. Tratava­‑se de alegar o fardo desta dívida a fim de que o novo Iraque, aliado dos Estados Unidos, esteja em condições de contrair novas e de os reembolsar. Complementarmente a esta diligência que analisámos noutro lado [43], o governo dos Estados Unidos colocou sob pressão o Banco mundial e o FMI a fim de que estas duas instituições façam empréstimos às novas autoridades iraquianas que estão directamente sob o seu controlo por intermédio do administrador civil do Iraque, o cidadão estado­‑unidense Paul Bremer. Por diversas declarações realizadas entre o fim de Março e o fim de Maio de 2003, pareceu claramente que tanto o presidente do BM como o director do FMI estavam muito reticentes. As condições prévias à concessão de empréstimos não estão reunidas. Quais eram os problemas?

 

1”) O Iraque não tinha à sua frente autoridades cuja legitimidade fosse reconhecida, na medida em que não exerciam realmente a soberania tendo em conta o papel representado por Paul Bremer e pelas autoridades de ocupação.

 

2”) Em princípio, o BM e o FMI respeitam a regra seguinte: não concedem novos empréstimos a um país que está em falta de pagamento da sua dívida soberana. A pressão exercida pelos Estados Unidos, tanto sobre o BM e o FMI como sobre as potências opostas à guerra, levantou progressivamente os obstáculos na medida em que o conselho de segurança na sua reunião de 22 de maio de 2003 confiou aos Estados Unidos e aos seus aliados a gestão do petróleo iraquiano e levantou o embargo contra o Iraque. O Conselho de segurança não reconhecia a guerra, mas reconhecia o facto consumado da ocupação. Os Estados Unidos e os seus aliados obtiveram do BM e do FMI que participassem activamente na conferência de doadores para a reconstrução do Iraque que teve lugar em Madrid a 23 de Outubro de 2003. O caso do Iraque mostra que os Estados Unidos podem constituir uma aliança para determinar a orientação do Banco e do FMI apesar da reticência dos seus dirigentes principais, James Wolfensohn e Horst Kölher [44].

 

9. DIVERGÊNCIAS ENTRE A DIRECÇÃO DO BANCO MUNDIAL E OS ESTADOS UNIDOS

 

No início dos anos 1970, surgiram divergências entre o executivo dos Estados Unidos e a direcção do Banco. Isso explica­‑se de uma forma simples. Robert McNamara, presidente do BM desde 1968, estava em directa sintonia com os democratas: ele tinha entrado na política graças ao presidente John F. Kennedy que o tinha chamado para o seu lado como conselheiro em 1961; tinha prosseguido a sua carreira sob um segundo presidente democrata Lyndon B. Johnson (como secretário de Estado da defesa) donde a administração o tinha feito nomear como presidente do BM a partir de 1968. Em 1969, a situação muda com a ascensão à presidência do republicano Richard Nixon enquanto o mandato de Robert Mcnamara ainda está em curso. Escaramuças entre a administração Nixon e a direcção do Banco desenrolam­‑se no decurso do ano de 1971. O executivo ordenou expressamente ao director executivo representando os Estados Unidos que votasse contra um empréstimo que o Banco tinha decidido conceder à Guiana. Em 1972, trata­‑se de renovar o mandato de Robert McNamara (um mandato dura cinco anos) ou de o substituir. Os republicanos eram em princípio favoráveis à designação de um dos seus colegas para o posto mas, finalmente, o executivo reconduziu Robert McNamara sem entusiasmo. Parece que o ou os substitutos potenciais encarados pelos republicanos não tinham a estatura suficiente e que certos países europeus encaravam avançar com o seu próprio candidato se Robert McNamara não fosse reconduzido.

 

No decurso do seu segundo mandato, as tensões aumentaram fortemente. Foi assim que o governo contrariou uma iniciativa em que Robert McNamara se tinha empenhado fortemente: ele tinha negociado com os países membros da OPEP a constituição de um novo fundo de financiamento do desenvolvimento alimentado pelos petrodólares. O governo, que queria quebrar o cartel constituído pela OPEP, matou à nascença esta iniciativa. No decurso deste episódio de tensão, foi o secretário de Estado Henry Kissinger quem conduziu a ofensiva contra Robert McNamara. Como alternativa à criação de um fundo especial alimentado pela OPEP, Henry Kissinger propôs aumentar os fundos disponíveis pela sociedade financeira internacional e o Banco mundial [45]. As relações entre Robert Mcnamara e o executivo melhoraram substancialmente com a ascensão de um novo presidente democrata à casa Branca, o presidente Jimmy Carter. Ao ponto de que Robert McNamara foi convidado a participar nas reuniões do Conselho de segurança nacional para discutir o aumento dos meios financeiros destinados à Associação Internacional para o Desenvolvimento.

 

O fim do mandato de Robert McNamara foi bastante movimentado por causa da ascensão de um novo presidente republicano em Janeiro de 1981, Ronald Reagan. Ronald Reagan e os republicanos tinham conduzido campanha a favor de uma mudança radical na política externa dos Estados Unidos com consequências imediatas para o BM. Ronald Reagan propunha reduzir fortemente a ajuda multilateral, e portanto a contribuição dos Estados Unidos para a AID a favor da ajuda bilateral aumentando notavelmente em muito a assistência militar.

 

Significativa do estado de espírito do campo de Reagan, foi a proposta de lei que David Stockman, director do Gabinete de Gestão e do Orçamento (Office of Management and Budget), apresentou em Janeiro, e cuja adopção teria significado a paragem das contribuições dos EUA para a Associação Internacional para o Desenvolvimento (AID) e para as Nações Unidas, e o aumento das despesas de assistência militar. David Stockman resumiu em 1986 da seguinte maneira o sentido da sua proposta apresentada em conjunto com o parlamentar Phil Gramm ao Congresso em Janeiro de 1981: «O plano de orçamento entregue por Gramm e Stockman tinha proposto fortes reduções na ajuda económica estrangeira numa base principal puramente ideológica. Gramm e eu, nós acreditávamos que os organismos de ajuda internacional e do chamado desenvolvimento do Terceiro Mundo... estavam infestados de erros socialistas. A burocracia da ajuda internacional conduzia os países do terceiro Mundo para o beco sem saída da ineficácia auto­‑imposta ao enterrá­‑los sob montanhas de dívidas que eles jamais estariam em condições de pagar» [46] (Sou eu que traduzo).

 

A situação melhorou nitidamente com a designação de um novo presidente para o Banco. A administração escolheu A. W. Clausen, até aí presidente do Banco da América. Entrou em funções a 1 de Julho de 1981. Fizeram a sua entrada no pessoal do Banco vários neoliberais duros, dos quais Anne Krueger que foi incorporada a 10 de Maio de 1982 na qualidade de economista­‑chefe e vice­‑presidente do BM. Lendo mais à frente a carta do presidente Reagan ao líder republicano do Congresso, teremos a prova da mudança de atitude favorável do executivo a respeito do Banco.

 

10. A INFLUÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS VISTA PELO EXECUTIVO

 

Um relatório do Tesouro dos Estados Unidos datando de 1982 felicita­­­‑se da proeminência dos Estados Unidos no seio das instituições financeiras multilaterais. «Se a estrutura e a missão do Banco mundial estão também estreitamente ligadas ao mercado, é essencialmente graças à influência dos Estados Unidos (...). Fomos nós igualmente que fizemos uma entidade estruturada funcionando segundo escrutínio qualificado, dirigida por um conselho de alto nível favorável aos Estados Unidos e administrada por um pessoal competente. Enquanto membro fundador e accionista principal do BM, Estados Unidos gozam do direito único de dispor de um assento permanente no CA do Banco (...). Outros parceiros importantes – direcção, doadores e beneficiários de primeira ordem – reconheceram que os Estados Unidos têm um peso preponderante junto dos bancos (de desenvolvimento multilateral). A experiência fê­‑los perceber que nós possuímos alavancas financeiras e políticas susceptíveis de inflectir os objectivos políticos dos bancos e que estamos prontos a servir­‑nos delas» [47]. Walden Bello salienta noutra passagem deste documento do Tesouro que «os Estados Unidos puderam impor a sua maneira de ver em doze casos de catorze que suscitaram debates no seio do BM – quer se tratasse de bloquear o estatuto de observador acordado à OLP, quer de pôr termo às ajudas fornecidas pelo BM ao Vietname e ao Afeganistão» [48].

 

Uma parte de um outro relatório do Tesouro datando do mesmo ano e igualmente consagrado ao Banco mundial e aos outros bancos de desenvolvimento: «No conjunto, as políticas e programas do Banco mundial foram conformes aos interesses dos Estados Unidos. É particularmente verdadeiro no que diz respeito às escolhas dos países ajudados e em matéria de problemas políticos sensíveis. O carácter internacional do Banco, a sua estrutura de empresa, a força da sua equipa de gestão, e a estrutura da repartição dos votos no seio do Banco asseguraram uma larga coincidência entre as políticas e práticas e os objectivos políticos e económicos a longo prazo dos Estados Unidos» [49] (sou eu que traduzo). Noutro sítio no mesmo relatório, lemos: «Ao promover o desenvolvimento económico e social no Terceiro Mundo, ao encorajar políticas económicas orientadas para o mercado e ao preservar uma reputação de imparcialidade e de competência, os bancos multilaterais de desenvolvimento encorajam os PED a participar mais fortemente num sistema internacional baseado na liberalização do comércio e do fluxo de capitais. (...) Isso representa oportunidades crescentes para as exportações, os investimentos e a finança dos Estados Unidos» [50] (sou eu que traduzo).

 

Numa carta do presidente Ronald Reagan a Robert Michel, líder republicano da Câmara dos Representantes, pedindo­‑lhe que apoie o aumento de capital do Banco mundial em 1988, encontramos uma lista muito útil de países de rendimento médio que constituem os aliados estratégicos dos Estados Unidos e que são apoiados pelo Banco. Eis um extracto desta carta: « O Banco consagra a grande maioria dos seus meios no apoio a projectos de investimento específicos nos PED de rendimento médio. São principalmente países (como as Filipinas, o Egipto, o Paquistão, a Turquia, Marrocos, a Tunísia, o México, a Argentina, a Indonésia e o Brasil) que são importantes estrategicamente e economicamente para os Estados Unidos» [51] (sou eu que traduzo).

 

11. OS BENEFÍCIOS FINANCEIROS QUE OS ESTADOS UNIDOS RETIRAM DA EXISTÊNCIA DO BM E DA SUA INFLUÊNCIA SOBRE ELE

 

Catherine Gwin [52] realizou uma estimativa do que rendeu, aos Estados Unidos, o Banco e as suas actividades entre 1947 e 1992. É preciso distinguir antes de mais dois contributos: primeiro, os rendimentos recebidos pelos cidadãos dos Estados Unidos detentores de cupões emitidos pelo Banco (de acordo com o mesmo, isso representa para o período mencionado: 20,2 mil milhões de dólares); segundo, as despesas de funcionamento do Banco no território dos Estados Unidos (isso representa: 11 mil milhões de dólares para o mesmo período). Em seguida, escreve ela, é preciso sobretudo ter em conta o efeito de alavanca do investimento dos Estados Unidos no Banco mundial e na Associação Internacional para o Desenvolvimento (AID). Desde a criação do Banco mundial, os Estados Unidos terão feito, em tudo e por tudo, uma despesa mínima: 1,85 mil milhões de dólares enquanto o Banco mundial concedeu empréstimos num montante total de 218, 21 mil milhões de dólares (é o centuplo). Estes empréstimos geraram importantes encomendas para as empresas dos Estados Unidos. Ela não fornece estimativa a respeito do montante das encomendas (o que na gíria do Banco, se chama flow­‑back). No caso da AID, os Estados Unidos despenderam uma soma mais importante que para o Banco mundial: 18 mil milhões de dólares para financiar os empréstimos da AID que se elevaram a 71 mil milhões.

 

12. A INFLUÊNCIA DOS MEIOS DE NEGÓCIOS E DO GRANDE CAPITAL SOBRE O BANCO MUNDIAL

 

O facto de que a Banca mundial, desde o início da sua existência, procure o essencial dos seus meios financeiros emitindo títulos mantém-na numa relação permanente e privilegiada com os grandes organismos financeiros privados dos Estados Unidos. Estes estão entre os principais compradores de títulos do Banco e exercem uma influência.

 

A ligação entre  o meio dos negócios, o grande capital dos Estados Unidos, e o Banco mundial é igualmente imediatamente perceptível quando nos debruçamos sobre as origens dos oito cidadãos americanos que se sucederam à cabeça do Banco até aos nossos dias.

 

Eugene Mayer, o primeiro presidente, só teve oito meses, era editor do Washington Post e anteriormente da Lazard Frères. O segundo, John J, McCloy, era um grande advogado de Wall Street e foi designado em seguida Comissário­‑chefe dos aliados na Alemanha, depois presidente do Chase Manhattan Bank. O terceiro, Eugene R. Black, tornou­‑se Conselheiro especial do presidente Lyndon B. Johnson. O quarto, George D. Woods, era um antigo dirigente de um banco de investimento. Robert S. McNamara tinha sido PDG da Ford Motor Company, depois Secretário de Estado da Defesa sob Kennedy e Johnson. O seu sucessor, Alden W. Clausen, era presidente do Bank of America (um dos principais bancos dos Estados Unidos, muito fortemente envolvido na crise da dívida do Terceiro Mundo), que reintegrou quando saiu do BM. Em 1986, sucede­‑lhe B. Cornable, antigo membro republicano do Congresso. Depois Lewis T. Preston chega em 1991, antigo presidente do Comité executivo do banco JP Morgan. James D. Wolfensohn, presidente desde 1996, era banqueiro em Wall Street no Solomon Brothers. Em resumo, geralmente, uma ligação estreita uniu o poder político dos EUA, o meio dos negócios (ou se quisermos, o nó duro da classe capitalista dos EUA) e a presidência do Banco.

 

___________

[1] «But the only fully consistent hypothesis to reconcile the discordant elements of the Bank’s actions, performance, and stated goals was that of a bureaucracy that had become an end in itself, driven by an institutional culture of expansion and a will to power for its own sake». «Mas a única hipótese plenamente coerente para reconciliar os elementos discordantes das acções do Banco, dos seus resultados e dos seus objectivos enunciados era a de uma burocracia que se tinha tornado num fim em si mesma, conduzida por uma cultura institucional de expansão e uma vontade de poder pelo poder» (sou eu que traduzo). in RICH, Bruce. 1994. Mortgaging the Earth, Earthscan, London, p. 103

 

[2] É uma situação única no mundo. Nenhum outro parlamento exerceu um papel tão activo como o dos Estados Unidos no que se refere ao Grupo do Banco Mundial (e o FMI).

 

[3] Esta parte consagrada à Conferência de Bretton Woods está baseada principalmente em: 1) MASON Edward S. e ASHER, Robert E. 1973. The World Bank since Bretton Woods, The Brookings Institution, Washington, D.C., capítulo 1, p. 11­‑35; 2) KAPUR, Devesh, LEWIS, John P., WEBB, Richard. 1997. The World Bank, Its First Half Century, Volume 1: History, Brookings Institution Press, Washington, D.C., capítulo 2, p. 57-84; 3) GEORGE, Susan e SABELLI, Fabrizio. 1994. Crédits sans Frontières, col. Essais, A Découverte, Paris, capítulo 1, p. 28-45; 4) RICH, Bruce. 1994. Mortgaging the Earth, Earthscan, London, capítulo 3, p. 49-80; 5) AGLIETTA, Michel, e MOATTI, Sandra. 2000. Le FMI. De l’ordre monétaire aux désordres financiers, Edit. Economica, Paris, capítulo 1, p. 8-31; 6) Catherine Gwin, “U.S. relations with the World Bank, 1945-1992”, in KAPUR, Devesh, LEWIS, John P., WEBB, Richard. 1997. The World Bank, Its First Half Century, Volume 2, p. 195-200.

 

[4] A localidade de Bretton Woods está situada nas montanhas de New Hampshire. A conferência internacional durou três semanas. Esta reunião internacional posta em pé pelo presidente Franklin D. Roosevelt tinha por objectivo estabelecer as regras de uma novo ordem económico internacional para o pós-guerra.

 

[5] Citado por Rich, Bruce. 1994. Mortgaging the Earth, p. 54-55

 

[6] Citado por George, Susan e Sabelli, Fabrizio. 1994. Crédits sans Frontières, p. 31

 

[7] Harry White tinha redigido em 1942 por petição do Tesouro dos Estados Unidos uma proposta de nova arquitectura financeira e monetária internacional (Ver Aglietta e Moatti, Le FMI. De l’ordre monétaire aux désordres financiers, p. 10 a 24).

 

[8] Citado por Susan George e Fabrizio Sabelli, Idem, p. 39.

 

[9] «Throughout the history of the International Bank for Reconstruction and Development (the World bank), the United States tens been the largest shareholder and most influential member country. Ou.S. support for, pressure on, and criticisms of the Bank have been central to its growth and the evolution of its policies, programs, and practices». Ver Catherine Gwin, “U.S. relations with the World Bank, 1945-1992”, in Kapur, Devesh, Lewis, John P., Webb, Richard. 1997. The World Bank, Its First Half Century, Volume 2, p. 195.

 

[10] KAPUR, Devesh, LEWIS, John P., WEBB, Richard. 1997. The World Bank, Its First Half Century, Volume 1 e 2, 1275 p e 766 p.

 

[11] «And the top management of the Bank spends much more time meeting with, consulting, and responding to the United States than it does with any other member country. Although this intense interaction tens changed little over the years, the way the United States mobilizes other member countries in support of its views tens change considerably. Initially, it was so predominant that its positions and the decision of the board were virtually indistinguishable». Catherine Gwin, in KAPUR, Devesh, LEWIS, John P., WEBB, Richard. 1997. The World Bank, Its First Half Century, Volume 2, p. 248.

 

[12] «The United States tens viewed all multilateral organizations, including the World Bank, as instruments of foreign policy to be used of specific U.S. aims and objectives», Idem, p. 195.

 

[13] «The United States is often impatient with the processes of consensus building on which multilateral cooperation rests». Ibid. p. 195.

 

[14] «A preoccupation with containing communism, and the change in the relative Ou.S. power in the world explain much of the evolution in U.S. relations with the World Bank over the past fifty years». Ibid. p. 196.

 

[15] «The debt crisis in the south and the collapse of communism in Eastern Europe led to renewed U.S. interest in the Bank». Ibid. p. 196.

 

[16] «In contrast to the Fund, which the outcome intense negotiation between the United States and Britain, the Bank was largest an American creation. The U.S. role was acknowledged by John Maynard Keynes in his opening remarks at the Bretton Woods Conference». Ibid. p. 196.

 

[17] «The result was a strong and endurcing American imprint on all aspects of the Bank, including its structure, general policy direction, and form of lending». Ibid. p. 197.

 

[18] RICH, Bruce. 1994. Mortgaging the Earth, p. 64; MASON Edward S. e ASHER, Robert E. 1973. The World Bank since Bretton Woods, p. 30.

 

[19] VINCENT, Philippe. 1998. “L’évolution du traitement des pays en développement au sein du GATT et de l’Organisation mondiale du commerce”, p. 5-6.

 

[20] É o primeiro e mais volumoso empréstimo no decurso dos 50 anos de existência (ver KAPUR, Devesh, LEWIS, John P., WEBB, Richard. 1997. The World Bank, Its First Half Century, Volume 1: History, Brookings Institution Press, Washington, D.C., p. 1218).

 

[21] Ver Catherine Gwin, p. 253-254. Há que assinalar que a Polónia se retirou do Banco Mundial a 14 de Março de 1950 e a Checoslováquia a 31 de Dezembro de 1954. A União Soviética, que estava presente no começo da conferência de Bretton Woods, não participou em pôr em pé o sistema.

 

[22] Nenhuma das fontes que conferimos menciona a existência de um debate interno no Conselho de governadores durante o qual se teria proposto um candidato diferente ao proposto pelo governo.

 

[23] Os Estados Unidos estão tão afeiçoados a esta tradição que quando o candidato que desejam propor não é de nacionalidade americana, como ocorreu com James Wolfensohn, de origem australiano, naturalizam-no cidadão dos Estados Unidos antes de lhe atribuir o posto de presidente do Banco Mundial em 1996.

 

[24] O segundo país em percentagem de votos era a Grã-Bretanha com 14,52%.

 

[25] Japão tinha entrado no BM em 1952 ao mesmo tempo que a República Federal da Alemanha.

 

[26] «The United States is also the dominant member of the Bank’s board - but only in part it is lead shareholder. Formally, most Bank decisions, including those affecting lending levels and loan allocations, require a simples majority vote of the board. (...) Decisions are, however, often worked out between the United States and Bank management before they ever get to the board, or among members of the board before they get to a vote. And most board decisions are taken by consensus. It is the weight of its voice, therefore, more than the exercise of its vote that gives the United States effective power on the board». Catherine Gwin, in KAPUR, Devesh, LEWIS, John P., WEBB, Richard. 1997. The World Bank, Its First Half Century, volume 2, p. 244.

 

27] Mason Edward S. e Asher, Robert E. 1973. The World Bank since Bretton Woods, The Brookings Institution, Washington, D.C., 915 p. e Kapur, Devesh, Lewis, John P., Webb, Richard. 1997. The World Bank, Its First Half Century, The Brookings Institution, Washington, D.C., Volume 1 e 2, 1275 p e 766 p.

 

[28] A família Somoza dirigiu a Nicarágua de 1935, ano em que é colocada no poder por uma intervenção militar dos Estados Unidos, a 1979 quando uma insurreição popular arrasta a queda do ditador Anastasio Somoza e a fuga para o Paraguai onde o chefe de Estado é igualmente um ditador, Alfredo Stroessner.

 

[29] Kapur, Devesh, Lewis, John P., Webb, Richard. 1997. The World Bank, Its First Half Century, volume 1, p. 103.

 

[30] TIJ, Affaire des activités militaires et para-militaires au Nicaragua et contre celui-­‑ci, Acórdão de 27 Junho de 1986. A seguir a esta sentença, os Estados Unidos anunciaram oficialmente que já não reconheciam a competência do TIJ.

 

[31] Catherine Gwin, in Kapur, Devesh, Lewis, John P., Webb, Richard. 1997. The World Bank, Its First Half Century, volume 2, p. 258.

 

[32] Veremos adiante que em várias ocasiões o executivo usou a sua influência directa sobre o Banco para contornar a possível oposição do Congresso ou, em todo o caso, para evitar um debate que não lhe parecia oportuno.

 

[33] George Kennan representava o Departamento de Estado (NDA).

 

[34] Kapur, Devesh, Lewis, John P., Webb, Richard. 1997. The World Bank, Its First Half Century, volume 1, p. 103.

 

[35] Catherine Gwin, in Kapur, Devesh, Lewis, John P., Webb, Richard. 1997. The World Bank, Its First Half Century, volume 2, op. cit., p. 256-57.

 

[36] International Bank for Reconstruction and development, Summary Proceedings of the 1972 Annual Meetings of the Boards of Governors (Washington, 1972), p. 55.

 

[37] «The mission’s contention, in contrast to what McNamara said publicly in Newsweek, was that on substantive grounds there was no basis for stopping all lending to Vietnam», Catherine Gwin, in Kapur, Devesh, Lewis, John P., Webb, Richard. 1997. The World Bank, Its First Half Century, volume 2, op. cit., p. 258.

 

[38] «Although one need not dispute the Bank’s economic policy assessments of Allende’s Chile, Vietnam, and Nicaragua under the Sandinistas, it is worth nothing that equally harsh assessments could have been made, but were not, of Somoza’s Nicaragua, Marcos’s Philippines, and Mobutu’s Zaire, regimes that were all important cold war allies of the United States». Catherine Gwin, op. cit., p. 258.

 

[39] Os diferentes exemplos respeitantes aos empréstimos sectoriais provêm de Catherine Gwin, op. cit. p. 223-224 et 259-263.

 

[40] Segundo Mason e Asher, não parece que o primeiro­‑ministro Nasser tenha querido activamente o apoio dos soviéticos para o financiamento da barragem antes de ter constatado a retirada das ofertas dos Estados Unidos e da Grã­‑Bretanha. Após esta retirada, decorreram dezassete meses antes que fosse assinado um acordo com os soviéticos para financiar a primeira fase de construção da barragem (Mason e Asher, p. 642).

 

[41] Mason e Asher, op. cit., p. 636.

 

[42] Mason e Asher, op. cit, p. 641.

 

[43] Toussaint, Eric. 2004. La Finance contre les peuples. La Bourse ou la Vie, CADTM­‑Bruxelles/CETIM-Genève/Syllepse-Paris, p. 435-451.

 

[44] Horst Kölher demitiu-se do seu posto a 4 de Março de 2004 a fim de estar em posição de aceitar o mandato de presidente da Alemanha que lhe foi proposto pela oposição social­‑cristã alemã. Uma vez liberto das suas responsabilidades no FMI, fez declarações em que criticava a ocupação americana do Iraque. Rodrigo Rato, que foi designado a 4 de Maio de 2004 pelo Conselho de governadores para lhe suceder, era até Março de 2004 ministro das Finanças e da Economia no governo de José Maria Aznar, fiel aliado dos Estados Unidos e anfitrião da conferência de doadores de Outubro de 2003.

 

[45] Estes factos são relatados por Catherine Gwin, op. cit. p. 213.

 

[46] «The Gramm-Stockman budget plan had called for deep cuts in foreign economic aid on the basis of pure ideological principle. Both Gramm and I believed that the organs of international aid and so-called Third World development...were infested with socialist error. The international aid bureaucracy was turning Third World countries into quagmires of self-imposed inefficiency and burying them beneath mountainous external debts they would never be able to pay». David A. Stockman, The Triumph of Politics: How the Reagan Revolution Failed, Harper and Row, 1986, pp. 116-19 (citado por Catherine Gwin, op. cit., p. 229).

 

[47] Department of the Treasury, Assessment of US participation in the multilateral Development Banks in the 1980s, Washington DC, 1982, capítulo 3, citado por Walden Bello, 2002, Deglobalization. Ideas for a new world economy, Zedbooks, London – New York, p 59-60.

 

[48] Bello, Walden. 2002. Deglobalization. Ideas for a new world economy, Zedbooks, London – New York, p. 60.

 

[49] Department of the Treasury, United States Participation in Multilateral Development Banks, 1982, p. 59. (citado por Catherine Gwin, op. cit. p. 270).

 

[50] Department of the Treasury, United States Participation in Multilateral Development Banks, 1982, pp. 48, 52 (citado por Catherine Gwin, op. cit. p. 271).

 

[51] Carta do Presidente Ronald Reagan ao representante Robert Michel, 10 Junho 1988, p. 1. (citado por Catherine Gwin, op. cit. p. 271).

 

[52] Catherine Gwin, op. cit. p. 271-272.