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22/08/2004 Sexagésimo
aniversário de Bretton Woods: O
apoio do Banco Mundial e do FMI às ditaduras Eric Toussaint * Há sessenta anos, a 22 de julho de 1944, terminava a Conferência de
Bretton Woods durante a qual se fundaram o Banco Mundial e o Fundo Monetário
Internacional. Depois da Segunda Guerra Mundial, numa parte crescente do Terceiro
Mundo, as políticas aplicadas contrariavam os interesses das antigas
potências coloniais. Esta orientação encontrou a oposição firme dos governos
dos grandes países capitalistas industrializados que têm uma influência
determinante sobre o Banco Mundial (BM) e o FMI. Os projectos do BM têm um
forte conteúdo político : frear o desenvolvimento de movimentos que ponham em
questão a dominação exercida pelas grandes potências capitalistas. A
proibição de ter em conta as considerações “políticas” e “não económicas” nas
operações do Banco, uma das mais importantes condições da sua carta, é
ignorada sistematicamente. A parcialidade política das instituições de
Bretton Woods demonstra‑se com o apoio financeiro concedido às
ditaduras de Chile, Brasil, Nicarágua, Congo-Kinshasa e Roménia. 1. O LEVANTAMENTO ANTI‑COLONIAL E ANTI‑IMPERIALISTA DO
TERCEIRO MUNDO Depois de 1955, o espírito da Conferência de Bandung (Indonésia) [1]
alenta uma grande parte do planeta. Produz-se depois da derrota francesa no
Vietname (1954) e precede a nacionalização do canal do Suez por Nasser. Vêm
depois as revoluções cubana (1959) e argelina (1954‑1962), o
relançamento da luta de emancipação no Vietname... Numa parte crescente do
Terceiro Mundo, as políticas empreendidas dão as costas às antigas potências
coloniais. Nota-se uma tendência para a substituição das importações e o
desenvolvimento de políticas dirigidas para o mercado interno. Esta
orientação encontra a firme oposição dos governos dos grandes países
capitalistas industrializados que têm uma influência determinante sobre o
Banco Mundial e o FMI. Produz-se uma onda de regimes nacionalistas burgueses
que levam a cabo políticas populistas (Nasser no Egipto, Nehru na Índia,
Perón na Argentina, Goulart no Brasil, Sukarno na Indonésia, N’Krumah no
Gana...) e regimes de orientação explicitamente socialista (Cuba, China
popular). Neste contexto, os projectos do BM têm um forte conteúdo político:
frear o desenvolvimento de movimentos que ponham em questão a dominação
exercida pelas grandes potências capitalistas. 2. O PODER DE INTERVENÇÃO DO BM NAS ECONOMIAS NACIONAIS Desde os anos 1950, o BM põe em pé uma rede de influências que muito
lhe servirá posteriormente. O BM empreende a criação, no Terceiro Mundo, de
uma procura dos seus serviços. A influência de que goza agora deriva em parte
das redes de agências construídas nos Estados que se converteram em seus
clientes e, portanto, em seus devedores. O BM exerceu uma verdadeira política
de influência para apoiar a sua rede de empréstimos. A partir dos anos 1950, um dos primeiros objectivos da política do
BM foi a “construção de instituições” que com muita frequência tomou a forma
de criação de agências paragovernamentais no interior dos países clientes do
BM [2]. Tais agências foram intencionalmente fundadas de tal forma que fossem
relativamente independentes financeiramente dos seus governos e estivessem
fora do controle das instituições políticas locais, entre elas os parlamentos
nacionais. Constituem os relevos naturais do BM a que devem muito, começando
pela sua existência, inclusive, em alguns casos, o seu financiamento. A criação de tais agências foi uma das estratégias mais importantes
do BM para se inserir nas economias políticas dos países do Terceiro Mundo. Operando segundo as suas próprias regras (frequentemente elaboradas
segundo as sugestões do BM), cheias de tecnocratas simpatizantes promovidos e
admirados pelo Banco, estas agências serviram para criar uma fonte estável e
digna de confiança para o que o Banco tinha necessidade: proposições de
empréstimos “viáveis”. Proporcionaram também ao Banco bases de poder paralelo
através das quais foi capaz de transformar as economias nacionais, de facto
sociedades inteiras, sem o procedimento exigente do controle democrático e
dos debates contraditórios. O Banco fundou, em 1956, com um importante apoio financeiro das Fundações
Ford e Rockefeller, o Instituto de Desenvolvimento Económico (Economic
Development Institute) que oferecia cursos de formação de seis meses a
delegados oficiais dos países membros. «Entre 1956 e 1971, mais de 1.300
delegados oficiais tinham passado pelo Instituto, um verdadeiro número deles
tinha atingido a posição de primeiro‑ministro, de ministro do
planeamento ou das finanças» [3]. Os envolvimentos desta política são inquietantes: o estudo pelo
International Legal Center (ILC) de Nova Iorque da acção do Banco na Colômbia
entre 1949 e 1972 conclui que as agências autónomas estabelecidas pelo Banco
tiveram um impacto profundo sobre a estrutura política e sobre a evolução
social de toda a região, debilitando «o sistema de partidos políticos e minimizando
os papéis do legislativo e do judicial». Pode-se considerar que, desde os anos 60, o Banco estabeleceu
mecanismos únicos e novos para uma intervenção contínua nos assuntos internos
dos países que pediam créditos. No entanto, o Banco nega vigorosamente que
tais intervenções fossem políticas: ao invés, insiste em que a sua política
não tem nada que ver com as estruturas de poder e que os assuntos políticos e
económicos existem separadamente. 3. A POLÍTICA DE EMPRÉSTIMOS DO BANCO MUNDIAL ESTÁ INFLUENCIADA POR
CONSIDERAÇÕES POLÍTICAS E GEOESTRATÉGICAS O artigo IV, secção 10, estipula: «O Banco e os seus responsáveis
não interferirão nos assuntos políticos de nenhum membro e está‑lhes
proibido deixar‑se influenciar nas suas decisões pelo carácter político
do membro ou dos membros concernentes. Só considerações económicas podem
influir sobre as suas decisões e estas considerações serão sopesadas sem
preconceitos, com vista a atingir os objectivos (fixados pelo Banco)
estipulados no artigo 1». A proibição de tomar em conta as considerações «políticas» e «não
económicas» nas operações do Banco, uma das mais importantes condições da sua
carta, foi ignorada sistematicamente e isso desde o começo da sua existência.
O Banco negou‑se a emprestar à França depois da Libertação enquanto os
comunistas estivessem no governo (no dia seguinte à sua saída do governo em
Maio de 1947, o empréstimo pedido e bloqueado até então, foi-lhe concedido)
[4]. O Banco actuou de forma repetida em contradição com o artigo IV dos
seus estatutos. Efectivamente, o Banco toma regularmente decisões em função
de considerações políticas. Isto porque a qualidade das políticas económicas
levadas a cabo não é o elemento determinante nas suas decisões. O Banco
emprestou regularmente dinheiro às autoridades de um país apesar da má
qualidade da sua política económica e de um alto nível de corrupção:
Indonésia e Zaire são dois casos emblemáticos disso. Mais precisamente, as
decisões do Banco relativas a países de uma grande importância política para
os seus principais accionistas estão regularmente unidas aos interesses e à
orientação destes, começando pelos Estados Unidos. As decisões do Banco e do seu gémeo, o FMI, desde 1947 até ao
afundamento do bloco soviético [5], foram determinadas em grande parte pelos
seguintes critérios: – evitar a manutenção de modelos autocentrados; – sustentar financeiramente grandes projectos (BM) ou políticas
(FMI) que permitisse aumentar as exportações dos principais países
industrializados; – negar ajuda aos regimes considerados como ameaças pelo governo dos
Estados Unidos e outros accionistas importantes; – tentar modificar a política de certos governos dos países chamados
socialistas a fim de debilitar a coesão do bloco soviético. Neste quadro,
concedeu‑se um apoio à Jugoslávia, que se tinha retirado do bloco
dominado por Moscovo a partir de 1948 ou à Roménia a partir dos anos 1970 no
momento em que Ceaucescu expressava veleidades de afastamento do Comecon e do
Pacto de Varsóvia. – sustentar aliados estratégicos do bloco capitalista ocidental, dos
Estados Unidos em particular (exemplo: Indonésia de 1965 até hoje; o Zaire de
Mobutu; as Filipinas sob Marcos; o Brasil da ditadura a partir de 1964; a
Nicarágua do ditador Somoza; a África do Sul do apartheid); – tentar evitar ou limitar, na medida do possível, uma aproximação
dos governos dos PED com o bloco soviético ou a China: tentar por exemplo
afastar da URSS a Índia e a Indonésia dos tempos de Sukarno. Para levar a cabo esta política, o BM e o FMI aplicam uma táctica
generalizada: são mais flexíveis para os governos de direita (menos exigentes
em termos de austeridade antipopular) se estão confrontados com uma forte
oposição da esquerda do que para governos de esquerda confrontados com uma
forte oposição da direita. Concretamente, isto significa que as IFI vão ser
muito mais exigentes e fazer a vida impossível a um governo de esquerda
confrontado a uma oposição de direita de modo a enfraquecê‑lo e
favorecer o acesso da direita ao poder. Segundo a mesma lógica, as IFI serão
menos exigentes para um governo de direita enfrentado a uma oposição de
esquerda a fim de evitar debilitar e impedir o acesso ao poder pela esquerda.
A ortodoxia monetarista é de geometria variável: as variações dependem muito
de factores políticos e geoestratégicos. Alguns casos concretos – Chile, Brasil, Nicarágua, Zaire e Roménia-
ilustram o que acaba de ser proposto: tratam ao mesmo tempo das decisões do
Banco e do FMI já que estas decisões estão determinadas grosso modo pelas
mesmas considerações e submetidas às mesmas influências. O FMI e o BM não
duvidaram em apoiar ditaduras quando ambos (e outras grandes potências
capitalistas) o consideravam oportuno. Os autores do Relatório mundial sobre o desenvolvo humano realizado
pelo PNUD (edição 1994) escrevem-no preto no branco: «De facto, a ajuda
entregue pelos Estados Unidos durante os anos 1980 é inversamente
proporcional ao respeito pelos direitos humanos. Os doadores multilaterais
também não parecem angustiar‑se por tais considerações. Parecem
efectivamente preferir os regimes autoritários, considerando sem piscar que
estes regimes favorecem a estabilidade política e são mais capazes de gerir a
economia. Quando o Bangladesh e as Filipinas puseram fim à lei marcial, a sua
parte respectiva no conjunto dos empréstimos do BM diminuiu» [6]. 4. A PARCIALIDADE POLÍTICA DAS IFI: EXEMPLOS DO APOIO FINANCEIRO ÀS
DITADURAS 4.1. APOIO À DITADURA DO GENERAL AUGUSTO PINOCHET NO CHILE
(Errata: “Allende” onde está “Alliende”) O Chile, sob o governo democraticamente eleito de Allende (1970‑1973),
não recebeu empréstimos do Banco, mas sob o governo de Pinochet, depois do
golpe militar de 1973, o país tornou‑se subitamente credível. No
entanto, nenhum dirigente do BM e do FMI podia ignorar o carácter
profundamente autoritário e ditatorial do regime de Pinochet. A relação entre
a política de empréstimos e o contexto geopolítico é aqui patente. 4.2. APOIO À JUNTA MILITAR NO BRASIL DEPOIS DO DERRUBAMENTO DO
PRESIDENTE JOÃO GOULART
O regime democrático do presidente João Goulart foi derrocado pelos
militares em Abril de 1964. Os empréstimos do Banco e do FMI que tinham sido
suspendidos durante três anos retomaram‑se muito pouco tempo depois
[7]. Resumo sucinto dos acontecimentos: em 1958, o presidente brasileiro
Kubitschek tem de entrar em negociações com o FMI a fim de receber um
empréstimo de 300 milhões de dólares por parte dos Estados Unidos.
Finalmente, Kubitschek rejeita as condições impostas pelo FMI e deixa de lado
o empréstimo solicitado aos Estados Unidos, o que lhe deu uma grande
popularidade. O seu sucessor, Goulart, tinha anunciado que ia pôr em prática uma
reforma agrária radical e que ia proceder à nacionalização das refinarias de
petróleo: foi derrocado pelos militares. No dia seguinte ao golpe, os Estados
Unidos reconheciam o novo regime militar. Algum tempo depois, o BM e o FMI
retomavam a suspendida política de empréstimos. Por sua vez, os militares
aboliam as medidas económicas criticadas pelos Estados Unidos e o FMI. Há que
assinalar que as instituições financeiras internacionais consideraram que o
regime militar tomava sãs medidas económicas (sound economic measures)
[8]. No entanto, o PIB baixou 7% em 1965 e milhares de empresas quebraram. O
regime organizou uma forte repressão, proibiu as greves, provocou uma forte
queda dos salários reais, suprimiu as eleições por sufrágio directo, decretou
a dissolução dos sindicatos e recorreu regularmente à tortura. 4.3. DEPOIS DE TER APOIADO A DITADURA DE ANASTASIO SOMOZA, O BM PÔS
FIM AOS EMPRÉSTIMOS DEPOIS DA ELEIÇÃO DO SANDINISTA DANIEL ORTEGA PARA A
PRESIDÊNCIA DA NICARÁGUA
Enquanto o clã dos Somoza estava no poder na Nicarágua desde os anos
1930 graças a uma intervenção militar dos Estados Unidos [9], um poderoso
movimento popular triunfou contra a ditadura a 19 de Julho de 1979 e provocou
a fuga do ditador Anastasio Somoza. Os Somoza tinham‑se apoderado de
uma grande parte das riquezas do país e tinham favorecido a implantação de
grandes empresas estrangeiras, sobretudo estado‑unidenses, e eram
detestados pelo povo. A ditadura de Anastasio Somoza tinha desfrutado de
numerosos empréstimos do Banco Mundial. A partir da queda da ditadura pôs‑se
em pé um governo de aliança que agrupava a oposição democrática tradicional
(dirigida por chefes de empresa) e os revolucionários sandinistas que não
ocultavam a sua simpatia por Cuba nem a sua disposição de empreender certas
reformas económicas (reforma agrária, nacionalização de certas empresas
estrangeiras, confiscação das terras do clã Somoza, programa de
alfabetização...). Washington, que tinha apoiado Anastasio Somoza, até ao fim
considerou que esse novo governo fazia pesar uma ameaça de contágio comunista
na América Central. A Administração Carter, em funções no momento do
derrubamento da ditadura não adoptou imediatamente uma atitude agressiva. Mas
as coisas mudaram imediatamente quando Ronald Reagan entrou na Casa Branca.
Anunciou (1981) e demonstrou a sua vontade de fazer cair os sandinistas.
Apoiou financeira e militarmente uma rebelião composta pelos antigos membros
da guarda nacional (“Contrarevolucionarios” ou “Contras”). A
aviação dos Estados Unidos minou vários portos nicaraguanos. Frente a esta
hostilidade, a política do governo de maioria sandinista radicalizou‑se...
Nas eleições de 1984, que se desenvolveram de forma democrática pela primeira
vez depois de meio século, o sandinista Daniel Ortega foi eleito presidente
com 67% dos votos. No ano seguinte, os Estados Unidos decretaram um embargo
comercial contra a Nicarágua que isolou o país em relação aos investidores
estrangeiros e o BM freou os seus empréstimos a partir da vitória sandinista
nas eleições presidenciais. Como indicamos no artigo Um
banco sob influência, os sandinistas tentaram activamente convencer o BM
de que retomasse os créditos. Estavam dispostos a aplicar um plano de ajuste
estrutural draconiano. O Banco decidiu não dar continuação e não voltou a
conceder empréstimos a não ser após a derrota eleitoral dos sandinistas nas
eleições de Fevereiro de 1990, que tinham visto a vitória de Violeta Barrios
de Chamorro, candidata conservadora apoiada pelos Estados Unidos. 4.4. APOIO À DITADURA DE MOBUTU
Já em 1962, um relatório do Secretário Geral das Nações Unidas
informava que vários milhões de dólares, destinados a financiar as tropas de
Mobutu, tinham sido desviados por este último. Em 1982, um membro qualificado
do FMI, Erwin Blumenthal, banqueiro alemão, realizou um relatório demolidor
sobre a gestão do Zaire de Mobutu no qual advertia os credores estrangeiros
de que não deviam esperar ser reembolsados enquanto Mobutu estivesse no
poder. Entre 1965 e 1981, o governo zairense tinha pedido emprestados 5 mil
milhões de dólares no estrangeiro e entre 1976 e 1981, a sua dívida externa
foi objecto de quatro restruturações no Clube de Paris por um montante de
2,25 mil milhões de dólares. A muito má gestão económica e o desvio sistemático por Mobutu de uma
parte dos empréstimos não conduziram o FMI e o BM a frear a ajuda a esse
regime ditatorial. É impressionante constatar que, depois do relatório
Blumenthal, os desembolsos efectuados pelo BM aumentaram (os do FMI também,
mas não estão no gráfico). Manifestamente, as decisões do Banco e do FMI não
estavam determinadas pelo critério da boa gestão económica. O regime de
Mobutu era um aliado estratégico dos Estados Unidos e de outras potências
influentes no seio das instituições de Bretton Woods (como a França e a
Bélgica) enquanto durou a guerra fria. A partir de 1989‑91, com a
queda do Muro de Berlim seguida mais tarde pela implosão da União Soviética,
o regime de Mobutu perdeu o seu interesse. Tanto mais quanto que em muitos
países de África (entre eles o Zaire), se desenvolviam conferências nacionais
que propunham a reivindicação democrática. Os empréstimos do BM começaram a
diminuir para cessar completamente em meados dos anos 90. 4.5. APOIO DO BANCO MUNDIAL À DITADURA DE CEAUCESCU NA ROMÉNIA
Em 1947, a Roménia integra‑se no bloco soviético. Em 1972, a
Roménia é o primeiro país da vertente soviética a entrar no Banco. Ceaucescu era desde 1965 secretário geral do Partido Comunista no
poder e em 1968 tinha criticado a intervenção da URSS na Checoslováquia. As
tropas da Roménia não intervieram com as do Pacto de Varsóvia. Esta tomada de
distância a respeito de Moscovo decidiu visivelmente Washington, via o Banco,
a propor‑se relações estreitas com o regime romeno. O Banco começou em 1973 a negociar com Bucareste o começo de uma
política de empréstimos que atingiu muito rapidamente um volume muito
apreciável. Em 1980, a Roménia converteu‑se no oitavo país em
importância na lista de devedores do Banco. Um dos historiadores do Banco,
Aart van de Laar, conta um episódio significativo que remonta a 1973.
Assistia no princípio de 1973 a uma reunião da direcção do Banco que tinha na
sua agenda o início da concessão de empréstimos à Roménia. Ante a
incredulidade de certos dirigentes que criticavam a ausência de um relatório
preciso sobre a Roménia, Robert McNamara teria declarado que tinha uma grande
confiança na moralidade financeira dos países socialistas em termos de
pagamento da dívida. Ao que um dos vice‑presidentes do Banco presente
na reunião teria respondido que «o Chile de Allende talvez não se tenha feito
suficientemente socialista» [10]. McNamara ficou gelado. A decisão do Banco não se baseava em critérios económicos
convincentes. Efectivamente, em primeiro lugar, enquanto o Banco negava
regularmente emprestar a um país que não tivesse pago antigas dívidas,
começou a emprestar à Roménia sem que esta tivesse conseguido pôr fim a um
pleito sobre antigas dívidas. Em segundo lugar, o essencial dos intercâmbios
económicos da Roménia eram realizados no interior do Comecon em divisas
inconvertíveis: como poderia devolver os empréstimos em divisas fortes? Em
terceiro lugar, a Roménia negava‑se à partida a comunicar informações
económicas requeridas pelo Banco. Foram considerações políticas as que
manifestamente decidiram o Banco a empreender relações estreitas com a
Roménia. Tratava-se de desestabilizar a URSS e o bloco soviético no contexto
da guerra fria mantendo relações estreitas com a Roménia. A falta de
democracia interna e a repressão policial sistemática não foram capazes de
dissuadir o Banco nem neste caso nem em outros. A Roménia converteu‑se num dos maiores clientes do Banco e
este financiou grandes projectos (minas de carvão a céu aberto, centrais
eléctricas térmicas) cujos efeitos negativos em termos de poluição eram
facilmente comprováveis. Para a exploração das minas de carvão a céu aberto,
as autoridades romenas deslocaram populações que até então se dedicavam à
agricultura. Noutro terreno, o Banco apoiou a política de planejamento dos
nascimentos que tentava aumentar a taxa de natalidade. Em 1982, quando estourou à escala internacional a crise da dívida, o
regime romeno decidiu impor à população uma terapia de choque. A Roménia
reduziu as suas importações muito fortemente a fim de conseguir um excedente
em divisas para poder reembolsar a dívida externa a ritmos acelerados. Como
escrevem os autores do livro encomendado pelo Banco para comemorar o seu
primeiro meio século de existência: «A Roménia era em certo sentido um
devedor “modelo”, pelo menos do ponto de vista dos credores» [11]. 5. CONCLUSÃO Contrariamente à secção 10 do artigo 4 da carta do Banco Mundial, este
último e o FMI emprestaram sistematicamente a alguns Estados para influenciar
a sua política. Os exemplos citados neste estudo mostram que os interesses
políticos e estratégicos das grandes potências capitalistas são determinantes
nas decisões. Alguns regimes, apoiados pelas grandes potências capitalistas,
foram ajudados financeiramente ainda que a sua política económica não
respondesse aos critérios oficiais das instituições financeiras
internacionais (IFI) e ainda que não respeitassem os direitos humanos. Por
outro lado, regimes considerados como hostis aos interesses das grandes
potências foram privados dos empréstimos dos IFI com o pretexto de não
respeitar os critérios económicos definidos por estas. Esta política das
instituições de Bretton Woods não foi abandonada no final da guerra fria, e
prossegue até aos nossos dias: empréstimos à Rússia de Yeltsin, à Indonésia
de Suharto até à sua queda em 1998, ao Tchad de Idriss Déby, à Chinesa
popular, ao Iraque sob ocupação estrangeira. Bibliografia: KAPUR, Devesh, LEWIS,
John P., WEBB, Richard. 1997. The World Bank, Its First Half Century,
Volume 2: Perspectives, Brookings Institution Press, Washington, D.C., 766 p. PNUD. 1994. Rapport
mondial sur le développement humain, Economica, Paris, 239 p. RICH, Bruce. 1994. Mortgaging
the earth, Earthscan, London, 376 p. Toussaint, Eric. 2004. La
Finance contre les peuples. La Bourse ou la Vie, CADTM
–Bruxelles/CETIM-Genève/Syllepse-Paris, 640 p. TOUSSAINT, Eric, Sexagésimo aniversário de Bretton Woods: Um
Banco sob influência,
difundido na Internet a 16 Julho 2004, 13 p. VAN DE LAAR, Aart.
1980. The World Bank and the Poor, Martinus
Nijhoff Publishing, Boston/The Hague/London, 269 p. __________ * Eric Toussaint é Presidente do CADTM (Comité para a anulação da Dívida do Terceiro Mundo), autor de A bolsa ou a vida: a dívida externa do Terceiro Mundo. Co‑autor com Damien Millet de 50 Perguntas/50 Respostas sobre a dívida, o FMI e o Banco Mundial. Co-autor com Arnaud Zacharie de Sair da Crise. Dívida e Ajuste. Mais informação: www.cadtm.org. [1] A Conferência de Bandung celebrada em 1955 foi convocada pelo presidente indonésio Sukarno. Foi o ponto de partida do movimento dos Não alinhados. Sukarno, Tito e Nehru foram os dirigentes que encarnavam a esperança do Terceiro Mundo frente ao antigo sistema colonial de dominação. Este é um extracto do discurso de Sukarno na abertura de dita Conferência: «O facto de que os líderes asiáticos e africanos possam reunir-se num dos seus países para debater e reflectir a respeito de assuntos em comum, é um novo e histórico começo (...). Ninguém se pode sentir livre enquanto uma parte qualquer da sua pátria não for livre. Como a paz, a liberdade não é indivisível (...). Dizem‑nos com frequência que o colonialismo morreu. Não nos deixemos iludir, ou mesmo adormecer, por esta fórmula enganadora. Asseguro‑vos que o colonialismo está bem vivo. Como podemos afirmar o contrário quando vastas regiões da Ásia e da África não são livres? (...) O colonialismo moderno também se apresenta sob a forma do controle económico, do controle intelectual e do controle físico, exercidos por uma comunidade estrangeira no interior da nação. É um inimigo hábil e decidido que se manifesta sob diversos disfarces; não abandona facilmente a sua presa. Onde, quando e seja qual for a forma sob a qual apareça, o colonialismo é um mal que é preciso eliminar da face da terra. (...)» (Fonte: Le Monde Diplomatique, “Os objectivos da Conferência de Bandung”, Maio 1955, p.1). [2] Bruce Rich cita como exemplos de agências
fundadas graças ao Banco Mundial: na Tailândia, a Industrial Finance
Corporation of Thailand (IFCT), o Thai Board of Investment (BOI), the
National Economic and social Development Board (NESDB) e a Electrical
Generating Authority of Thailand; na Índia, o National Thermal Power
Corporation (NPTC), o Northern Coal Limited (NCL)... (ver Bruce Rich, p. 13 e
41). [3] Rich, op. cit. p.76. Ver também
STERN Nicholas e FERREIRA Francisco. 1997. “The World Bank as ‘intellectual actor’” em KAPUR, Devesh,
Lewis, John P., WEBB, Richard. 1997. The World Bank, Its First Half
Century, volume 2, p. 583-585. [4] Eric Toussaint, Sexagésimo aniversário de Bretton Woods: Um Banco sob influência, Julho 2004. [5] O que coincide com o período da guerra fria. [6] PNUD, 1994, p.81. [7] Uma análise dos factos
resumidos aqui encontra‑se em PAYER, Cheryl. 1974. The Debt Trap: The International
Monetary Fund and the Third World, Monthly Review Press, New York and London,
p. 143-165. [8] Em 1965, o Brasil assinou um Stand-by Agreement com o FMI, recebeu novamente créditos e viu a sua dívida externa reestruturada pelos Estados Unidos, vários países credores da Europa e o Japão. Depois do golpe militar, os empréstimos passaram de zero a uma média de 73 milhões de dólares por ano para o resto dos anos 1960 e atingiram um nível de quase 500 milhões de dólares por ano em meados dos anos 1970. [9] Eric Toussaint, Sexagésimo aniversário de Bretton Woods: Um Banco sob influência, Julho 2004. [10] VAN DE LAAR, Aart. 1980. The World Bank and the Poor, Martinus Nijhoff Publishing,
Boston/The Hague/London, p.40 . [11] «Romania was, in a sense, a “model”
debtor, at least from the creditors’ point of view». KAPUR, Devesh,
LEWIS, John P., WEBB, Richard. 1997. The World Bank, Its First Half
Century, Volume 1: History, Brookings Institution Press, Washington,
D.C., p. 1061. |