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14/04/2007 Silvia Ribeiro * Um dos exemplos mais claros das lógicas perversas globais é o
empurrão dado por governos e transnacionais à produção industrial de
agrocombustíveis, principalmente etanol e biodiesel. A maioria das afirmações
nesta campanha – mediática, política e subsidiada com recursos públicos – são
falsas. O que realmente é verdade é que o capitalismo aproveita os desastres
que provoca para gerar novos negócios. E como estes geram novos desastres,
haverá então novos negócios. Apresentam os agrocombustíveis como uma alternativa ambientalmente
amigável, frente aos efeitos do aquecimento global e da consequente mudança
climática – que é um autêntico desastre e uma séria ameaça para os povos e
ecossistemas, principalmente para camponeses, pescadores artesanais e
pastores, quer dizer, os que abastecem o mundo com a maior parte dos
alimentos e são ao mesmo tempo os mais carenciados do planeta. Mas ainda que exista debate a respeito, os números da eficiência de
tais combustíveis não são satisfatórios. Segundo David Pimentel e Tad Patzek,
da Universidade de Cornell e da Universidade da Califórnia em Berkeley,
respectivamente, por cada unidade de energia fóssil utilizada na produção de
agrocombustíveis, o retorno é de 0,778 no caso do metanol de milho, 0,636 no
etanol de madeira e 0,534 no biodiesel de soja. Ou seja, o balanço é
negativo. Ao invés de aliviar o problema, agrava-o! O cálculo baseia-se na
quantidade de insumos que são necessários para a produção industrial de
agrocombustíveis, incluindo cultivo e processamento. Aqueles que promovem os agrocombustíveis dedicaram-se a doestar estes
estudos, mas apesar de cálculos alegres de outros investigadores, o ganho
líquido de energia não melhora consideravelmente. Mas nem nestes estudos nem
nos de Pimentel e Patzek se incluem os altos custos ambientais e sociais,
produto da erosão e contaminação de solos, o aumento do uso de água – um
recurso já em crise e em disputa –, a perda da biodiversidade pelo avanço da
fronteira agrícola sobre áreas naturais e ecossistemas únicos, e a disputa de
terras que em lugar de produzir alimentos são utilizadas para alimentar
automóveis. No caso do Brasil, onde a eficiência do etanol produzido a partir da
cana de açúcar aparenta dar melhores resultados, oculta-se o dado brutal,
denunciado pela Via Campesina, o Grito dos Excluídos e outros movimentos
sociais desse país, de que a produção da cana de açúcar, se baseia desde a
Conquista no trabalho escravo e agora semi-escravo, em condições laborais
deploráveis, às quais se acrescenta a devastação ambiental produzida pelas
grandes monoculturas e pelas refinarias. No entanto, os Estados Unidos e a Europa adoptaram regulamentações
para que seja obrigatório incluir percentagens de agrocombustíveis no consumo
dos seus automóveis no decorrer da próxima década. O G8 solicitou ao Banco
Mundial que abrisse créditos para apoiar o desenvolvimento deste tipo de
cultivos nos países do sul, o que foi feito. Num primeiro olhar poderia ser
difícil entender por que se promove este tipo de produção quando os dados
relativos à sua eficiência são tão controversos, e além disso não existem nos
países industriais terras disponíveis para isso. Um conjunto de razões explica este “negócio redondo”. Os investidores
são a grande indústria automobilística e petrolífera – as maiores empresas do
planeta –, juntamente com as transnacionais que controlam o monopólio da
distribuição de cereais e as que dominam o sector de sementes e agrotóxicos,
que são as mesmas que produzem transgénicos. Como explica o economista Andrés Barreda, da Universidade Nacional
Autónoma do México, a indústria automobilística tem uma sobreprodução anual.
Existem mil milhões de automóveis no planeta – com uma população de 6,6 mil
milhões de pessoas. Produzem-se cerca de 80 milhões de novos carros por ano,
mas o consumo é pouco mais de 60 milhões. Esta poderosíssima indústria, que
está entre as maiores do planeta e é a causadora principal do aquecimento
global, viu agora uma oportunidade excelente para aumentar as suas vendas.
Com a obrigatoriedade de incorporar uma mistura de agrocombustíveis na
gasolina devido às novas regulamentações – ou a transformação de facto dos
fornecedores – os automóveis deverão necessariamente ser trocados por outros
adaptados a isto. Com a percentagens que decidiram os governos, os agrocombustíveis não
competirão com a gasolina, mas as petrolíferas estão no negócio para
controlar também este insumo, utilizando as suas próprias redes e em
conivência com a indústria automotriz. Por seu lado, as grandes cerealíferas vislumbram excelentes negócios:
a ADM já controla 30 por cento do mercado de etanol nos Estados Unidos,
enquanto a Cargill e a Bunge procuram consolidar-se nos mercados latino‑americanos.
As transnacionais das sementes e dos agrotóxicos, que são as mesmas que nos
castigaram com os transgénicos, já estão a ganhar com o novo impulso
agrícola, mas, além disso, elas aproveitam o facto de actualmente os
agrocombustíveis não serem eficientes e estão todas a desenvolver cultivos
transgénicos que prometem ser mais efectivos. Ainda que pelo caminho deixem
de ser comestíveis e provoquem desastres de contaminação. Muitos governos do sul avançam na introdução de legislações que
possibilitem a conversão para a produção e consumo de agrocombustíveis – em
muitos casos subsidiados com empréstimos que vão engrossar as dívidas
externas e portanto a serem pagos por todos nós –, ganha novo impulso a
produção para exportação em prejuízo da produção agrícola diversificada de
pequena escala e para a soberania alimentar. E tudo isto, afirmam os contaminadores, é uma solução ambientalmente
amigável. ______ * Investigadora do Grupo ETC |