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03/02/2007 Silvia Ribeiro * Enquanto as consequências da mudança climática global são cada vez
mais visíveis e atingem com mais força os mais pobres, os principais
responsáveis, empresas e governos, longe de se virarem para a erradicação das
causas - o que afectaria os seus lucros e os seus votos - propõem arranjos tecnológicos. Estas
“soluções” têm a vantagem de criar novas fontes de negócios para os mesmos protagonistas
que provocaram e beneficiaram dos danos. Embora a maioria das iniciativas,
como a retoma da energia nuclear e a produção massiva de biocombustíveis
impliquem efeitos muito perversos, a tendência mais extrema e perigosa é a
geoengenharia: a manipulação intencional do clima e do ambiente planetário. Existem iniciativas governamentais e privadas que vão desde a
fertilização dos oceanos com nanopartículas de ferro (para tratar de baixar a
temperatura dos mares e desviar furacões) até lançar nanopartículas de
compostos sulfatados no céu para criar uma capa que intercepte os raios
solares. Todas têm em comum que poderiam provocar catástrofes de
desequilíbrios e contaminação inéditas. O novo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança
Climática, publicado em Fevereiro de 2007, alerta que neste século sofreremos
eventos climáticos mais extremos e mais frequentes dos que já vimos, com tempestades
tropicais e furacões mais fortes, inundações maiores, ondas de calor e secas
mais intensas e mais longas, avanço da desertificação e aumento do nível do
mar entre 28 e 43 centímetros até 2100. O painel reafirma que a mudança foi
induzida por actividades humanas, principalmente por emissões de gases de
efeito estufa. As mais contaminantes são as emissões de automóveis e indústrias,
cuja ampla maioria provém de países do Norte global. O acelerado processo de
industrialização da China também contribui significativamente e o México
ocupa o lugar número 14 na lista global, mas bem longe do principal
contaminador, que continua a ser os Estados Unidos. Apesar disso, o governo dos Estados Unidos, com apoio de cientistas
mercenários, dedicou‑se a negar a mudança climática, justificando
assim a sua recusa em mudar o seu estilo de produção e consumo. George W.
Bush iniciou a sua administração anunciando ao organismo das Nações Unidas
que se ocupa do assunto que não ia cumprir com as já limitadas metas do
Protocolo de Quioto porque isso afectava os interesses das suas indústrias.
No entanto, em meados do ano passado, Bush disse ao New York Times: «Deixemos
o debate sobre se os gases de efeito estufa são causados pela humanidade ou
por causas naturais; vamos focar‑nos somente nas tecnologias que
possam resolver o problema» (25/05/2006). Nesse pacote de tecnologias, estão os projectos de geoengenharia,
como a manipulação do clima para evitar, por exemplo, furacões como o Katrina.
Ou, pelo menos, evitar que cheguem à sua costa, ainda que talvez o resultado
seja que cheguem às dos seus vizinhos. A manipulação intencional do clima tem uma longa história, sobretudo
com fins bélicos. A CIA realizou experiências para provocar chuvas intensas e
prolongadas durante as guerras do Vietname e do Camboja, para destruir vias e
colheitas. Esta experiência e outras similares motivaram a criação nas Nações
Unidas da “Convenção sobre a proibição de utilizar técnicas de modificação
ambiental com fins militares ou outros fins hostis” (ENMOD, nas suas siglas
em inglês). Mas os Estados Unidos continuaram a realizar projectos deste
tipo. Num relatório da Força Aérea dos EUA em 1996, intitulado “O clima
como força multiplicadora: possuindo o clima em 2025”, concluem que o clima «fornece
uma dominação do campo de batalha até um grau nunca antes imaginado»,
incluindo a capacidade de desarticular operações inimigas provocando
tempestades, secas e escassez de água doce. Segundo a Organização Mundial de Meteorologia, 26 governos conduziam
experiências de alteração do clima no ano 2000. Em 2003-2004, 16 governos
admitiram este tipo de actividades, mas na realidade muitos mais estão
envolvidos. Os fins bélicos nunca estão descartados, mas os governos declaram
outro tipo de fins. A China, por exemplo, prometeu ao Comité Olímpico
Internacional que as Olimpíadas de 2008 em Beijing [Pequim] teriam somente
dias de sol, ainda que tivessem que alterar o clima. Talvez o mais preocupante seja a legitimação crescente destes
mecanismos, com a justificação de manejar os efeitos da mudança climática.
Por exemplo, as experiências de fertilizar o oceano com partículas de ferro,
numa das quais participou o México através do Centro de Investigação
Científica e de Educação Superior de Ensenada (CICESE) em 1995; propõem-se
aumentar o plancton da superfície marinha. Dessa forma absorver-se-ia dióxido de carbono (CO2), o que
teoricamente baixaria a temperatura do mar, evitando ou suavizando a formação
de furacões. Ainda que não haja evidências de sua efectividade e se saiba que
esta absorção de CO2 não é permanente, já existem empresas que
exploram esta actividade na forma comercial, vendendo “créditos de carbono”
pela suposta absorção de carbono. Publicaram‑se sobre isto estudos
científicos na Science, alertando que a proliferação destas actividades
terá impactos de amplo espectro sobre os ecossistemas marinhos e tudo o que
depende destes. Em vez de enfrentar as causas reais do desastre climático, a
geoengenharia criará novas catástrofes. Os dados deste artigo provêm do relatório do Grupo
ETC, Gambling
with Gaia, disponível em www.etcgroup.org. ___________ * Silvia Ribeiro é investigadora do Grupo ETC. |