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Mundo

23/12/2006

 

O lado escuro da medicina nanotecnológica

 

Silvia Ribeiro *

La Jornada

 

A convergência de novas tecnologias como a genómica e a nanotecnologia promete avanços que revolucionariam o sistema de diagnóstico e tratamento de muitas doenças que hoje são difíceis ou impossíveis de curar para a medicina convencional. Mas, para além de avanços pontuais para aqueles que os possam pagar, o que está fora de dúvidas é que estes enfoques cada vez mais refinados e fragmentários estão a revolucionar a forma de fazer lucros no sector farmacêutico. Por exemplo, como ferramentas para prolongar a patente de medicamentos, e portanto o seu monopólio por parte das empresas. Por outro lado, a nanotecnologia parece estar a criar novos problemas de saúde e, paradoxalmente, desvia fundos que deveriam ser dedicados a problemas básicos de salubridade, prevenção e cuidados primários da saúde, aspectos sobre os quais se sabe com certeza que têm um amplo impacto positivo na saúde da maioria das populações.

 

Conforme documenta o recente relatório do Grupo ETC, Medicina nanológica: aplicaciones médicas de la nanotecnología (www.etcgroup.org), em meados de 2006 estavam na etapa de provas clínicas ou em distribuição comercial mais de 130 fármacos e sistemas de administração de medicamentos com base nanotecnológica, além de 125 dispositivos e reagentes de diagnóstico. Enquanto em 2005 o mercado da medicina nanotecnologicamente habilitada (incluindo fármacos, terapias e diagnósticos) foi de mil milhões de dólares estadunidenses, em 2010 atingiria os 10 mil milhões. A Fundação Nacional da Ciência dos Estados Unidos prevê que metade do mercado de produtos farmacêuticos utilizará nanotecnologia em 2015.

 

Vejamos um exemplo: em Janeiro de 2005 a Administração de Fármacos e Alimentos [Food and Drug Administration] (FDA) aprovou a utilização do medicamento Abraxene, formulado nanotecnologicamente para o tratamento do câncer. Meios especializados consideraram-no «um salto gigantesco para a nanotecnologia». No dia seguinte, as acções da companhia que o desenvolveu, American Pharmaceutical Partners (agora chamada Abraxis Bio Science), subiram mais de 50 por cento e o seu presidente converteu-se nesse ano em multimilionário.

 

No dia 1 de Outubro de 2006, Alex Berenson deu a conhecer no New York Times outros aspectos desta história. O Abraxene é uma formulação nanotecnológica do taxol (uma substância activa da árvore do teixo, e certamente um caso de biopirataria), que já se usava contra o cancro da mama sob a patente monopolista da Bristol­‑Myers Squibb. A patente expirou em 2000 e começou-se a comercializar a versão genérica do taxol, chamada Paclitaxel, a 150 dólares por dose. O Abraxene é exactamente a mesma substância, mas ao ser administrada em nanopartículas cobertas de albumina, provoca muito menos reacções alérgicas nos pacientes, o que sem dúvida é desejável. No entanto, não tem nenhum efeito no prolongamento da vida do paciente nem outras vantagens terapêuticas. Quem realmente extrai o maior benefício é a empresa, que cobra 4200 dólares por cada dose de Abraxene (28 vezes mais que o genérico) e conseguiu, além do mais, estabelecer um novo monopólio de patente. Se este é o caso emblemático da medicina nanotecnológica, fica claro para onde [esta] se dirige.

 

Outras aplicações que estão em comercialização ou em desenvolvimento são, por exemplo, nano-sensores que circulam no corpo para detectar níveis de glucose, colesterol ou hormonas, nano-projécteis que alvejam células cancerosas, nanopartículas que vão a um sítio específico do organismo para administrar com precisão um medicamento, nano-partículas de prata com alto poder microbicida, armações nanométricas onde se estimula o crescimento de tecido ósseo e órgãos humanos.

 

Apesar de que estas aplicações poderiam ser úteis, todas elas vão acompanhadas, não só da luta pelo monopólio e pelo afã de lucro daqueles que as põem no mercado, como também pelas incertezas colocadas pela introdução de nanopartículas no organismo. Para onde vão as nanopartículas depois de cumprirem a sua função? A própria razão por que são úteis, não serem recusadas pelo facto de o sistema imunológico não as detectar, constitui um problema em si mesmo, uma vez que não está claro o que acontece finalmente com estas pequeníssimas partículas nos organismos vivos e há cada vez mais evidências de toxicidade.

 

Um dado significativo é o anúncio da Agência de Protecção Ambiental [Environmental Protection Agency] (EPA) dos Estados Unidos, em Novembro de 2006, de que a utilização de nanopartículas de prata deve ser regulamentada, porque podem implicar danos ambientais. Actualmente, estas são comercializadas como desinfectantes anti-bacteriais, em lava-roupas, equipamentos de ar condicionado, purificadores de ar, refrigeradores, contentores de alimentos, eliminação de cheiro em calçado, entre outros. A EPA considera que durante a produção, utilização e/ou disposição, as nanopartículas chegam ao ambiente, cursos de água, etc., e podem matar organismos benéficos, bem como entrar nas cadeias alimentares, com efeitos imprevisíveis. Isto afecta também os que apresentam este tipo de soluções para a purificação de água, e evidentemente no campo médico.

 

Sem dúvida, o maior problema sanitário que padecemos é o capitalismo e o afã de lucro que implica, com a sua extensa síndrome de pobreza e injustiça, que condena qualquer nova tecnologia a ser uma medicina elitista destinada àqueles que possam pagá-la. Nenhuma nova tecnologia poderá solucionar esta enfermidade social, mas tão pouco significa que por si mesma esteja livre de problemas. O que garante o capitalismo é que entrem no mercado sem discussão social e como se fossem êxitos, ainda que até criem novos problemas.

 

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[*] Investigadora do Grupo ETC.