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23/11/2006 Silvia Ribeiro * Todas as empresas que
produzem cultivos transgénicos – Syngenta, Monsanto, Dupont, Dow, Bayer, BASF
– têm investimentos em cultivos concebidos para a produção de biocombustíveis
como o etanol e o biodiesel. Têm, além disso, acordos de colaboração nesta rúbrica
com a Cargill, a Archer Daniel Midland, a Bunge, transnacionais que dominam o
comércio mundial de grãos. Na maioria dos casos, a investigação está voltada
para a obtenção de novos tipos de manipulação genética de milho, cana de
açúcar, soja, entre outros, convertendo‑os em cultivos não comestíveis,
o que aumenta dramaticamente os riscos que a contaminação transgénica já
implica em si mesma. À escala mundial, empresas e
governos estão a fazer uma intensa campanha para apresentar os biocombustíveis
como alternativas ambientalmente amigáveis que ajudariam a combater a mudança
climática, ao substituir uma parte do consumo de petróleo dedicado a
combustíveis para transporte. Mas a lógica de fundo não é abandonar o
petróleo nem mudar os padrões de consumo que produzem a mudança climática, mas
aproveitar a conjuntura para criar novas fontes de negócios, promovendo e
subsidiando a produção industrial de cultivos para esses fins. Já existem estudos que
mostram que os cultivos industriais de biocombustíveis colocam muitos
problemas. Brian Tokar, do Instituto de Ecologia Social de Vermont, Estados
Unidos, dá conta de duas análises recentes das universidades de Cornell e de
Minnesota que mostram que o ciclo completo da produção de biocombustíveis
deixa um saldo ambientalmente destrutivo. Dado que o processamento destes
cultivos requer uma quantidade significativa de energia, o contributo final de
energia é muito limitado. Ainda que os biocombustíveis
substituam em alguma percentagem o uso de petróleo, são necessárias grandes
áreas de produção agrícola industrial intensiva, incrementando o uso de
agrotóxicos que provocam a erosão e contaminam o solo e a água, além de
disputar essas áreas à produção de alimentos. Segundo o investigador Lester
Brown (citado por Tokar), «agora são os automóveis, não as pessoas, os que
demandam a produção anual de cereais. A quantidade de grãos que se requerem
para encher o tanque de uma camioneta SUV com etanol é suficiente para
alimentar uma pessoa durante um ano». As produtoras de transgénicos
vêem em tudo isto uma excelente oportunidade para aumentar os seus lucros e
justificar a manipulação genética como se fosse em benefício ambiental. Os seus
investimentos em biocombustíveis incluem o desenvolvimento de cultivos
transgénicos com maior conteúdo de açúcares (para converter em etanol), de
azeites (para biodiesel) e a inserção de genes que desenvolvem enzimas para
facilitar o seu processamento. A Syngenta trabalha em
colaboração com a Diversa Corporation para desenvolver um milho que produz
por si mesmo uma enzima que o converte em etanol, a qual provém de uma
bactéria extremófila que suporta altas temperaturas, tomada da colecção de
bactérias que essa empresa colectou em vários países do mundo. A Diversa tem
uma colaboração similar com a Dupont, que através da sua subsidiária Pioneer
Hi-Bred desenvolve um milho com maior conteúdo de amido e celulose. Para isso,
estão a usar uma enzima que provém de uma bactéria manipulada (Zymomonas
mobilis), a qual se encontra em forma natural no agave. Em ambos os
casos, a manipulação genética compromete o uso do milho como cultivo alimentar,
acrescentando riscos aos casos de contaminação que possam ocorrer. Neste contexto, é
interessante recordar que a Diversa tinha até 2001 um acordo de “bioprospecção”
com o Instituto de Biotecnologia da UNAM para explorar organismos extremófilos
e bactérias únicas do México. Este contrato foi suspenso depois de uma ampla
coordenação de organizações e personalidades ter iniciado uma acção popular
denunciando o contrato como biopirataria. Apesar disto, a Diversa nunca
devolveu ao México as amostras que recolheu durante a curta duração do
contrato. Seria paradoxal que as transnacionais usassem microorganismos extraídos
do nosso país para primeiro manipular geneticamente o milho e depois tentar
vendê‑lo aqui como um produto “ambientalmente amigável”. Lamentavelmente, a iniciativa
de Lei para o Desenvolvimento e Promoção dos Bioenergéticos, que já foi discutida
por ambas as câmaras do Congresso, com o aval de todos os partidos, promove
este desenvolvimento. A justificação da iniciativa copia os clichés que se
repetem na propaganda das indústrias para fomentar esta farsa. Mas, além
disso, argumenta-se que isto deveria significar apoios para a produção
agrícola de pequena escala. Ou seja, se os camponeses que criaram o milho
estivessem dispostos a semear transgénicos com milho não comestível, que cedo
ou tarde contaminaria o seu milho nativo, inutilizando‑o, dar‑lhes-iam
apoio oficial. Ou, se fosse com outros cultivos, como cana de açúcar, teria
de qualquer modo de ser a expensas da produção de alimentos nas condições e
segundo as exigências das transnacionais dos agronegócios, que comprarão a
quem lhes oferecer mais barato em qualquer parte do mundo, [sendo que] para
isso o promovem simultaneamente em muitos países. Ao invés de soberania
alimentar, o que promove são mais subsídios para as multinacionais e mais
ameaças transgénicas para o milho e as economias campesinas. _______ * Investigadora do Grupo ETC. |