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02/06/2006 Silvia Ribeiro * A biologia sintética é uma
nova rubrica científica e industrial, cujo objectivo é criar formas de vida
artificiais para cumprir tarefas ao gosto do desenhador. Não satisfeitos com
os problemas criados com os transgénicos – seres vivos nos que se inserem
genes de outras espécies –, agora trata‑se de construir organismos
vivos do zero, desenhados à la carte, a partir da fabricação de módulos de ADN
artificial, programados para serem montados uns com os outros. Não é ficção
científica, mas uma realidade que se está a desenvolver para além de qualquer
controle social e responsabilidade ética. Segundo uma investigação do
Grupo ETC, existem pelo menos 39 empresas, com financiamento privado e
público – incluídos exércitos –, que se dedicam a fabricar ADN artificial ou
partes deste. A Codon Devices (Cambridge, Massachussets), por exemplo, foi
fundada este ano por investigadores de universidades públicas e empresas.
Oferece troços de ADN sintetizado, que os compradores podem montar segundo o
que queiram construir. Diferentes grupos de investigadores
têm sintetizado vírus completos: bacteriófagos, vírus da pólio e outros.
Recentemente reconstruíram o vírus que provocou a epidemia de influenza espanhola
em 1918. Ainda que os “avanços” sejam rápidos, os cientistas estão longe de
controlar tudo o que sucede nestes processos. Os seres vivos criados
artificialmente actuam muitas vezes de maneira inexplicável para eles. A
vida, apesar dos esforços destes cientistas, não se pode reduzir a tijolos montáveis
nem a programas de computação. Em 2004 a revista Nature
afirmava num editorial: «Se de facto os biólogos estão na ombreira de
sintetizar novas formas de vida [então já o haviam feito], as possibilidades
de usos mal‑intencionados ou desastres involuntários poderiam ser
enormes». O risco de utilizar a biologia sintética para construir vírus
malignos, como armas biológicas, é enorme e real. Imaginem que se usa a
informação do mapa genómico dos mexicanos –colocado na Internet, acessível a
qualquer um – na construção de vírus sintéticos que só afectam determinados
grupos étnicos. Estes problemas não parecem tirar o sono nem impedir os
investigadores de prosseguirem. Uma das criações mais
alarmantes é a realizada por duas equipas de cientistas na Califórnia e na Flórida,
as quais, tomando o “modelo” das quatro bases que compõem o DNA de todos os
seres vivos (chamadas C, G, T, A), construíram uma quinta e depois uma sexta
base, e conseguiram que se montassem com as outras quatro e se reproduzissem.
Isto abre a porta para criar espécies totalmente desconhecidas, de incrível
complexidade e um espectro de impactos insuspeitados, totalmente imprevisíveis
sobre a vida, a biodiversidade e as suas interacções. Craig Venter, o magnata da
genómica – que criou a sua própria empresa para competir com o mapeamento
público do genoma humano –, fundou em 2005 a Synthetics Genomics para criar,
entre outros, microorganismos artificiais que produzam energia ou absorvam
dióxido de carbono «para mitigar os efeitos da mudança climática». Os
resultados da interacção dos organismos vivos artificiais com o ambiente são
incertos e de potencial catastrófico se fossem libertados, por exemplo, no
mar. Mas o governo dos Estados Unidos, que financiou as investigações de
Venter através do Departamento de Energia, poderia fazer exactamente isso. No
dia 25 de Maio passado George W. Bush declarou em The New York Times:
«Deixemos o debate sobre se os gases de efeito estufa são causados pela
humanidade ou por razões naturais; vamos focar‑nos somente nas
tecnologias que possam resolver o assunto». Referia-se à energia nuclear ou
qualquer outra que apareça como solução. Não importa que no caminho se criem
problemas ainda piores. Para tratar de prevenir que a
informação pública sobre a biologia sintética gere uma resistência igual ou
maior à que apresentam os transgénicos, um grupo de cientistas que trabalha
neste campo reuniu‑se entre 20 e 22 de Maio em Berkeley, Califórnia,
na conferência Synthetic Biology 2.0. Propõem impor uma “auto‑regulação”
às suas actividades, criando um código de conduta definido por eles mesmos. O modelo é a conferência de
Asilomar, de 1975, sobre engenharia genética. Com a história à vista, esta só
serviu para dar aos cientistas uma falsa imagem de confiabilidade, atrasando
de maneira desastrosa o envolvimento do público e qualquer controle regulador
real sobre as suas actividades. Quando começaram a ser redigidas leis de bio‑segurança,
estas fizeram‑se favorecendo as empresas dominantes do sector, o que
resultou ineficiente para a verdadeira segurança da população e do ambiente.
Agora, além disso, são totalmente incapazes de regular os novos impactos
potenciais da biologia sintética. Pelo menos 38 organizações de
ambientalistas, cientistas e da sociedade civil declararam no passado dia 19
de Maio o seu alerta face à tecnologia sintética e a sua firme oposição a
qualquer proposta de “auto‑regulação”.
Assinalaram que o indispensável é um amplo debate social, para além da bio‑segurança,
e que de modo nenhum pode ser dirigido por aqueles que estão directamente envolvidos,
inclusive mediante interesses comerciais. O debate social é necessário,
mas antes de tudo precisamos parar aqueles que em nome da ciência e servindo
os seus próprios interesses, sejam “cientistas” ou empresas, se arrogam o
direito de manipular a vida, ainda que à custa de colocar em risco a de todos
os demais. _______ * Investigadora do Grupo ETC. |