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Mundo

24/01/2006

 

Transgénicos, ameaça para os bebés

 

Silvia Ribeiro *

La Jornada

 

Um novo estudo científico mostrou que mais de metade das crias de ratos de laboratório cujas mães foram alimentadas com soja transgénica durante a gestação morreram nas três primeiras semanas de vida. Isto significa uma média seis vezes mais alta do que outras ratas que receberam alimentação normal.

 

A notícia foi difundida no dia 8 de Janeiro passado no diário britânico The Independent, que meses antes também entregou ao público um relatório secreto do gigante biotecnológico Monsanto, o qual mostrava que ratos alimentadas com milho transgénico dessa companhia tinham sofrido alterações nos seus órgãos internos, indicando possíveis danos no sistema imunológico.

 

O novo estudo, que se estima é o primeiro a investigar os efeitos dos transgénicos em fetos e crias, está a cargo da doutora Irina Ermakova, investigadora do Instituto de Neuro­fisiologia da Academia das Ciências da Rússia. A experiência consistiu em juntar farinha de soja transgénica resistente ao herbicida glifosato (conhecido como soja RR da empresa Monsanto) à alimentação de um grupo de ratas, duas semanas antes, durante a gestação e a lactância. Outro grupo de ratas recebeu farinha de soja não transgénica e um terceiro grupo não recebeu soja durante o mesmo período. Ermakova constatou que 36 por cento das crias do grupo alimentado com transgénicos sofriam de peso severamente inferior ao normal, comparado com 6 por cento nos outros grupos. Mas o mais alarmante foi que 55,6 por cento das crias do grupo alimentado com soja transgénica morreram nas três primeiras semanas, comparadas com 9 por cento das crias do grupo alimentado com soja normal, e 6,8 por cento no que não recebeu soja.

 

A doutora Ermakova declarou ao The Independent que «a morfologia e a estrutura bioquímica dos ratos é similar à dos humanos, o que faz com que estes resultados sejam muito alarmantes... Indicam que poderiam existir riscos para as mães e seus bebés».

 

Em Novembro de 2005, o centro de investigação científica mais importante da Austrália, Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation (CSIRO), abandonou um projecto de dez anos e 2 milhões de dólares para criar chícharos (ervilhas) transgénicos, depois de a experiência em ratos ter mostrado uma reacção alérgica que consideraram poderia implicar sérios riscos para o consumo humano.

 

O caso é muito significativo, porque tinham inserido no chícharo genes de um feijão cujo consumo enquanto tal não produz alergias. A combinação tinha por objectivo tornar os chícharos resistentes aos ataques de gorgulhos. Segundo os investigadores do CSIRO, os genes de feijão inseridos nos chícharos manifestaram­­‑se de maneira subtilmente diferente, o que desencadeou a reacção alérgica. Isto mostra uma vez mais o que muitos cientistas suspeitam, mas quase ninguém recebe fundos para pesquisar: a transferência de genes cria proteínas similares, mas com pequeníssimas diferenças que têm efeitos nos organismos vivos, muito diferentes das proteínas originais. Actualmente, nem a soja nem o milho transgénico que se comercializam passam por este tipo de provas em animais, que somente se aplicam quando se trata de transgénicos de uso médico.

 

Paul Foster, da Universidade Nacional da Austrália em Camberra, que dirigiu a equipa de avaliação imunológica dos chícharos, alimentou ratos com os chícharos transgénicos, notando uma reacção alérgica inesperada. Também expuseram ratos a essa proteína transgénica purificada, injectando-a nas vias sanguíneas e através de inalação. Os ratos injectados mostraram hiper­sensibilidade na pele, e os que a inalaram sofreram inflamação e danos pulmonares.

 

Paradoxalmente, enquanto vão aumentando as evidências de que os transgénicos teriam impactos importantes na saúde dos consumidores, a Monsanto, principal produtora de transgénicos do mundo, anuncia que teve resultados económicos extraordinários. E, segundo as estatísticas das empresas produtoras de transgénicos, em 2005 estes cultivos tinham­‑se expandido a mais de 400 milhões de hectares no mundo.

 

O que estas empresas não dizem é que esta expansão tóxica se produz com o ocultamento de dados reais sobre os cultivos transgénicos: podem causar danos à saúde, rendem menos, usam mais químicos e são bem mais caros do que os cultivos convencionais. A isto se acrescenta que os cultivos campesinos contaminados por estes, como o milho, sofrem deformações e quem sabe o que mais nos próximos anos.

 

É altamente provável que o milho e a soja transgénica que se colaram à nossa alimentação produzam alergias e outros danos à saúde. Não o podemos saber, porque, além de que as empresas têm sabotado com sucesso que sejam etiquetados, as regulações para liberalizar o seu consumo ou para cultivá-los não exigem o tipo de provas que os estudos científicos aplicaram nos casos referidos.

 

Não é necessário que um produto seja bom, em nenhum sentido, para chegar ao mercado. Basta, com o poder das multinacionais, pagar propaganda mentirosa e comprar governos e legisladores corruptos.

 

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* Investigadora do Grupo ETC.