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Setembro 2006 O problema com a soja Vandana Shiva * IPS; retirado de IPS/Envolverde Há cinquenta anos nenhuma
cultura do mundo comia soja. Então, nos Estados Unidos começou a ser colocada
em 70% dos alimentos industriais. Actualmente, está em 60% de todos os
alimentos processados. A promoção do uso alimentar da soja é uma enorme experiência
apoiada por 13 mil milhões de dólares em subsídios do governo norte-americano
entre 1998 e 2004 e por 80 milhões de dólares ao ano da indústria desse país.
Como resultado deste experimento da natureza, a cultura e a saúde das pessoas
estão a ser destruídas. A humanidade nutriu‑se através da sua evolução
com mais de 80 mil plantas comestíveis, e com cerca de três mil delas de
forma constante. Actualmente depende de apenas oito cultivos para fornecerem
75% dos alimentos no mundo. Em 1988, o óleo comestível autóctone
da Índia, feito com semente de mostarda, polpa de coco, linhaça e amendoim,
tudo isso processado a frio em moinhos artesanais, foi proibido com a
desculpa de proteger a “segurança alimentar”. Simultaneamente, foram
levantadas as restrições para a importação de óleo de soja, o que ameaçou os
meios de vida de dez milhões de agricultores. Foram fechados um milhão de
moinhos de óleo. Mais de 20 agricultores perderam a vida quando protestavam
contra o dumping da soja no mercado indiano, que havia provocado uma
baixa acentuada dos preços do óleo e cultivos locais. E milhões de toneladas
de óleo de soja geneticamente modificada vendido a preços artificialmente
baratos continuaram a inundar o mercado indiano. As mesmas companhias
responsáveis pelo dumping da soja na Índia – Cargill e ADM – estão a
destruir amplos sectores da região amazónica para plantar soja. Milhões de
hectares de selva tropical estão a ser queimados para receber esse cultivo
destinado à exportação. Enquanto as pessoas no Brasil e na Índia vêem como
são ameaçados os seus meios de vida pelo fomento da monocultura que beneficia
as grandes agroempresas, as pessoas nos Estados Unidos e na Europa também
sofrem indirectamente uma ameaça, pelo facto de 80% da soja ser destinado à
alimentação do gado para obter carne barata, o que destrói tanto a selva
pluvial do Amazonas quanto a saúde das pessoas nos países ricos. A soja tem
um alto nível de isoflavonas e de fitoestrógenos, o que produz desequilíbrios
hormonais nos seres humanos. As monoculturas afectam tanto os subalimentados
quanto os superalimentados. Mil milhões de pessoas
carecem de alimentos suficientes porque as monoculturas industriais tiram os
seus meios de vida na agricultura. Além disso, 1,7 mil milhões sofrem de
obesidade e doenças vinculadas com a alimentação. Ao depender de monoculturas,
o sistema alimentar torna‑se cada vez mais dependente dos combustíveis
de origem fóssil utilizados nos fertilizantes sintéticos, no funcionamento de
grandes máquinas e no transporte a longa distâncias. Ir além das monoculturas
transformou‑se num imperativo para equilibrar o sistema alimentar
mundial. As pequenas propriedades produtoras com diversidade biológica têm
uma produtividade mais alta e geram maior renda para os agricultores. E as
dietas com produtos de cultivos biodiversos proporcionam melhor nutrição. O controle das grandes
corporações empresariais sobre a agricultura mundial leva à monocultura. A
liberdade alimentar dos cidadãos depende da biodiversidade. A liberdade
humana e a liberdade de outras espécies reforçam‑se mutuamente, e não
ao contrário. Nos nossos tempos a soja converteu‑se num símbolo de uma
economia que destrói a natureza e as culturas autóctones. Simboliza o
afastamento da natureza e dos nossos próprios corpos. Simboliza cobiça e
controle. Através da soja, as corporações globais como Monsanto, Cargill e
ADM apoderam‑se do controle das terras e da biodiversidade. A Monsanto
tem uma longa série de patentes sobre a soja modificada geneticamente. Não estamos apenas a perder o
Amazonas, que pode desaparecer em 2080 se continuarem os actuais níveis de
desmatamento, segundo o dr. Philip Fearnside, mas estamos também a destruir o
clima do planeta. O Amazonas é o pulmão e o coração da Terra. Além de fazer
baixar o nível de carbono na atmosfera, ajuda a melhorar o clima e a
acrescentar humidade aos ventos alísios. À medida que as florestas
desaparecem, reduz‑se a humidade e aumentam as secas. Na seca de 2005,
os níveis do Rio Amazonas, que normalmente podem cair entre 30 e 40 pés,
baixaram 51 pés. Em um ponto do rio, no Acre, o seu leito podia ser cruzado a
pé. Ao “devorar” o Amazonas para
obter carne barata e soja barata, as corporações agrocomerciais, como a
Cargill, estão, de facto, a “devorar” o planeta. Se queremos evitar uma total
catástrofe ecológica e humana, precisamos abandonar o primitivo modelo económico
de acúmulo, que destrói e consome para criar “crescimento”. E somente as
culturas autóctones podem ensinar‑nos como viver de forma diferente,
de modo que as diversas espécies e as diversas culturas possam florescer no
nosso planeta. _________ * Vandana Shiva, autora e militante internacional em campanhas pela mulher e pelo meio ambiente, recebeu em 1993 o Right Livelihoof Award, prémio alternativo ao Nobel. |