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Mundo

27/05/2005

 

 

O mundo polarizado da globalização

– Uma resposta à hipótese da terra plana de Tom Friedman –

 

Vandana Shiva

Znet; retirado de Imediata

 

O projecto da globalização corporativa é um projecto para a polarização e a divisão das pessoas — ao longo do eixo da desigualdade económica e de classe, do eixo da religião e da cultura, do eixo do género, do eixo das geografias e regiões.

 

Nunca, em toda a história humana, o hiato entre aqueles que trabalham e aqueles que acumulam riqueza foi maior que hoje. Nunca como hoje o ódio entre as culturas foi tão global. Nunca como hoje houve uma convergência global de três tendências — a violência da acumulação primitiva para a criação de riqueza, a violência das “guerras culturais”, e a violência da guerra militarizada.

 

Apesar disso, Thomas Friedman descreve esse mundo profundamente dividido, criado pela globalização, e os seus múltiplos descendentes de insegurança e polarização, como um mundo “plano”, “nivelado”. No seu livro The world is Flat (O mundo é plano), Friedman tenta desesperadamente argumentar que a globalização é um nivelador de desigualdades na sociedade. Acontece que, quando olhamos somente para a worldwide web, ou seja, a rede da tecnologia de informação, e recusamos olhar para a rede da vida, a rede alimentar, a rede comunitária, a rede das economias e das culturas locais, que estão a ser destruídas pela globalização, fica fácil formular argumentos falsos e falaciosos, como o de que o mundo é plano.

 

Quando olhamos para o mundo pousado nas alturas do poder cego e arrogante, separados e desconectados daqueles que perderam seu ganha-pão, estilos de vida, e vida — agricultores e trabalhadores, em qualquer lugar — é fácil ficar cego tanto em relação aos vales de pobreza quanto às montanhas de abundância.

 

A visão niveladora é uma doença. Mas Friedman gostaria que tivéssemos a mesma visão niveladora, perversa e enferma que ele tem das polarizações das globalizações, como uma revolução que almeja reverter as revoluções que nos permitiram ver que o mundo é redondo e que a terra gira em torno do sol, não o contrário disso.

 

Friedman reduziu o mundo aos amigos que visita, aos presidentes e directores gerais que ele conhece, e aos campos de golfe onde joga. A partir desse microcosmo de privilégio, exclusão, cegueira, ele exclui tanto a beleza da diversidade quanto a brutalidade da exploração e da desigualdade, ele deixa de fora a exterioridade social e ecológica da globalização económica e do livre comércio, ele exclui as muralhas que a globalização está a construir — muros de insegurança, de ódio e de medo — muros de “propriedade intelectual”, muros de privatização.

 

Ele se concentra somente nas leis, regulamentações e políticas que eram as protecções dos fracos e vulneráveis, em barreiras necessárias como condições demarcatórias para o exercício da liberdade e da democracia, dos direitos e da justiça, paz e segurança, sustentabilidade e partilha dos preciosos e vitais recursos da terra. E ele vê o desmantelamento dessas protecções ecológicas e sociais em prol do comércio desregulamentado como um “nivelamento”.

 

Mas esse nivelamento de que fala é como o nivelamento das cidades pelas bombas, o nivelamento das costas asiáticas pelo tsunami, o nivelamento das florestas e terras tribais em prol da construção de represas e minas de minérios. A conceitualização do mundo de Friedman como plano, nivelado, é precisa somente como descrição da destruição social e ecológica causada pelo comércio desregulamentado ou “livre comércio”. Em todos os outros aspectos, é errada e falsa.

 

Consideremos a descrição de Friedman sobre as ondas de globalização. Segundo ele, a globalização 1.0 durou de 1492, quando Colombo levantou as velas, a 1800, e encolheu o mundo de um tamanho grande para um tamanho médio, com países e governos destruindo barreiras e tricotando o mundo em conjunto. A globalização 2.0, que durou de 1800 a 2000, encolheu o mundo de um tamanho médio a um tamanho pequeno, e o agente fundamental dessa mudança foram as companhias multinacionais. A globalização 3.0 começou em 2000, e está a encolher o mundo de um tamanho pequeno a um tamanho ínfimo, e estaria a ser impulsionada pelos indivíduos.

 

Essa é uma visão totalmente falsa da história. De uma perspectiva do sul do mundo, as três ondas de globalização basearam­‑se no uso da força, foram impulsionadas pela ganância, e resultaram na expropriação e no deslocamento. Para os nativos americanos, a globalização 1.0 começou em 1492 e ainda não acabou.

 

Para nós, na Índia, a primeira onda de globalização foi impulsionada pela primeira corporação global, a Companhia das Índias Orientais, trabalhando em colaboração estreita com a equipa britânica, e não acabou até 1947, quando declaramos a nossa Independência. Consideramos a fase actual como uma recolonização, com uma parceria similar entre as corporações multinacionais e os governos todo-poderosos. É conduzida pelas corporações, não pelos indivíduos. E a fase actual não começou em 2000, como Friedman gostaria que acreditássemos. Começou em 1980, com os programas de ajustes estruturais do Banco Mundial e do FMI impondo a liberalização do comércio e a privatização, e foi acelerada desde 1995, com o estabelecimento da Organização Mundial do Comércio, no fim da Rodada do Uruguai do GATT (Acordo Geral de Tarifas e Comércio).

 

A falsa história de Friedman de que a terra é plana permite­‑lhe dar dois passes de mágica — os resultados dos tratados coercitivos e não democráticos de “livre comércio” são reduzidos às realizações da tecnologia da informação e a globalização corporativa e o controle corporativo são apresentados como as colaborações e competições entre indivíduos. A OMC, o Banco Mundial e o FMI desaparecem, e as corporações multinacionais desaparecem. A globalização então, diz respeito à inevitabilidade tecnológica e à capacidade de inovação individual, e não a um projecto de poderosas corporações ajudadas por poderosas instituições e poderosos governos.

 

Nem o e-commerce nem a walmartização da economia poderiam ocorrer sem o desmantelamento das protecções ao comércio, das protecções aos trabalhadores, das protecções ambientais. A tecnologia de comunicação não pode suprir mercadorias a longa distância, incluindo produtos alimentares mais baratos, que o fornecedor local. São os baixos salários, os subsídios, a externalização dos custos que tornam a “Wal” barata, e não a sua gerência da linha de suprimento baseada na tecnologia de informação.

 

Em 1988, eu encontrava­‑me em Berlim, antes da queda do muro de Berlim. Fazíamos parte da maior mobilização que houve contra o Banco Mundial. Dirigindo-nos a uma manifestação com quase 100.000 pessoas no muro de Berlim, eu disse que o muro de Berlim deveria cair, assim como deveria cair o muro entre os ricos e os pobres que o Banco Mundial cria, trancando o Terceiro Mundo na dívida, privatizando os nossos recursos, e transformando as nossas economias em mercados para as corporações multinacionais. Falei sobre como a aliança entre o Banco Mundial e as corporações globais estava a estabelecer um comando centralizado e autoritário como o comunismo, no seu controle, mas diferente quanto aos objectivos de lucros, como o único fim do poder. Como movimentos, nós buscamos e lutamos por destruir os muros do poder e da desigualdade.

 

A visão niveladora de Friedman torna­‑o cego quanto à emergência do controle corporativo através das regras da globalização corporativa como o estabelecimento da regra autoritária e das economias de controle centralizado. Ele apresenta o colapso do muro de Berlim como tendo «inclinado o equilíbrio em todo o mundo, a favor daqueles que defendem uma governança democrática, consensual, e orientada para o livre mercado, e contra aqueles que defendem o comando autoritário das economias com planejamento centralizado».

 

Os movimentos dos cidadãos contra a globalização defendem uma governança democrática e consensual e lutam contra a OMC, o Banco Mundial e as corporações globais justamente porque essas entidades são não democráticas e ditatoriais; elas são autoritárias e centralizadas. O acordo da OMC sobre a agricultura foi esboçado por Amstutz, funcionário da Cargill, e foi ele quem liderou as negociações sobre agricultura durante a Rodada do Uruguai e agora está encarregado dos Alimentos e Agricultura na Constituição do Iraque. Trata­‑se de um controle autoritário, com planejamento centralizado sobre os alimentos e a agricultura.

 

É por isso que a resposta democrática e consensual dos movimentos de cidadãos e dos governos do Terceiro Mundo em Cancun levaram ao colapso do ministerial da OMC. E foram exactamente os chamados “niveladores” que erigiram muros — as barricadas nas quais o agricultor coreano Lee se suicidou, os muros que o Representante para o Comércio dos EUA, Zoellick tentou criar entre os países que “podem fazer” e os países que “não podem fazer”. O que Zoellick e Friedman não conseguem ver é que o que eles chamam de “não podem fazer” é o que “podem fazer" para a defesa de agricultores frente ao dumping (N. do T.: venda de preços inferiores ao normal.) e ao comércio injusto.

 

O mundo deles é moldado e concentrado na Cargill — o nosso mundo é moldado e concentrado nos 300 milhões de espécies e 6 mil milhões de pessoas.

 

O maior muro criado pela OMC é o muro do comércio relativo ao Acordo de Direitos de Propriedade Intelectual (Intellectual Property Rights Agreement, ou TRIPS). Isso também é parte de um controle autoritário com planeamento centralizado. Conforme admitido pela Monsanto, ao esboçar o acordo, as corporações organizadas como uma Comissão de Propriedade Intelectual eram «os pacientes, os diagnosticadores e os médicos — tudo ao mesmo tempo». Ao invés de contar a história dos TRIPS e de como a globalização imposta pelas corporações e pela OMC está a levar a Índia a destruir as suas democraticamente concebidas leis de patentes, criando monopólios sobre as sementes e remédios, levando agricultores ao suicídio e negando às vítimas da SIDA, do cancro, da tuberculose e da malária o acesso aos remédios que lhes salvariam a vida, Friedman empenha­‑se noutro passo desonesto para criar um mundo nivelado.

 

Ele apresenta o Movimento de Software open source começado por Richard Stallman, como uma tendência niveladora da globalização corporativa quando, na realidade, Stallman é um dos maiores críticos da propriedade intelectual e dos monopólios corporativos, e um batalhador contra os muros que as corporações estão criando para impedir que os agricultores guardem sementes, os pesquisadores façam pesquisas, e os desenvolvedores de software criem novos softwares.

 

Apresentando o open sourcing na mesma categoria que o outsourcing (terceirização) e a produção off shore, Friedman esconde a ganância corporativa, os monopólios corporativos e o poder corporativo, e apresenta a globalização corporativa como criatividade humana e liberdade.

 

Essa é desonestidade deliberada, não apenas o resultado de uma visão plana ou niveladora. É por isso que nas suas histórias da Índia ele não fala do Dr. Hamid, do CIPLA, que forneceu remédios contra a SIDA para a África por 200 dólares, quando as corporações dos EUA queriam vender os mesmos medicamentos por 20.000 dólares. Foi o Dr. Hamid quem chamou as leis de patentes da OMC de «genocidas». E, embora a equipa de pesquisa de Friedman tenha marcado um encontro comigo para irmos a Bangalore, para falarmos sobre os suicídios dos agricultores, para o documentário a que se refere Friedman, ele cancelou o encontro no último minuto.

 

Contar um só lado da história para um único tipo de interesse parece ser o destino de Friedman. Por isso ele fala de 550 milhões de jovens indianos ultrapassando os americanos, num mundo plano. Quando todo o sector da Terceirização Tecnológica na Índia emprega somente um milhão de pessoas, num país de 1,2 mil milhões de indivíduos. Alimentos e agricultura, têxteis e roupas, saúde e educação não constam em nenhum lugar, na monocultura da mente de Friedman, trancada dentro da Tecnologia da Informação.

 

Friedman apresenta 0,1% do quadro e esconde 99,9%. E nesses 99,9% estão os monopólios de sementes da Monsanto e os suicídios de milhares de guerras. Nos 99,9% eclipsados, estão os 25 milhões de mulheres que desapareceram em áreas de grande crescimento da Índia, porque um mundo em que tudo é mercadoria tornou as mulheres um sexo dispensável. Nos 99% escondidos da economia estão milhares de crianças tribais em Orissa, Maharashtra, Rajasthan que morreram de fome porque o sistema de distribuição pública dos alimentos foi destruído para criar mercados para o agronegócio. O mundo dos 99,9% ficou mais pobre devido à globalização económica.

 

E é pelos direitos deles que estamos a lutar. Trabalhamos para construir alternativas para um mundo mais justo, mais sustentável, mais pacífico — um mundo compartilhado e comum — no qual a nossa humanidade comum e responsabilidade universal nos conecte à democracia da terra. Os muros da exclusão e discriminação que a globalização fortaleceu são feitos pelos homens no poder. Como o muro de Berlim, eles também precisam dissolver, porque o controle autoritário é inconsistente com as sociedades livres, e a globalização corporativa é uma forma de autoritarismo e ditadura que nos está a roubar as nossas liberdades fundamentais e os nossos plenos potenciais humanos.

 

E o mundo que estamos a reclamar e a rejuvenescer não é plano. É diverso, democrático e descentralizado, é sustentável e seguro para todos, baseado na cooperação e na partilha dos recursos da terra e das nossas habilidades e criatividade. A liberdade que procuramos é a liberdade para todos, não a liberdade para poucos. O livre comércio diz respeito à liberdade para as corporações e à privação de direitos para os cidadãos.

 

O que Friedman está a apresentar como “nivelamento” é, de facto, um novo sistema de castas, um novo bramanismo, trancado em hierarquias de exclusão. No sistema de castas de Friedman, os “shudras” são todos aqueles cujo ganha-pão está a ser roubado para que se expandam os mercados e aumentem os lucros das corporações globais. Eles são excluídos por invisíveis muros sociais e económicos criados pela globalização enquanto ela faz desmoronar os muros de protecção de todos os modos de sustento e trabalho dos povos.

 

Os indianos absorvidos pela economia dos EUA por meio da terceirização não são os novos brahmins. Eles têm que se contentar com apenas cerca de 1/8 a 1/5 do salário das suas contra­partes nos EUA, e o que é terceirizado é apenas trabalho estandardizado, operações mecânicas. A terceirização é o taylorismo da era da informação. O controle está nas mãos das corporações nos EUA. Eles são os brahmins que monopolizam o conhecimento através da propriedade intelectual. A terceirização e o envio das operações para fora do país é como o “mandar trabalho para fora” na revolução industrial. Trata-se de velhas ferramentas para manter hierarquias exploradoras — e não novas conexões terrestres planas entre partes iguais, iguais em criatividade e iguais em direitos.

 

A liberdade do livre comércio é a liberdade da terra nivelada. A democracia da terra é a liberdade de toda a terra e liberdade da terra redonda — liberdade para todos os seres de viverem as suas vidas dentro das fronteiras abundantes e renováveis, porém limitadas, da terra. Não habitamos um mundo sem limites, onde a ilimitada ganância corporativa pode ser libertada de qualquer rédea e permitida de destruir a terra e roubar a população da sua segurança, do seu ganha-pão, dos seus recursos. A plena liberdade da terra surge em sociedades livres, moldada por povos livres que reconhecem a liberdade de todos. A diversidade é uma expressão da plena liberdade da terra. O “nivelamento” é um sintoma da ausência de liberdade real. O fascismo busca o nivelamento.