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04/09/2005 José Saramago Aos políticos, polícias e juízes da Argentina eu recomendaria uma leitura urgente, a de um livro que se chama Os miseráveis e que foi escrito por um francês cujo nome, Víctor Hugo, talvez tenham ouvido alguma vez. Aí se conta a história de um homem que passou quase toda a sua vida na prisão por ter roubado um pão. Dir‑me‑ão os políticos, polícias e juízes da Argentina que isso são coisas que só acontecem nas novelas e que no país da pampa nunca semelhante barbaridade poderia ocorrer. Pode ser sim, quem sou eu para duvidar da palavra de pessoas tão respeitáveis, umas que fazem as leis, outras que se encarregam de fazê-las cumprir. Mas, se não me equivoco demasiado, estão a passar‑se coisas em Buenos Aires que começam a parecer-se perigosamente com as desgraças de Jean Valjean. Estou seguro de que se Víctor Hugo estivesse vivo se interessaria pelos casos de Raúl Castells, libertado da prisão há um par de semanas depois de uma greve de fome de 61 dias, por ter montado uma manifestação frente à McDonald’s exigindo «hambúrgueres para todos» (num país com a melhor carne do mundo). E de Margarita Meira, presa há mais de um ano por ter protestado frente ao edifício da Legislatura contra a proibição das vendas ambulantes. Crimes gravíssimos como se vê. Eu sei que os políticos, os polícias e os juízes em geral, e os da Argentina não são a excepção, não têm os escritores em muita consideração, mas tratando-se de Víctor Hugo, não de mim que sou um pobre diabo, talvez sejam capazes de perguntar‑se uns aos outros o que é que estão a fazer. E talvez chegar à conclusão que para Jean Valjean já basta, não vá ser que um escritor argentino escreva a versão argentina de Os miseráveis. Protagonistas já os tem, chamam-se Margarita Meira e Raúl Castells. Por favor, senhores, por favor. |