Informação Alternativa

América Latina

03/08/2005

 

A diferença entre o voto em branco da minha novela Ensaio sobre a lucidez e a abstenção que a oposição Venezuela proclama é a mesma que separa a inteligência da estupidez

 

José Saramago

Rebelión

 

No próximo dia 7 de Agosto há eleições na Venezuela para os Conselhos Municipais e para as Juntas Paroquiais. Este tipo de eleições tem habitualmente uma maior percentagem de abstenção que as outras. A oposição venezuelana aproveita-se disso para fazer um apelo à abstenção e apresentá-la como um êxito político e mediático seu. Para fundamentar o seu apelo abstencionista nas eleições de 7 de Agosto, esta oposição quis fazer uma analogia com o cenário descrito por José Saramago no seu Ensaio sobre a Lucidez, no qual uma maioria decide votar em branco ante o estado de degradação da democracia.

 

Com o seguinte texto, o Nobel de Literatura responde a esta torpe interpretação que a oposição venezuelana quis fazer do seu livro:

 

Piratearam-me um livro na China, outro na América Latina, mas até hoje ninguém me tinha pirateado uma ideia. Ora bem, a diferença entre piratear um livro e piratear uma ideia é que no primeiro caso não se faz mais nada que copiá-lo para vendê-lo mais barato, enquanto piratear uma ideia é manipulá-la para forçá-la a expressar o contrário do que o autor pretendia. Essa fraude foi a mais recente manobra da oposição na Venezuela ao tentar difundir uma falsa analogia entre o voto em branco de que se fala na minha novela Ensaio sobre a lucidez e a abstenção nas eleições de 7 de Agosto a que está conclamando os cidadãos venezuelanos. A diferença entre uma coisa e outra é a mesma que separa a inteligência da estupidez. Os homens e as mulheres que na minha novela votaram em branco, fizeram-no como acto de protesto contra a degradação da democracia, mas a oposição venezuelana apela à abstenção precisamente quando na Venezuela se está a por em pé uma democracia com a participação directa do povo. Não me estranha que não sejam capazes de entendê-lo se também não souberam entender o livro que escrevi. Ou talvez sim o saibam e portanto estão conscientes do engano que pretendem endossar aos venezuelanos. A suja manobra só merece o meu desprezo. Espero que o povo venezuelano igualmente a despreze com o seu voto.»