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Mundo

17/06/2005

 

Pensar, pensar e pensar *

 

José Saramago

La Jiribilla

 

Como sempre ou quase sempre, quando não tenho um papel e tenho que improvisar, normalmente o tema surge em uns minutos imediatamente anteriores ao instante em que tenho que começar a falar.

 

Agora ocorreu­‑me a ideia quando estava a subir as escadas, como subia as escadas seguramente será um assunto muito elevado.

 

Italo Calvino teve a ideia do que ele chamou propostas para o milénio, e entre elas propôs que a literatura deveria ser ligeira, não ficou muito claro o que é que significava a intenção de Calvino. Tenho a sensação e a suspeita de que se estivesse vivo não o diria porque não me parece que seja muito equilibrado, para um tempo como o que estamos a viver, uma literatura ligeira. Há uma contradição tremenda em tudo isso. Significaria que a literatura não teria nada a ver com a realidade e se olhássemos em redor, dar­‑nos­‑íamos conta de que a ligeireza está fora de tempo e de lugar.

 

Na raiz dessa ideia de Calvino, em Espanha organizou­‑se há um par de anos um encontro, éramos dez pessoas, para que apresentássemos propostas para o milénio. Pessoalmente creio que é uma ideia que não tem muito sentido. Porque apresentar propostas para o milénio que vem é completamente absurdo.

 

O que é interessante pela envergadura, pela estatura intelectual das pessoas que participaram nesse encontro é que o levaram a sério. Então, havia noventa propostas para o milénio, onde havia de tudo, sobretudo delírio, puro delírio. Ao ponto de que agora mesmo não me posso lembrar. Talvez porque eu tinha sido muito mais modesto e me vi limitado a apresentar melhores propostas para o dia seguinte. No outro dia tudo era literatura fantástica, nós imaginando situações para a humanidade, fora de lugar. Não estou a dizer que a humanidade não venha a precisar dela um dia ou agora mesmo. Mas obviamente a inviabilidade era total.

 

As minhas propostas eram simples, muito claras. Eram nove propostas que qualquer pessoa poderia formular. Mas o que me ficou sobretudo é a décima proposta, que será o tema da minha conversa ligado ao trabalho literário. Até que ponto esta última proposta se encadeia com o que estou a fazer. E era simplesmente o regresso à filosofia.

 

Regresso à filosofia não no sentido absurdo de que agora nos vamos converter todos em filósofos. Filosofia aqui poderia significar exactamente tudo o que esperamos encontrar na filosofia, isto é, a reflexão, a análise, o espírito crítico, livre. Isto é, circular dentro do universo humano onde conceitos de outro tipo se enfrentam, se encontram, se juntam, se separam, é o que se passa todos os dias, mas apontar a ideia de que se o homem é um ser pensante, pois então que pense.

 

Pode-se dizer, e eu estaria de acordo em princípio, que uma coisa é a filosofia e outra a literatura. A literatura não tem que ser filosófica tal como a filosofia não tem que ser literária, ainda que seja certo que alguns filósofos fizeram das suas teses filosóficas magníficas obras literárias no sentido em que a qualidade da linguagem é realmente notável.

 

Por outro lado, a tentação do romancista, ou de certo tipo de romancista, é ser incapaz de dar um passo na literatura que está a construir sem pensar não só no que isso significa, mas também no próprio facto do que está a escrever. Isso foi o que me ajudou a regressar à filosofia num momento anterior ao meu Nobel, e anterior talvez à publicação de dois livros que eu considero importantes.

 

A partir do Evangelho segundo Jesus Cristo, que será representado em Cuba e não significa teatralmente representado, mas que se volta a apresentar, eu diria que ainda que seja verdadeiro que em toda a obra anterior – estou a falar da obra de ficção – ainda que seja uma tendência em mim, mais do que isso, uma necessidade absoluta, como disse antes sobre o que estou a fazer, e também, sobre o que pode significar para o leitor o que estou a escrever. Isto observa­‑se não tanto em obras como Levantado do chão, que é como uma saga, a vida de uns camponeses pobres no sul de Portugal, três gerações de gente pobre… foi uma novela importante porque com ela de alguma forma encontrei no seu narrador a minha própria voz, algo que precisava para pensar e escrever.

 

Por tudo isso, a verdade histórica não passa por uma interpretação ou passa pelo olhar do tempo em que essa interpretação se faz, portanto, é mais provável que por motivos distintos, políticos, ideológicos, a geração seguinte – se observa­ o mesmo facto – chegue a conclusões diferentes. Não saberemos nunca detalhadamente o que é o que aconteceu, sobretudo porque a história que se conta é incompleta.

 

Em primeiro lugar, a história escreve­‑se do ponto de vista dos vencedores, os vencidos nunca escreveram a história. Escreve­‑se, fatalmente, de um ponto de vista masculino. A humanidade contada por uma mulher ou uma equipa de mulheres seria totalmente diferente porque o ponto de vista é outro, inclusive a história da humanidade, que de vez em quando se faz e é uma empreendimento completamente desproporcionado porque ninguém pode escrevê-la, mas tenta­‑se, compra-se e vende­‑se.

 

Nasce uma quantidade de pessoas que não vão ser importantes; mas que estão na vida, trabalham, sofrem, são felizes, vão à guerra, morrem, salvam-se. Sobretudo o que ocorre na vida humana, e isto multiplicado por milhões de vezes, temos que chegar a uma conclusão: ou toda essa gente nasceu para nada e não vai ter nenhuma influência na história, o que é muito difícil porque para algo viveu ou precisa­‑se de saber para quê. Napoleão não teria ganho o que ganhou sem aqueles que o seguiram para ganhar a batalha, ainda que se diga que foi um estratega extraordinário, mas mesmo assim é preciso gente disposta a morrer, e isso teve­‑o juntamente com os demais Napoleões que infestaram a nossa vida. Não se trata simplesmente de que tenham nascido para ir à guerra e morrer em nome da França.

 

E agora com esta ideia de que o bater de asa de uma borboleta em Tóquio ocasiona um terremoto na Califórnia só por causa desse bater de asa, imaginem os milhões de seres humanos que morreram, e se há uma lógica no mundo, essa morte teria que ter um efeito muitíssimo maior do que o simples bater de asa da borboleta.

 

Não se conta essa história. Curiosamente um grande historiador francês da nouvelle histoire, Georges Duby começa um livro seu com uma pequena frase: «Imaginemos que». Quando deparamos com um historiador que em lugar de enunciar uma verdade definitiva entra no território da imaginação, da criação literária e artística e diz “imaginemos que”, é um olhar completamente novo sobre os chamados factos históricos, porque se propõe a possibilidade de trabalhar com a imaginação sobre o suposto facto real.

 

Que por aqui não nos entenderíamos nunca mais? Talvez seja verdadeiro, como nós mais ou menos precisamos, chamemos assim, de verdades que se mantenham bem quietas, porque senão desorientámo­‑nos. Viver seria uma experiência realmente extraordinária na ahistoridade total do sentido das coisas que ocorrem. Talvez fosse isso aquilo em que Italo Calvino pensava ao dizer que a literatura deveria ser ligeira no sentido de que flutuasse, aceitando que nada se pode definir.

 

Na história de O cerco de Lisboa questiona­‑se o que é a verdade histórica.

 

Depois vem O evangelho segundo Jesus Cristo, que é uma interpretação bastante, não quero dizer épica, blasfema, ou talvez sim segundo o ponto de vista.

 

O que me interessou mais é o menino Jesus e não esse que chamamos O Menino Jesus que está no berço, mas o que saiu desse berço e começou a viver. O que se passará com esse menino, vítima da ambição de um Deus que quer todo o poder e precisa de uma vítima que não tem a culpa?

 

O título do livro nasceu em circunstâncias totalmente estranhas. Um amigo meu, uma pessoa de boa vontade, que tem sempre uma explicação para tudo disse­‑me que foi inspirado por Deus, quando é uma explicação sobrenatural, ou, como é o caso, absurda.

 

Estávamos ambos, Pilar e eu, em Sevilha, era a hora do almoço, e cruzando a rua em direcção a um quiosque de revistas e jornais, olhando para a frente li em português “o evangelho segundo Jesus Cristo”. Segui adiante, de repente parei, e disse­‑me que não era verdade o que tinha visto, regressei e já não estava a manchete.

 

O livro é profundamente irónico, de alguma maneira não deixa pedra sobre pedra, e tem muitas coisas que custaram a engolir à igreja. Uma delas é que efectivamente Jesus teve irmãos, seis ou sete.

 

Bom, uma virgem que tem sete filhos, admitindo que o maior, Jesus, nasceu da luz e portanto não teve que passar pelo ventre da sua mãe. Não sei se aqui a conhecem, em Portugal existe uma virgem que se chama A Virgem do O porque está grávida, ela foi pouco a pouco empurrada para a margem das crenças e já ninguém pensa que a virgem engravidou.

 

Efectivamente a virgem Maria, a mulher de José, que também não é um senhor de muita idade, vai contra tudo o que tem a ver com a tradição dos judeus que se casavam muito jovens porque era necessário ter filhos. É muito duvidoso, se efectivamente Jesus teve seis ou sete irmãos, que o pobre São José ainda tivesse capacidade para proliferar tanto. Se era assim era um homem jovem, casado com uma mulher jovem que se chamava Maria.

 

E mais. Jesus era um homem e apaixonou­‑se e tem uma enfatuação com Maria Madalena. Existe um evangelho apócrifo onde se conta um momento em que estão reunidos Jesus, os discípulos e as mulheres que o acompanhavam, e Jesus beija Maria Madalena na boca. Um dos discípulos pergunta a Jesus, por que queres tu mais a Maria Madalena do que a nós, e Jesus que poderia ser quase galego, responde-lhe com outra pergunta, e por que crês tu que eu quero mais Maria Madalena do que a vocês. A coisa fica assim, não há resposta. Claro que Jesus era um homem seguido por um grupo de mulheres e homens, e aqueciam­‑lhe o corpo nas manhãs frias da Judeia, e isto é natural e humano.

 

Aqueles que leram a novela penso que pelo menos numa coisa estarão de acordo, que o autor, que é um ateu, porque o sou, não tenham nenhuma dúvida, tratou a figura de Jesus com respeito total. Com respeito total pelo facto mesmo de que para mim Jesus é um homem. O Deus eu desprezo­‑o, em O evangelho maltrato­‑o. Não assim com este garoto, que por outro lado teve que viver com o Diabo, que tem um rebanho enorme de ovelhas. O Diabo vive num universo paralelo a este, mas com a diferença de que no seu rebanho as ovelhas não morrem, estão ali para sempre. Jesus é educado de alguma forma pelo Diabo.

 

Com O evangelho fecha­‑se uma porta e abre­‑se outra. Com Ensaio sobre a cegueira publicado também aqui, apontava ao coração do ser humano, depois de estar a olhar – não direi a humanidade, pois é uma tontice dizê‑lo assim – ao que eu pensava que deveria ser assunto do meu trabalho, com uma grande angular onde cabia a história bíblica, a história de Portugal.

 

Eu escrevi um ensaio que se chama A estátua e a pedra há alguns anos em que mais ou menos dizia que como novelista estava a descrever uma estátua. Talvez não o pensemos muito, mas uma estátua é a superfície da pedra depois de o escultor ter trabalhado sobre ela.

 

Mas a pedra continua a ser pedra além da superfície, e no fundo para além da superfície não sabe que é estátua. Então a partir de Ensaio, passando por Todos os nomes, A caverna, O homem duplicado, Ensaio sobre a lucidez, e a última novela que se publicará este ano, As intermitências da morte, é minha obsessão levar o mais longe e profundamente que possa o significado de ser humano.

 

Pode ser fácil, todos aqui somos seres humanos, não sei se há algum ser divino, mas isso é coisa vossa. Conrad Lorenz diz ter descoberto o elo entre o macaco e o ser humano e esse elo somos nós. Portanto, não primatas, mas ainda não humanos, talvez tenha razão.

 

Então, esta proposta nem sequer tem a ver com as perguntas clássicas, o que somos, de onde vimos, para onde vamos, que não têm respostas ou algumas delas têm as respostas que a ciência pode proporcionar­‑nos.

 

Para mim a pergunta importante e é provavelmente para essa que custará mais trabalho encontrar resposta é: o que estamos a fazer aqui. Cada um responderá, eu estou a fazer o meu trabalho, tenho uma vocação para fazer isto ou aquilo, mas isso não responde a nada. Ah, bom, estamos aqui para construir uma sociedade justa, magnífico que o façam, mas seja qual for a resposta que possamos dar – e podemos dar muitas e todas magníficas – a pergunta fica intacta: o que é que estamos a fazer aqui.

 

A partir de Ensaio sobre a cegueira e com alguma excepção motivada pela natureza da história que estava a contar, eu ganhei uma espécie de consciência incómoda de que tudo é muito pequeno. E não é muito pequeno em relação às vidas astronómicas que não podemos nem sequer imaginar.

 

A mim causa­‑me uma espécie de vertigem a pergunta, o que estamos a fazer aqui, e a resposta só pode ser uma, no fundo, no fundo não estamos a fazer nada. Ou melhor, estamos a fazer tudo o que podemos para justificar a nossa própria existência. Mas quando isto se acabe, ou porque a galáxia se afunde no buraco negro em que já está, ou porque o sol se apague, teremos passado pelo tempo inutilmente, tudo desaparecerá e teremos sido na vida do universo um suspiro, nada mais do que um suspiro.

 

Esta consciência que pode levar-nos à angústia total, a pensar no que ocorrerá, já sabemos que não será amanhã. Talvez nem sequer precisaremos que o sol se apague, pode ocorrer que muito antes disso tenhamos destruído o planeta e é outra hipótese, pelo caminho que vamos seguramente pode ocorrer.

 

Isto parece que é uma coisa sem relação, mas sim. As pessoas perdem o seu nome, um exemplo em Ensaio sobre a cegueira, em Todos os nomes há uma só pessoa que tem nome e se chama José, não porque seja o meu alter ego, eu procurava um nome insignificante e a verdade é que o mais insignificante que encontrei foi o meu, depois vem A caverna onde há uma família com todos os seus nomes, depois em O homem duplicado também há nomes, mas em Ensaio sobre a lucidez não há nenhum. Em As intermitências da morte, que parece um nome estranhíssimo porque a morte é definitiva e aqui é intermitente, vem e vai, não significa que se ressuscite, divertir­‑se­‑ão muito, quando falo de João Sebastião Bach, por exemplo, faço-o com minúsculas.

 

Quando pronuncio o seu nome, podem vocês ver alguma maiúscula? Sim, porque pensam que deve estar uma maiúscula, mas o que digo é um som e não tem por que levar maiúscula, existe a convenção, mas não quero segui­‑la.

 

Hoje pela manhã estava no Ateliê de Criação Literária, não é que eu pusesse em dúvida a necessidade do ateliê, mas recordava que nem Shakespeare, nem Dostoievski, nem Dante, nem Cervantes nem Lezama Lima, nem Kafka estiveram em algum. Não quer dizer que uma pessoa não tenha que aprender, mas o que dizia é que há que ter cuidado com a teoria, a literatura faz­‑se escrevendo.

 

Uma rapariga dizia­‑me que depois de acabar de escrever, confrontava o feito com a teoria, e não creio que deva ser assim. É o mesmo que o alfareiro ao terminar pôr­‑se a analisar a composição química do púcaro. Não dou nenhuma lição a ninguém, mas simplesmente limito­‑me a dizer o que penso.

 

A partir de Ensaio sobre a cegueira até As intermitências da morte, a minha preocupação é: que é isto, de ser homem, mulher, de sendo homem ou mulher, ser criança ou ser velho, ser isto ou ser aquilo, ser branco ou negro, que significa. Deveríamos saber que a palavra humanidade é totalmente abstracta, não diz nada. Porque o que chamamos humanidade nestes momentos são mais de sete mil milhões de pessoas e cada uma delas é única. Quando Paul Ricard dizia, morreu há alguns dias, que o outro é como eu e tem o direito de dizer eu, propunha algo muito sério, e é que todos temos direito a dizer eu com a mesma força e vontade com que outros se habituaram e se acostumaram a dizer eu de geração em geração enquanto os demais eram simplesmente os outros. Isto há que ser equilibrado. Todos temos direito a dizer eu.

 

Com isto quero dizer que quando terminei o meu enunciado de dez propostas – não para o milénio mas para o dia seguinte, e acabei dizendo regresso à filosofia, no fundo era regresso ao pensar. Com algo que não se pode separar da natureza do homem desde o momento em que baixou da árvore, deixou de andar em quatro patas e se pôs de pé, quando tentou o primeiro instrumento, um pau com o qual podia chegar a um fruto que o braço não podia atingir… Toda essa história até ao dia em que estamos é obra do pensar.

 

O pensar creio que é, tirando o outro prazer, de acordo, sobretudo porque são incompatíveis, o outro não permite que tu penses, não te dá espaço para isso, ainda que saibas que às vezes se pensas não vais ao outro. Quero dizer que hoje como escritor, eu, com Prémio Nobel ou sem Prémio Nobel, com 82 anos, considero que o privilégio do ser humano foi o de ser capaz de pensar, reflectir, aplicar os seus pequenos instrumentos de um pequeno cérebro que apesar de tudo contém uma memória, conhecimentos e tudo isso arquivado dentro do cérebro, e tudo isso fazê-lo funcionar numa obra, que pode ser literária. Ou como pessoas simples que querem conhecer o mundo em que se encontram e pensam, e discutem e analisam, e perguntam. Isso creio que é a única razão pela qual efectivamente vale a pena estar vivo. E se a par disso se podem resolver os problemas que são milhares, que impedem milhões e milhões de pessoas não só de pensar, senão simplesmente de viver, então a tarefa que temos por diante como seres humanos é imensa, infinita e enorme.

 

Mas sempre tem que começar por onde tem que terminar para voltar a começar e para voltar a terminar, sempre e sempre. Pensar, pensar e pensar.

 

SESSÃO DE PERGUNTAS

 

Como abre Saramago a quarta porta de que fala no prólogo do Quijote?

 

Antes devo explicar o que é o prólogo de El Quixote. A Venezuela fez uma versão abreviada para a juventude de El Quijote. Um livro muito menor que está organizado para a leitura de jovens.

 

Em Caracas, o Ministro da Cultura quando ali estivemos convidou­‑me a escrever um prólogo para essa edição. Tenho que dizer que foi um convite arriscado por parte de quem pensa que posso fazê-la, mas muito mais arriscada por parte do que decide fazê-la. Sobre El Quijote disse­‑se tudo, a bibliografia passiva é infinita, e como vais dizer algo interessante e não repetir o que se disse.

 

Eu não duvidei, sem ter muito claro o que poderia fazer e durante um certo de tempo, ocorreu­‑me algo que não é inédito, mas no meu prólogo tem outras conotações, sobretudo outras consequências.

 

Don Quijote está louco, realmente louco? O normal é dizer que sim. E se partimos do princípio de que El Quijote não está louco, quem está louco, supondo que há aí uma loucura, é Alonso Quijano. Ele é o Fidalgo que anda por aí, lendo muito e, segundo Cervantes, acaba por tornar-se louco de tanto ler, imaginar e pouco dormir. Portanto, não é Don Quijote o louco, mas Alonso Quijano ou Don Quijote é o louco de Alonso Quijano. Curiosamente, no final do livro, não é Don Quijote quem morre, mas Quijano.

 

Há um nascimento, princípio e fim de Don Quijote que não coincide com o princípio e fim biológicos de Alonso Quijano. Don Quijote é algo que está dentro da vida de Quijano, mas tem de certa forma a sua própria autonomia total.

 

Pode ser que Alonso Quijano não se tenha tornado louco, por uma razão lógica, não há nos arquivos psiquiátricos nenhum caso que se tenha tornado louco pelo facto de ler muito ou imaginar. Imaginar é todo o contrário, é a liberdade de pensar.

 

Eu acabei por uni-lo, colá-lo a uma recordação de um verso de Rimbaud quando ele diz, La vraie vie est ailleurs, em tradução livre, A vida autêntica está noutro lugar.

 

Isto foi o que disse Rimbaud. Mas eu concluí que se objectivamente Alonso Quijano não se tornou louco, a sua loucura é efectivamente uma estratégia de Cervantes para fazer passar uma personagem que de outra forma a sociedade e o seu tempo não aceitariam, porque uma pessoa no seu completo juízo não faria as tolices que faz esse homem. Mas não são obras de louco, senão de alguém que está a pensar que objectivamente a vida autêntica está noutro lugar. É inevitável a conclusão seguinte: que o autêntico eu está noutro lugar e há que ir procurá­‑lo.

 

A pergunta era como se abriu essa quarta porta. Existe uma porta final que é a porta para a liberdade, porque o saber, a curiosidade são portas que sucessivamente uma pessoa vai abrindo. Mas no final, existe essa porta que Alonso Quijano ou Don Quijote abre. Não é que tenha chegado à vida autêntica, provavelmente não há outro remédio que continuar a andar em direcção a ela e não chegar nunca, ou provavelmente não chegar nunca ao que se entendia pelo autêntico eu. Mas Quijano ou Don Quijote é um homem e vai nessa direcção e essa é a liberdade: quando te procuras a ti mesmo e te encontras com tudo o que és, com as tuas virtudes e defeitos, com as coisas más e boas que fizeste, quando tentas conhecer-te ainda que não te conheças, ainda que mantenhas as portas fechadas em ti.

 

Uma coisa é abrir a porta da liberdade para o mundo, outra coisa é abri-la para ti mesmo, essa é mais complicada. Quando te pões a ler El Quijote e ficas só pelas tolices que faz, fazendo coisas que não têm nenhum sentido, e mais, o próprio Cervantes está consciente disso, tanto que o episódio de Serra Morena quando Don Quijote manda Sancho Panza levar uma mensagem a Dulcinea del Toboso, e faz tolices porque quer imitar Amadís de Gaula, no que diz Don Quijote a Sancho há um segmento que me confirma, já não por interpretação minha, mas pela pena de Cervantes, que Alonso Quijano não estava louco. Diz mais ou menos assim: Tu vais e dizes a Dulcinea o que eu te entreguei, mas se não o fazes então eu louco deveras, farei isto e aquilo. São três palavras que, deliberadamente ou porque lhe saíram sem dar-se conta, deixou ali e dizem que realmente Alonso Quijano não se tornou louco, provavelmente o que se passava era que estava aborrecido da sua vida, farto da monotonia e da rotina. Então decidiu que ia mudar.

 

Não se conta sobre os que dizem: “vou descer para comprar cigarros”, e não voltam? Pois de alguma forma, e vou usar esta metáfora, Alonso Quijano baixou para procurar fósforos com a ideia da liberdade, a liberdade do espírito.

 

Alguém me perguntou no outro dia se eu pensava que se podia ser livre numa prisão e eu disse sim, e dei o exemplo de Nelson Mandela. Na prisão, anos e anos e o seu espírito estava livre.

 

Considero que a obra literária, o trabalho literário, o pensar, a filosofia, o ensaio, isso em que uma pessoa pára para reflectir sobre o que seja, é a postura do homem que entrega a sua vida ao acto de pensar. Vemos o exemplo dos ensaios de Montaigne. Eu estou aqui para pensar. Pensar, inclusive, às vezes, em coisas completamente insignificantes. Há muitas coisas nos ensaios de Montaigne que são totalmente insignificantes, inclusive há momentos em que fala da prisão de ventre, mas, bom, é um tema… Mas muito mais do que isso, há um ensaio de outro filósofo que se chama mais ou menos “De como filosofar é aprender a morrer”, de uma grandeza total, iluminadora, entendo uma quantidade de coisas que mais ou menos suspeitava mas que aí se encontram claras.

 

A você agrada­‑lhe muito falar de filosofia, diz-se que José é um pessimista, mas eu amo nas obras de José, o amor… Para mim, Memorial do convento, Ensaio sobre a cegueira, O Evangelho segundo Jesus Cristo são obras que releio e são belas histórias de amor… José nunca fala disso, salvo em entrevistas com jornalistas, mas é extraordinária a força das histórias de amor nas obras de Saramago, e a força das mulheres…

 

É verdade… Mas também é verdade que eu não me proponho nunca escrever uma história de amor. Se mo propusesse talvez caísse nos tópicos de sempre e a novela seria um fracasso. O que se passa é que as histórias que conto, normalmente, creio que em todos os casos, ocorre algo que começa a adivinhar-se como uma história de amor e pode levar, digamos, falando de Maria Madalena, a expressões literárias talvez um pouco conceptualistas, mas também, no final da novela, quando eles se separam, Jesus diz­‑lhe, «Não podes vir comigo», ela responde: «Olharei a tua sombra se não queres que te olhe a ti». E ele responde: «quero estar onde a minha sombra esteja, se ali é onde estão os teus olhos». É um jogo de palavras um pouco cultista, um pouco conceptual, é mais bem do século XVII ou XVIII, mas que efectivamente expressa até onde pode chegar a união de dois seres. Ela aceita não o olhar, mas ele não pode proibir que ela olhe a sua sombra, mas ele responde­‑lhe dizendo: eu quero estar onde a minha sombra esteja se aí estão os teus olhos… São coisas muito bonitas, sim, são muito bonitas, porque ainda que eu seja o autor e não suceda assim (RISOS) realmente são (APLAUSOS)… E é verdade que acontece no amor de Blimunda e Baltasar no Memorial do Convento.

 

Eu contava hoje no Ateliê Literário algo que continua a surpreender­‑me (todos estamos de acordo em que é uma história de amor muito formosa, pelo facto mesmo da caracterização dos personagens e tudo o que ocorre): eu estava a finalizar a novela, quando me dei conta, com surpresa, que tinha escrito quase 400 páginas de uma história de amor sem uma só palavra de amor. Eles nunca dizem “quero­‑te” ,“amo­‑te”, “tu és a luz dos meus olhos” ou coisas como essas, mas não é que mo propusesse, creio que foi a força profundíssima dessa relação humana que tornou inútil qualquer outra coisa que não fosse a própria vivência desse amor. Pode­‑se expressar em palavras correntes, mas o leitor sabe que está aí. Há uma frase que de qualquer modo tenta expressar isso, quando num momento se diz, «Olhar-se era a casa de ambos»…

 

(Assinalam­‑lhe um livro na mesa) Diz­‑me querida, tem­‑lo aí? Mas olha, Pilar, esta é uma citação que deve ser lida por alguém que não fale como eu falo… Senta-te aqui… Eu como espectador, como ouvinte.

 

PILAR: Bom, este é um livro que deixaram antes para que se assinasse, e como se estava a falar de histórias de amor, recordei o final de Memorial do Convento, e vou ler umas páginas, porque me parece que está expressado o amor, e assim ouvimos também a música, a melodia do que escreve Saramago… É Memorial do Convento, creio que não está publicado em Cuba, que o vão- publicar em breve e é a história de uma mulher que tinha a possibilidade de ver o interior das pessoas, sabia se os seres humanos tinham vontade ou não. Mas somente se os olhava quando ela estava em jejuas. Conheceu um homem que estava manco por ter combatido numa guerra contra Espanha, e juntos ajudam a personagem real da história de Portugal a fazer uma máquina voadora. O padre, personagem real, morre em Toledo louco, ocultando-se da Inquisição. Na novela, Baltasar vai um dia ver a máquina e de repente desaparece, e Blimunda dedica­‑se a procurar o seu marido por todo Portugal:

 

(LÊ FRAGMENTO)

 

Por favor, imaginar isto lido por mim… (RISOS)… Este personagem de Blimunda, que via além da pele e podia ver inclusive o que estava sob a superfície do solo quando estava em jejuas, tem uma relação histórica com uma personagem em Portugal, uma mulher que se casa com um comerciante francês no sul do país. Eu não sei se via ou não, mas o rei, Dom Juan V, concedeu-lhe o título de Dona por isso, e curiosamente há poucos dias, um leitor do norte de Portugal enviou­‑me o registo do casamento dessa mulher com esse comerciante francês no princípio do século XVIII… E aí está a teoria da recepção sobre a qual falávamos, isto é, eu sabia por informação histórica que essa mulher tinha existido, mas esse leitor enviou­‑me a cópia do registo da Igreja onde está registrado o casamento com esse homem. Então eu, sabendo desta história, inventei esta outra, na qual a personagem que tem essa característica quando está em jejuas, é uma mulher que não sabemos se é muito formosa, e é a história da construção do grande convento de Mafra, 40 km a norte de Lisboa, uma espécie de Escorial, um pouco menor. As personagens que são verdadeiras, sobretudo Blimunda, Baltasar e Bartolomeo, todos têm a letra B: Bartolomeo de Guzmán, que é uma personagem histórica, pois tinha que ser B, e quando me dispus a procurar um nome para ela, que não era fácil, pois não podia chamar­‑se Joaquina nem Mercedes, com muito respeito para as Joaquinas e as Mercedes e as Dolores e as Flores, também não Lola… Então procurei um nome, e num vocabulário onomástico, baixando e baixando e baixando encontrei Blimunda e disse­‑me, “Aqui está”, e como já tinha dois B, pois então o homem chamou­‑se Baltasar. É uma novela que levo no coração; fez as pessoas de fora olhar para ali onde havia um escritor que tinha escrito uma novela que não estava mal.

 

Numa ocasião confessou ter escrito A caverna não com as suas ideias políticas, mas com o que era e com aquilo em que acreditava. O que o impulsiona a escrever de uma maneira tão aberta e atrevida sobre o interior do ser humano?

 

Eu quis deixar bastante claro no que disse, ao perguntar o que é que estamos a fazer aqui, no espaço, neste planeta, numa galáxia que não é a mais importante do Universo… Que casualidade é esta que nos pôs aqui… Ainda que eu tenha uma teoria, interessantíssima, tenho que dizê­‑lo: Como não tem nenhum sentido que Deus se tenha dado ao trabalho de criar o Universo, que não é pequena coisa, para pôr a sua criação mais sublime, que é o ser humano, neste planetito sem importância, a conclusão é lógica: Deus criou o ser humano para que povoasse o Universo. É a única conclusão sensata e equilibrada; se não é assim, é completamente inútil um Universo tão enorme para um ser tão pequeno como nós. Então, Deus colocou­‑nos em todo o Universo, mas como nos comportamos mal, tal como nos estamos a comportar agora, Deus disse: se não tenho cuidado, (RISOS) vão sujar o meu Universo que tanto trabalho me custou. Então, reuniu-nos a todos e colocou­‑nos na prisão, na Terra como prisão onde a espécie humana se devia comportar mal no Universo… Deus estará seguramente louco olhando, pois como andamos por aí fazendo essas tentativas de navegação espacial, deve estar muito atento, porque se voltamos às andanças… (RISOS)… Deus já chegou à conclusão: a Terra está já perdida, eu não posso fazer nada por ela. Pois então, devemos estar aqui, mas se começamos com a ideia de ir à Lua e depois a Marte e depois a outra galáxia, Deus se encarregará outra vez de dizer: Não, não o permito… Aí, aí, na prisão, na Terra. É uma teoria. Bem, o que é o que eleva a esse homem: procurar essa resposta, que é o que somos, claro que sim, pensemos que somos filhos de Deus, isso é uma explicação que dá para tudo, prometem­‑nos o Paraíso se nos comportamos bem, ou vamos para o Inferno, coisa em que a Igreja não crê, o Paraíso ou o Inferno, porque não sabe onde estão… O Papa João Paulo II disse: É que o Céu é estar bem com Deus, e o Inferno estar separado de Deus… Se a Teologia chega a essa conclusão, não valia a pena tanta Inquisição, nem tanto convento, nem tanta tortura nem tudo o que passou antes… Se é assim, bom, cada um tem as suas ideias e a sua relação com essa suposta divindade, que, por outro lado, não sê por que tinha que ser aquela… Quando os navegantes chegavam à América, traziam dois representantes nos barcos: o soldado e o frade. O frade chegava e a primeira coisa que dizia era: os vossos deuses são falsos, eu trago comigo o verdadeiro Deus. Aí fodeu­‑se a marrana (RISOS). Porque efectivamente, com essa brandura, tudo o que se passou foram genocídios, torturas, extorsões, povos aniquilados, isso foi o que trouxe o frade… E quando o frade não convencia, entrava o soldado, com a espada, com a lança. É assim, e tudo em nome de Deus. Eu tenho uma obra de teatro, In nomine Dei, sobre o conflito no norte da Alemanha, particularmente na cidade de Münster, entre os católicos e os protestantes anabaptistas, foi uma coisa horrorosa. Ambos acreditando num mesmo Deus, e degolaram­‑se, torturaram-se… Dessa obra já se fez uma ópera que se estreou em Münster há anos, que depois foi a Itália e a Portugal… E o que eu digo é uma coisa muito simples, que não entendo como as pessoas não se dão conta: matar em nome de Deus é fazer de Deus um assassino. Se Deus é o criador da vida não pode ser um assassino. Não deveríamos permitir-nos, nem permiti-lo, mas ocorre todos os dias. Então, esta espécie inteligente, sensível, capaz de amar como Blimunda e Baltasar e na realidade como pessoas de ficção mas pessoas reais, capazes de ser Nelson Mandela ou outras pessoas extraordinárias que sabemos que existem, é ao mesmo tempo a besta, o monstro que anda por aí… A literatura pode resolver isto? Não. Pode talvez torná­‑lo mais claro, torná-lo mais evidente, e cada um que tire as suas conclusões. Nada mais. Muito obrigado.

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* Versão da intervenção do escritor português José Saramago, Prémio Nobel de Literatura, na sexta­‑feira 17 de Junho de 2005 na sala Che Guevara da Casa das Américas.