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15/08/2005
Einstein – Cidadão e
cientista
Rui Namorado Rosa
resistir.info
BIOGRAFIA BREVE
Passam agora 50 anos sobre a sua morte e 100 anos sobre o memorável período,
de alguns meses apenas, durante o qual publicou cinco trabalhos que
revolucionaram a Física. Einstein foi um homem excepcional. Deu contribuições
revolucionárias ao avanço da Ciência, foi um cidadão do mundo com empenho e
acção cívica exemplar e, pela sua personalidade, tornou-se em ícone popular.
A sua vida e obra merecem ser conhecidas e recordadas.
Albert Einstein nasceu em 1879 numa família alemã, burguesa e liberal, de
ascendência judia, secular. Aos dezasseis anos de idade, por iniciativa
própria, deixou Munique e mudou-se sozinho para a Suíça, a fim de estudar no
Instituto Politécnico de Zurique, onde se licenciou em 1900. No ano seguinte,
renunciou à cidadania alemã, a fim de evitar o serviço militar, e adquiriu a
nacionalidade suíça. Aí também obteve o seu doutoramento, em 1905.
Na falta de um emprego académico, foi admitido em 1902 como terceiro oficial
no Serviço de Patentes Suíço em Berna. Nele desempenhou com competência as
funções técnicas que lhe couberam mas sobretudo aproveitou o tempo disponível
para elaborar os seus estudos e redigir os artigos que publicou em 1905 e lhe
valeram, dentro de alguns anos, o reconhecimento científico internacional.
Em 1914, pouco antes da deflagração da Primeira Guerra Mundial, Albert
Einstein foi nomeado professor da Universidade de Berlim e académico na
Academia das Ciências Prussiana. Instalou-se em Berlim e readquiriu a
nacionalidade alemã.
Por esse tempo, separou-se de sua primeira mulher Mileva Maric, que regressou
a Zurique com os dois filhos do casal e, em 1919, casa com sua prima Elsa
Löwenthal.
O seu pacifismo e a sua origem judaica tornaram-no impopular entre os
nacionalistas alemães, hostilidade agravada pelos seus êxitos científicos e o
seu reconhecimento internacional (sobretudo após a confirmação observacional
da teoria da relatividade geral, em 1919).
A década de 20 foi de intensa actividade cívica e científica, pontuada por
numerosos convites e viagens ao estrangeiro. Em 1922 foi-lhe atribuído o
Prémio Nobel de Física de 1921 pela interpretação do efeito fotoeléctrico.
Mas, encontrando-se de viagem ao Japão, não participou da cerimónia de
entrega do prémio.
Em 1933, Hitler chega ao poder na Alemanha. Einstein, judeu e socialista,
encontra-se ameaçado. É avisado por amigos e aconselhado a emigrar. Einstein
renuncia de novo à cidadania alemã. Depois de passar pela Bélgica e
Inglaterra, em Outubro de 1933 parte para os Estados Unidos da América a
caminho do exílio, onde se naturalizou em 1940 como cidadão norte-americano
(preservando todavia a nacionalidade Suíça).
Faleceu em 1955 e as suas cinzas foram dispersas em local desconhecido.
A IMPORTÂNCIA DA OBRA DE EINSTEIN
Einstein é por alguns considerado como uma prova viva do conceito de juízo
sintético a priori, formulado por Kant em Crítica da razão Pura (1781),
isto é, o que consegue elaborar uma teoria concebida pela inteligência que,
sem ingerência do empírico, traga algo de novo acerca do sujeito, uma nova
lei. Mas essa concepção será por demais idealista. Einstein era um conhecedor
do mundo empírico, foi analista e reconhecido perito de patentes, ele também
inventor, co-autor de alguns trabalhos de índole experimental. O original
destaque que as experiências conceptuais apresentam no seu processo de
descoberta e exposição, revelam uma poderosa capacidade teórica fortemente ancorada
na observação factual.
Hoje parece evidente. Mas no início do século XX a descontinuidade na
Natureza com a existência de átomos, e ainda menos de corpúsculos de luz, não
eram geralmente aceites, mesmo entre os maiores cientistas. Os enormes
avanços da Ciência durante o século precedente, nos domínios da Óptica, da
Termodinâmica e do Electromagnetismo, tinham sido realizados considerando a
matéria e a energia como entidades contínuas. Não só se interpretara com
sucesso inúmeros fenómenos como também se desenvolveram frutuosas
tecnologias. Haveria alguns pontos em dúvida, como sempre, mas como ousar
questionar os pressupostos mais básicos?
O efeito fotoeléctrico fora descoberto muito antes, mas sem que tivesse
despertado grande interesse nem oferecido qualquer utilidade. Einstein ao
interpretá-lo e ao descrever as suas leis (que só depois foram plenamente
verificadas) esclareceu também o real e revolucionário significado da
hipótese de Planck, que este em 1900 formulara como expediente ao descrever o
espectro de emissão de luz por corpos incandescentes. Foi então (1905) que
Einstein concebeu a natureza corpuscular da emissão, absorção e propagação da
luz, em partículas contendo uma quantidade elementar de energia simplesmente
relacionada com a respectiva “cor”. Tal concepção parecia contrariar
radicalmente a teoria ondulatória da luz, que ao longo do século XIX se
consolidara firmemente na interpretação qualitativa e quantitativa dos
fenómenos luminosos. Só alguns anos depois esses corpúsculos receberam um
nome próprio — “fotão” — e foram inquestionavelmente aceites por todos, ao
revelarem o seu poder interpretativo em outros fenómenos que entretanto foram
descobertos ou estudados (designadamente o “efeito” Compton).
Einstein iniciou pouco depois a generalização da teoria da relatividade. Em
1907 ele equiparou o movimento em queda livre a movimento inercial, para o
qual as leis da relatividade especial deveriam ser igualmente válidas
(“princípio da equivalência”), e previu o fenómeno da dilação gravítica do
tempo. Finalmente em 1916, enunciou de forma sistemática a teoria da
relatividade generalizada, segundo a qual a massa dos corpos distorce o
contínuo espaço-temporal, ditando a lei do seu movimento relativo.
A teoria, muito abstracta, carecia de verificação empírica, o que era tanto
mais difícil quanto a grandeza dos efeitos preditíveis seriam extremamente
pequenos no âmbito de observações acessíveis à época. A precessão do periélio
de Mercúrio foi o seu primeiro e imediato teste. O segundo foi o desvio de um
feixe de luz na vizinhança e sob a influência de um corpo maciço; este teste
foi feito sobre a observação do movimento de estrelas na vizinhança aparente
do Sol, por ocasião do eclipse solar total de 1919. Arthur Eddington foi o
grande promotor das expedições para o efeito realizadas pela Royal
Astronomical Society de Londres, na Ilha do Príncipe e em Sobral no Brasil,
cujos resultados suportaram as previsões da teoria e contribuíram para a sua
aceitação internacional. A teoria da relatividade geral ganhou rapidamente
grande alcance científico e filosófico, dado que ela é o suporte em que se
formulam os modelos cosmológicos, e por consequência, se firmam os avanços da
Cosmologia.
Pouco mais tarde (1917), estudando a interacção da luz com a matéria,
Einstein previu o fenómeno da emissão estimulada de radiação, um fenómeno
discreto que passou relativamente desapercebido, até que foi pela primeira
vez utilizado para amplificar a intensidade de um feixe de micro-ondas mediante
uma cavidade reflectora em ressonância — “maser” (inventado por Charles
Townes em 1954). Após o que, físicos e engenheiros, inventaram diversos
dispositivos capazes de emitir intenso feixes paralelos de luz coerente – os
“laser”, que são poderosos instrumentos de investigação e encontraram múltiplos
domínios de aplicação.
Em 1924, em correspondência mantida com Satyendra Bose, Einstein concebeu um
novo estado da matéria, constituído por um “condensado” de átomos a
temperatura extremamente baixa, que exibiria superfluidez e coerência de
movimento (análoga à coerência da luz laser). Este estado só viria a ser
realizado em laboratório pela primeira vez em 1995, em Boulder na
Universidade do Colorado, com o auxílio de campos magnéticos e lasers utilizados
na contenção e arrefecimento de um vapor metálico, quase imobilizando os
átomos que ficam constrangidos a movimento sincronizado, atingindo então o
estado denominado “condensado” de Bose‑Einstein.
EINSTEIN NO NOSSO QUOTIDIANO
O trabalho de Einstein teve sua repercussão mais directa no plano das ideias,
das teorias físicas e da filosofia da ciência. Mas a sua profundidade iria
surpreendentemente revolucionar as nossas vidas no plano prático quotidiano.
Não que ele tivesse sido um inventor de génio (de facto registou um par de
patentes apenas) mas porque interpretou e criou os quadros teóricos que
explicam e conduziram à descoberta de novos fenómenos e à invenção de novos
dispositivos técnicos.
O detector fotoeléctrico que faz actuar a abertura da porta ou acender a luz,
baseia-se no fenómeno fotoeléctrico que Einstein correctamente interpretou.
Esse efeito está sob múltiplas formas omnipresente no mundo contemporâneo –
desde grandes dispositivos astronómicos até máquinas fotográficas e
fotocopiadoras comuns.
Os lasers que gravam e lêem CD e DVD, são uma invenção baseada numa
descoberta teórica de Einstein, cuja utilidade passou muito tempo
desapercebida. Hoje, os lasers são instrumentos fundamentais tanto no registo
e leitura de informação como na sua transmissão, designadamente mediante a
propagação via cabo óptico; estão presentes nos gabinetes médicos e
hospitais, em dispositivos de diagnóstico e de tratamento; nos giroscópios
que apoiam a navegação de aviões (e condução de mísseis e bombas teleguiadas);
etc.
O relógio atómico, realizado em meados da década de 1950 nos EUA,
Grã-Bretanha e União Soviética, depois internacionalmente adoptado como
padrão do tempo em 1967, utiliza um amplificador de micro-ondas maser, sendo
assim um resultado indirecto da descoberta da emissão estimulada (Einstein,
1917); as versões actuais de relógio atómico atingem a precisão de 1 segundo
em vários milhões de anos; e versões em desenvolvimento, utilizando um
condensado de Bose-Einstein (concebido em 1924) e luz laser, permitirão uma
precisão mil vezes superior.
Essas grandes precisões podem parecer preciosismos gratuitos, mas não o são.
Já estamos familiarizados com os GPS, dispositivos que permitem fazer a
localização exacta de um local na Terra e, em consequência, estudar com rigor
a sua forma e apoiar a navegação de quaisquer veículos; aviões e navios
utilizam-nos há largos anos e os automóveis já começaram a ser equipados com
eles também. O GPS (Global Positioning System), à semelhança do GLONASS
soviético e o próximo GALILEO Europeu (anunciado para 2008), é um sistema de
cerca de 24 satélites terrestres, seguindo trajectórias previsíveis e
monitorizáveis, cada um levando a bordo um relógio atómico e um computador e
um transmissor de sinais de rádio codificados. Um observador na Terra,
receberá os sinais emitidos pelos satélites acima do seu horizonte e, com o
auxílio de um pequeno receptor GPS, por triangulação calcula a sua posição;
instrumentos correntemente acessíveis conseguem uma precisão de alguns poucos
metros. Mas para atingir esse grau de rigor, o sistema tem de incorporar duas
“pequenas” correcções relativistas (isto é, fornecidas pela Teoria da
Relatividade), uma devida à velocidade a que se deslocam os satélites e a
outra devida à influência da gravidade terrestre sobre a velocidade de propagação
dos sinais de rádio.
VIDA CÍVICA DE 1900 A 1939
Einstein viveu em Zurique desde 1895, tendo-se licenciado em 1900 na Escola
Politécnica, e aí permaneceu procurando arduamente um emprego seguro, até
1902, quando foi admitido como terceiro oficial no Serviço Suíço de Patentes
em Berna.
A despeito da privação material, chegando mesmo a alimentar-se precariamente,
o ambiente cultural de Zurique proporcionava a Einstein condições de grande
enriquecimento; e é nesse ambiente cultural que o jovem Einstein forja sua
cultura científica e personalidade.
Nessa parte da Europa Central estavam então em gestação três grandes
revoluções da passagem do século: o marxismo, a psicanálise e a física
moderna. Zurique era uma incubadora de revoluções; nas repúblicas estudantis
o clima de liberdade era “inebriante” e discutiam-se a modernidade e o
socialismo; por lá passaram personalidades que se tornariam famosas: Lenine
(ideólogo e obreiro da revolução soviética), Trotsky e Plekhanov; Rosa
Luxemburg (revolucionaria internacionalista fundadora do partido comunista
Alemão); Théodor Herzl e Chaim Weizman (fundadores de Israel); Jung (um dos
fundadores da psiquiatria). Aí passou muitas horas no Café Odeon, ponto de
passagem e convívio de radicais russos e de outros intelectuais, participando
nas suas tertúlias. Entre a adolescência e a juventude, Einstein lê Kant e
inicia-se na leitura de autores socialistas, particularmente Marx e Mach.
Tais leituras terão sido estimuladas pelo seu colega Friedrich Adler. Este,
estudante de física com inclinação para a filosofia e leitor dos clássicos do
marxismo, era um activista político, que mais tarde abandonou a carreira
científica para se dedicar à política, no partido socialista austríaco.
Em 1902, pouco antes de assumir o seu primeiro emprego permanente, Einstein
cria com alguns amigos (Conrad Habicht e Maurice Solovine) a “Academia
Olímpia” que, como toda academia, tinha seus “membros correspondentes” (seus
outros amigos Paul Habicht, Michele Besso e Marcel Grossman). Esse grupo de
recém‑licenciados à procura de emprego constituiu uma contra-cultura
das mais profícuas da história da ciência — comparável ao grupo de discussão
liderado por Freud, e que na mesma época se reunia em Viena.
Entretanto, a partir do seu annus mirabilis ganha progressivamente
reconhecimento e notoriedade. Em 1914, pouco antes da deflagração da Primeira
Guerra Mundial, nomeado director do Instituto Kaiser Wilhelm de Física e
professor da Universidade de Berlim, bem como académico na Academia das
Ciências Prussiana, instalou‑se em Berlim e readquiriu a nacionalidade
alemã. Assim permaneceu em Berlim completando a sua teoria da relatividade
generalizada, mas de modo algum indiferente aos acontecimentos políticos e
militares. Ele opunha‑se à guerra, alinhando com a corrente
minoritária do partido Social-Democrata que via na guerra a disputa entre as
classes dominantes das potências beligerantes.
Manifestou-se um pacifista oposto à guerra logo aquando da sua deflagração e
mostrou-se chocado pela iniciativa de colegas seus que apoiaram o esforço de
guerra alemão. Quando surgiu o Manifesto de Fulda, também conhecido por
“Manifesto ao Mundo Civilizado” ou “Apelo ao Mundo da Cultura”, publicado em
Outubro de 1914 logo após o início da guerra, Einstein recusou-se a
subscrevê-lo. Era uma peça de propaganda que procurava contrariar as notícias
atrozes da guerra (como a destruição da Biblioteca de Lovaina pelas forças
alemãs) e colocar a intelectualidade ao lado do militarismo alemão, tendo
sido subscrito por 93 intelectuais alemães (incluindo muito cientistas
ilustres). Aí se afirmava que «a ciência alemã deveria estar a serviço da pátria
e de suas forças armadas». Pelo contrário Einstein, com G. F. Nicolai e F. W.
Förster, redigiu um contra manifesto, “O Internacionalismo e a Paz” ou “Manifesto
aos Europeus”, que poucos tiveram a convicção e coragem de assinar, e que a
imprensa alemã procurou suprimir. Einstein aderiu também à Liga da Mãe‑Pátria,
uma associação política unitária de espectro largo que defendia um rápido fim
para a guerra e o estabelecimento de uma organização internacional que
prevenisse futuros conflitos armados. Mais tarde, nos dias subsequentes ao
armistício, quando o Kaiser e mais sete monarquias europeias foram abolidas,
Einstein afixou à porta do seu gabinete “Aula cancelada — Revolução”. Mas
ele, que se identificara com o movimento estudantil radical e com colegas
anti-belicistas, teve que desde já prosseguir com eles na resistência para
enfrentar a ascensão do revanchismo militarista que não soçobrara e que acabou
por conduzir ao nazismo.
Entretanto, no plano internacional as relações científicas haviam ficado
seriamente prejudicadas pela guerra. A desacreditação dos políticos
militaristas alemães perante a opinião pública aliada aparecia como
fundamento para a desacreditação dos cientistas alemães também. Por outro
lado, o Manifesto de Fulda havia contribuído para agravar a desconfiança. A
investigação científica alemã foi por muitos apercebida corrompida sob
preconceito xenófobo ou desvirtuada por hipotética propaganda de guerra, e
até os mais evidentes sucessos da ciência alemã eram atribuídos a plagiato ou
espionagem.
Essa visão radical e redutora conduziu ao encerramento de muitos canais de
comunicação científica e, em particular, foi argumento para a exclusão de
participantes de encontros científicos internacionais e até a supressão de
fluxo de bibliografia científica. A Royal Astronomical Society de Londres
proibiu a distribuição das suas publicações em países inimigos, mesmo após o
termo da guerra, pelo que cientistas alemães e austríacos recorreram à
intercedência de Eddington. Várias sociedades britânicas expulsaram os seus
membros correspondentes originários de países com que a Grã-Bretanha estava
em guerra. Um virulento sentimento anti‑alemão atravessou a
Grã-Bretanha, a França e os EUA e criou grandes dificuldades ao
restabelecimento de relações após o fim da guerra.
Arthur Eddington, director do Observatório de Cambridge, membro da Royal Society
e secretário da Royal Astronomical Society de Londres, sendo um pacifista
convicto, foi um dos poucos cientistas britânicos a manter contacto com
colegas em países inimigos ou neutros e a fazer esforços para restabelecer os
laços de cooperação na comunidade científica internacional após o fim das
hostilidades. Foi o holandês de Sitter que o alertou para a nova teoria da
relatividade que surgira na Alemanha durante a guerra. Para além da sua
importância, ele viu na nova teoria uma oportunidade para reparar danos
provocados pela guerra, tanto mais que o interlocutor na comunidade
científica alemã, Einstein, era um pacifista também. Daí o grande empenho,
cívico e científico, colocado por Eddington na mobilização da Royal Society
para as expedições às Ilhas do Príncipe e de Sobral bem como na publicitação
dos resultados que “comprovavam” a teoria da relatividade. O próprio Einstein
agradeceu a de Sitter ter lançado «uma ponte sobre o abismo do
desentendimento».
O activismo político de Einstein incrementou ainda, após o termo da Primeira
Guerra Mundial. Ele advogou o pacifismo e a não-violência e a cooperação
internacional, e nesse sentido utilizou todas as plataformas e
particularmente os fóruns e redes de contactos científicos, e colaborou com a
Liga das Nações.
Einstein contava a seu favor com o prestígio internacional que adquirira e se
consagrara na atribuição do prémio Nobel de 1921. Participou intensamente na
vida cultural, social e política durante a República de Weimar, sendo por
vezes porta-voz de posições contra a ascensão virulenta e violenta do ultra-nacionalismo,
racismo e anti‑semitismo, que atravessou a Alemanha durante a década
de 20. Contrariando a elevação das propinas dos estudantes, o seu idealismo
igualitário levou-o a oferecer aulas quotidianas e gratuitas em horário pós‑laboral.
E, com o agravamento da situação política geral, não só actuou no palco das
organizações cívicas como também tirou partido das oportunidades
proporcionadas por conferências científicas para abordar questões de natureza
política.
Crítico do nacionalismo e defensor de um governo mundial, em 1922 integrou o
Comité para a Cooperação Intelectual da Liga das Nações, em cujos trabalhos
participou com regularidade entre 1924 e 27.
Foi nesse âmbito do Comité Permanente das Artes e Letras da Liga das Nações,
que procurava encorajar a cooperação interdisciplinar entre intelectuais, que
decorreu a correspondência entre Einstein e Freud, entre 1931 e 33 (em
alemão). Foi então coligida e publicada simultaneamente em várias línguas sob
o título “Porquê a Guerra?”. Hitler acabara de assumir o poder na Alemanha e
forçaria esses dois famosos intelectuais ao exílio, de modo que essa
correspondência não foi extensa e não atingiu grande audiência.
Eis um significativo excerto de uma das cartas de Einstein a Freud: «(…) O
insucesso, não obstante a óbvia sinceridade, de todos os esforços feitos
durante a última década para atingir esse objectivo, deixa‑nos sem
alternativa de dúvida que fortes factores psicológicos operam e paralisam
esses esforços. Alguns desses factores não têm de ser procurados longe. A
ambição pelo poder que caracteriza a classe governante em cada nação é muito
hostil a qualquer limitação de soberania da nação. Esta fome de poder
político suporta‑se frequentemente na actividade de um outro grupo,
cujas aspirações são de base puramente mercenária, económica. Tenho
especialmente em mente grupos pequenos mas determinados, activos em cada
nação, compostos por indivíduos que, indiferentes a considerações sociais e
constrangimentos, consideram a guerra, o fabrico e o comércio de armas,
simplesmente como oportunidade para promover os respectivos interesses
pessoais e incrementar a respectiva autoridade pessoal.
Mas o reconhecimento deste facto óbvio é apenas o primeiro passo com vista à
apreciação do actual estado de coisas. Uma outra questão decorre
imediatamente dela: Como é possível que esta pequena clique oprima a vontade
da maioria, dos que estão sujeitos a perder e sofrer em caso de estado de
guerra, para serviço das suas ambições. Uma resposta óbvia a esta questão
parece ser que a minoria, presentemente a classe governante, tem as escolas e
a imprensa, em geral a Igreja também, sob o seu controlo. O que lhe confere o
poder de organizar e governar as emoções das massas e torná-las em seu
instrumento. (…).»
Em 1933, quando o nazismo acedeu ao poder na Alemanha, Einstein deixou o
país, e depois de passar pela Bélgica e Inglaterra, partiu para os EUA,
procurando exílio e finalmente assumindo funções na Universidade de
Princeton.
Desde a sua visita aos EUA em 1932, e após optar pela permanência definitiva
em 1935, até ter atribuída a nacionalidade norte-americana em 1940
(conservando a Suíça), mesmo nesse novo contexto Einstein manteve a sua
actividade cívica.
Ele apelou para que os refugiados fossem autorizados a emigrarem para os EUA.
Ele apoiou a República Espanhola durante a Guerra Civil, ao denunciar e
apelar ao fim do embargo de armas pelos “países ocidentais” à República
Espanhola, enquanto esta era assediada até ser derrotada pela sublevação
fascista, apoiada pelo nazi-fascismo alemão e italiano.
A ERA NUCLEAR
Perante a agressividade do imperialismo alemão, quando a deflagração da
Segunda Guerra Mundial parecia estar iminente, Einstein interveio. Em Julho de
1939, depois de ler os comentários manuscritos de Leo Szilard e Eugene Wigner
sobre a fissão nuclear em cadeia, terá ficado convencido de que os alemães
poderiam fabricar uma bomba nuclear. Esse foi um ponto de viragem. A 2 de
Agosto, Einstein escreveu uma famosa carta ao presidente Franklin Roosevelt,
alertando-o para a possibilidade de fabrico de uma bomba nuclear e advertindo‑o
para a ameaça de a Alemanha poder desenvolver essa arma, e incitando-o a
antecipar‑se. Aparentemente esta carta não causou grande impacto no
governo norte-americano, pois os recursos destinados à investigação da fissão
nuclear mantiveram-se insignificantes. Por sugestão de mais alguns
cientistas, Einstein insistiu escrevendo uma segunda carta a Roosevelt, em 7
de Março de 1940; mas, uma vez mais, o presidente não foi aparentemente
influenciado. O “projecto Manhattan” só foi decidido em Outubro de 1941.
Tendo talvez influenciado remotamente essa decisão, ele não foi porém parte
activa do “projecto Manhattan” que conduziu ao desenvolvimento de diversas
tecnologias nucleares e das primeiras bombas nucleares em concreto; porque
não só ele era um pacifista como era conhecido pelas suas “ligações suspeitas”
às correntes de esquerda.
Mas ainda antes da utilização da arma nuclear sobre o Japão (Agosto de 1945),
Einstein cedo manifestou a sua grande preocupação relativamente à perspectiva
da sua efectiva utilização, bem como a uma futura corrida aos armamentos e às
guerras preventivas (carta a Niels Bohr, Dezembro 1944).
O lançamento da bomba nuclear em Hiroshima (6 de agosto de 1945) produziu um
doloroso impacto em todo o mundo e o sentimento de culpa em muitos dos
cientistas que haviam trabalhado no “projecto Manhattan” e que depois, pelo
seu criticismo, foram perseguidos como dissidentes de um novo projecto
imperial. Terminada a Guerra, Einstein protestou contra a criminosa
incineração nuclear de Hiroshima e Nagasaki – em Agosto de 1945, apenas três
meses após a rendição da Alemanha e quando a rendição do Japão apenas
dependia da sua formalização diplomática. Um novo expansionismo militarista
acabava de emergir das cinzas de uma guerra devastadora. Ele lamentaria
amargamente ter encorajado os primórdios desse projecto, apesar das
circunstâncias da ocasião, e em breve passou a ser protagonista destacado nas
campanhas que cresceram pela Paz, a abolição de armas nucleares, e um governo
mundial que assegurasse a ordem mundial.
Esses anos foram assinalados pela fúria anti-comunista, alimentada pelo ódio
ao prestígio e poder que a União Soviética adquirira pela sua resistência e
papel determinante na derrota nazi e na expulsão do império japonês do
continente asiático. Muitos cientistas que haviam participado no projecto
Manhattan questionaram a utilização da arma nuclear e recearam uma corrida
armamentista com a União Soviética. Então, com vista a contrariar essa
evolução, foi criado o Comité de Emergência de Cientistas Atómicos, logo no
próprio mês de Agosto de 1945, cuja finalidade era conseguir que a energia
nuclear fosse subtraída do âmbito militar e colocada sob jurisdição
internacional («para congregar a influência desses cientistas junto aos
respectivos governos, para que sejam criados força militar e governo
supranacionais»). Este Comité era constituído por alguns dos mais notáveis cientistas
norte-americanos, incluindo os prémios Nobel Linus Pauling, Harold Urey, Hans
Bethe, Leo Szilard e Victor Weisskopf. Einstein convidado, assumiu a
presidência do Comité.
Como presidente desse Comité, Einstein procurou entrevistar-se com o secretário
de Estado para discutir o que considerava ser uma grave ameaça à paz mundial.
A entrevista foi declinada, e Einstein foi recebido por um funcionário
intermédio da Comissão de Energia Atómica, a quem descreveu a política
estrangeira do governo norte-americano como expansionismo anti-soviético e
ambição imperial – tendo então utilizado o termo Pax Americana que
entraria no discurso político para descrição da corrente fase histórica do
imperialismo.
Ainda em nome do Comité Permanente de Cientistas Atómicos, em telegrama de 24
de Maio de 1946, Einstein afirmava: «A conquista da energia atómica mudou
tudo, excepto a nossa maneira de pensar, e, assim, seguimos à deriva rumo a
uma catástrofe sem limites. Nós, os cientistas que libertaram essa imensa
fonte de energia, temos uma tremenda responsabilidade nessa disputa mundial
de vida ou de morte, a fim de que a conquista do átomo seja para o benefício
de toda a humanidade e não para a sua destruição.»
Em esforço paralelo, na sequência dos contactos internacionais promovidos por
Federic Joliot-Curie e Paul Langevin (em França), Patrick Blackett e John
Bernal (no Reino Unido) e Linus Pauling (nos Estados Unidos da América),
entre outros, foi constituída em Londres, em Julho de 1946, a Federação
Mundial dos Trabalhadores Científicos com o propósito de estabelecer o
diálogo internacional pela prevalência da Paz. Essa federação constituiu uma
inovadora plataforma de diálogo entre cientistas de todo o mundo, procurando
formas de entendimento e influência que obviassem aos riscos e às
consequências desastrosas de uma guerra nuclear, tendo sido um importante “corredor”
para o difícil diálogo leste-oeste durante a “guerra-fria”.
O primeiro teste nuclear soviético (Agosto de 1949) negou o monopólio nuclear
norte‑americano, e desencadeou a corrida no desenvolvimento de armas
nucleares.
As realizações materiais da União Soviética, e concretamente o respectivo
desenvolvimento da arma nuclear nesse clima de Guerra-Fria, tiveram de ser
negadas pelo imperialismo norte-americano. Esse desenvolvimento teve de ser
justificado pela acção de espiões ou traidores que haveriam transmitido à
outra parte o “segredo” da bomba. Um episódio trágico foi a acusação,
julgamento e execução do casal Julius e Ethel Rosenberg, no início da década
de 50. A caça às bruxas acabou por conduzir ao casal Rosenberg, que foram os
bodes expiatórios desse “crime anti-patriótico”. Porém a manipulação era
óbvia para um observador atento. Einstein escreveu ao juiz do processo,
alegando que este não provava a culpabilidade para além de dúvida razoável, e
que mesmo a ter-se verificado fuga de informação científica, esta não era de
natureza vital. Sem ter obtido resposta, dirigiu-se então ao Presidente
Truman, mas este não respondeu tão-pouco. Então divulgou a sua carta à
imprensa e depois escreveu uma outra carta aberta no New York Times em
que, em última instância, apelava à clemência presidencial. Mas nem o
prestígio de Einstein deteve a fúria imperial, e o casal foi executado (Junho
de 1953).
Os EUA procuraram retomar o ascendente no poder nuclear. Em Março de 1954, o
teste da primeira super‑bomba de Hidrogénio ou Termonuclear
norte-americana, no Atol de Bikini, significou um enorme passo em frente na
corrida armamentista, ao demonstrar a viabilidade e operacionalidade de
bombas mil vezes mais potentes que as de Hiroshima e Nagazaki. Mas no ano
seguinte a URSS testou a sua primeira bomba termonuclear também. Estava em
marcha a corrida armamentista, visando a política de “destruição mútua
assegurada”; a era nuclear revelava-se apocalíptica.
FACE AO SIONISMO
Ao longo de toda a sua vida, Einstein nunca esqueceu a sua condição de
ascendência judia e nunca foi indiferente ao destino dos judeus; nem a
realidade à sua volta permitia tal indiferença. Essa foi uma outra vertente
da sua intervenção cívica, para que foi conduzido pelo judeu russo Chaim
Weizmann, destacado militante pelo estabelecimento de uma nação judia na
Palestina, com quem Einstein estabeleceu amizade no tempo de Zurique. A
partir da década de 1920 Einstein toma partido; ele não apoiou o nacionalismo
sionista mas antes defendeu para a Palestina um Estado baseado no modelo
suíço, onde muçulmanos e judeus pudessem viver lado a lado em paz.
Einstein contribuiu sobretudo para a fundação de uma universidade hebraica na
Palestina, movido pelo desejo que os judeus tivessem acesso não discriminado
à educação, em vista do clima anti-semita que testemunhava nas universidades
europeias. A sua ideia era o estabelecimento de uma universidade onde judeus
de todo o mundo pudessem estudar sem serem vítimas de discriminação. Tirando
partido de ser um físico famoso, participou numa campanha de angariação de
fundos para a fundação da Universidade Hebraica de Jerusalém, para a qual
contribuiu com uma série de conferências em universidades norte-americanas em
1921.
Quando a Universidade Hebraica foi efectivamente estabelecida em Jerusalém,
em 1923, foi ele quem fez o discurso inaugural. Entre 1925 e 1928, Einstein
chegou a exercer funções na presidência da Universidade. Mas a breve trecho
ficou desapontado com o modo como a instituição evoluiu e, em 1928,
demitiu-se das suas funções aí. Em 1933, na iminência de ter de partir da
Alemanha para o exílio, declinou a oferta da posição de professor em
Jerusalém.
As suas divergências com o curso do movimento sionista iriam aprofundar-se.
Em 1934 ainda participou no décimo sexto congresso sionista em Zurique. Pouco
depois, em face de notícias da multiplicação de conflitos entre árabes e
judeus na Palestina, apelou publicamente a um entendimento justo no interesse
de ambas as partes, e interveio em privado junto de Chaim Weizmann, no
sentido de serem criados mecanismos para essa cooperação pacífica – um ideal
que não se realizou. Finalmente em 1947, quando a ONU debatia o futuro da
Palestina, Einstein tomou partido contra a partilha que dividiria o
território em dois estados, propondo antes um território único e desmilitarizado,
ocupado pelos dois povos.
Internacionalista convicto, considerava a soberania nacional como um instrumento
de defesa face ao imperialismo mas receava com repulsa a sua transformação em
nacionalismo chauvinista. Um apoiante da causa de Israel, com essas reservas,
escreveu a Weizman, respectivo primeiro presidente: «Se não conseguirmos
encontrar o caminho de honesta cooperação e nos entendermos com os árabes,
então não aprendemos nada dos dois mil anos de desgraças e mereceremos o
destino que nos assaltar». Por morte de Weizman em 1952, declinou a oferta
para ser o futuro presidente de Israel. Diria depois «O aspecto mais
importante da política (israelense) deve ser o omnipresente e expresso desejo
de instituir completa igualdade com os cidadãos árabes que vivem connosco. A
atitude que adoptarmos para com a minoria árabe será o verdadeiro teste dos
nossos padrões morais como povo.»
Por testamento, Einstein legou o espólio dos seus trabalhos científicos à
Universidade Hebraica de Jerusalém.
PORQUÊ O SOCIALISMO?
Nos últimos dez anos da sua vida, Einstein devotou-se às causas do
desarmamento nuclear e da paz, da igualdade e da justiça. Participou no
combate anti-racista e integracionista, e concretamente nos primórdios do “Civil
Rights Movement” – ao lado de activistas negros como Paul Robeson; em
1954 permitiu que o seu 75º aniversário fosse oportunidade para a realização
e projecção pública de uma conferência de luta pelos direitos civis. Combateu
o sectarismo persecutório anti-comunista da administração norte-americana —
por vezes personalizada pelo senador Joseph R. McCarthy, tomando posição em
defesa do casal Rosenberg (1953) e do seu colega J. Robert Oppenheimer
(1954), e em outras numerosas circunstâncias públicas. Num período sombrio de
intolerância e de anti-comunismo militante, e de construção activa da nova
ordem mundial – a política da “Guerra-Fria”, associou-se a intelectuais de
esquerda para contribuir para a fundação e defesa de um projecto de esquerda
– a revista marxista Monthly Review.
O compromisso cívico e a associação de Einstein aos meios progressistas
ficaram assim assinalados no facto de ser autor de um dos artigos do número
inaugural de Monthly Review, em Maio de 1949. Significativamente o
título é “Porquê o Socialismo?” [http://resistir.info/mreview/porque_o_socialismo.html]
«(…) O
capital privado tende a concentrar-se em poucas mãos, em parte por causa da
concorrência entre capitalistas e em parte porque o desenvolvimento
tecnológico e a crescente divisão do trabalho encorajam a formação de
unidades de produção maiores à custa de outras mais pequenas. O resultado
destes desenvolvimentos é uma oligarquia de capital privado cujo enorme poder
não pode ser eficazmente controlado mesmo numa sociedade democraticamente
organizada. Isto é verdade, pois que os membros dos órgãos legislativos são
escolhidos pelos partidos políticos, largamente financiados ou influenciados
pelos capitalistas privados que, para todos os efeitos práticos, separam o
eleitorado da legislatura. A consequência é que os representantes do povo não
protegem suficientemente os interesses das camadas desprivilegiadas da
população. Além disso, nas condições existentes, os capitalistas controlam
inevitavelmente, directa ou indirectamente, as principais fontes de
informação (imprensa, rádio, educação). É assim extremamente difícil e mesmo,
na maior parte dos casos completamente impossível, para o cidadão individual
chegar a conclusões objectivas e utilizar inteligentemente os seus direitos
políticos. (…)
(…) A produção é feita para o lucro e não para o uso. Não há nenhuma
disposição em que todos os que possam e queiram trabalhar estejam sempre em
posição de encontrar emprego; existe quase sempre um “exército de
desempregados”. O trabalhador está constantemente com medo de perder o seu
emprego. Uma vez que os desempregados e os trabalhadores mal pagos não
fornecem um mercado rentável, a produção de bens de consumo é restrita e tem
como consequência a miséria. O progresso tecnológico resulta frequentemente
em mais desemprego e não no alívio do fardo da carga de trabalho para todos.
A motivação do lucro, em conjunto com a concorrência entre capitalistas, é
responsável pela instabilidade na acumulação e utilização do capital que
conduz a depressões cada vez mais graves. A concorrência sem limites conduz a
um enorme desperdício do trabalho e a esse enfraquecimento da consciência
social dos indivíduos que mencionei anteriormente.
Considero este enfraquecimento dos indivíduos como o pior mal do capitalismo.
Todo o nosso sistema educativo sofre deste mal. É incutida uma atitude
exageradamente competitiva no aluno, que é formado para venerar o sucesso de
aquisição como preparação para a sua carreira futura.
Estou convencido que só há uma forma de eliminar estes sérios males,
nomeadamente através da constituição de uma economia socialista, acompanhada
por um sistema educativo orientado para objectivos sociais. Nessa economia,
os meios de produção são detidos pela própria sociedade e são utilizados de
forma planeada. Uma economia planeada, que adeque a produção às necessidades
da comunidade, distribuiria o trabalho a ser feito entre aqueles que podem
trabalhar e garantiria o sustento a todos os homens, mulheres e crianças. A
educação do indivíduo, além de promover as suas próprias capacidades inatas,
tentaria desenvolver nele um sentido de responsabilidade perante o seu
semelhante, em vez da glorificação do poder e do sucesso na nossa actual
sociedade. (…)»
O MANIFESTO DE
RUSSELL-EINSTEIN
Na última etapa da sua vida,
Einstein ainda contribuiu para um novo e forte impulso ao movimento pacifista
e anti-imperialista no plano internacional, com repercussões duradouras.
Em carta de Bertrand Russel a Albert Einstein (Fevereiro de 1955), propondo
um manifesto destinado a colher um vasto apoio na comunidade científica,
aquele afirmava: «Como qualquer pessoa capaz de reflectir, estou
profundamente chocado com a corrida para aquisição de armas nucleares. (…)
Embora a bomba H seja actualmente o ponto central, ela não exaure a
capacidade da ciência de proporcionar novas alternativas, sendo provável que
os perigos advindos de material bélico bacteriológico sejam, em pouco tempo,
da mesma magnitude. (…) Isso reforçaria a constatação fundamental de que a
guerra e a ciência já não podem coexistir».
O Manifesto afirma: «(…) Na trágica situação que confronta a humanidade,
cremos que os cientistas deveriam reunir-se numa conferência para avaliarem
os perigos que resultam do desenvolvimento de armas de destruição maciça, e
discutirem uma resolução no espírito da minuta anexa (…). Resolução:
Convidamos este Congresso, e por seu intermédio os cientistas do mundo e o
público em geral, a subscreverem a seguinte resolução: “Em vista do facto que
em qualquer futura guerra mundial serão certamente utilizadas armas
nucleares, e que tais armas ameaçam a sobrevivência da humanidade, instamos
os governos mundiais a reconhecer e a declarar publicamente, que os seus
propósitos não podem ser prosseguidos pela guerra mundial, e instamo‑los,
consequentemente, a encontrarem meios pacíficos para a resolução de todas as
causas de disputa entre eles.”
Max Born, Percy W. Bridgman,
Albert Einstein, Leopold Infeld, Frederic Joliot-Curie, Herman J. Muller,
Linus Pauling, Cecil F. Powell, Joseph Rotblat, Bertrand Russell, Hideki
Yukawa»
Os termos concretos do Manifesto foram elaborados por Russell. O Manifesto
era também um apelo para um congresso entre cientistas dos dois grandes
blocos político-militares emergentes da Segunda Guerra Mundial, mas tal
encontro não viria a materializar-se como previsto. A resposta de Einstein
para Russell, datada de 11 de Abril de 1955, concordando com os termos do
Manifesto, representa o seu derradeiro acto público. A morte de Einstein,
sete dias depois, precipitou a divulgação do Manifesto, subscrito apenas
pelos seus promotores mais directos, mas contribuiu também para a sua grande
ressonância.
Na sequência da divulgação do Manifesto Russell-Einstein à comunicação social
em Londres, a 9 de Julho 1955, o físico alemão Max Born liderou o encontro e
a assinatura, a 15 de Julho 1955, da Declaração de Mainau (Alemanha)
subscrita por 52 laureados pelo Prémio Nobel, que apelava à renúncia à força
como solução política última. Por outro lado, em colaboração com Joseph Rotblat,
Bertrand Russell lançou o movimento pacifista Pugwash para a cooperação entre
cientistas de todo o mundo, na procura do controlo das armas nucleares e pelo
desarmamento, movimento que, tal como a Federação Mundial dos Trabalhadores
Científicos, já fundado em 1946, sobreviveu e trabalha até ao presente.
Estes esforços de alguns dos mais prestigiados cientistas a nível mundial,
contribuíram nessa oportunidade para o lançamento de vários outros movimentos
pacifistas e anti-nucleares, a outros níveis e com outros protagonistas, bem
como muito concretamente para sucessos diplomáticos que conduziram aos
Tratados anti‑nucleares PTBT, TNP e outros posteriores.
ALGUMA BIBLIOGRAFIA ONLINE
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Archives On-Line, The Hebrew University of Jerusalem
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Vijay Prashad, To “get Einstein”,
Frontline, Volume 19 - Issue 12, June 8-21, 2002
Wikipedia, Tests of
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Peter Coles, The story of how a
British scientist used an eclipse to provide the evidence for Einstein's
theory of general relativity
Bulletin
of the Atomic Scientists
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Review, May 1949.
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