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01/08/2005 Hiroshima e Nagazaki hoje Rui Namorado Rosa «Os japoneses já
estavam derrotados». Almirante Leahy, da U.S. Navy
A INVENÇÃO DAS ARMAS
NUCLEARES E O PROGRAMA NUCLEAR NORTE-AMERICANO Não existem armas de destruição
em massa como as nucleares. A possibilidade de libertar
energia nuclear foi descoberta pouco antes dos inícios da Segunda Guerra
Mundial por cientistas europeus, sobretudo alemães e ingleses. Em 1942, foi
concebido e decidido pela administração norte-americana o projecto de
invenção e fabrico de armas com combustíveis nucleares, cerca de um milhão de
vezes mais potentes que os combustíveis e explosivos químicos tradicionais.
Esse projecto denominado Manhattan, dirigido pelo general Leslie Groves e o
físico Robert Oppenheimer, foi realizado por uma equipa de dezenas de alguns
dos melhores cientistas norte-americanos, vários deles europeus emigrados nos
EUA, em colaboração com cientistas ingleses e canadianos. Os laços de
cumplicidade político-militar entre os EUA e o RU foram mantidos desde então
até à actualidade. O projecto foi conduzido secretamente nos Laboratórios de
Oak Ridge (Tennessee) e de Los Álamos (Novo México), e em Hanford
(Washington) e algumas outras instalações mais, mobilizando mais de cem mil
trabalhadores que desconheciam os objectivos concretos de tal projecto
militar e secreto.
O complexo responsável pelo
programa nuclear alargou-se depois ainda mais. Ao longo de quarenta anos, as
armas foram concebidas e montadas nos Laboratórios Nacionais de Los Álamos,
no Novo México (a larga maioria), de Lawrence Livermore, na Califórnia, e Sandia,
em Albuquerque, com o apoio de uma rede de outras infra-estruturas, com
relevo para os Laboratórios de Oak Ridge, em Tennessee, Savannah River Site,
na Carolina do Sul, Rocky Flats Facility, no Colorado. As principais
variações ensaiadas na concepção das bombas foram a forma química/metalúrgica
e a combinação proporção/geometria entre combustíveis físseis (plutónio 139 e
urânio 235) e fusíveis (deutério e trítio). A evolução procurou incrementar o
poder explosivo; da primeira bomba operacional lançada em Hiroshima até às
maiores super-bombas termonucleares ensaiadas, o poder destrutivo foi
multiplicado mais de 1.000 vezes. A evolução procurava também incrementar a
eficiência (poder explosivo por quantidade de carga combustível) e a
compacticidade; entre o primeiro teste de Trinity e uma comparável bomba
actual de 20 quilotoneladas TNT, vai a diferença de 5 toneladas para 100 kg,
ou seja, de um bombardeiro para uma mala de viagem.
O programa nuclear
norte-americano envolveu um longo rol de ensaios de armas. Desde 1945 até
Setembro de 1992 (quando foram suspensos), realizaram-se o espantoso número
de 1.054 testes (dos quais 24 conjuntos com a Grã-Bretanha), a larga maioria
num perímetro reservado no deserto do Nevada (928 testes) não muito longe de
Las Vegas. Desde 1957 os testes são subterrâneos. Mas enquanto foram acima do
solo, os testes foram minuciosamente examinados não só do ponto de vista da
potência libertada por carga explosiva, como também dos pontos de vista dos
efeitos do choque das ondas de pressão e térmica sobre estruturas físicas,
como edifícios e veículos, e das radiações ionizantes e substancias
radioactivas sobre seres vivos, incluindo homens. A ARMA NUCLEAR NO CURSO DA
GUERRA MUNDIAL Inicialmente, a arma nuclear
foi desenvolvida pelos EUA para antecipar o seu eventual desenvolvimento pela
Alemanha. Porém, com a vitória dos aliados na Europa e a rendição da Alemanha
a 8 de Maio de 1945, e perante a perspectiva iminente de a União Soviética
avançar então na frente do Pacífico contra o Japão – de facto essa declaração
de guerra ocorreu a 8 de Agosto –, os EUA decidiram precipitar a rendição do
Japão a todo o custo. Deu-se uma viragem dramática no curso da história: o
que seria uma arma dissuasora frente à Alemanha tornou-se em arma táctica
para derrotar o Japão e arma estratégia para “conter” a União Soviética na
frente Oriental. Para contextualizar essa
viragem histórica, recordemos dois marcos importantes na preparação do termo
da Segunda Guerra Mundial: as Conferências de Yalta e de Potsdam. Na
Conferência de Yalta, de 7 a 14 de Fevereiro de 1945, Joseph Staline e
Franklin Roosvelt haviam acordado que a URSS entraria na guerra contra o
Japão três meses após o término da guerra na Europa. Mas com a morte de
Franklin Roosevelt, que fora o protagonista norte-americano na Conferência de
Yalta, o vice-presidente Harry Truman assumiu a presidência dos EUA a 12 de
Abril de 1945. A Alemanha capitulou a 8 de Maio e Truman foi o novo
protagonista norte‑americano na Conferência de Potsdam, já em
território Alemão, de 17 de Julho a 2 de Agosto. Aí foi duramente discutida a
conclusão da guerra e equacionada a nova ordem internacional emergente. A
arma nuclear (ainda secreta) não foi formalmente referida mas estava
subentendida nas negociações diplomáticas; a sua próxima utilização seria um
acto intencional dos EUA para influenciarem em sua vantagem a configuração
dessa nova ordem internacional que estava para nascer.
Depois de um só teste de
demonstração realizado no deserto da Alamogordo (Novo México) a 16 de Julho
de 1945 (com um dispositivo denominado “Trinity”) duas bombas foram pouco
depois lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki no Japão, a 6 e 9 de Agosto — a
primeira uma bomba de urânio enriquecido apelidada “Little Boy”, a segunda
uma bomba de plutónio apelidada “Fat Man”. A Conferência de Potsdam surge
pois sinistramente entrelaçada com as decisões secretas de os EUA testarem e
lançarem essas bombas sobre o Japão. Os alvos então escolhidos
foram cidades que não tinham especial valor militar e estavam relativamente
intocadas por anteriores bombardeamentos. As muitas experiências que eram e
continuaram a ser conduzidas sobre os efeitos biológicos das radiações
ionizantes e das substancias radioactivas sobre cobaias humanas — populações
prisionais, soldados e outras “amostras” desprevenidas —, sugerem que os
bombardeamentos daquelas cidades representaram também mais uma mas gigantesca
“experiência” sobre tais efeitos biológicos. Esses bombardeamentos
representaram também testes sobre a capacidade de destruição física “em
condições reais”. Sem esquecer que o grande objectivo militar imediato era
então, de facto, forçar a rendição do Japão e evitar a entrada da União
Soviética na Guerra na frente Oriental e Pacífico. Com efeito, o Japão
rendeu-se aos EUA logo a 15 de Agosto. A URSS, de acordo com a
Conferência de Yalta, entraria na guerra contra o Japão três meses após o
término da guerra na Europa. A declaração de guerra e o início dos combates
tiveram lugar a 8 de Agosto — dois dias depois do bombardeamento de Hiroshima
e um antes de Nagazaki. A nova arma secreta deixara de o ser e, em lugar
desse segredo, passaram a figurar dois actos de guerra inesquecíveis, duas
colossais tragédias. O Império Japonês no final
década de 1930 compreendia o Arquipélago Nipónico, a Coreia, numerosas Ilhas
e Arquipélagos no Pacífico Ocidental (Sakalina, Kurilas, Marianas, Okinawa,
Guam, etc.) e detinha influência protectora sobre a Manchúria. Os inícios da Segunda Guerra
Mundial foram assinalados, entre outros conflitos e agressões, pela tentativa
de o Japão invadir a URSS. O conflito desencadeou-se na fronteira entre a
Mongólia e a Manchúria, entre as forças soviéticas e aliados mongóis e as
forças japonesas e aliados manchus, na dura batalha de Halhin Gol, durante os
meses de Julho e Agosto de 1939. O Japão sofreu uma pesada derrota que teve
grande alcance, pois levou‑o a desistir de atacar a URSS para, em
alternativa, dirigir o seu esforço de guerra para o Sudeste Asiático, na
procura de fontes de abastecimento. Como consequência, a URSS e o Japão
assinariam um pacto de não agressão em Abril de 1941, válido por cinco anos,
que libertou forças soviéticas para o esforço de guerra na frente Ocidental. Em Abril de 1945 a URSS
notificara o Japão do cancelamento do tratado de neutralidade e, após o fim
da guerra na frente Ocidental, as tropas soviéticas estacionadas na Mongólia
foram reforçadas com um milhão e meio de soldados e 5.500 carros de combate,
transportados a partir da frente Ocidental. Iniciado o ataque soviético na
frente Oriental a 8 de Agosto de 1945, justamente três meses após o termo da
guerra na frente Ocidental, como acordado em Yalta, em oito dias apenas as
tropas soviéticas progrediram 400 km e a 16 de Agosto estabeleceram contacto
com o Exército Vermelho Chinês, que resistia à invasão japonesa. O Japão
rendeu‑se formalmente perante as tropas soviéticas a 2 de Setembro. O
avanço fulgurante das tropas terrestres, com apoios aéreos e navais,
assegurou a ocupação da Manchúria, parte Norte da Península da Coreia, Ilha
de Sakalina e Ilhas Kurilas e comprovou que o Japão estava militarmente
derrotado independentemente dos inopinados bombardeamentos nucleares. Essa
intervenção da URSS, tendo decorrido conforme os acordos de Yalta, conferiu à
URSS o direito a reter os territórios da Ilha Sakalina e das Ilhas Kurilas,
em disputa com o Japão, e ainda Porto Arthur. A Manchúria, sob influência
soviética, serviu como base de operações preciosa para o Exército Vermelho de
Mao Zedong, que quatro anos mais tarde, em Dezembro de 1949, saiu vitorioso
da longa guerra civil Chinesa. Todos os territórios inicialmente ocupados
pelas forças soviéticas na China foram depois entregues à nova República
Popular da China. Infelizmente, ficou provado
da forma mais trágica que a utilidade militar da arma nuclear passa pelo
genocídio de grandes populações civis. Fora inventada e utilizada a maior
arma de destruição maciça. AS ARMAS NUCLEARES NA
GUERRA-FRIA Os EUA procuraram manter o
segredo e o monopólio nuclear. Porém uma bomba nuclear soviética veio a ser
testada a 29 de Agosto de 1949 no Cazaquistão. Perdido o monopólio, a reacção
dos EUA foi a de preocupação e, mais sinistramente, a da caça às bruxas – o
macartyismo – e a decisão de desenvolver rapidamente uma arma nuclear muito
mais poderosa ainda – a bomba termonuclear ou bomba de hidrogénio. A caça às
bruxas foi expressão extrema de campanha de propaganda e de agressão
ideológica, em que foram imoladas as carreiras de dezenas de cientistas, de
centenas de homens e mulheres progressistas e as vidas do casal Rosenberg. O
primeiro teste do novo conceito termonuclear foi levado a cabo a 1 de
Novembro de 1952, num atol das Ilhas Marshall que ficou apagado do mapa, e
contaminou milhares de pessoas entre populações vizinhas e japoneses.
Todavia, menos de um ano depois, a União Soviética realizou um teste
comparável (12 Agosto de 1953). Estava em curso uma corrida a armas capazes
de aniquilar não só cidades inteiras mas extensas áreas metropolitanas e
causar mesmo impactos a nível planetário – “O Inverno Nuclear”. O desenvolvimento das armas
nucleares acelerou também o desenvolvimento de vectores para o seu
lançamento, no decurso da década de 1950, primeiro, os aviões bombardeiros de
longo alcance, depois, os mísseis balísticos – ICBM – com os EUA tomando a dianteira
nos bombardeiros e a URSS nos mísseis. Essa corrida esteve na origem da “exploração
do espaço”, cujo início ficou assinalado com o lançamento do primeiro
satélite artificial da Terra – Sputnik, em 1957. O espaço exterior revelou-se
ser um novo terreno da maior importância militar. Em breve, outros países
procuraram desenvolver armas nucleares. O RU, dada a sua íntima ligação aos
EUA, realizou o seu primeiro teste logo em 1952, e a França em 1960. A R. P.
China realizou o seu primeiro teste nuclear e termonuclear, em 1964 e 67. A
Índia encenou um primeiro teste em 1974; tanto a Índia como o Paquistão
ensaiaram bombas reais em 1998, quase em simultâneo. Os EUA acusam a R. I.
Irão e a R. Coreia do Norte de estarem a dotar-se de capacidades para o desenvolvimento
de armas nucleares. Mas sabe-se que Israel desenvolveu (desde 1957) e detém
um arsenal de algumas centenas de tais armas, e que a R. África do Sul dispôs
já delas, para posteriormente a elas renunciar (1991). Entretanto, estes
vários países adquiriram já capacidade de lançamento (mísseis) ou estão a
desenvolvê-la. Na década de 1960, face à
multiplicação de “novos actores”, foram prosseguidos esforços diplomáticos e
alcançados progressos significativos no sentido de disciplinar, conter e
eventualmente fazer regredir a corrida às armas nucleares, e de facto foi
acordado o importante Tratado de Não Proliferação – TNP. Nas décadas de 1970 e 1980,
no quadro da dissuasão mútua entre os dois grandes blocos político‑militares,
pouco progresso foi registado no sentido do desarmamento e da
desnuclearização. A década de 70 foi caracterizada pela “détente”, em que o
equilíbrio de forças e o início da recessão económica encorajou a redução
(temporária) das despesas militares e dos arsenais nucleares. Os tratados
SALT I e II e START limitavam numericamente os arsenais militares e o âmbito
de ensaio e utilização das armas nucleares (nomeadamente sistemas
anti-balísticos e armas no espaço); mas o cumprimento e os resultados destes
tratados foram insatisfatórios e o curso dos acontecimentos iria regredir. No fim da década de 70, os
EUA retomaram a iniciativa da corrida armamentista; rejeitaram o
desarmamento, relançaram novas armas e lançaram o sistema anti-balístico
baseado no espaço – Iniciativa de Defesa Estratégica, mais conhecido por “guerra
das estrelas” (Março de 1983). A par da modernização de mísseis de alcance
intermédio com ogivas múltiplas (SS-20), por parte da URSS, a NATO estacionou
na Europa mais de meio milhar de ogivas nucleares tácticas, veiculadas por
mísseis de cruzeiro (GLCM) e mísseis balísticos Pershing II. O início da
década de 80 seria de grande tensão na Europa, que mobilizaria os esforços de
movimentos pacifistas e anti-nucleares, tensão só atenuada pelo Tratado sobre
Forças Nucleares de Alcance Intermédio (INF) que, após laboriosas
negociações, em 1987 proibiu a instalação de mísseis terrestres balísticos e
de cruzeiro com ogivas nucleares com alcance entre 500 e 5.500 km. No quadro de recessão
económica mundial (que persiste até hoje) e pressionada por esta corrida
armamentista, a URSS entrou em profunda crise político-económica, que
contribuiu para o colapso do bloco socialista no início da década de 90. Iria iniciar-se a ainda mais
perigosa época do poderio capitalista unipolar – a Pax Americana. A CORRIDA ARMAMENTISTA E A
LUTA PELO DESARMAMENTO NUCLEAR A luta pela Paz, contra o
militarismo e a corrida armamentista, ganhou acrescida urgência com a
emergência de novas armas de destruição maciça, as armas nucleares à frente
de todas as demais. Havendo razão histórica, não há fundamento moral para que
alguns países tenham reconhecido o direito à posse de armas nucleares e
outros não, para mais quando o poder ciclópico de destruição dessas armas é
uma ameaça à sobrevivência da humanidade. A diplomacia e o direito
internacional, no quadro das Nações Unidas, procurou rectificar essa
assimetria e essa ameaça intoleráveis, e promover o desarmamento gradual,
equilibrado e completo – mas só enquanto a correlação de forças o permitiu.
Vivemos presentemente um intervalo entre parêntesis na história humana, de
que só pela Paz poderemos escapar. O primeiro tratado
internacional, condicionante de ensaios com armas nucleares, foi o Tratado de
Banimento Parcial de Testes Nucleares (PTBT), formulado e subscrito em 1963,
visando limitar o alcance dos graves danos que muitas centenas de testes
entretanto realizados, sobretudo na atmosfera, haviam já provocado. Eram
excluídos testes na atmosfera, subaquáticos e no espaço exterior; só testes
subterrâneos seriam doravante autorizados. Porém alguns países,
particularmente a China e a França, não subscreveram. Um passo importante no
sentido da não proliferação foi dado cinco anos mais tarde, com o TNP. O
Tratado de Não Proliferação (TNP), que visa a não-proliferação, o
desarmamento, e o direito à utilização pacífica da energia nuclear; teve como
primeiro signatário a Irlanda em 1968 e congrega actualmente 189 estados.
Porém três estados que detêm tais armas persistem até hoje em recusar assinar
este tratado: Índia, Paquistão e Israel; a R. África do Sul, renunciou ao seu
arsenal e subscreveu o tratado em 1991. Com o termo da “Guerra-Fria”,
no novo contexto geopolítico mundial a Assembleia-Geral da ONU, em 1993,
promoveu o início de negociações conducentes ao desarmamento nuclear,
procurando conciliar a divergência e tensão entre os que argumentavam contra
a proliferação “vertical” (mais e novas versões de armas por parte de
potências nucleares) e os que argumentavam contra a proliferação “horizontal”
(novos países aderindo ao desenvolvimento ou acolhendo armas nucleares).
Essas negociações conduziram finalmente ao CTBT em 1996. Este Tratado para a
Proibição Integral de Testes Nucleares (CTBT), proíbe novos ensaios em
quaisquer ambientes e para fins tanto militares como civis. Ele responde
positivamente ao desejo mais fundo de banimento completo dos explosivos
nucleares, pela primeira vez enunciado por Nehru em 1954 (só vinte anos mais
tarde o seu país embarcou no desenvolvimento de tais armas). Foi subscrito
por 71 estados em 10 de Setembro de 1996; uma vez mais, Índia e Paquistão declinaram.
Os EUA, que não aceitam o respeito pelos compromissos internacionais
anteriormente assumidos nem a sujeição a novos compromissos que limitariam a
sua “liberdade” de desenvolver e testar novos tipos de armamentos,
consequentemente recusaram a ratificação do CTBT (deliberação do Senado
norte-americano de 13 de Outubro de 1999). Na mais recente conferência
das partes do TNP, em Maio de 2005, confrontou-se de novo a posição
unilateral dos EUA, que focaram a atenção na proliferação horizontal, e concretamente
alegaram contra o Irão e a Coreia do Norte, contra a posição da maioria dos
países, que conferiu prioridade ao desarmamento das potências nucleares e
denunciou a ilegalidade da partilha de meios entre países no seio da NATO
(que corresponde, de facto, a uma forma de proliferação horizontal). A “NOVA” ESTRATÉGIA NUCLEAR
NORTE-AMERICANA A Nuclear Posture Review –
NPR (iniciado em Outubro 1993, e parcialmente revelado ao Congresso em
Janeiro 2002) redefine com renovado entusiasmo o papel central das armas
nucleares na defesa dos EUA, incluindo a intenção de desenvolver e mesmo
testar novas armas com novas finalidades tácticas e estratégicas, e a
assumpção do princípio de “first strike” (primeiro a utilizar), o que
significa a adopção das armas nucleares como armas ofensivas e não mais como
dissuasoras ou preventivas. O NPR estabelece o quadro de
referência para a estratégia nuclear dos EUA, nível de forças e
infra-estruturas no horizonte de dez anos. Preconiza revisões substanciais
quanto à dimensão e composição das forças nucleares no sentido do reforço da
sua flexibilidade e prontidão, permitindo ao Pentágono criar novos planos de
ataque e tê-los rapidamente autorizados pelo Presidente em caso de “crise”.
Desde o ressurgimento da Guerra-Fria aquando da primeira administração
Reagan, não havia comparável enfoque em armas nucleares na estratégia da “defesa”
norte-americana. O NPR conduz a novas capacidades nucleares, ao possível
recomeço dos testes nucleares, e admite a utilização da arma nuclear contra
estados não nuclearizados na presunção da capacidade de fabricarem armas de
destruição em massa. Mas que outra arma de destruição maciça se compara com a
arma nuclear? Em escala de vítimas humanas, no imediato e em diferido
(vítimas das radiações ionizantes e de contaminação radioactiva), e em escala
de destruição física de infra-estruturas, tornando inabitáveis os seus alvos?
Este plano de política nuclear não poderá deixar de desacreditar os esforços
para persuadir outros estados a não prosseguirem os seus próprios esforços
para obterem também armas nucleares e a aceitarem o tratado de Não
Proliferação. À luz desse documento de
política nuclear, os EUA não respeitarão compromissos internacionais já
assumidos nem tão pouco se sujeitarão a novos compromissos que possam limitar
a sua “liberdade” de desenvolver e testar novos tipos de armamentos. Tudo
indica que, sancionado pela Nuclear Posture Review e financiado pelo
Congresso dos EUA, os laboratórios e demais infra-estruturas do complexo
nuclear norte-americanas recomeçarão em breve a fabricar elementos de
plutónio e trítio, para renovação do “velho” arsenal nuclear, e
desenvolvimento de novos conceitos de armas nucleares tácticas e
estratégicas, que implicarão o regresso aos testes nucleares. Entretanto, já antes de o NPR
ser presente ao Congresso norte-americano, a administração havia anunciado o
abandono do Tratado sobre Mísseis Anti-Balísticos (ABM) e a recusa de
ratificar o Tratado de Proibição Integral de Testes Nucleares (CTBT). Com o
novo enunciado da política nuclear, a comunidade internacional já nem pode
presumir que os EUA cumprirão os seus compromissos de desarmamento previsto
no regime de não‑proliferação. A credibilidade e viabilidade dos
instrumentos jurídicos internacionais estão postas em causa. O perigo nuclear
agravou-se em todo o mundo. A “NOVA” NATO Após o fim da “Guerra-Fria” a
natureza da NATO não mudou. Criada em 1949, foi então acto de constituição
formal do novo “império americano” que delineou as suas fronteiras; afirmava
o objectivo de contenção estratégica da “ameaça” comunista, valendo-se da
capacidade ofensiva conferida pelo monopólio da arma nuclear. A aliança à
data reconhecia na URSS uma ameaça com grande vantagem em armamento convencional
para a ela contrapor a “vantagem” da ameaça de armas nucleares. A disposição
de a NATO tomar a iniciativa de utilização da arma nuclear em caso de
conflito está patente desde os primórdios da aliança. O Pacto de Varsóvia foi
constituído só em 1955 e dissolver-se-ia em Julho de 1991. Pouco depois
(Dezembro) a União Soviética desintegrou-se numa “comunidade de estados
independentes”. A NATO iria prosseguir, no novo contexto, o avanço político e
militar a Leste, ainda que confrontando-se com a oposição de movimentos
pacifistas e anti-militaristas e o questionamento por parte dos governos de
alguns estados membros (designadamente Alemanha e Itália). Dos países do
anterior Pacto de Varsóvia, três foram assimilados na NATO em 1997 e seis
outros em 2004. Mantém armas nucleares norte-americanas estacionadas na
Alemanha, RU, Bélgica, Países Baixos, Itália, Grécia e Turquia, partilhando a
responsabilidade de estacionamento e utilização, assim contrariando o TNP,
mas sob o alto comando norte-americano. O alargamento a Leste, com a possibilidade
de instalação de armas nucleares em territórios anteriormente não
nuclearizados, só vem evidenciar e agravar o carácter agressivo da NATO e a
impotência do quadro legal internacional. A NATO prevaleceu e, de
aliança alegadamente defensiva, assumiu-se como braço armado imperial e
abertamente ofensivo. Em breve se envolveu em hostilidades em clara violação
do seu estatuto fundador. Em 1994, iniciou uma primeira intervenção na Bósnia
e Herzegovina, visando a fragmentação da República Socialista Federal da
Jugoslávia, a que se seguirá, em 1999, uma intervenção em larga escala na
chamada guerra do Kosovo, visando a subjugação da República Federal da
Jugoslávia. Por ocasião da celebração do 50º
aniversário da sua fundação, em Abril 1999, a NATO reinventou‑se num “Novo
Conceito Estratégico” e atribuiu-se o direito de intervir militarmente em
qualquer parte do mundo. A velha aliança à procura de um novo inimigo
reencontrou-o em 11 de Setembro de 2001. O artigo 5 do respectivo Tratado,
redigido em 1949, ainda antes de a URSS dispor de arma nuclear, artigo que
compromete os aliados a acorrer em defesa de qualquer estado membro em caso
de agressão externa, só em 2001 seria invocado pelos EUA, significativamente
logo no dia 12 de Setembro, a fim de mobilizar os vários estados e comprometê‑los
como súbditos em torno da renovada estratégia norte-americana. A subsequente
intervenção dos EUA no Afeganistão foi sancionada pela NATO e, subserviente,
esta assumiu a responsabilidade da “pacificação” e “administração” ulterior
desse país. As intervenções nos Balcãs e
na Ásia Central demonstram que a NATO está preparada para actuar militarmente
fora da sua área tradicional de influência (correspondente às duas áreas de
comando em que estava estruturada). Os argumentos, inscritos no Novo Conceito
Estratégico, são: a resolução de conflitos, a gestão de crises, a promoção da
democracia, a defesa de princípios morais, a protecção de direitos humanos. A
NATO afirma também que prossegue tais fins sem “arriscar” as suas tropas e
minimizando efeitos colaterais sobre populações civis inocentes. Dir-se-ia a
NATO transvertida em organização de governo supranacional, omnisciente e
omnipotente – mas sem qualquer mandato conferido para tal e representando, de
facto, uma ameaça à Paz mundial. Terminada, ao menos
retoricamente, a “Guerra-Fria”, começou, de novo retoricamente, a “Guerra ao
Terrorismo”. Como o “terrorismo” não tem morada nem hora, qualquer hora é
tempo de guerra em qualquer parte. O que está conforme com o quadro
geográfico e político-militar do novo conceito estratégico da NATO. E as armas nucleares
prevalecem, como elemento central da estratégia de agressão imperialista, que
aproveitou a alteração da correlação de forças para alargar os limites do seu
império e mudar de nome ao seu “inimigo” universal. AS “NOVAS” ARMAS NUCLEARES Os EUA e a Rússia dispõem de
milhares de armas nucleares ditas tácticas, isto é, para serem utilizadas no
campo de batalha, inicialmente desenvolvidas durante a Guerra-Fria para um
eventual conflito em teatro de guerra em solo europeu. A Nuclear Posture Review
(NPR) que chegou ao domínio público em Março de 2002 não abandona esse tipo
de arma, pelo contrário alarga a sua utilização ao baixar o limiar inferior
da sua potência, e alarga-a também no sentido da sua utilização em projécteis
com elevada capacidade de penetração. Admite ainda o reinício de testes
nucleares, com as novas armas, abandonando a presente moratória, assim desacreditando
o Tratado de Proibição Integral de Testes Nucleares (CTBT) que aliás nunca
foi ratificado pelos EUA. Entre as novas armas
nucleares, as ogivas e bombas com elevado poder de penetração, precisão e
potência, visando atingir alvos subterrâneos, surgem com particular destaque.
Em particular, Earth Penetrating Warheads (EPW), são ogivas com capacidade de
penetração no solo antes de explodirem. A explosão no subsolo transmite muito
mais energia ao solo e a onda de choque tem poder destrutivo a muito mais
considerável profundidade do que caso a detonação ocorresse à superfície. Os
EUA dispõem de ogivas e bombas EPW com cargas nucleares, as B61-11,
desenvolvidas ao tempo da primeira Guerra do Golfo, e tornadas operacionais
em 1997; transporta uma carga nuclear de até 340 quilotoneladas TNT. Uma tal
bomba poderá destruir através da onda de choque um alvo duro até 70 metros de
profundidade. Tal explosão produzirá uma cratera e lançará para a atmosfera
grande massa de rocha fragmentada e vaporizada e produtos radioactivos. Nas respostas militares
propostas incluem-se ainda as Robust Nuclear Earth Penetrator (RNEP), armas
nucleares com ainda maior alcance de penetração no solo, cujo conceito se crê
esteja desenvolvido mas ainda não testado (pelo menos por enquanto). Outra área de desenvolvimento
e utilização de armas nucleares, é a estratégia de defesa anti-míssil
intercontinental. O conceito de um sistema
nacional de defesa contra mísseis balísticos – National Missile Defense (NMD)
foi concebido pela primeira vez no fim da década de 50 e passou desde então
por sucessivas versões. A sua versão mais conhecida foi a Iniciativa de
Defesa Estratégica, proposta pelo presidente Donald Reagan em Março de 1983;
a sua versão mais recente é designada Ground-Based Missile Defense (GMD)
proposta pelo presidente George Bush em Dezembro de 2002, sendo o programa
mais dispendioso no orçamento do Pentágono. O conceito é de viabilidade
duvidosa e de sucesso questionável, por isso tem passado por várias versões e
é ainda incerto o seu futuro. Ou baseado no espaço, numa constelação de
satélites militares, ou baseado no solo, numa ampla rede de bases de
lançamento de mísseis anti-mísseis, em qualquer caso as armas nucleares serão
aí elementos necessários para alcançar os fins fixados. A Nuclear Posture Review
(NPR) expressamente invoca as armas nucleares para conter e responder a um “largo
leque de ameaças”, incluindo convencionais, químicas e biológicas e até “súbitos
desenvolvimentos militares”; nesta definição, tudo parece ser passível de
resposta nuclear. As consequências internacionais desta política militar são
gravíssimas. Ao banalizarem os cenários de utilização de armas nucleares,
incluindo a sua utilização contra países não nuclearizados, os EUA não só são
o principal agente de proliferação como induzem activamente que outros países
façam desenvolvimentos semelhantes e contribuam também para a proliferação
das armas nucleares. O Tratado de Não Proliferação está seriamente ameaçado. A NATO nasce com as armas
nucleares e suporta a sua “autoridade” no poder militar das armas nucleares
que detém. É por ser assim que a luta pela Paz é sinónimo de luta contra o
Imperialismo. ALGUMAS FONTES NA WEB http://www.doug-long.com/guide1.htm
http://www.doug-long.com/guide4.htm
http://www.doug-long.com/byrnes.htm
http://en.wikipedia.org/wiki/World_War_II
http://en.wikipedia.org/wiki/History_of_nuclear_weapons
http://en.wikipedia.org/wiki/NATO
http://en.wikipedia.org/wiki/National_Missile_Defense
http://www.globalsecurity.org/wmd/library/policy/dod/npr.htm
http://www.nrdi.org/nuclear/FinalNPR.htm
http://www.inesap.org/bulletin17/bul17art03.htm
http://www.inesap.org/bulletin17/bul17art16.htm
http://www.inesap.org/bulletin17/bul17art26.htm
http://www.answers.com/topic/nuclear-weapon
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