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24/04/2005 Cem anos para aprender
História Rui Namorado Rosa UM SÉCULO DE TRANSFORMAÇÕES
PROFUNDAS O século XIX foi o do apogeu
do império britânico, da afirmação pujante do capitalismo mercantilista, da
expansão colonial e da partilha do mundo pelas potências industrializadas, da
revolução industrial e do liberalismo político, um feixe de fenómenos que
podemos individualizar mentalmente mas que eram causas e efeitos de um mesmo
processo histórico. O século XX foi uma era de
revolução científica e técnica e de acelerado crescimento demográfico, de
competição e conflito devastador entre potências capitalistas, de emergência
de dois campos de organização político-económica de concepções opostas – um capitalista
e o outro socialista, da luta anti-colonial e de libertação nacional de povos
colonizados, e do apogeu do imperialismo, fase superior do capitalismo. No confronto pela hegemonia
económica e política mundial, o declínio do império britânico é perceptível
desde o último quartel do século XIX. Foi então patente a intensa competição
entre as potências então emergentes, com destaque para os EUA, a Alemanha e o
Japão que, concluídos os respectivos processos de consolidação interna
iniciavam a expansão externa, entre si e as potências tradicionais – a Grã‑Bretanha,
a Rússia, a Turquia, a França e a Áustria. Desde então e até ao início da
Primeira Grande Guerra, multiplicaram-se intrigas, fizeram-se e desfizeram‑se
alianças explícitas ou secretas. A Conferência de Berlim (1884-5), que
realizou a “partilha do mundo” entre as potências europeias, é sintomática do
declínio do império britânico até então incontestado, e assinalou também um
novo passo na escalada da globalização capitalista. O capitalismo carecia de
acrescido “espaço vital” para manter o seu crescimento e essa foi a solução
“pacífica” então encontrada, à custa da autonomia, recursos e cultura dos
povos colonizados. Por essa altura também, os EUA lançaram guerras
expansionistas contra colónias espanholas, anexando Cuba, Porto Rico e
Filipinas. No início do século XX já
estavam constituídos diversos grandes grupos monopolistas, na sequência da
concentração de capital acelerada pelas crises económicas de 1873 e 1900, a
par da fusão do capital bancário, industrial e especulativo em capital
financeiro. Os monopólios surgem em resultado da “livre” concorrência que
leva à eliminação de uns por outros “competidores” mediante a força económica
(ou quaisquer outros meios). O imperialismo é uma entidade objectiva, etapa
da evolução necessária do capitalismo que emerge e contradiz a etapa anterior
de capitalismo mercantilista. Esses monopólios centravam-se nos países industrializados,
mas estendiam‑se aos territórios colonizados ou dependentes. Os principais sectores
monopolizados por cartéis de poucas mas poderosas corporações eram então o
carvão e o aço, a electricidade, os caminhos-de-ferro, a marinha e até já o
petróleo (este no caso dos EUA). No vértice do edifício imperialista, uma
oligarquia de plutocratas e de directos executantes e beneficiários do poder,
constituíam a classe capitalista. Ao longo do século XX, porém
mais rapidamente após o termo da Segunda Guerra Mundial e na sequência das
crises económicas de 1971, 1987 e 1995, os monopólios cresceram em novos
sectores industriais onde a sua expressão era anteriormente menor, alargaram
ainda mais a sua área de influência geográfica, e a sua integração vertical e
horizontal foi levada muito mais longe. O progresso científico e a
inovação tecnológica criaram oportunidades para a emergência desses novos
sectores económicos e para o reforço do dinamismo de outros. As agora
“populares” tecnologias da comunicação e da informação já existem desde o
início do século XX, mas ainda não constituíam então as bases dos monopólios
que viriam a constituir-se em importantes Corporações Transnacionais nos
ramos da Electrónica e das Telecomunicações, no último quarto do século. A
biotecnologia que era então incipiente, é agora a chave do sucesso de
poderosos monopólios nos ramos Farmacêutico e Agro-industrial. O poder
económico e político das Corporações Transnacionais é enorme. As 200 maiores
transnacionais reúnem um volume de produção estimado em um quarto do PIB
mundial, em diversificados ramos económicos, mas com destaque para as
Telecomunicações, Energia, Serviços Públicos, Comércio por Grosso e
Distribuição, Militar, Agro-industrial, Automóvel, Aeroespacial, Comunicação
Social, etc. O ÚLTIMO MEIO SÉCULO As viragens de rota
observadas na década de 40 permitem compreender melhor as forças em presença
que conduziram à Segunda Guerra Mundial e as que a superaram, o que ficou
definitivamente ultrapassado e o que veio a ser adquirido – não esquecendo as
colossais perdas humanas e materiais. Após a fim da Segunda Guerra
Mundial, a conferência de Bretton Woods (1944), entre as 44 potências
vitoriosas sob a égide dos EUA, ditou uma “nova ordem” financeira
internacional que superasse pela via financeira a profunda crise económica
que antecedera essa Guerra. Essa conferência traduziu-se no Acordo de Bretton
Woods, não subscrito pela URSS, que compreendeu a criação, com sede em
Washington, do Banco Mundial (BIRD), do Fundo Monetário Internacional (FMI) e
do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) – este em 1947. Os EUA foram
o principal protagonista dessa nova arquitectura, através da qual asseguraram
o predomínio do dólar nos bancos centrais e no comércio internacional. Após
um dilatado período de expansão económica sequente ao fim da Segunda Guerra
Mundial, seguiu‑se depois um longo período de recessão cujo fim não
está à vista. Essa transição ficou assinalada por vários eventos. Em 1973, assinalamos a guerra
de Yom Kippur no Próximo Oriente, o embargo de fornecimento de petróleo pela
OPEP e o sequente choque petrolífero e, ainda, o abandono definitivo do
Acordo de Bretton Woods – no que se refere à desvinculação do dólar da
convertibilidade com o ouro e a flutuação das taxas de câmbio entre divisas.
Estava por esta via facilitado o caminho para os programas de “reajustamento
estrutural” impostos pelo FMI aos países em desenvolvimento que, com o rol de
privatizações, redireccionamento da despesa pública, reformas e disciplina
fiscais, etc., conjugados com a liberalização do investimento directo
estrangeiro e do comercio externo e a desregulamentação aduaneira, impostas
através do GATT (agora WTO-OMC desde 1995), conduziram à acumulação de
insolúveis dívidas externas nos países periféricos e de riqueza e poder
económico em países do centro capitalista. As normas internacionais
foram sendo ditadas pelas potências capitalistas, com o seu poder
diplomático, negocial e a ameaça quanto necessária. Assim, as cotações de
“mercado” das commodities [1] ou matérias-primas são fixadas nas
bolsas de mercadorias de Londres e de Nova Iorque, sendo progressivamente
depreciadas; enquanto, por outro lado, as grandes potências aplicam normas ou
tarifas proteccionistas nas suas fronteiras em contraposição à eliminação de
barreiras aduaneiras nos países da periferia, sob instrução do FMI. A longa fase de recessão
económica mundial que perdura desde há três décadas, está assinalada por
renovada e mais feroz ofensiva do capitalismo, que procura reverter os
avanços civilizacionais da descolonização e da libertação nacional, subsequentes
ao fim da Segunda Guerra Mundial, para prosseguir a expansão e concentração
do capital a nível planetário. Esta ofensiva sob várias formas viria a ser
codificada num “decálogo” sob a designação de Consenso de Washington,
designação que resume o mínimo denominador comum das orientações políticas
impostas pelas instituições financeiras internacionais sedeadas em Washington
aos países da América Latina – que de facto traduz a orientação da política
imperial para com a generalidade dos países “em vias de desenvolvimento”. Tal como no princípio do
século XX, a concentração prossegue hoje e mais rapidamente ainda, mediante
fusões e aquisições e participações. Como então, uma oligarquia de
milionários que directa e indirectamente controlam capitais imensamente
maiores do que aqueles de que são proprietários, ou de pequenos investidores
que se arruinam ou enriquecem no jogo da especulação bolsista. Mas essa é a face mais
pacífica do capitalismo. Outra é o uso da força violenta para a subjugação, a
rapina e a destruição de povos e países inteiros. O século XX é disso triste
memória. AS GUERRAS MUNDIAIS A Primeira e a Segunda
Guerras Mundiais traduziram a expressão extrema de conflitualidade entre
potências capitalistas que recorrem à força militar para disputarem recursos
e mercados para o crescimento incessante das respectivas produções
industriais, o acesso ao que eufemisticamente apelidam de “espaço vital” ou
“interesses vitais”. Disputadas duas Guerras
Mundiais, em que a Alemanha foi derrotada consecutivamente, os EUA acabaram
por emergir, em meados do século XX, como o novo centro incontestado do sistema
capitalista mundial. Iniciava-se um novo ciclo do sistema político mundial. A consolidação do ciclo
económico e da hegemonia política dos EUA foi coadjuvada pela progressiva
dolarização das reservas dos bancos centrais e do comércio mundial (com o
apoio do FMI/BM/OMC). A partir da década de 1970, porém, o declínio económico
relativo dos EUA resulta da perda de sustentabilidade global, ainda que
dissimulado pela progressiva fuga para a acumulação de capital financeiro
especulativo, por uma intensificação dos fluxos internacionais de mercadoria
e de capitais, tendo em vista o mais agressivo saque de recursos, e pela
difusão da doutrina neo-liberal nos planos económico e ideológico. No plano político-militar é
claro, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o propósito de os EUA assumirem
a hegemonia unipolar do sistema capitalista mundial, embora inicialmente
confinado pelo bloco socialista. Tendo o bloco socialista sido derrotado no
confronto da Guerra-Fria, a partir do início da década de 1990 os EUA logo
passaram a exercer o seu poder hegemónico já sem limites. Assim, lançaram as
Guerras do Golfo e nos Balcãs, a primeira ainda com mandato da ONU a segunda
ainda no quadro da NATO. Mas a sua vontade de acção unilateral vai-se
afirmando progressivamente, quer no plano da legalidade internacional
estabelecida (auto-excluindo-se dos tratados internacionais) quer no plano da
decisão e da acção militar concreta. O partido da guerra tomou o
poder em Washington; primeiro, nas eleições presidenciais (Dezembro 2000);
depois, com o Patriot Act (Novembro 2001) e legislação subsequente que privou
os cidadãos norte-americanos de direitos e garantias constitucionais e
conferiu poderes de excepção ao Presidente dos EUA; e tem uma doutrina
militar, a da guerra preventiva contra um inimigo omnipresente. A guerra
tornou-se um modo de pensar e de estar permanente. Ela traduz as necessidades
e as soluções dos interesses dos grupos monopolistas já planetários e do
complexo militar-industrial em particular. As intervenções sucessivas
que pontuam a artificiosa geo-estratégia militar norte‑americana no
Médio Oriente e na Ásia Central, são oportunidades para fazer jogos de
alianças furtivas com facções políticas vulneráveis, tirando partido da
heterogeneidade étnica, religiosa ou outra existente nesses países de
fronteiras mal definidas e de poderes centrais difusos. A presença
norte-americana alarga-se assim rapidamente nos planos económico e
diplomático e sobretudo militar, no Oceano Índico, na Arábia Saudita, nos
principados árabes, no Afeganistão, no Uzbequistão, na Quirguízia. A presença
militar dos EUA conta agora com um eixo de bases aéreas e navais que vai do
Mediterrâneo Oriental até ao coração da Ásia Central, na fronteira com a
China. Antes da Guerra do Golfo eram 10 bases; pouco mais de uma década mais
tarde esse número atingia já 22. Estas bases não são meras recordações das
guerras que aí aconteceram, são sobretudo pontos de apoio para guerras
futuras.
O complexo militar-industrial
constituiu-se durante a Segunda Guerra Mundial nos EUA. A cooperação íntima
entre o governo e a grande indústria foi para isso determinante e teve
protagonistas como R. MacNamara. A US Air Force produziu 300 mil caças no
período 1940-45. A guerra do Vietname e a “guerra das estrelas” foram
acrescidas oportunidades para o desenvolvimento de novos armamentos (cada vez
mais sinistros) e o financiamento federal das corporações activas na
indústria de guerra. O fim da “guerra-fria” criou um compasso de expectativa
que não durou muito. Armas que estavam no arsenal das armas de utilização
problemática num mundo bipolar foram trazidas para acções encobertas e para o
campo de batalha (caso das munições de urânio empobrecido, novas versões de
bombas de fragmentação e de bombas termobáricas, super-bombas convencionais
MOAP, bombas Sujas RDD, feixes de micro-ondas de alta potência, bombas e
ogivas penetrantes EPW, etc.). O conceito de “guerra ao terrorismo” abriu
novas oportunidades ao negócio do complexo militar-industrial após o episódio
de 11 de Setembro. O orçamento militar norte-americano retomou a prioridade e
cresceu para mais de US$ 420 mil milhões em 2006 – excedendo os orçamentos
militares da Rússia, China, Reino-Unido e França reunidos – em prejuízo de
todos os programas sociais. Lockheed Martin, Northrop Grumman, General
Dynamics, General Atomics, General Electric, Boeing, United Technologies,
Raytheon são as principais executantes e beneficiárias deste novo alento
militarista. Mas agora não só constróem as plataformas, os lançadores, as
armas para a guerra no solo, no mar, no ar e no espaço, e os respectivos
sistemas de comando integrado. Uma nova dimensão, de facto já concebida e
operacionalizada durante a Segunda Guerra Mundial e institucionalizada logo
após (1947) entre os EUA e o Reino Unido, com apoio e adesão de vários outros
países “amigos”, são sistemas de vigilância (espionagem em todos os aspectos)
de âmbito global e permanente [2]. A vigilância electrónica global, abarcando
desde observações a partir de estações orbitais até à monitorização da
Internet, servindo para todos os fins legítimos ou ilegítimos, é apresentada
ao público em geral como “segurança” e suporte para a “guerra ao terrorismo”. Na realidade, o poder militar
é o único domínio em que o poder dos EUA é incontestado e sólido. É o braço
armado do capitalismo imperial sem fronteira. O SAQUE COMO PROPÓSITO E
CONSEQUÊNCIA DA GUERRA Quando olhamos para o que foi
a história do século XX, vemos como nela foi importante a indústria
petrolífera. A necessidade visceral de acesso ao petróleo para a sustentação
da base económica do crescimento capitalista é um factor objectivo da
agressividade e da actuação geopolítica imperial. Ao longo de um século a
indústria petrolífera adquiriu progressiva importância, associada a igual
importância adquirida pelas indústrias automobilística, aeronáutica e
petroquímica, a que a indústria de explosivos está associada. Todos estes
ramos industriais se desenvolveram na base da disponibilidade do petróleo e
em íntima convergência de interesses capitalistas. A indústria do petróleo
começou realmente nos EUA ainda no último quartel do século XIX, primeiro com
pacíficos fins iluminantes, depois como combustível ideal para os primeiros
motores de combustão interna. O petróleo tinha já uma importância primordial
por ocasião da Primeira Grande Guerra, pois que se provou a sua vantagem como
combustível na propulsão de veículos de transporte terrestre, navios e mesmo
aviões militares, para além do fabrico de explosivos. A prospecção de petróleo e o
controle das correspondentes reservas passou então a ser de importância
estratégica. O Médio Oriente e a Ásia Central, com a bacia do Mar Cáspio e o
Golfo Arábico-Persa, acabaram por se revelarem como a área geográfica de
longe mais dotada em hidrocarbonetos – petróleo e gás natural – do mundo. O domínio do Golfo
Arábico-Persa tornou-se muito apetecido. A Primeira Guerra Mundial
desencadeou a corrida ao petróleo e todas as potências procuraram obter
posições no negócio. A Grã-Bretanha, que antes da Guerra já controlava o
petróleo recentemente descoberto na Pérsia, suspeitava que a vizinha
província da Mesopotâmia do império Otomano (Turco), seria igualmente dotada.
Com o fim da Grande Guerra e o colapso do império Otomano, a Grã-Bretanha
obteve mandato da Sociedade das Nações para administrar a Mesopotâmia, a
Península Arábica e a Palestina. Procurou talhar a província da Mesopotâmia
(actual Iraque) como um reino sob sua protecção; mas na Conferência de Paz de
Versailles, os primeiros-ministros da Grã-Bretanha e da França brigaram pela
partilha do petróleo da Mesopotâmia; estando a Alemanha e a Turquia
derrotadas, a França recebeu a parcela anteriormente detida pela Alemanha; e
os EUA, tendo exigido partilhar os despojos da guerra, receberam também uma
parcela. Após longas e intricadas negociações, a Companhia de Petróleo Turca
foi finalmente reestruturada em Companhia de Petróleo do Iraque (CPI) em
1928, com capitais da Shell (anglo-holandesa), BP (britânica), CFP (francesa,
actual Total-Fina-Elf) e da Exxon e Móbil (norte-americanas). As sinuosas
negociações que conduziram à constituição da CPI em 1928 desenvolveram‑se
em curioso paralelo com a luta pela independência do Iraque, desde as
insurreições árabes de 1920 até ao reconhecimento final pela Liga das Nações
em 1932. As primeiras eleições para o parlamento do reino coincidiram com a
primeira concessão de direitos de exploração de petróleo a um consórcio
internacional, no ano de 1925 [3]. Após a Segunda Guerra
Mundial, durante a qual o Iraque foi um importante ponto de aprovisionamento
e de apoio para as forças aliadas e a URSS, o nacionalismo árabe iria alterar
a influência do proteccionismo britânico que havia reinado na região. A monarquia
foi derrubada e um regime republicano instaurado em 1958; em 1963 o partido
Baath tomou o poder; e a Companhia de Petróleo do Iraque foi nacionalizada em
1972, nas vésperas da guerra de Yom Kippur. No decurso das primeiras
décadas do século XX a Pérsia, mantendo estatuto de estado independente,
atravessou muitas vicissitudes de organização política interna agravadas pela
intromissão e presença de forças militares estrangeiras. Subjacente, entre
outros factores, estava já a disputa pelos recursos petrolíferos do seu
território. De facto, a Pérsia foi, no Médio Oriente, um país pioneiro na
prospecção petrolífera onde, por iniciativa de um empresário britânico, a
produção veio a arrancar em 1908. Semanas antes do início da Primeira Guerra
Mundial, o governo britânico (a conselho de Winston Churchill) adquiriu a
maioria do capital da empresa e constituiu a Companhia Anglo-Persa de
Petróleos (mais tarde BP). O controle do país foi, por essa época, disputado
entre britânicos e russos. Em 1935, na sequência de um movimento militar, a
Pérsia tornou-se monarquia autoritária sob uma nova dinastia, com a
designação de Irão. Após a Segunda Guerra
Mundial, o primeiro-ministro nacionalista M. Mossadegh nacionalizou as
concessões exclusivas britânicas e fundou a National Iranian Oil Company
(1951). Esse foi um episódio histórico que viria a repercutir-se na
apropriação nacional dos recursos de hidrocarbonetos por países do mundo árabe
e na criação da OPEP (em 1960). Mossadegh foi na sequência deposto em 1953,
em resultado de uma conspiração anglo-americana, e a produção petrolífera
passou a ser partilhada por um consórcio anglo-americano. Contudo, na
sequência do embargo de 1973, em que o Irão não foi parte activa, as
condições políticas levaram a reverter para a NIOC o controle da produção
nacional e a renegociar a partilha da produção. O Irão ocupa um
posicionamento único na articulação do Médio Oriente com o Extremo Oriente, a
Ásia Central e o Oceano Índico. Por isso, o seu território está na
trajectória das mais interessantes e necessárias linhas de transporte e
escoamento de hidrocarbonetos (quer petróleo quer gás natural). E, a par da
Arábia Saudita, detém as maiores reservas mundiais de hidrocarbonetos (no seu
caso mais gás do que petróleo). Em 1932, ano da independência
do reino Saudita, a norte-americana Standard Oil Company (actual
Chevron-Texaco) descobriu petróleo no Bahrain, próximo da costa da Península
Arábica. No ano seguinte, adquiriu uma primeira concessão para prospecção na
Arábia Saudita. A Arabian American Oil Company (Aramco) foi constituída em
1944, com capital da Standard Oil e da Texaco (1936), a que mais tarde (1948)
se juntaram as também norte-americanas Exxon e a Mobil (estas violando o
Red-Line Agreement a que estavam obrigadas desde 1928 como partes do cartel
constituído pelos antigos accionistas da Turkish Petroleum Company/Iraq
Petroleum Company). A primeira descoberta substantiva da Aramco data de 1940;
o reservatório super-gigante de Ghawar (o maior do mundo, ainda em produção,
embora já em declínio) veio a ser plenamente reconhecido em 1948. A Arábia
Saudita é reconhecida como detentora das maiores reservas mundiais de
petróleo; de facto a par do Irão, contando o petróleo e o gás natural. As relações privilegiadas
entre a Arábia Saudita e os EUA não se limitam ao negócio do petróleo. O rei
Abdul Aziz ibn Saud e o presidente Franklin Roosevelt encontraram‑se
em 1945 e presume-se terem feito um acordo ainda hoje confidencial mas cujo
conteúdo é presumível. Mas a relação é necessariamente contraditória, no
interesse estrito da família real saudita e do governo e das petrolíferas
norte-americanas, mas em oposição aos interesses do povo saudita (em larga
proporção jovem e imigrante) e de outros países importadores e empresas
petrolíferas, e assume aspectos aparentemente inopinados. Em 1960 a Arábia
Saudita foi um dos fundadores da OPEP, um novo cartel constituído para
regular a cotação do petróleo e as quotas dos países exportadores; em 1973
alinhou no embargo que ditou o primeiro choque petrolífero; e em 1980 a
Aramco foi expropriada, passando a ser gerida sob a responsabilidade do
governo, ainda que mantendo relações comerciais privilegiadas com os
anteriores accionistas. Ao mesmo tempo, a Arábia Saudita é um importante
cliente da indústria de guerra norte-americana, é um importante investidor na
Wall Street e oferece facilidades logísticas aos EUA no seu território para
fins militares. O nacionalismo árabe, a par
dos movimentos de libertação nacional e anti‑colonialistas, conduziu à
progressiva nacionalização de recursos na região. É episódio memorável do
nacionalismo árabe a nacionalização do Canal do Suez, como significativa foi
a intervenção militar anglo-francesa (1956) procurando manter o seu controle.
Significativa, ainda, a intervenção diplomática dos EUA e da URSS que
desalojaram a Grã-Bretanha e a França do Egipto. Mas não obstante a luta do
nacionalismo árabe, o reordenamento do Médio Oriente esteve sempre sob a mira
e a acção, via diplomática e militar, das antigas potências coloniais, agora
dos EUA também, tendo em vista manter um quadro político frágil, instável e
susceptível de permanente intervenção e intromissão, directa ou indirecta. A
constituição do estado de Israel, para acolher o movimento Sionista (em 1947)
e de diversos estados feudais árabes como o Koweit (1961) e o Bahrain (em
1971), ilustram bem a estratégia de controle a longo prazo, sistematicamente
prosseguida pelo sistema capitalista mundial na região, sob a hegemonia da
Grã‑Bretanha, primeiro, dos EUA, depois. A Guerra do Golfo em 1990, a
invasão do Afeganistão em 2001 e a ocupação do Iraque em 2003 são “apenas”
manifestações mais violentas dessa intervenção geopolítica. RECORDANDO A SEGUNDA GUERRA
MUNDIAL O primeiro ataque nazi na
frente Leste foi a operação Barbarossa que, em 1941, levou os exércitos
alemães até à vizinhança de Moscovo e de Leninegrado, aí travados pela
inabalável resistência do povo soviético e do Exército Vermelho. Em Abril de
1942, a frente de combate alemã foi dirigida para o Sul. Nesse Verão, o
principal objectivo militar nazi era os campos petrolíferos do Cáucaso.
Procurando proteger esses campos petrolíferos, o Exército Vermelho foi
forçado a deslocar todas as suas reservas para o Sul. E a sua eventual
conquista pelo exército alemão superaria a sua carência crítica de
combustível, por um lado, e seria uma perda irremediável, a que o Exército
Vermelho não poderia sobreviver muito tempo. Um exército alemão avançou na
direcção de Baku, nas margens do mar Cáspio, e um outro para a cidade de
Estalinegrado, na margem do Volga, ponto-chave dos transportes e comunicações
no Sul da URSS e importante centro industrial. O controle de Estalinegrado
manteve aberto o corredor entre o Danúbio e o Volga e o caminho para o
Cáucaso e o Cáspio. Ambos os lados colocaram todas as suas forças nesse
desenlace crucial. A batalha tristemente memorável foi disputada casa a casa,
rua a rua; o exército soviético executou um movimento de envolvimento que
deixou o grosso do exército alemão sitiado, derrotado e finalmente rendido (2
Fevereiro 1943). A ofensiva nazi fora detida na frente Leste; as perdas
humanas e os recursos materiais aí dissipados, bem como o insucesso em
conquistar os desejados campos petrolíferos do Cáspio, repercutiram-se
determinantemente na capacidade futura de todo o exército alemão e
contribuíram decididamente para a derrota do nazi‑fascismo. ____________ [1] Commodities são mercadorias suficientemente homogéneas para poderem ser comercializadas em Bolsas de Mercadorias. São constituídas geralmente por produtos primários agrícolas (chá, café, açúcar, algodão, etc.), metais (cobre, estanho, etc.) e outros produtos minerais (petróleo, etc.). As principais Bolsas de Mercadorias são as de Londres e Nova York, que cotam as commodities tanto no imediato como no mercado a termo (futurs). A palavra commodity não tem tradução exacta em português pois a expressão “mercadoria” pode designar qualquer tipo de produto. [2] Duncan Campbell, Inside
Echelon: The history, structure und function of the global surveillance
system known as Echelon, 25/07/2000. [3] Ferruh Demirmen, Oil in
Iraq: The Byzantine Beginnings, Global Policy Forum, 25/04/2003. |