|
Informação Alternativa |
|
Mundo |
|
30/05/2002 Rui Namorado Rosa Observadores atentos dos
acontecimentos internacionais saberão, mas a larga maioria dos cidadãos
ignora, porque lhes é intencionalmente escondido, que existe uma “agenda
escondida” dos decisores políticos no plano da política internacional. Ainda
menos observadores atentos saberão que no topo dessa agenda está o acesso e o
controlo dos recursos energéticos mundiais. E que a actual fase de
agressividade brutal do imperialismo é movida também pelo reconhecimento (que
o público em geral ignora) de que a actual disponibilidade de energia está em
vias de extinção. Em vez de trabalhar por alternativas viáveis no interesse
da Humanidade, o saque aos recursos energéticos é o pretexto para as
intervenções diplomáticas cobertas e encobertas e para as intervenções
militares ”humanitárias” ou “anti-terroristas” por todo o mundo; no Golfo
Pérsico, na Ásia Central, na América Latina, em África; nos próprios EUA. O SAQUE A “globalização” é também
esse saque que está em curso. A essa luz, as agressões e as
ingerências acontecidas ou por acontecer no Iraque, no Irão, na Colômbia, na
Venezuela, etc., e a presença militar dos EUA, apoiados no Reino Unido, no
Golfo Pérsico, nos Balcãs, na bacia do Cáspio, no Golfo do México, etc., são
dramáticos mas meros episódios previstos nessa “agenda escondida”. A industrialização no decurso
do século XX está marcada pela ascensão do petróleo como a mais importante
fonte de energia primária, e dos seus derivados como os mais essenciais
combustíveis para os transportes e a produção termoeléctrica (as gasolinas, o
“diesel”, o “fuelóleo” e o “jetoil”) e essenciais matérias-primas para as
petroquímicas (as “naftas”, os BTX e vários produtos químicos). Porém, acumula-se a evidência
de que a capacidade de produção de petróleo “convencional” está a atingir os
seus limites. O petróleo convencional é aquele de que o mundo afluente se tem
alimentado desde o princípio do século XX e que na década de 60 ultrapassou o
carvão como principal fonte de energia. O petróleo convencional é de
extracção relativamente acessível e económica; no caso das jazidas gigantes
da Arábia Saudita a um preço da ordem de 1ou 2 dólar por barril. A fracção de
hidrocarbonetos líquidos que acompanha a extracção de gás natural, pode ser
contabilizada e adicionada á produção de petróleo convencional. Esta fonte de
hidrocarbonetos aumentará previsivelmente até cerca de 2050, em resultado de
a produção de gás natural exceder nesse período a de petróleo, mas em
quantidade que, atenuando o declínio da produção de petróleo convencional,
não adiará perceptivelmente o tempo de ocorrência do “pico” de produção de
hidrocarbonetos líquidos.
O PETRÓLEO NÃO CONVENCIONAL O petróleo não convencional —
isto é, o heavy oil (ou petróleo pesado), o petróleo polar, o petróleo
do deep ocean offshore (oceano profundo), as areias betuminosas e os xistos
asfálticos — é ou de qualidade inferior, sendo de extracção e refinação mais
dispendiosa (caso do petróleo pesado da bacia do Orinoco na Venezuela), ou de
elevado custo de extracção (custo não só económico mas energético também). O
petróleo polar implica impactos ambientais em zonas sensíveis e mesmo
protegidas, e também investimentos intensivos, sobretudo associados ao
transporte para os centros consumidores. O petróleo do oceano profundo
(extraído em laminas de água superiores a 500 metros) apresenta condições
geológicas complexas e ambientais rigorosas, mais elevado risco de
investimento e agravado custo de extracção. O aproveitamento das areias
betuminosas implica impactos ambientais pesados, custos económicos e
energéticos elevados, tais que as eventuais reservas produtíveis serão muito
inferiores aos recursos existentes na crusta. Situação mais problemática
ainda é a dos xistos betuminosos. Todavia a “propaganda” anestesiante procura
fazer passar a ideia de recursos fabulosos à superfície da Terra. Uma
fantasia, como oferecer a Lua. A referência cada vez mais frequente a esses
“novos” recursos de petróleo não convencional é ela mesma a mais clara
confissão de que o petróleo “barato”, o petróleo convencional, está a aproximar-se
dos seus limites. Os recursos de petróleo não
convencional são comparáveis aos de petróleo convencional; mas a fracção
convertível em reservas exploráveis ascende, com optimismo, a não mais que
20% desses recursos. E a custos técnicos, económicos e ambientais
substancialmente mais elevados, de todo não comparáveis aos custos do
petróleo do Golfo Pérsico... A somar a estes custos, o desenvolvimento de
tais reservas exigirá períodos de tempo dilatados. Mas investimentos pesados
a longo prazo é algo que não cabe no quadro da actual organização económica;
o que não exclui a possibilidade de um ou outro conglomerado petrolífero o
vir a fazer, na perspectiva de retorno à custa da extrema escassez futura.
Mas não haja dúvida, embora possa haver uma fronteira difusa entre petróleo
convencional e não convencional, acabado o primeiro, a economia do segundo
será substancialmente diferente, e o custo de energia será muito superior. A FLAT LAND É convicção corrente,
alimentada pela informação oriunda da maioria dos organismos oficiais e das
empresas petrolíferas, que a produção de petróleo poderia prosseguir
indefinidamente, como se o recurso natural fosse ilimitado, ou seja, como se
o planeta Terra fosse plano e não esférico e portanto finito. É a visão
conhecida por flat land. Essa visão idealista é
conforme à teoria económica dominante, segundo a qual os diversos factores de
produção seriam ilimitados e intermutáveis, como se não tivessem “qualidades”
distintas, e o mercado seria um regulador perfeito da actividade económica,
”oferecendo” automaticamente fluxos de matérias-primas, de força de trabalho
e de energia, em reposta inevitável ao aumento de “procura” e à subida dos
preços respectivos. Tal teoria económica pressupõe que haja uma Terra com
recursos ilimitados e com ilimitada capacidade de gerar fluxos desses
recursos; bem como um exército de desempregados e de técnicos já
qualificados, em todas as especialidades; num e noutro caso disponíveis no
imediato, como se o desenvolvimento de uma província petrolífera não levasse
cerca de uma década e a formação de especialistas num novo domínio cerca de
um lustro. Mas a longa experiência da
industria petrolífera prova que não é assim. A produção em cada província é
assegurada maioritariamente por um escasso número de jazidas gigantes, um
elevado número de pequenas jazidas fornecendo apenas um modesto complemento.
O nível de produção de cada província, uma vez todas as jazidas postas a
produzir, não mais poderá crescer significativamente e, pelo contrário,
entrará em declínio, a um ritmo que só a multiplicação do número de poços
consegue atenuar. O custo de extracção vai crescendo em função do volume de
produção acumulada em cada província petrolífera. O ritmo de descoberta de
novas jazidas de petróleo tem diminuído e as grandes jazidas vão escasseando.
À escala global, o ritmo de consumo já ultrapassou e vem excedendo, desde
1981, as descobertas de novas províncias petrolíferas. O pico das descobertas
à escala mundial ocorreu em 1964. Como o ritmo das descobertas deixou de
compensar o ritmo de consumo, o balanço é negativo, e as reservas restantes tem
diminuído persistentemente. O “crescimento de reservas”,
ou seja, a reavaliação em alta das reservas das províncias petrolífera já
conhecidas — em resultado conjugado do factor económico preço e do factor
técnico taxa de recuperação do petróleo in situ — tem decrescido
também, e será no futuro muito mais reduzido do que no passado. Depois de um
século de prospecção em todo o mundo, e de aperfeiçoamentos científicos e
tecnológicos na geofísica e na engenharia do petróleo, sabe-se hoje
virtualmente quase tudo sobre essa matéria, e particularmente sabe-se que
recursos existem e quais os seus limites. O maior obstáculo é, de facto, o
secretismo de que os resultados tem sido objecto por parte de empresas
petrolíferas, governos e organismos internacionais. Em suma, conjugando
informações de origens diversas, os especialistas estimam que, ainda na presente
década, ocorra o “pico” da produção mundial de petróleo. O MÁXIMO POSSÍVEL A região do Golfo Pérsico
detém a maior fracção das reservas restantes. A OPEP, que assegura
actualmente uma fracção superior a 30% da produção mundial, terá um peso
crescente nesse abastecimento e na formação do preço. A actual produção
mundial de cerca 75 milhões de barris/dia poderá ascender a um máximo de
cerca 80 milhões de barris/dia na presente década. A OPEP, só por si, poderá
elevar ainda a respectiva produção até 45 milhões de barris/dia até 2015, mas
já num contexto mais geral de exaustão ou declínio. Por isso o pico do
petróleo ocorrerá antes desta última data. Os EUA são o país com mais
longa e completa experiência na indústria petrolífera. No território dos 48
estados contíguos, as descobertas atingiram o seu máximo em 1930, de que
resultou uma produção que atingiu o apogeu em 1971. Desde então o declínio
tem sido inexorável. No Alaska foi entretanto
descoberta e desenvolvida uma província petrolífera em Prudhoe Bay. O
investimento necessário à sua exploração, incluindo o extenso oleoduto, foi
muito elevado e demorado, como é próprio de uma fonte considerada já não
convencional. E todavia a respectiva produção passou o seu máximo doze anos
depois, em 1989. Ora a produção nos EUA
atingiu o seu apogeu sem que fossem adoptadas políticas de desenvolvimento
sustentado no plano doméstico, o que ilustra como o mercado não oferece
solução para o desenvolvimento sustentado. O caminho prosseguido está à
vista: os EUA declararam como seu interesse vital o acesso às fontes de
energia mundiais. E estão a prosseguir essa política, agora sob a designação
de “guerra ao terrorismo”, nomeadamente estabelecendo alianças com regimes
corruptos, bases militares em regiões estratégicas para o domínio de
províncias petrolíferas e de oleodutos e, bem assim, desencadeado ameaças
militares e acções de guerra. Mais discreto é o apoio diplomático e o
financiamento invisível das empresas petrolíferas — o que frequentemente é
feito através do inesgotável financiamento para a Defesa Nacional, tal como é
já tradicional em relação às empresas dos sectores aeronáutico, automóvel,
nuclear, energético e químico-farmacêutico (consequentemente as mais
lucrativas e portanto mais poderosas). É um ciclo vicioso, em que o poder
económico influencia e domina o poder político e este apoia no plano
internacional e financia os consórcios económicos com recursos públicos. A RÚSSIA E O CÁSPIO A Rússia e a bacia do Cáspio
detêm cerca de 15% das reservas mundiais de petróleo convencional. Porém,
significativos recursos e reservas adicionais de petróleo polar na região
Árctica são expectáveis. A Rússia mais a bacia do Cáspio forneceram em 2001 cerca
de 11% da produção mundial de petróleo convencional. Essa produção poderá
aumentar ainda 50%, durante os próximos anos, podendo contribuir então com
cerca de 15% da produção mundial. Na Rússia, o sector económico
mais dinâmico na última década tem sido o energético, o qual tem gerado
acumulação de capital e suportado a constituição da oligarquia financeira
emergente. Este sector tem tripla importância para os EUA: é a estrutura
económica que na Rússia mais rapidamente se constitui como capitalista; por
outro lado, pode servir os “interesses vitais” dos EUA na segurança do
aprovisionamento energético; finalmente, pode servir o objectivo
geo-estratégico de controlar o aprovisionamento energético de outros grandes
países carentes de fontes de energia própria – designadamente a Índia e o
Japão, a China e outros países do Extremo Oriente. Estas razões tem levado os
EUA a estreitarem relações políticas com a Rússia. Por seu lado, a Rússia
terá interesse em desenvolver ao máximo as suas infra-estruturas energéticas
e manter relativo equilíbrio de relações comercias quer com a Europa, quer
com o Extremo Oriente, quer com os EUA, nesse sentido tendo programado o
prosseguimento do desenvolvimento das actuais províncias produtoras, novas
pesquisas na zona Ártica e, ainda, o reforço e alargamento da rede de
oleodutos para o ocidente, para a costa do Pacífico e para a RP China. A
actual “aproximação” da Rússia aos EUA é uma aliança para desenvolvimentos
tecnológicos e investimentos conjuntos no sector energético e para a
cooperação e partilha do comércio internacional de matérias-primas
energéticas; mas é também uma capitulação da soberania russa face ao império
financeiro global. Em breve a Rússia entrará na OMC. EUROPA OCIDENTAL Quanto à Europa Ocidental, a
província petrolífera do Mar do Norte já ultrapassou a sua produção máxima e
entrou em declínio. Essa província veio à luz em 1969, a taxa de descoberta
atingiu o seu máximo em 1974 e a taxa de produção o seu apogeu em 2000. Tendo
incrementado as reservas estimadas iniciais em 50% e atingido a taxa de
recuperação de 50%, mas não podendo já aumentar nem uma nem outra, o declínio
é inexorável. O progresso tecnológico faz maravilhas, mas ainda não faz
milagres. A Europa terá agora de importar uma crescente quota de petróleo num
mercado mundial incerto. Quanto ao gás natural do Mar
do Norte, ele assegura agora 50% do gás natural consumido na União Europeia.
Descoberto em 1965, atingiu o máximo de descoberta em 1979 a sua produção
espera-se atinja o apogeu em 2005, para entrar depois em declínio também. A
Europa depende já, e cada vez mais no futuro, do aprovisionamento de gás
natural proveniente do Norte de África e da Rússia. A Noruega dispõe ainda de
recursos adicionais de hidrocarbonetos no Árctico, particularmente gás, que
permitirá manter e mesmo acrescentar a sua capacidade produtiva, o que
atenuará mas não substituirá a pressão para as importações de fora da Europa
Ocidental. Especialistas oriundos de
vários países Europeus, EUA, Rússia e Irão, reunidos num encontro
internacional realizado em fins de Maio de 2002 na Universidade de Uppsala na
Suécia alertaram para a previsível ocorrência de sérios choques petrolíferos
na próxima década (ver http://www.isv.uu.se/iwood2002/welcome.html).
Prevê-se que a produção mundial de petróleo convencional iniciará então um
declínio irreversível que terá enorme repercussão em todo o mundo. À luz do conhecimento actual,
na base dos actuais dados relativos a reservas e a recursos, descobertos e
ainda previsivelmente por descobrir, a produção mundial deverá atingir o seu
ponto máximo por volta de 2010. A rede de instituições e especialistas
constituída nesse encontro internacional — ASPO (Association for the Study of
Peak Oil) — afirmou o propósito de proceder anualmente à actualização do
cenário da produção em conformidade com o apuramento dos resultados de
exploração e produção verificados. |