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22/04/2002 Rui Namorado Rosa A História, desde a antiguidade
até hoje, continua a ser objecto de Teatro. Também episódios e sucessos da
História da Ciência são por vezes temas de peças teatrais. The Physicist é uma peça de 1962 por F. Dürrenmatt em que o autor reúne três
físicos encerrados num asilo, supostamente doidos, personalizando o Rei
Salomão, Newton e Einstein, que argumentam preocupados sobre o uso que as
suas secretas descobertas nucleares poderiam ter se apropriadas por mãos
diabólicas. O tema era então de enorme actualidade; o seu tratamento
questionava intelectual e emocionalmente o público a propósito de graves
preocupações contemporâneas, sem o recurso a factos históricos, mantendo
óbvio distanciamento ficcional; a peça mereceu grande sucesso na época. Copenhagen é uma recente peça de Michael Fray (ed. Methuen 1998) que, de novo
abordando a génese das armas nucleares, dramatiza o encontro historicamente
real de Werner Heisenberg, admitido responsável do programa nuclear da
Alemanha nazi, com Niels Bohr, seu antigo mestre, na Dinamarca ocupada pelo
exército alemão, em 1941. Esse facto histórico, envolvendo dois dos mais
notáveis físicos do século XX, tem ao longo dos anos sido objecto de
especulação acerca dos motivos de ambas as partes e do que elas terão então
dito e escondido, especulação esta alimentada pela posterior atitude, ambígua
ou contraditória, de ambos os protagonistas acerca do sucedido então. O
distanciamento em relação ao facto histórico é obtido dramatizando o retorno
dos dois personagens do além túmulo para os colocar eles mesmos a discutir o
que acontecera nesse encontro. O essencial da peça é a
problematização da reconstrução histórica e o problema epistemológico de em
que medida cada um pode conhecer de facto as motivações de outrém e de si
próprio. O autor procurou uma situação ficcional mas ao mesmo tempo o maior
rigor histórico; o resultado é uma excelente peça, com enorme êxito desde a
sua estreia em Londres em 1997, tendo ainda o mérito de levar a um público
muito amplo a problematização da responsabilidade moral dos cientistas. O
impacto público da peça realimentou a especulação em torno desse encontro e
levou mesmo a família de Niels Bohr a decidir antecipar a divulgação de
cartas que este escrevera mas nunca enviara a Heisenberg — o que aconteceu em
Fevereiro deste ano de 2002. Todavia o debate, embora mais esclarecido,
continua provavelmente porque, para além dos factos históricos, estão agora
em jogo sobretudo questões filosóficas e morais. As relações da Ciência e da
Técnica com o poder político existiram desde sempre, e na esfera militar em
particular. O aperfeiçoamento da metalurgia do ferro na Anatólia há 3200
anos, permitiu o fabrico em massa de armas com que foram equipados os
primeiros grandes exércitos da antiguidade – Assírio e Persa – como recorda Heródoto
nas suas Histórias. O desenvolvimento de armas de fogo, de artilharia e para
a infantaria, após a introdução da pólvora na Europa no século XIV, permitiu
a expansão dos impérios coloniais e foi instrumental no declínio do poder
feudal. O recente livro Les
Apprentis Sorciers – Fritz Haber, Wernher von Braun, Edward Teller da
autoria de Michel Rival, Ed. du Seuil, 1996 (versão em português Aprendizes
de Feiticeiro, o armamento no século XX, Editorial Caminho,
2002), recorda e analisa o papel de três cientistas que protagonizaram
algumas das mais mortíferas inovações técnicas militares do último século: a
guerra química, a guerra balística e a guerra nuclear. É uma excelente obra
sobre a história da indústria armamentista no século XX. A partir dos
percursos individuais de Fritz Haber, Wernher von Braun e Edward Teller
analisa o contexto político, geo-estratégico e militar em que surgiram as
armas químicas, os mísseis e as armas nucleares. São casos excepcionais mas
paradigmáticos de cientistas que personalizaram a progressiva constituição do
complexo científico-militar-industrial, com uma obstinação de que estava
ausente a consciência moral, sob um discurso abstracto de justificação patriótica
e científica, vazio de valores humanos. Entre 1914 e 1915, Fritz
Haber, um químico alemão de nomeada, inventou os "gases de
combate", precursores das armas químicas que marcaram tragicamente a
Primeira Guerra Mundial; só em 1997 viria a ser assinada uma convenção
internacional para o seu banimento, cujo cumprimento está porém ainda longe
de ser cumprido. Em 1944, Wernher von Braun, então um jovem especialista
alemão de foguetões, inventou as «bombas voadoras» V-2, responsáveis por
milhares de vítimas em Londres e em Antuérpia durante a Segunda Guerra
Mundial; prosseguiu depois o seu percurso nos Estados Unidos da América como
um dos fundadores da indústria balística, indústria que tem produzido
sucessivas gerações de mísseis mortíferos utilizados nas Guerras do Golfo e
dos Balcãs, depois no Afeganistão e mesmo agora na Palestina, e que constitui
peça central da "guerra das estrelas". Em 1952, Edward Teller
revelou o enorme potencial destruidor da fusão termonuclear e inventou a
Bomba de Hidrogénio; após o que promoveu a constituição de um arsenal de tais
armas e defendeu a ideia do seu uso, contribuindo para a corrida aos
armamentos que caracterizou toda a "guerra fria" e que ainda hoje
continua a afligir a cena política internacional. Numa altura em que a
humanidade se confronta com novos conceitos de guerra e suas assustadoras
armas, Aprendizes de Feiticeiro expõe, de um modo acessível mas claro e bem
documentado, as ambições de cientistas e políticos que, ao serviço de
ciclópicos interesses económicos, foram assimiladas e corporizadas no
complexo militar-industrial para intensamente marcarem a história do
armamento e da política internacional ao longo do último século. Mas é
necessário registar também que a consciência social e o pacifismo têm sido
uma outra face da acção activamente exercida por muitos outros cientistas, a
título individual e de forma organizada. Logo após o fim da Segunda
Guerra Mundial, em Julho de 1946, foi constituída a Federação Mundial dos
Trabalhadores Científicos, com o propósito de estabelecer o diálogo
internacional para a prevalência da Paz. Alguns anos depois, em Julho de
1955, a declaração de Albert Einstein e Bertrand Russell sobre armas
nucleares abriu caminho à constituição do movimento Pugwash que anualmente realiza
conferências internacionais sobre as problemáticas dos armamentos e da Paz.
Joseph Rotblat, um dos seus fundadores e impulsionador de sempre, veio a ser
reconhecido com o prémio Nobel da Paz em 1995. Também o movimento internacional
de Médicos pela Prevenção da Guerra Nuclear,
recipiente do prémio Nobel de 1985, se tem batido persistentemente pela
abolição não só das armas nucleares, de efeitos catastróficos como em
Hiroshima e Nagazaki, como também de minas terrestre e de pequenas armas de
utilização corrente e indiscriminada que continuamente causam elevadíssimo
número de vítimas. As decisões sobre Ciência e
Técnica, que se repercutem não só na realização de progressos sociais mas
também no exercício da exploração e da guerra, não cabem só à capacidade
profissional e à consciência moral dos cientistas, cabem igualmente à sua
compreensão pelos demais cidadãos e à vigilância cívica de todos sobre o
poder político. Daí a importância da Escola. E também a importância de todas
as formas eficazes de levar ao povo o conhecimento da História e a percepção
e a reflexão sobre as questões sociais e morais que a Ciência coloca. Pelo
Teatro também, como a peça Copenhagen é um dos mais recentes e respeitáveis
exemplos. |