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Fevereiro 2008
Bancarrota em 2008? Ignacio
Ramonet Conseguirá o anúncio
feito pela Reserva Federal americana de uma importante redução das suas taxas
de juro evitar uma recessão nos Estados Unidos e afastar o espectro duma
bancarrota mundial? Muitos peritos crêem que sim, receando quando muito uma
redução do ritmo do crescimento. Mas outros analistas,
embora adeptos do capitalismo, mostram-se muito inquietos. Em França, por
exemplo, Jacques Attali profetiza que «em breve […] a Bolsa de Nova Iorque,
caução da pirâmide dos empréstimos, irá desmoronar-se». Michel Rocard
acrescenta mesmo: «A minha convicção é que isto irá em breve explodir» [1]. Convém dizer que os
sinais de desconfiança se estão a multiplicar. Mostra-o a actual “corrida
para o ouro”, voltando o metal amarelo – cujas cotações, em 2007, aumentaram
32 por cento! – a desempenhar o seu papel de valor refúgio. Todos os grandes
organismos económicos, entre os quais o Fundo Monetário Internacional (FMI) e
a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), prevêem uma
diminuição do crescimento mundial. Quase tudo começou em
2001 com o rebentamento da bolha Internet. Para proteger os investidores,
Alan Greenspan, nessa altura presidente da Reserva Federal americana, decidiu
orientar os investimentos para o sector imobiliário [2]. Através de uma
política de taxas muito baixas e de redução das despesas financeiras, levou
os intermediários financeiros e imobiliários a incitar uma clientela cada vez
maior a investir em imóveis. Foi assim estabelecido o sistema dos subprime, empréstimos hipotecários de risco e de taxa
variável concedidos às famílias mais frágeis [3]. Mas quando a Reserva
Federal, em 2005, aumentou a taxa de juro de referência (aquelas,
precisamente, que acabara de reduzir), com isso desregulou a máquina e
desencadeou um efeito dominó, fazendo vacilar o sistema bancário
internacional a partir de Agosto de 2007. A ameaça de insolvência
de quase três milhões de famílias, endividadas em cerca de 200 mil milhões de
euros, levou à falência importantes instituições de crédito. Para se
precaverem contra esse risco, estas tinham vendido uma parte dos seus
créditos duvidosos a outros bancos, os quais os cederam a fundos de
investimento especulativos, que, por sua vez, os disseminaram em bancos do
mundo inteiro. Resultado: qual epidemia fulminante, a crise atingiu o sistema
bancário como um todo. Importantes
instituições financeiras – Citigroup e Merrill Lynch, nos Estados Unidos,
Northern Rock, no Reino Unido, Swiss Re e UBS, na Suíça, Société Générale, em
França, etc. – acabaram por admitir que tiveram perdas colossais. Algumas
dessas instituições, para limitar o desastre, tiveram de aceitar capitais
provenientes de fundos soberanos controlados por potências do Sul e das
petromonarquias. Ainda ninguém sabe qual
é a dimensão exacta dos danos. Desde Agosto de 2007, os bancos centrais norte‑americano,
europeu, britânico, suíço e japonês injectaram na economia centenas de
milhares de milhões de euros sem conseguirem restaurar a confiança. Da economia financeira,
a crise propagou-se para a economia real. E uma conjunção de factores –
redução acelerada dos preços do imobiliário nos Estados Unidos (mas também no
Reino Unido, na Irlanda e em Espanha), esvaziamento da bolha de liquidez,
queda do dólar, restrição do crédito – fazem de facto temer um nítido recuo
do crescimento mundial. A isso vêm ainda juntar-se outros fenómenos, tais
como o aumento dos preços do petróleo, das matérias-primas e dos produtos
alimentares. Ou seja, os ingredientes de uma crise que está para durar [4]. A
mais importante desde que a globalização passou a constituir o quadro
estrutural da economia mundial. A saída desta crise
reside agora na capacidade que as economias asiáticas tenham para revezar o
motor norte‑americano. Nesse caso, isso será uma nova manifestação do
declínio do Ocidente, pressagiando a próxima deslocação do centro da
economia-mundo dos Estados Unidos para a China. E se assim for, a presente
crise irá assinalar o fim de um modelo”. _______ [1] Respectivamente, L’Express, Paris, 13 de Dezembro de 2007, e Le Nouvel
Observateur, Paris, 13 de Dezembro de 2007. [2] Cf. “Crises financières à répétition: quelles explications?
quelles réponses?”, Fondation Res Publica, Paris, 2008. [3] Cf. André-Jean Locussol-Mascardi, Krach 2007. La vague scélérate des “subprimes”, Le Manuscrit, Paris,
2007. [4] Frédéric Lordon, O mundo refém do poder financeiro, Le
Monde diplomatique, Setembro de 2007. |