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Novembro 2007
Voracidade Ignacio Ramonet Ao mesmo tempo que,
contra o horror económico, o discurso crítico – a que durante algum tempo se
chamou alterglobalista – se enreda e de repente se torna inaudível, vai-se
instalando um novo capitalismo, ainda mais brutal e conquistador: o de uma
nova categoria de fundos de rapina, as private equities, fundos de investimento rapaces, com apetites
desmesurados e detentores de capitais gigantescos [1]. Os nomes destes titãs –
The Carlyle Group, Kohlberg Kravis Roberts & Co (KKR), The Blackstone
Group, Colony Capital, Apollo Management, Starwood Capital Group, Texas
Pacific Group, Wendel, Eurazeo, etc. – continuam a ser pouco conhecidos do
grande público. E graças a esta discrição estão a apoderar-se da economia
mundial. Em quatro anos, de 2002 a 2006, o montante dos capitais obtidos por
estes fundos de investimento, que colectam o dinheiro dos bancos, dos
seguros, dos fundos de pensões, e os haveres de riquíssimos particulares,
passou de 94 mil milhões de euros para 358 mil milhões… O seu poder de fogo
financeiro é fenomenal, ultrapassando 1,1 biliões de euros. Nada lhes
resiste. O ano passado, nos Estados Unidos, as principais private
equities investiram cerca de 290 mil milhões
de euros na aquisição de empresas, e mais de 220 mil milhões só no primeiro
semestre de 2007, passando assim a controlar 8000 empresas… Actualmente, um
em cada quatro assalariados norte-americanos e quase um em cada doze
franceses trabalham já para estes mastodontes [2]. França tornou-se aliás,
depois do Reino Unido e dos Estados Unidos, o seu primeiro alvo. O ano
passado, em território francês, estes fundos apoderaram-se de 400 empresas
(por um montante de 10 mil milhões de euros) e já gerem ali mais de 1600.
Marcas muito conhecidas – Picard, Dim, os restaurantes Quick, Buffalo Grill,
Les Pages Jaunes, Allociné ou Afflelou – são agora controladas por private
equities, quase todas anglo‑saxónicas,
que já estão de olhos postos nos gigantes do índice CAC 40. O fenómeno destes
fundos rapaces surgiu há uns quinze anos, mas nos últimos tempos, estimulado
pelo crédito barato e graças à criação de instrumentos financeiros cada vez
mais sofisticados, tem vindo a adquirir uma amplitude preocupante. Porque o
princípio é simples: um clube de investidores afortunados decide adquirir
empresas, que depois gere de forma privada, longe da Bolsa e das suas regras
constrangedoras, e sem ter de prestar contas a accionistas minuciosos [3]. A
ideia consiste em contornar os próprios princípios da ética do capitalismo,
apostando apenas nas leis da selva. Concretamente, como
no-lo explicam dois especialistas, as coisas passam-se assim: «Para adquirir
uma sociedade que vale 100, o fundo aplica 30 do seu bolso (percentagem
média) e os restantes 70 pede‑os emprestados aos bancos, aproveitando
as muito baixas taxas de juro do momento. Durante três ou quatro anos
reorganiza a empresa com a direcção em funções, racionaliza a produção,
desenvolve actividades e capta a totalidade ou parte dos lucros para pagar os
juros… da sua própria dívida. Depois revende essa mesma empresa por 200, com
frequência a um outro fundo, que irá fazer a mesma coisa. Reembolsados os 70
obtidos a crédito, ficam com 130 no bolso, por um investimento inicial de 30,
obtendo assim mais de 300 por cento de taxa de retorno sobre o capital
investido em quatro anos. Haverá melhor?» [4] Ao mesmo tempo que
pessoalmente ganham fortunas demenciais, os dirigentes destes fundos praticam
doravante, sem sentimentalismos, os quatro grandes princípios da “racionalização”
de empresas: reduzir o emprego, comprimir os salários, aumentar os ritmos de
produção e deslocalizar. São nisso estimulados pelas autoridades públicas, as
quais, como em França hoje em dia, sonham “modernizar” o aparelho de
produção. E fazem‑no em detrimento e para desespero dos sindicatos,
que denunciam vigorosamente o pesadelo e o fim do contrato social. Havia quem
pensasse que com a globalização o capitalismo estaria por fim saciado. Vê‑se
porém agora que a sua voracidade não tem limites. Até quando? ______ [1] Frédéric Lordon, O mundo refém do poder financeiro, Le
Monde diplomatique, Setembro de 2007. [2] Sandrine Trouvelot e Philippe Eliakim, “Les fonds
d’investissement, nouveaux maîtres du capitalisme mondial”, Capital, Paris, Julho de 2007. [3] Philippe Boulet-Gercourt, “Le retour des rapaces”, Le Nouvel Observateur, Paris, 19 de Julho
de 2007. [4] Cf. Capital, op. cit. |