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23/05/2007
A batalha de Vigo Ignacio Ramonet Por ser um combate
muito emblemático desta era de globalização neoliberal, a grande batalha dos
operários de Vigo contra o trabalho precário e contra os abusos das
subcontratações foi seguida por milhões de assalariados de toda a Europa.
Levamos mais de 20 anos com uma queda a pique das condições de trabalho. Em
algum momento havia que parar. E ainda que alguns meios de comunicação tenham
apresentado uma “má imagem” dos grevistas – barricadas de contentores a arder,
cortes de tráfego, manifestações no centro da cidade, piquetes –, o que
impressionou foi a vontade dos manifestantes de não se deixar despojar dos
seus direitos. A greve de Vigo teve
uma forma original de organização: a assembleia pública em plena rua, aberta
a todo o cidadão que quisesse dar a sua opinião. Em cada dia, uns 10.000
trabalhadores reuniram-se. E é interessante notar que os operários de Vigo
desenvolveram um método semelhante ao dos jovens de França no seu movimento
da Primavera de 2006 contra o contrato de trabalho precário. Ali também as
Assembleias estavam abertas a todos os cidadãos. E ali também essas
Assembleias foram o pulmão do movimento. Em Vigo, o momento talvez mais tenso
produziu-se a 8 de Maio, quando a polícia atacou com grande violência os
milhares de operários que se dirigiam à estação de caminho‑de‑ferro.
Houve inúmeros feridos e 13 detidos. As forças da ordem tratavam de desviar os
operários para batalhas campais a fim
de lhes fazer perder a simpatia da opinião pública. Por isso, relativamente
às acusações sobre a “má imagem”, o representante do sindicato nacionalista
da CIG-Metal, Miguel Anxo Malvido, declarou que «os que dão má imagem são os
empresários incumpridores e burlistas». Os sindicatos denunciam
que 75% das empresas da Associação de Industriais Metalúrgicos da Galiza
(ASIME), uma organização patronal muito dura, não cumpre o convénio
colectivo. E a Inspecção de Trabalho constatou, além disso, que empregam imigrantes
sem contrato, e que são por sua vez subcontratadas pela maioria dos estaleiros.
O sector naval de Vigo é integrado por 10 estaleiros e, sobretudo, por 170
empresas subcontratadoras. A subcontratação significa que uma empresa
externaliza o fabrico de parte do seu produto final a outra. Segundo um
relatório do Conselho Superior de Câmaras de Comércio, a subcontratação
industrial envolve mais de 14% da produção industrial de Espanha. A
subcontratação surgiu com a globalização neoliberal que exige mais “competitividade”.
A globalização da economia mundial obriga a enfrentar cada dia novos
competidores e, para poupar custos, as empresas decidiram o desmembramento
das suas actividades. Está a impor-se a “fábrica difusa”, na qual tudo o que
não seja a actividade principal passa a ser realizado por empresas de
subcontratação. A empresa integrada que se conheceu na Galiza nos grandes
grupos industriais e nos estaleiros nos anos cinquenta desapareceu. Dantes,
os fabricantes faziam todas as peças, mas com o aumento da concorrência
mundial viram‑se forçados a baixar os preços e já não resulta benéfico
assumir todo o processo produtivo. Por isso, decompuseram a cadeia de produção.
Assim passaram a pressão para o subcontratista que poupa custos a expensas
dos trabalhadores. Na globalização é
possível conceber uma fábrica sem operários, já que estes trabalham para
empresas subcontratadoras, as quais por sua vez subcontratam em cascata, até ao
ponto em que o operário final não sabe para quem trabalha em concreto. Muitos
sindicatos tiveram que aceitar este processo com resignação, apesar dos
problemas que implica, pois os subcontratados rara vez têm as condições de
trabalho e de salário da grande empresa matriz. Por definição, as
empresas subcontratadas abusam do emprego precário, o qual constitui uma das
características do mercado de trabalho espanhol. 35% da população assalariada
tem um contrato precário. Espanha ostenta o triste privilégio de ser o
primeiro em emprego precário, dos 30 países da OCDE. No sector naval de Vigo,
até há dois anos, 90% do emprego era precário. Numa sociedade como a
galega, onde o trabalho e o emprego constituem um mecanismo básico de
distribuição da renda, de possibilidade de autonomia económica e de posição
social, o emprego precário coloca o cidadão numa posição de dependência, de
dificuldade de acesso aos recursos básicos, e com frequência de exclusão
social. Por isso, chega um momento em que há que saber dizer basta! |