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África |
Fevereiro 2007
Somália Ignacio Ramonet Os Estados Unidos, já
mobilizados no Afeganistão e no Iraque numa “guerra global contra o
terrorismo”, acabam de abrir na Somália uma terceira frente de combate [1].
Os seus recentes ataques aéreos neste país e o envio de vasos de guerra para
esta zona provam que na óptica de Washington – que em finais de 2001 já
estabelecera uma coligação antiterrorista no golfo de Aden – o Corno de
África faz doravante parte do teatro de operações contra a rede Al‑Qaeda. Em Junho de 2006, a
União dos Tribunais Islâmicos, financiada pelos comerciantes de Mogadíscio
fartos dos abusos dos senhores da guerra, rechaçou estes últimos e tomou a
capital, tendo os islamitas conseguido impor ordem num país onde havia quase
quinze anos imperava o caos. Os Estados Unidos,
depois de terem dado mostras de estreiteza na sua “luta contra o terrorismo”
apostando nos chefes de guerra, não aceitaram esta nova ordem, tanto mais que
os referidos Tribunais eram acusados de receber ajuda iraniana. O Pentágono,
por conseguinte, impeliu a Etiópia cristã, beneficiária desde 2002 dum
programa norte‑americano de assistência militar, a lançar uma
ofensiva, pondo à sua disposição meios de reconhecimento aéreo e de escuta
facultados por satélites. A campanha dos etíopes
foi fulgurante. Em oito dias, as regiões controladas pelos Tribunais
Islâmicos foram ocupadas, Mogadíscio foi ocupada em 28 de Setembro de 2006, e
encontram-se agora na Somália cerca de vinte mil soldados etíopes. O Grupo
Internacional de Contacto sobre a Somália, impulsionado pelos Estados Unidos
a partir de Junho de 2006, reuniu-se no início de Janeiro em Nairobi, no
Quénia, e apelou ao financiamento «urgente» de uma força de paz prevista pela
Organização das Nações Unidas (ONU). Para já, afora a Etiópia, só o Uganda
declarou claramente que enviará tropas. Washington anunciou a atribuição duma
assistência de 16 milhões de dólares ao presidente somali de transição, bem
como uma ajuda humanitária e uma segunda transferência de 24 milhões de
dólares, 14 milhões dos quais destinados a subsidiar a força de paz. A
administração Bush acusa os islamitas de protegerem dois terroristas – Fazul
Abdullah Mohammed e Ali Saleh Nabhane – implicados nos atentados de 1998 no
Quénia e na Tanzânia contra as embaixadas dos Estados Unidos, que causaram
224 mortos. Face a esta intervenção
na Somália, o número dois da Al‑Qaeda, Ayman Al‑Zawahiri,
apelou à resistência dos combatentes islamitas: «Exorto todos os muçulmanos a
responderem ao apelo da jihad na
Somália. [...] A verdadeira guerra vai começar com ataques contra as forças
etíopes de agressão. [...] Aconselho-vos as emboscadas, os engenhos
explosivos e as operações suicidas» [2]. Foi também recomendado a esses
combatentes que se inspirem nas guerrilhas do Afeganistão e do Iraque. Por
seu turno, Abdulrahim Ali Modei, porta-voz dos Tribunais Islâmicos, afirmou
que o seu movimento «não foi vencido» [3]. Os seus homens agruparam‑se
a sul do rio Juba, fronteiriço com o Quénia, região onde os etíopes e as
forças especiais norte‑americanas, com o apoio de aviões de combate
AC-130 estacionados em Djibuti, perseguem os islamitas. Tal como a conquista de
Cabul, em 2002, não resolveu o problema talibã, ou como a de Bagdade, em
2003, não resolveu o problema iraquiano, a conquista de Mogadíscio pelos
etíopes está longe de ter resolvido o problema somali. Este novo problema
ainda só começou. _______ [1] Ou uma quarta,
tendo em conta que em Agosto de 2006, durante a ofensiva israelita contra o
Hezbollah, o presidente Bush declarou o seguinte: «O Líbano é a terceira
frente da guerra mundial contra o terrorismo». [2] AFP, 6 de Janeiro
de 2007. [3] International
Herald Tribune, Neuilly-sur-Seine, 4 de Janeiro de 2007. |