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31/01/2007
A guerra e os jornalistas Ignacio
Ramonet Santiago Pedraz é um
nome que, a partir de agora, os jornalistas de todo o mundo deverão recordar.
É o de um juiz espanhol que teve a coragem de lançar, no passado dia 16 de Janeiro,
um mandato de detenção internacional contra três militares estadunidenses – Thomas
Gibson, Philip Wolford e Philip De Camp – que a 8 de Abril de 2003 mataram em
Bagdade com um disparo de tanque o camarógrafo galego José Couso que se
encontrava, juntamente com dezenas de correspondentes estrangeiros, no hotel
Palestina cobrindo a ocupação da capital iraquiana pelas forças
norte-americanas. A admirável família de
Couso não cessou de reclamar justiça. Após constatar que os factos não eram
investigados nem no Iraque nem nos Estados Unidos, e que até organizações
como Repórteres sem Fronteiras aceitavam a morte de José Couso como “consequência
normal de uma guerra”, os familiares do câmara morto apresentaram uma queixa perante
a Audiência Nacional, que decidiu arquivar o caso. Sem perder o alento, a
família recorreu então para o Tribunal Supremo. Este acabou por lhe dar razão,
e deliberou que a Audiência Nacional é competente para investigar os factos. O Supremo fundamentou a
sua decisão numa sentença ditada em Outubro de 2005 pelo Tribunal
Constitucional, que declarou que a Justiça espanhola tem competência para investigar
crimes contra a humanidade, e que o princípio de jurisdição universal
prevalece sobre a existência ou não de interesses nacionais. Nesse âmbito, o juiz
instrutor Santiago Pedraz lançou um mandato internacional de detenção e
solicitou a colaboração das autoridades estadunidenses para recolher declarações
dos três supostos assassinos. Mas o Departamento de Justiça dos Estados
Unidos negou-se a prestar essa colaboração sob o pretexto de que o Comando
Central do Exército norte-americano já investigou os factos e concluiu que o
comportamento dos tanquistas tinha sido uma «resposta justificada e
proporcionada» segundo as regras da guerra. Insatisfeito com
semelhante resposta, o magistrado Santiago Pedraz reclama a extradição dos
acusados para que possam ser julgados em Espanha. Não é a primeira vez
que militares norte-americanos matam um jornalista espanhol. Já o fizeram, com
maior insolência, se possível, em Dezembro de 1989, no âmbito de uma
intervenção militar, também ilegal, não autorizada pela ONU, no Panamá. Com o
propósito de derrocar o presidente Manuel Noriega, que, como Saddam Hussein,
tinha sido longo tempo aliado de Washington, abateram o fotógrafo do El
País, Juan Antonio Rodríguez. Também nessa ocasião
argumentaram que se tratava de uma “consequência normal da guerra”, quando
sabemos que as ordens dos militares estadunidenses eram que não houvesse
testemunhas não controladas, para assim poderem apresentar ao mundo uma
versão asséptica e parcial de uma intervenção militar que causou vários
milhares de mortos civis panamenhos. Existem provas fidedignas
de ataques directos contra órgãos de imprensa e jornalistas por parte das
forças armadas estadunidenses. Por exemplo, em Novembro de 2001, aviões
norte-americanos lançaram bombas de precisão contra os estúdios da Al Jazira
em Cabul, reduzindo-os a escombros. E voltaram a fazê‑lo em Abril de
2003 em Bagdade, provocando a morte do jornalista Tarik Ayyub. No Iraque, desde o
começo da guerra, a 20 de Março de 2003, morreram já 93 jornalistas e 37
assistentes (tradutores, condutores, guias). Vários profissionais da
informação, além de José Couso, foram abatidos por militares
norte-americanos. A agência Reuters, por exemplo, acusa o Pentágono de ser
responsável pela morte de pelo menos três dos seus jornalistas. A guerra não
deve ser um pretexto para silenciar a imprensa. Por isso a causa de José
Couso é a de todos os jornalistas. |