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Médio
Oriente |
Dezembro 2006
Labirinto palestiniano Ignacio
Ramonet Rumo ao abismo. Confusamente,
sentimos que os sofrimentos dos palestinianos, as solidariedades cada vez mais
audaciosas que esse tormento suscita no Médio Oriente e as violentas reacções
de defesa de Israel podem levar o mundo para o abismo. O confronto directo
entre duas populações, a israelita e a palestiniana, que com razão ou sem ela
mutuamente se temem, não pode continuar. Porque este medo “justifica”, por um
lado, uma escalada na repressão, e, por outro, o recurso à violência de
alguns grupos radicais. Em cada um dos campos,
confirmam-no as sondagens, a maioria dos cidadãos aspira à paz. Mas em cada
um deles aumentam também os ódios e os extremismos. Em ambos os lados se fala
doravante de “guerra até à morte” e de “destruição total”. No Verão passado, a não
derrota das milícias do Hezbollah libanês face às tropas israelitas e a não
vitória das forças norte-americanas no Iraque face aos insurrectos deram
novas esperanças a grupos palestinianos que voltam a crer nas possibilidades
duma “guerra popular prolongada”. Depois de terem capturado o cabo Gilad
Shalit, no passado dia 25 de junho (que ainda detêm), estes grupos
multiplicam os disparos de rockets
contra Sderot e Ashkelon. Em seis anos, foram mortas seis pessoas. Durante
esse mesmo período, a repressão nos Territórios Ocupados causou 4500 mortos. Mas a ameaça dos
rockets atiça o desejo de vingança entre certos israelitas. A facção dos “duros”
que está no poder, encorajada pela passividade internacional, parece ter
carta branca para punir sem limites as populações palestinianas. Desde há cinco meses,
mais de quatrocentas pessoas, metade das quais civis, foram abatidas pelas
forças israelitas, que já nada parece conseguir deter. Os militares nem
sequer hesitaram em abater, no dia 3 de Novembro, mulheres desarmadas em Beit
Hanun. A mesma cidade onde, cinco dias depois, vinte civis, entre os quais
várias crianças, foram mortos por obuses israelitas. Este crime – resultado
de um “incidente”, segundo as autoridades israelitas – emocionou as opiniões
públicas no mundo inteiro. E levou a Assembleia Geral das Nações Unidas, sob
o impulso da França, a adoptar (por 156 votos contra 7) uma resolução
reclamando o fim das operações militares israelitas em Gaza e a cessação de todos
os actos de violência. Estamos bem longe
disso. Recentemente, o governo de Ehud Olmert não hesitou em integrar – apesar
da corajosa demissão do ministro da Cultura, o trabalhista Ophir Pines-Paz –,
com o estatuto de vice-primeiro‑ministro e a responsabilidade da pasta
das “Ameaças Estratégicas”, Avigdor Lieberman, chefe do partido extremista
Israel Beytenu (Israel, Nosso Lar), cujos aderentes são sobretudo emigrantes
oriundos da ex‑União Soviética, frequentemente acusados de xenofobia. A integração de Avigdor
Lieberman num governo desorientado e tentado por um emprego desordenado da
força é um perigo para toda a região. Em primeiro lugar, para Israel e as
suas populações, coisa que não foi suficientemente sublinhada pelos grandes
órgãos de comunicação social europeus, habitualmente mais prontos a denunciar
a entrada de outros extremistas em governos da União. Mais lúcidos, alguns
jornais israelitas, como o diário Haaretz,
lançaram de imediato uma advertência: «Escolber o dirigente mais
irresponsável e menos moderado para ocupar as funções de ministro das Ameaças
Estratégicas é em si mesmo uma ameaça estratégica. A falta de moderação de
Avigdor Lieberman e as suas declarações intempestivas – só comparáveis às do
presidente do Irão – podem provocar um desastre em toda a região» [1]. O politólogo israelita
Zeev Sternhell, historiador do fascismo europeu, foi claríssimo: a seu ver, Lieberman
é talvez «o mais perigoso político da história de Israel», por representar
uma «mistura de nacionalismo, autoritarismo e mentalidade ditatorial» [2]. O contexto,
paradoxalmente, agrava este risco. A recente derrota eleitoral de George W.
Bush e a constatação do insucesso militar no Iraque poderão inflectir a
política dos Estados Unidos nesta zona do mundo. Parecem esboçar‑se
desde já alguns contactos com a Síria (apesar das acusações que pesam sobre
Damasco após o recente assassinato do ministro libanês Pierre Gemayel). E até
com Teerão, cuja ajuda pode revelar‑se decisiva se Washington quiser
sair-se bem na sua retirada do atoleiro iraquiano. Na Palestina, por fim, a
perspectiva dum governo de união nacional parece estar agora mais próxima. Nada disso convém, em
Israel, aos que – como Lieberman e seus adeptos – continuam a apostar no
afrontamento e na supremacia da força. Não é de excluir um gesto
irresponsável destes últimos. Eles sentem bem ter-se vindo a impor, na
diplomacia internacional, a seguinte evidência: não haverá paz nenhuma nesta
região enquanto os palestinianos não saírem do seu labirinto. ______ [1] Haaretz, Telavive, 24 de outubro de 2006. [2] The Scotsman, Edimburgo, 23 de Outubro de 2006. |