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Ásia e Pacífico |
Novembro 2006
O novo Japão Ignacio
Ramonet O Nordeste Asiático, muito
abalado pelo ensaio nuclear efectuado em 9 de Outubro pela Coreia do Norte,
ficou igualmente inquieto, uns dias antes, a 26 de Setembro, com a entrada em
funções no Japão de um novo primeiro‑ministro, Shinzo Abe. Oriundo,
como o seu antecessor Junichiro Koizumi, do Partido Liberal Democrata (PLD),
que desde 1955 domina a vida política no País do Sol Nascente, Shinzo Abe, de
52 anos, é o mais jovem primeiro-ministro nipónico desde 1945. Mas nem por
isso deixa de ser visto pela esquerda japonesa como um político ultraliberal,
extremamente conservador e nacionalista. Os seus adversários na região
classificam‑no mesmo como um “falcão”. Filho dum antigo
ministro dos Negócios Estrangeiros, Shinzo Abe faz parte duma grande dinastia
da direita japonesa, com um passado particularmente inquietante [1] de que
ele não se distanciou. Seu avô, Nobusuke Kishi, foi ministro no governo de
guerra do general Tojo, que lançou o ataque contra Pearl Harbor. Detido em
1945 e encarcerado como suspeito por crimes de guerra, Kishi acabou por não
ser julgado pelo Tribunal Militar de Tóquio (equivalente, no tocante aos
grandes criminosos de guerra japoneses, ao Tribunal de Nuremberga, onde foram
julgados os dirigentes nazis), porque os norte-americanos, com a Guerra Fria
já encetada, queriam reconstruir uma direita japonesa. Kishi foi portanto um
dos seus homens. Libertado em 1948 e nomeado duas vezes primeiro-ministro, em
1957 e 1958, assinou um novo tratado de segurança mútua com os Estados
Unidos. Um tio-avô de Shinzo
Abe, Yosuke Matsuoka, ministro dos Negócios Estrangeiros, defendeu o
expansionismo nipónico na Ásia, levando o Japão, em 1940, a aderir ao Eixo, a
aliança formada pela Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini. Também ele
acusado de crimes de guerra, morreu na prisão antes de ser julgado. Num país que não pediu
oficialmente perdão pelos crimes de guerra que cometeu, Shinzo Abe nunca
renegou verdadeiramente esse passado familiar. Pelo contrário, ao denunciar
os que têm uma visão «masoquista» da história do Japão, minimiza as
responsabilidades do seu país. Abe costumava ir regularmente ao santuário de
Yasukuni, onde são venerados os militares «que deram a vida pelo Japão»,
entre os quais catorze criminosos de guerra (e o seu tio-avô Yosuke
Matsuoka). O mesmo fazia Koizumi, coisa que levou Pequim e Seul, como se
recorda, a não mais o receberem, acusando-o de «revisionismo» e de «pretender
glorificar o passado militar do Japão». Oriundo do clã mais
direitista do PLD, Shinzo Abe edificou a sua carreira política clamando
contra a situação dos sobreviventes japoneses que haviam sido sequestrados,
no tempo de Kim Il-Sung, por agentes norte‑coreanos nas praias
nipónicas. Tornou-se popular reclamando cada vez mais firmeza e sanções
contra a Coreia do Norte, de resto com alguma demagogia (porque restaria
apenas um caso em litígio), e lisonjeando os sentimentos racistas
anticoreanos propalados por muitos media.
No passado dia 19 de Setembro voltou a exigir e conseguiu novas sanções
contra Pyongyang, após os ensaios balísticos norte-coreanos de 5 de Julho
[2]. E anunciou, com o pretexto da «ameaça norte-coreana», a sua intenção de
modificar, através dum referendo, o artigo 9º da Constituição pacifista [3],
para que as forças de autodefesa do Japão se transformem em verdadeiras forças
armadas, sem as limitações exigidas em 1945 pelos vencedores [4]. Essa
intenção é actualmente encorajada, em Washington, pelo círculo do presidente
George W. Bush, que deseja ter no Nordeste Asiático um aliado militarmente
poderoso para conter a China. Tudo isto faz temer um
rearmamento do Japão, que já dispõe do segundo mais importante orçamento
militar mundial, logo a seguir ao dos Estados Unidos, e poderá acelerar a
corrida aos armamentos já encetada numa das regiões mais perigosas do
planeta. Como a maioria dos japoneses continua a mostrar-se hostil a
semelhante perspectiva, Shinzo Abe teve aliás de precisar, no passado dia 10
de Outubro, que o seu país – protegido pelo guarda-chuva nuclear
norte-americano – não encarava a possibilidade de vir a apetrechar‑se
com armas nucleares [5]. Na prática, porém, Tóquio dispõe, pelo menos, de
43,8 toneladas de plutónio, produzidas pelos seus reactores civis, e poderá
fabricar um engenho nuclear em poucos meses... Foi sem dúvida para
assinalar a que ponto o novo primeiro‑ministro japonês constitui, a
seu ver, um perigo, que a Coreia do Norte procedeu ao seu condenável ensaio
nuclear, no próprio dia, 9 de Outubro, em que Shinzo Abe chegou a Seul, à
península coreana. Foi uma mensagem de advertência irresponsável, recebida
pelo mundo inteiro com inquietação, mas essa mensagem veio confirmar que as
tensões não deverão diminuir no Nordeste Asiático, a não ser que as teses
nacionalistas do novo primeiro-ministro japonês sejam objecto de uma
(improvável) modificação. _______ [1] Philippe Pons, “Shinzo Abe, ‘prince’ de la droite”, Le Monde, 21 de Setembro de 2006. [2] Ignacio Ramonet, Tensões na Coreia, Le Monde diplomatique, Outubro
de 2006. [3] Este artigo estipula
que o Japão «renuncia para sempre à guerra, abole as suas forças armadas e
compromete‑se a nunca mais as restabelecer». [4] Ichiyo Muto, Revise
the peace constitution, restore glory to empire!, Japonesia Review, n.º
1, Tóquio, Janeiro de 2006. [5] El País, Madrid, 11 de Outubro de 2006. |