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Ásia e Pacífico |
Outubro 2006
Tensões na Coreia Ignacio Ramonet Le Monde diplomatique; retirado de Le Monde diplomatique – edição portuguesa Apesar das repetidas
advertências feitas por Washington e Tóquio, as dissenções na península
coreana agravaram‑se bruscamente a 5 de Julho último, depois do
lançamento pela Coreia do Norte de sete mísseis. Estes disparos
experimentais, entre os quais se conta o do míssil Taepodong-2 – teoricamente
capaz de atingir o território dos Estados Unidos, mas que mergulhou no mar do
Japão, tal como os outros seis –, não transgridem as leis internacionais, mas
são condenáveis porque fragilizam a segurança no Nordeste Asiático, uma das
regiões potencialmente mais perigosas do mundo. No entanto, há um ano,
a 19 de Setembro de 2005, Pyongyang tinha-se comprometido a abandonar o seu
programa nuclear militar. Esta decisão, adoptada no quadro de negociações a
seis (China, Coreia do Norte, Coreia do Sul, Estados Unidos, Japão e Rússia),
tinha suscitado grandes esperanças, em particular na Coreia do Sul. Desde o restabelecimento
da democracia na década de 1990, Seul fez da melhoria das relações com o
vizinho do Norte uma prioridade. A visita a Pyongyang do presidente
sul-coreano de então, Kim Dae-Jung, e a assinatura, a 15 de Junho de 2000, de
uma declaração comum com o seu homólogo do Norte, Kim Jong‑Il,
constituíram uma viragem nas relações intercoreanas. As autoridades do Sul
apostam no diálogo e nas trocas – económicas, em particular –, e ainda no
desenvolvimento de interesses comuns, para reduzir as disparidades entre os
dois países, prevenir os conflitos e preparar uma eventual reunificação.
Desde essa altura, o montante das trocas comerciais chegou aos mil milhões de
dólares, tornando-se a Coreia do Sul, depois da China, o segundo parceiro
económico de Pyongyang. Foi criada uma zona económica especial a norte do
paralelo 38, em Kaesong, onde se implantaram empresas do Sul que devem
empregar uns 8000 assalariados do Norte. Assim, apesar dos obstáculos que
persistem, as duas partes trabalham para a reabertura da ligação ferroviária
Seul-Pyongyang, que desbloquearia a Coreia do Sul. A situação degradou-se
muito depressa depois do acordo de 19 de Setembro de 2005, quando, com o
pretexto de que um banco de Macau (China) – o Banco Delta Ásia – teria
branqueado dinheiro por conta da Coreia do Norte, o Tesouro americano adoptou
medidas financeiras contra Pyongyang. Nenhuma investigação internacional
demonstrou este facto. Intimidado por Washington, em Fevereiro último, o
Banco congelou 24 milhões de dólares de activos norte-coreanos. Foi então que
Pyongyang bateu com a porta às negociações a seis, reafirmou o direito a
possuir armas nucleares, e procedeu aos disparos experimentais do passado dia
5 de Julho, condenados pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações
Unidas (ONU), e nomeadamente pela China. Segundo a Coreia do
Norte, o governo dos Estados Unidos não procura uma solução diplomática,
antes perseguindo um único objectivo: a mudança de regime. Na Coreia do Sul,
uma parte das autoridades partilha este sentimento. Num encontro realizado
a 14 de Setembro último na sua residência de Seul, o antigo presidente Kim
Dae‑Jung, arquitecto da reconciliação com o Norte e Prémio Nobel da
Paz de 2000, condena os disparos de mísseis, mas pensa que Washington nada
faz para acalmar a situação: «Os neoconservadores americanos não querem a paz
nesta região», disse-nos. «São dogmáticos. Não defendem os interesses dos
Estados Unidos, como fazia o presidente [Bill] Clinton, que apoiava os nossos
esforços com vista a um diálogo pacífico, antes permanecendo obcecados por
uma ideologia: a das sanções, que nunca funcionou – nem contra Cuba, nem
contra o Iraque, nem contra o Afeganistão, nem contra o Irão. Pressionam
Tóquio para que também imponha sanções [1], o que agrava os desentendimentos
regionais. Estes, por seu lado, fornecem um pretexto à direita japonesa para
reclamar o rearmamento do Japão. O que aumenta a desconfiança da China. É uma
espiral muito perigosa.» O presidente
sul-coreano, Roh Moo-Hyun, não está longe de abraçar este ponto de vista.
Aquando da sua entrevista ao mais alto nível com o presidente George W. Bush,
que teve lugar em Washington a 15 de Setembro último, Roh Moo-Hyun, que tem
que tratar com deferência o seu grande aliado americano [2], defendeu
efectivamente os três dossiês em debate entre os dois países. Reiterou a
vontade de recuperar o comando militar, em tempo de guerra, das tropas
americanas (30.000 homens) estacionadas na Coreia; reclamou mais tempo para
negociar o (muito impopular) projecto de comércio livre com os Estados
Unidos; e recusou por fim aumentar as sanções contra a Coreia do Norte. Nesta matéria, Seul não
quer ceder às pressões de Washington e deseja conservar uma autonomia de
decisão. Como afirma Kim Dae-Jung: «Não queremos uma reunificação pela força,
como no Vietname, nem uma reunificação ruinosa, como na Alemanha. Que a
América nos deixe seguir o nosso próprio ritmo, lento e pacífico, rumo a uma
reunificação feliz.» ______ [1] A 19 de Setembro de
2006, Tóquio adoptou novas sanções financeiras contra Pyongyang, que de facto
congelam as transferências de dinheiro efectuadas pelos norte-coreanos do
Japão (cerca de trezentas mil pessoas). [2] Seul conta em
particular com Washington para apoiar a candidatura de Ban Ki-Moon, ministro
sul‑coreano dos Negócios Estrangeiros, para o cargo de
secretário-geral da ONU, cuja eleição terá lugar antes de 31 de Dezembro de
2006. |