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Mundo

15/10/2005

 

Diversidade cultural

 

Ignacio Ramonet

Radio Chango

 

Desde a segunda-feira passada e até manhã 20 de Outubro, no marco da 33ª Conferência geral da UNESCO, em Paris, está a levar-se a cabo uma batalha decisiva para o futuro das identidades culturais. Efectivamente, este organismo das Nações Unidas dispõe-se a adoptar uma “Convenção sobre a protecção e a promoção da diversidade das expressões culturais”.

 

O objectivo é de prolongar a “Declaração universal sobre a diversidade cultural” que se tinha adoptado em 2001 e convertê-la por fim num instrumento jurídico que tenha força de lei internacional.

 

Que importância tem tudo isto? Capital, já que se trata de dar a possibilidade às pequenas nações de proteger as suas indústrias culturais (literatura, cinema, teatro, música, canção, televisão, edição, poesia, folklore, etc.) e de excluí-las das leis gerais neoliberais que regem o comércio internacional. E isto há que o fazer agora, pois dentro de dois meses, em meados de Dezembro, será celebrada em Hong Kong a cimeira da OMC (Organização Mundial do Comércio) onde se vai adoptar o muito importante Acordo Geral sobre o Comércio dos Serviços (AGCS).

 

No conceito de “serviços”, a OMC e todos os neoliberais incluem a saúde, a educação e a cultura. Por isso, as grandes batalhas cívicas que se avizinham verão a mobilização dos cidadãos e dos trabalhadores desses sectores contra as tentativas de privatização integral dos serviços de saúde e do ensino.

 

No sector da cultura, a batalha começou faz tempo, e mediatizou-se bastante pelo envolvimento público de celebridades e estrelas do cinema, da televisão e das artes. Na Europa, desde 1993 quando terminou o que se chamou o “Ciclo de Uruguai” [Uruguai Round] – no marco do que ainda era o GATT (substituído em 1994 pela OMC) –, alguns estados, e em primeiro lugar a França, conseguiram introduzir, em benefício da cultura, cláusulas de excepção nos acordos de livre-câmbio. E exigiram poder conservar a possibilidade de recusar toda a obrigação de liberalizar os serviços audiovisuais e culturais.

 

Em princípio, amanhã será adoptada por maioria essa Convenção que protege e garante a diversidade cultural, já que já em Setembro passado 51 países, dos 58 que tem o Conselho executivo da UNESCO, recomendaram sua adopção. Ficará então resolvido o problema? De todo, porque alguns dos pesos pesados do organismo internacional como o Japão, o Reino Unido e sobretudo os Estados Unidos estão em total desacordo com essa Convenção.

 

E a polémica tem cariz de se converter numa crise internacional. A própria Secretária de Estado norte­‑americana, Condoleezza Rica, que não duvidou em deslocar-se a Paris estes dias, advertiu contra a adopção da Convenção sobre a diversidade cultural. O seu país é o primeiro exportador mundial de produtos e de serviços culturais, e portanto o que mas se veria afectado por uma medida proteccionista neste sector.

 

Numa mensagem enviada no dia 4 de Outubro passado aos países membros da UNESCO, Condoleezza Rice expressou a sua «profunda inquietude» de que, segundo ela, «possa levar ao fracasso os progressos para uma liberalização mundial do comércio no seio da OMC». Insiste em que, sob o pretexto da excepção cultural, alguns países autoritários poderiam violar a liberdade de expressão e os direitos das minorias. E termina a sua mensagem com uma ameaça, recordando que o seu país tinha abandonado a UNESCO nos anos 1980 por causa já de um desacordo deste mesmo tipo, e que poderia voltar a fazê-lo...

 

A batalha pela defesa da diversidade cultural está longe de ter terminado. E cada cidadão deve estar consciente de que o que está em jogo é nada menos que a sua própria identidade cultural.