Informação Alternativa

União Europeia

Fevereiro 2006

 

Que Espanha?

 

Ignacio Ramonet

Le Monde diplomatique

 

O debate sobre o novo estatuto de autonomia da Catalunha [1] atingiu em Espanha um preocupante grau de intensidade, na sequência da declaração do general José Mena Aguado feita em Sevilha a 6 de Janeiro de 2006. Afirmou o general: «É nosso dever alertar para as graves consequências que a aprovação, nos termos da actual redacção, do estatuto da Catalunha poderá provocar no interior das Forças Armadas, enquanto instituição, bem como em todo o seu pessoal». Acrescentou ainda que, na sua perspectiva, o artigo 8 da Constituição confia às Forças Armadas a missão de se oporem ao desmembramento da Espanha [2].

 

Esta intervenção de um oficial de alta patente num já tenso debate político trouxe aos democratas desagradáveis recordações, pois teve lugar num ambiente perturbador. Com efeito, acaba de se comemorar, a 20 de Novembro, os trinta anos da morte do general Franco; em breve será assinalado 25º aniversário da tentativa de golpe de Estado do coronel Tejero, ocorrida a 23 de Fevereiro de 1981; e dentro de alguns meses será a vez do 70º aniversário da sublevação de 18 de Julho de 1936 contra a República, que mergulhou o país numa guerra civil. A Espanha pensava ter acabado com a tradição do pronunciamento militar, que caracterizou a vida política do país ao longo de todo o século XIX e durante uma parte do século XX, até 1978, data em que foi adoptada a Constituição actual.

 

Os tempos mudaram, a democracia enraizou-se, e é doravante impensável que um punhado de militares cheguem sequer a ameaçá-la. A declaração do general Mena mostra simplesmente a subsistência de um resíduo de tradição intervencionista num pequeno número de oficiais. Esta tradição foi fortemente avivada nos últimos meses pela campanha de hostilidade conduzido pelo Partido Popular (PP, direita) contra o governo de José Luis Rodríguez Zapatero. Com efeito, Zapatero assumiu várias iniciativas que suscitaram a ira da Espanha mais conservadora.

 

Começou desde logo com a sua decisão – adoptada a seguir a ser eleito em Março de 2004 – de retirar as tropas do Iraque, país para onde tinham sido imprudentemente enviadas, contra a opinião de 80 por cento dos espanhóis, pelo antigo presidente do governo, José María Aznar. Outras medidas foram ainda mais controversas, particularmente a de restituir à Catalunha arquivos pilhados pelos exércitos de Franco em 1938 e armazenados em Salamanca. A comunicação social controlada pela direita bombardeou durante semanas a opinião pública com notícias alarmistas sobre o “perigo” que esta restituição representaria para Espanha... O PP não hesitou em convocar imensas manifestações contra tal “espoliação”.

 

Depois foi a legalização do casamento homossexual. Aceite pela maioria dos espanhóis, esta medida provocou nos sectores mais retrógrados um brado de protesto próprio de outros tempos. A Igreja católica chegou ao ponto de ameaçar com a excomunhão os autarcas que celebrassem tais casamentos.

 

Surgiu por fim a questão do novo estatuto da Catalunha. Tal como o País Basco e a Galiza, este território possui a sua própria língua e uma cultura singular. Constituíra-se já desde 1932 como «região autónoma no interior do Estado espanhol», tendo recuperado a autonomia em 1979, quando foram criadas dezassete “comunidades autónomas” em Espanha. Em virtude de um estatuto reconhecido pela Constituição, o governo catalão – a Generalitat – pôde dotar-se de uma polícia autónoma, tendo-lhe sido conferidas competências nas áreas da educação, saúde, segurança social, política cultural e linguística, e ordenamento do território.

 

Passaram quase trinta anos. Desde Novembro de 2003, a Catalunha é governada – pela primeira vez desde o fim do franquismo – por uma coligação de esquerda (socialistas, nacionalistas de esquerda e Verdes) que prometeu adoptar um novo estatuto. Este não anuncia qualquer “separação” com Espanha, antes se inscrevendo numa tradição “federalizante” e reclamando o carácter de “nação” para a Catalunha. Em Setembro de 2005, o estatuto foi aprovado por 90 por cento dos deputados catalães, encontrando­‑se em discussão no Parlamento de Madrid.

 

A direita e a Igreja mobilizaram para o ataque todos os seus órgãos de comunicação social, ainda muito influentes, e a partir deles carregaram com violência. Para excitar os espíritos e amedrontar os corações. O primeiro resultado está à vista: ruído de botas nas casernas. Ainda assim, após a introdução de algumas modificações que o colocam em conformidade com a Constituição, e na sequência do acordo a que chegaram, a 21 de Janeiro, o primeiro­‑ministro e o líder do partido nacionalista catalão (CIU), o novo estatuto da Catalunha deverá ser adoptado.

 

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[1] Ler o suplemento “Catalogne”, Le Monde diplomatique, Janeiro de 2006, em particular o artigo de Antoni Segura Mas, “Entre autonomie et nation”.

[2] Ler o texto integral (em espanhol) no sítio de El Mundo.