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Mundo

31/12/2005

 

As catástrofes naturais somam-se ao medo à Al Qaeda

 

Ignacio Ramonet

El Periódico de Catalunya; traducido de Rodelu

 

As preocupações principais, neste ano que começa, continuarão a ser sobretudo geopolíticas. Mas haverá que manter a atenção a outros parâmetros que determinam o equilíbrio ecológico do mundo. Como a mudança climática. Pois se esta continuasse a acentuar­‑se, poderia causar novas catástrofes naturais de grande envergadura (ciclones, inundações, secas, calores excessivos, desertificação), cuja amplitude acarretaria incalculáveis consequências (guerras pela água, deslocamentos massivos de populações, etc.). Outro factor latente a ter em conta, que modificaria o tabuleiro das previsões, é a propagação da gripe aviar, qualificada pela Organização Mundial da Saúde de «ameaça muito séria». Se o vírus H5N1 passa a ser transmissível à espécie humana, estender­‑se­‑á muito rapidamente a toda a Terra, sem vacina nem remédio eficaz.

 

NOVAS PESTES

 

Produzir­‑se­‑ia, pela primeira vez na era contemporânea, o que outras épocas padeceram ao serem golpeadas por pestes desconhecidas. Os sistemas hospitalares entrariam em colapso, as fronteiras seriam fechadas, os deslocamentos seriam paralisados e muitas economias seriam derrubadas. Alguns especialistas vaticinam que causaria uns 100 milhões de mortos... Essa perspectiva apocalíptica não constitui nenhuma fatalidade, nem há, afortunadamente, nenhuma certeza de que se vá produzir. Mas os governos seriam irresponsáveis se não tivessem em conta esse factor de risco.

 

Aparte disso, duas áreas geopolíticas apresentam, em 2006, um interesse singular: o Médio Oriente e a América Latina. A primeira zona continua a ser a mais incandescente do planeta, e a ela haverá que continuar a consagrar a maior atenção. Essa região está situada no coração do actual foco perturbador do mundo, que coincide com o perímetro da zona árabe­‑muçulmana. Nesta área concentram­‑se hoje os principais conflitos armados: Caxemira, Afeganistão, Chechénia, Iraque, Palestina, Darfur... Aqui se encontra também a fonte principal do terrorismo contemporâneo. Em particular, o praticado pela rede Al Qaeda, e que, em 2006 – tal como o fez em 2004 em Madrid e em 2005 em Londres –, poderia golpear outra cidade europeia (Roma, Amsterdão?) ou de novo os Estados Unidos .

 

OBJECTIVOS TERRORISTAS

 

Não se pode descartar também que os independentistas chechenos cometam novos atentados no Cáucaso, em Moscovo ou, com mais probabilidade, em São Petersburgo, onde em Junho próximo se reunirão os países do G­‑8 sob a presidência de Vladimir Putin (os atentados de Londres, em Julho de 2005, coincidiram com a cimeira do G­‑8 na Grã-Bretanha).

 

No Médio Oriente haverá que seguir de perto a evolução de três países: Iraque, Irão e Israel. No Iraque, os Estados Unidos poderiam conhecer este ano o fracasso militar e estratégico mais estrondoso desde a sua derrota no Vietname em 1975. A insurreição tomou tal cariz que já é impossível imaginar que possa ser vencida em 2006. Muitos oficiais admitem que essa guerra está perdida e o mais urgente agora é sair do atoleiro.

 

Os britânicos já anunciaram que se vão embora. E, em Washington, os próprios falcões começam a aceitar a ideia de retirar tropas. A opinião pública modificou o seu ponto de vista e já não apoia a guerra. Ao invés, o conflito está a tornar­‑se cada vez mais impopular. E arrasta o presidente Bush. Muitos membros do Congresso exigem que se lhe ponha fim. Tanto mais quando, em Novembro do 2006, terão lugar as eleições legislativas de meio mandato, e muitos temem que a situação no Iraque lhes custe a cadeira.

 

O mais provável é que os 20.000 reservistas que já efectuaram os seus 24 meses de serviço não serão substituídos em 2006 por tropas profissionais. A não ser que se desloquem as forças presentes no Afeganistão. Mas, nesse caso, os talibã voltariam a ocupar o terreno. Retirar do Iraque não será nada fácil. Nem sequer terminar o julgamento a Saddam Hussein. Os grupos de insurrectos não dão trégua. E o novo Exército iraquiano, além de corrupto, não estará ainda operacional em 2006. Agravar­‑se­‑á, por outro lado, o perigo de uma partição do Iraque em três entidades: curda, sunita e xiita.

 

A AMEAÇA IRANIANA

 

Esta situação favorece o Irão, pois enquanto os Estados Unidos continuarem empanados no lodaçal iraquiano não poderão empreender nada sério contra o Irão. Em Outubro de 2006, a central nuclear de Bushehr, construída com a colaboração da Rússia, entrará em serviço e será ligada à rede eléctrica iraniana. Será bombardeada antes pela força aérea estadunidense ou pela do seu aliado israelense?

 

A tentação é grande, mas Washington meditará muito antes de tomar tal decisão. Não só pela crise que esse bombardeamento provocaria com a Rússia, mas porque a capacidade de represálias de Teerão não é pouca. Em particular no próprio cenário iraquiano, onde é muito alta a influência do Irão sobre a maioria xiita, que poderia somar-se em massa à insurreição sunita e precipitar o desastre militar norte­‑americano.

 

Em Israel, tudo se jogará nas eleições do dia 28 de Março próximo, nas quais se enfrentarão, pela primeira vez, as três forças políticas principais: o Likud, de direita; os trabalhistas social-democratas dirigidos agora pelo líder sindicalista Amir Peretz, e, sobretudo, o novo partido Kadima de Ariel Sharon, que com toda a probabilidade ganhará. Israel não voltará a ser o mesmo depois deste traumatismo político. E deverá então, embora se possam recear atentados, encarar o seu maior repto: conseguir a paz definitiva reconhecendo a soberania de um Estado palestino viável.

 

Isto não só resulta necessário para o futuro dos cidadãos israelitas e palestinianos, fartos de guerras que duram há mais de meio século, mas tornou­‑se indispensável para o próprio presidente Bush. Este precisa que os regimes árabes e muçulmanos (e, entre eles, os seus aliados Paquistão, Arábia Saudita e Egipto) o ajudem enviando tropas para o Iraque à medida que se retiram as forças estadunidenses. Mas tanto Islamabad como Riad e O Cairo exigem que se acabe primeiro com o conflito israelo-palestino.

 

Também haverá eleições em vários países da América latina. As principais no México (Julho) e Brasil (Novembro), por serem estes os gigantes demográficos e económicos da zona. No México, Vicente Fox não cumpriu as esperanças que alguns depositaram nele: termina o seu mandato desprestigiado. Tudo se jogará entre dois candidatos: Roberto Madrazo, do Partido Revolucionário Institucional (PRI), e Manuel López Obrador, do Partido da Revolução Democrática (PRD). Este último é o favorito. A sua vitória confirmaria a viragem à esquerda do subcontinente, ilustrado pela brilhante vitória, na Bolívia, de Evo Morales, que entrará em funções a 22 de Janeiro.

 

No Brasil, apesar dos graves escândalos de corrupção, o presidente Lula, do Partido dos Trabalhadores (PT), deverá ganhar de novo. Enquanto, na Venezuela (Dezembro), impulsionado pelo seu programa de grandes reformas sociais, o presidente Hugo Chávez também deverá ganhar com folga.

 

A BATALHA DA ONU

 

No resto do mundo, claro está, haverá que seguir com atenção outros acontecimentos: por exemplo, as eleições legislativas de Abril próximo em Itália, que poderiam ver a vitória de Romano Prodi. Ou no Japão, onde a pergunta dominante será: retirar­‑se­‑á Koizumi em Setembro como o prometeu? (A resposta mais provável é que não). Quem se retirará da ONU, ao fim de dois mandatos, será o actual secretário geral, Kofi Annan, e, a partir de Setembro próximo, haverá que lhe encontrar um substituto. Essa será a grande batalha diplomática do ano.

 

Ainda que para quase 2.000 milhões de pessoas, a batalha principal de 2006 terá lugar na Alemanha, entre 9 de Junho e 9 de Julho, onde se joga o Campeonato do Mundo de Futebol e cuja final mais provável, uma vez mais, verá o confronto entre a equipa de casa e o eterno e sumptuoso Brasil.