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28/12/2005 Ignacio Ramonet Foi o melhor presente imaginável para este período de
festas de fim de ano. A vitória eleitoral de Evo Morales na Bolívia, a 18 de
Dezembro passado, confirma a viragem à esquerda do eleitorado latino‑americano,
e as novas e legítimas ambições dos povos indígenas dos Andes. Numa crónica precedente – de 18 de Fevereiro do 2004 –, intitulada
Evo Morales, já falei deste dirigente de excepção, sindicalista
camponês de origem aymara e líder do Movimento ao Socialismo (MAS), a quem
conheço desde há anos. O importante não foi a sua vitória, prognosticada por
todos os observadores, até os mais hostis, mas que tenha sido por maioria
absoluta (54,1%) e na primeira volta. Isto nunca se tinha produzido na
Bolívia democrática moderna. E esse tipo de vitória era o que mais precisava Evo
Morales. Porque significa que o seu programa de governo conta com o apoio da
maioria dos cidadãos. E isso confere‑lhe uma inquestionável
legitimidade política. Disse-se da Bolívia que é «um mendigo sentado num trono de
ouro», para sublinhar a incrível diferença entre a fabulosa riqueza do país e
a miséria da maioria dos seus habitantes. Encravado no coração da América do
Sul e desprovido de acesso ao oceano Pacífico, por causa de uma azarada
guerra contra o Chile no final do século XIX, este país possui uns dos
subsolos mais ricos do mundo. Em épocas sucessivas, o ouro, a prata, o
estanho trouxeram às elites crioulas fortunas descomunais, enquanto a população
humilde e trabalhadora – na sua grande maioria indígena – continuava a viver
em condições infra‑humanas. Esta situação de violenta injustiça social, numa atmosfera
de racismo e de discriminação étnica, provocou frequentes sublevações. Até
uma importante revolução em 1952. E, em reacção, ferozes e brutais
repressões. Por algum motivo a Bolívia é o país que mais golpes de Estado
militares, sempre apoiados por Washington, padeceu no mundo. Por tudo isso
também foi escolhido por Ernesto Che Guevara em 1967 para implantar uma
guerrilha libertadora. Depois dos ciclos da prata e do estanho, hoje esgotados, a
nova riqueza da Bolívia são os hidrocarbonetos, descobertos em época recente.
E a grande preocupação dos cidadãos é que, uma vez mais, esta riqueza só a
repartam as elites já ricas, em detrimento do conjunto da população pobre. Por isso nestes últimos anos houve tantas e tão radicais
mobilizações populares. Que conseguiram derrocar dois presidentes, Sánchez de
Losada e Carlos Mesa. E por isso o programa de Evo Morales, aprovado agora
pela cidadania, é tão preciso sobre esta questão: nacionalização dos
hidrocarbonetos e denúncia dos contratos «ilegais e anticonstitucionais»
assinados por precedentes governos com empresas multinacionais estrangeiras.
Ainda que, precisa o novo presidente: «Sem reexpropriação nem confiscação». O
projecto é utilizar o gás para favorecer por fim o arranque industrial do
país, criar emprego e acabar com o subdesenvolvimento. Os três temas principais na agenda do novo mandatário são:
votar uma nova Constituição que dará maior governabilidade ao país, pôr a
riqueza dos hidrocarbonetos ao serviço da população (como está a fazer a Venezuela)
e reequacionar a estruturação territorial para dissuadir a tentação secessionista
da província de Santa‑Cruz. E, claro está, pensar em se proteger de Washington, onde
esta vitória assentou como um tiro. |