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Junho 2002 Ignacio Ramonet Voltemos ao golpe de Estado de 11 de Abril, na Venezuela, contra
o presidente Hugo Chávez [1]. Este foi rapidamente reconduzido às suas
funções, mas as lições deste golpe singular – exemplarmente didácticas –
estão longe de terem sido tiradas. Elas parecem indispensáveis para tentar
evitar o novo levantamento militar que se prenuncia em Caracas... O que espanta, antes de mais, é a quase total ausência de
emoção internacional diante do crime cometido contra um governo que conduz,
em absoluto respeito pelas liberdades, um programa moderado de transformações
sociais e encarna a única experiência de socialismo democrático na América
Latina. É aflitivo, portanto, constatar que os partidos
social-democratas europeus, entre os quais o Partido Socialista francês,
ficaram em silêncio durante o breve esmagamento das liberdades na Venezuela.
E que alguns dos seus dirigentes históricos, como Felipe González, tiveram
mesmo a indecência de justificar o golpe [2], não hesitando em se associar à
euforia que foi manifestada pelo Fundo Monetário Internacional, pelo
presidente dos Estados Unidos e pelo primeiro-ministro espanhol, José Maria
Aznar, presidente em exercício da União Europeia... Na América Latina, a última deposição de um presidente
pelo exército datava de Setembro de 1991, quando, no Haiti, Jean-Bertrand
Aristide foi derrubado. Com o fim da guerra fria, acreditava-se que
Washington teria posto fim ao espírito da “Operação Condor” [3], que, durante
as décadas de 1970 e 1980, em nome do anticomunismo, favoreceu a implantação
de ditaduras na América do Sul. Pensava-se que qualquer conspiração contra
regimes saídos de eleições livres seria condenada. Depois do 11 de Setembro de 2001, o espírito guerreiro que
sopra sobre Washington parece ter varrido esses escrúpulos [4]. Doravante,
como disse o presidente George W. Bush, «quem não está connosco, está com os
terroristas». E Hugo Chávez era, indiscutivelmente, demasiado independente.
Não tinha ele reactivado a OPEP, esse cartel dos [países] exportadores de
petróleo, pesadelo de Washington? Não se tinha ele encontrado com Saddam
Hussein? Não se tinha ele deslocado ao Irão e à Líbia? Não tinha ele
estabelecido relações normais com Cuba? Não se tinha ele recusado a apoiar o
Plano Colômbia contra as guerrilhas? Tinha‑se tornado num homem a abater. Mas Washington
não podia fazê‑lo recorrendo aos meios sangrentos de antigamente.
Aqueles empregados, por exemplo, em 1954 na Guatemala, em 1965 em São
Domingos ou em 1973 no Chile. Encarregado deste processo, Otto Reich,
subsecretário de Estado para Assuntos Interamericanos, observou que no
decurso da última década, embora não tivessem ocorrido golpes de Estado, seis
presidentes latino-americanos democraticamente eleitos haviam sido depostos –
o último deles foi De la Rua, na Argentina. Não pelo exército, mas pelo povo. Tal seria, pois, o modelo a adoptar para derrubar Chávez.
Em primeiro lugar, uma coligação de ricos – reunindo a Igreja Católica
(representada sobretudo pela Opus Dei), a oligarquia financeira, o
empresariado, a burguesia branca e uma central sindical corrupta – foi rebaptizada
de “sociedade civil”. Em seguida, os proprietários dos grandes meios de
comunicação estabeleceram entre si um pacto mafioso e comprometeram‑se
a apoiar as campanhas que cada um lançará contra o presidente em nome da
defesa da “sociedade civil”... Não recuando diante de nenhuma mentira, os meios de
comunicação vão atiçar a opinião pública matraqueando uma ideia fixa: «Chávez
é um ditador», não hesitando alguns em afirmar, quando não existe um único
preso político no país: «Chávez é um Hitler» [5]. E sempre martelando na
mesma tecla: «É preciso depô‑lo!» Enquanto os seus proprietários conspiram para abater um
presidente democraticamente eleito, os meios de comunicação embriagam‑se
com expressões como «povo», «democracia» e «liberdade»... Organizam
manifestações de rua, transformam a mínima crítica governamental que lhes
diga respeito em «grave atentado contra a liberdade de expressão» que
denunciam junto de organismos internacionais [6], reinventam a greve
insurreccional e incentivam o assalto contra o palácio presidencial e o golpe
de Estado... Arrebatados pelo seu pendor natural para a propaganda [7],
os meios de comunicação confundiram o povo virtual, em nome do qual foi
cometido o golpe de Estado do dia 11 de Abril, com o povo real que, em menos
de 48 horas, reconduziu Hugo Chávez ao poder. O seu arrependimento foi de
curta duração. Com uma ferocidade redobrada, aproveitando-se de uma insólita
impunidade, os meios de comunicação venezuelanos se prosseguem actualmente, à
custa de mentiras e de intoxicação, a maior operação de desestabilização
jamais empreendida contra um governo democrático. Perante a indiferença
geral, pretendem desta vez conseguir o crime perfeito... _________ [1] Maurice Lemoine, Hugo Chávez salvo pelo povo, Le
Monde diplomatique, Maio de 2002. [2] El
Pais, Madrid, 12 de Abril de 2002. [3] Pierre Abramovici, “Operação Condor”, o pesadelo da América Latina, Le Monde diplomatique, Maio
de 2001. [4] Ler Ignacio Ramonet, Guerras
do século XXI, Campo das Letras, 2002. [5] Cf., por exemplo, o editorial da revista mensal Exceso,
Caracas, Abril de 2002. [6] A associação Repórteres Sem Fronteiras, fechando os
olhos a uma das campanhas mediáticas mais odiosas jamais conduzidas contra um
governo democrático, deixou-se manipular e publicou várias relatórios contra
o governo de Chávez, o qual nunca atentou contra a liberdade de expressão,
nunca proibiu qualquer meio de comunicação e nunca prendeu um jornalista! [7] Ler Edgar Roskis, Chronique d’un
orphéon médiatique [ed. brasileira: Crônica do coro da
imprensa], Le Monde diplomatique, Junho de 2002. |