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16/11/2005 Ignacio Ramonet No marco da campanha Acção mundial contra a pobreza
que se leva a cabo em 70 países, estive nestes dias a participar numa série
de actos em Montreal e Quebeque (Canadá). As jornadas de solidariedade
internacional eram organizadas pela Aqoci, uma coligação de organismos da
sociedade civil mobilizados em torno da palavra de ordem “Por um mundo sem
pobreza: actuemos já!”. Trata-se de recordar aos governos as medidas
políticas que se devem adoptar para erradicar a pobreza. Há no mundo, segundo a ONU, mais de mil duzentos milhões
de pessoas – sobretudo mulheres – vivendo em extrema necessidade. Com menos
de um euro diário devem alojar-se, vestir-se, educar-se, curar-se e
alimentar-se... Um desafio impossível. Por causas ligadas à pobreza morrem diariamente
mais de 50 mil pessoas... Tantas como as que teriam causado 18 atentados como
os do 11 de Setembro. A pobreza não é um fenómeno natural. É causada quase
sempre por políticas infelizes. Por isso, medidas políticas a podem
erradicar. Dois das suas principais causas são a desigualdade de rendimento e
a injusta repartição das riquezas. Causas que a globalização liberal não
cessa de agravar. O fosso entre os países mais ricos e os mais pobres
continua a alargar‑se. E isto constitui um insuportável escândalo. Segundo o Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento Humano, a nossa geração é a primeira na história que dispõe
de recursos para acabar com a pobreza. A riqueza mundial por habitante multiplicou‑se
por três nos últimos decénios. Se essa riqueza se repartisse com equidade,
cada pessoa no mundo poderia viver com folgança e dignidade. Em 1970, a Assembleia Geral da ONU decidiu que cada país
rico consagrasse 0,7 por cento do seu produto nacional bruto (PNB) à ajuda
pública ao desenvolvimento. Hoje, 35 anos mais tarde, só cinco países cumprem
essa promessa: Dinamarca, Suécia, Holanda, Noruega e Luxemburgo. Todos os
demais, e em particular as sete grandes potências – Estados Unidos, Japão,
Alemanha, França, Reino Unido, Canadá e Itália – continuam a incumprir as
suas obrigações com a comunidade internacional. No ano 2000, a ONU fixou entre os Objetivos do Milénio a
redução a metade do número de pobres no mundo até 2015. Mas ao ritmo que
levamos, esse objectivo – demasiado modesto! – só se poderia atingir em
2039... Uma vergonha. Por isso é indispensável que todos os cidadãos continuem a
fazer pressão sobre os governantes dos países ricos para que se acelere a
tomada de medidas que permitam a erradicação total da pobreza no prazo mais
curto. Essas medidas existem. Não só 0,7 por cento, mas, antes de
mais nada, a anulação da dívida dos países pobres. Porque não é normal que
estes continuem a enviar para o Norte em cada ano mais dinheiro em pagamento
de juros do que aquele que recebem a título de empréstimo. É também urgentíssimo estabelecer uma taxa internacional
sobre os mercados de câmbios, ou sobre as vendas de armas, ou sobre o consumo
de energias não renováveis. Há, além disso, que estabelecer regras comerciais
justas e equitativas que eliminem as ajudas às exportações agrícolas dos
países do Norte para permitir o desenvolvimento da agricultura do Sul. Tudo isso há que o fazer sem demora. Porque, como já
dissemos, a pobreza mata. E mata cada dia, cada hora, cada minuto... No tempo
que demora a ler esta crónica (uns seis minutos), a pobreza terá matado no
mundo umas 70 pessoas. |