Informação Alternativa

União Europeia

06/11/2005

 

Subúrbios em chamas

 

Ignacio Ramonet

La Voz de Galicia

 

Das periferias de Paris, os motins dos enfurecidos jovens marginalizados foram­‑se estendendo até atingir quase todas as grandes aglomerações de França. Porquê tanta violência num país que parecia propor ao resto da Europa um modelo de integração para os imigrantes e um exemplo de tratamento social da pobreza?

 

Sem dúvida porque os Governos sucessivos não quiseram ver a gravidade dos problemas de todo o tipo –económicos, culturais, religiosos, sociais, étnicos – que se foram acumulando, como numa panela de pressão, nesses subúrbios lixeira cada vez mais abandonados pelos poderes públicos.

 

ZONAS SENSÍVEIS

 

Existem em França umas 750 zonas urbanas consideradas como sensíveis, onde habita uma população sobretudo de origem imigrante e onde reinam a pobreza e a insegurança. Bairros muito degradados, edificados na década de 1960, e nos quais uns cinco milhões de habitantes – dos 61 milhões que a França tem – sobrevivem em prédios de mais de 9 andares, qualificados de exemplo letal de barraquismo vertical.

 

As classes médias foram abandonando estes subúrbios e aí, como em novos guetos, concentraram-se as minorias étnicas visíveis, ou seja, a população magrebina e subsaariana. E como os imigrantes extracomunitários não podem votar se não adquirem a nacionalidade francesa, todos estes bairros foram esquecidos pelos autarcas locais, pois não representam nenhuma rentabilidade eleitoral.

 

Em muitos deles não resta nenhuma representação do Estado. Os serviços públicos ou semi­públicos – correios, esquadras, hospitais, colégios, caixas de poupanças, linhas de autocarro... – foram­‑se retirando como consequência da política neoliberal de reduzir os orçamentos públicos e o número de funcionários.

 

Com frequência, muitos comércios privados – bares, supermercados, farmácias – fizeram o mesmo como consequência da subida da insegurança.

 

DISCRIMINAÇÃO TERRITORIAL

 

E os habitantes honestos desses subúrbios, que já tinham de suportar o racismo, tiveram além disso que enfrentar a “discriminação de território”. Se confessavam, respondendo a uma procura laboral, que viviam num desses bairros, não obtinham o posto.

 

De tal maneira que esses territórios se constituíram pouco a pouco em “zonas sem lei”, onde para sobreviver muitos jovens em desemprego se dedicaram à pequena delinquência, à revenda de objectos roubados, ou ao tráfico de drogas... E em viveiro ideal para grupos islamistas radicais que aqui recrutam voluntários para diferentes frentes – Afeganistão, Caxemira, Chechénia, Iraque – ...

 

As autoridades, ainda que não o admitam, preferiram fechar os olhos com cinismo durante anos, apostando que esta economia do delito manteria a calma. Em lugar de empreender uma política de reconquista pacífica e social, o ministro do Interior, Nicolás Sarkozy, decidiu apostar pela repressão, com a esperança de seduzir os eleitores da extrema direita racista e xenófoba. Qualificou, sem distinção, os habitantes dessas bairros de escumalha e declarou que ia limpar tudo isso com «ácido puro».

 

Grave erro, que provocou esta primeira rebelião nacional dos jovens pobres, marginalizados e discriminados. O que recorda as explosões niilistas dos bairros negros dos Estados Unidos nos anos 60 – em particular a de Watts, em Los Angeles em Agosto de 1965. Como ali, em França estes motins só desaparecerão quando o Governo lançar por fim um verdadeiro plano Marshall para os subúrbios.