Informação Alternativa

União Europeia

08/10/2005

 

Ceuta, Melilla

 

Ignacio Ramonet

Radio Chango

 

«Presídios» chamavam nas cartografias de antanho às cidades de Ceuta e Melilla, lugares de desterro e castigo para condenados a longas penas por delitos comuns ou políticos (ali estiveram desterrados alguns dos próceres da independência da América Latina, como o colombiano Antonio Nariño). E ainda hoje, na imprensa europeia, qualifica­‑se as duas antigas «praças de soberania» – e hoje «cidades autónomas» – de «enclaves em território marroquino».

 

Ainda que fundando-se na história e numa presença de mais de quinhentos anos, Madrid não careça de argumentos para demonstrar e reivindicar a espanholidade das duas cidades, a geografia nestes casos resulta determinante (Portugal acabou por restituir Macau à China, e o Reino Unido, Hong Kong). É óbvio, agrade ou não, que as duas urbes se encontram noutro continente, inseridas noutro país.

 

Isto que já é evidente no que concerne a estas duas cidades, é-o muito mais se nos referimos a essas migalhas de império, ou pós de velha glória que são os estéreis penhascos de Vélez de la Gomera e de Alhucemas, para não falar das ilhas Chafarinas.

 

É preciso ter uma concepção bem triste da história de Espanha para se obstinar de modo tão frenético (recordemos o senhor José Maria Aznar “reconquistando” o ilhéu Perejil) com o que são só umas meras pedras castigadas por sol e mar. Sentimos até vergonha vendo como alguns tratam de dar testemunho de uma história tão imensa agarrando­‑se à minúscula pequenez dessas pouco honrosas conquistas. Faz tempo que se sabe que a grandeza de um país está nas suas ideias, nas suas criações e nas suas gentes, e não na posse de espaços arrebatados pela força.

 

A essas duas cidades haveria que aplicar algo como a “directiva Guernica”. Picasso, que pintou Guernica para o pavilhão da República na exposição de Paris de 1937, quando a República perdeu a guerra, deixou bem claro que o quadro pertencia a Espanha, mas que o deixava em depósito no Museu de Arte Moderna de Nova York até que o seu país voltasse a ser uma democracia. E assim foi, a peça só veio para Madrid depois de estabelecida a Constituição.

 

Com Ceuta e Melilla deveria fazer-se o mesmo. Prometer devolvê-las (depois de ter consultado os seus habitantes) quando Marrocos for por fim uma indiscutível democracia.

 

Há pouco, o meu amigo Tahar Ben Jelloun, o grande escritor marroquino que vive em Tânger, contava-me que conferindo velhos jornais para a novela que está a terminar sobre o tema da emigração clandestina através do Estreito, descobriu que a imprensa de Tânger (La Dépêche marocaine, e o diário España) já falava das bateiras e dos imigrantes clandestinos no final dos anos 1940 e nos anos 1950. Como hoje, a gente (não só homens, mas também mulheres e crianças) chegava às praias a bordo de perigosas embarcações improvisadas, em estado físico lamentável, famintos, fugindo da miséria, do desemprego e da repressão.

 

Um só detalhe mudou desde então: aqueles clandestinos não eram nem marroquinos, nem subsaarianos, mas espanhóis. Andaluzes na sua maioria e também naturais de Ceuta, que fugiam da grande miséria do pós­‑guerra espanhol e das perseguições franquistas. Procuravam trabalho e salvação na então muito opulenta cidade de Tânger, colocada sob administração internacional.

 

A história também é isso, não só glória militar, mas com frequência desespero social e nomadismo laboral. Recordar esta faceta da história recente deveria tornar-nos mais compreensivos e mais acolhedores em relação a esses jovens subsaarianos que assaltam com as mãos nuas as fortificações mutiladoras de Ceuta e Melilla. Como os espanhóis de antanho, fogem hoje, por sua vez, do desemprego, da fome e da repressão.