Informação Alternativa

União Europeia

29/09/2005

 

Sexo e mercado

 

Ignacio Ramonet

La Voz de Galicia

 

No passado dia 19 de Setembro estive a participar, no Centro Cultural Conde Duque de Madrid, numa jornada de trabalho sobre Tráfico internacional de mulheres com fins de exploração sexual, organizada pela Comissão para a Investigação de Maus Tratos a Mulheres e pela Plataforma de Organizações de Mulheres para a Abolição da Prostituição. Fez-se sobretudo finca-pé em quatro temas: a indústria do sexo, o tratamento da violência de género, a figura do prostituidor e o tratamento mediático da prostituição.

 

Espanha, sem dúvida porque se impôs o preconceito machista sobre estes temas, é o país da União Europeia onde a indústria do sexo conhece a maior expansão. E onde não se encontra quase nenhum tipo de entrave. Nem sequer se vê o problema, que se analisa com frequência como uma pura questão de liberdade individual, de uso livre do corpo e de decisão pessoal sobre o desejo e o prazer.

 

É óbvio que a questão da prostituição suscita reflexões controversas desde há decénios, e não é daquelas que se podem resolver sem debate social, de maneira autoritária, com um simples decreto do Governo. Mas a cegueira que existe, sobretudo no âmbito masculino e até entre alguns intelectuais considerados como progressistas, aturde e espanta. Porque resulta evidente que muitos não querem inteirar-se.

 

Deve influir nisto a atmosfera ultraliberal em que vivemos, onde se afirma que o mercado domina tudo, mercantiliza tudo e que, em definitivo, uma mulher – já que existe oferta de relação sexual e procura – pode transformar­­‑se numa mercadoria. Alguns negam­‑se a ver a diferença entre a venda da força de trabalho numa sociedade capitalista e a venda do corpo como receptáculo da personalidade e da identidade.

 

O negócio do sexo move em Espanha uns quarenta milhões de euros diários, ou seja 14.500 milhões de euros ao ano... Isto é, o equivalente ao que custariam 65 aviões gigantes Airbus A380... E bem mais do que gastará a União Europeia nos próximos cinco anos em investigação científica e desenvolvimento tecnológico, que são as chaves do futuro europeu, e que geram mais de metade do crescimento económico da Europa.

 

Como outras formas de violência contra a mulher cometidas pelo homem, a prostituição é um fenómeno específico de género. A esmagadora maioria das vítimas são mulheres e raparigas, enquanto os que perpetram tais actos são sobretudo homens. A prostituição e o tráfico de mulheres supõem a existência de uma procura de mulheres e menores, em particular raparigas. Se os homens não considerassem como um direito evidente a compra e exploração sexual de mulheres e menores, a prostituição e o tráfico não existiriam.

 

Estudos internacionais demonstram que entre 65% e 90% das mulheres prostituídas foram vítimas de abusos sexuais quando eram crianças por parte de familiares ou conhecidos de sexo masculino. O tráfico internacional de mulheres e menores é um problema que aumenta cada vez mais em todo o mundo. O professor Carlos Paris revelou na sua conferência que 90% das mulheres que se prostituem em Espanha são estrangeiras, e na sua maioria foram introduzidas por redes de proxenetismo.

 

A advogada canadense Gunilla Ekberg, assessora especial do governo sueco, recordou como a Suécia se converteu em pioneira mundial do combate contra o tráfico de seres humanos com fins sexuais. Nesse país escandinavo, a legislação permite condenar todo o homem que compra sexo, o prostituidor, a seis meses de prisão... Graças a essa medida, a prostituição foi, na prática, erradicada. Um novo modelo sueco que toda a União Europeia deveria adoptar [1].

_________

[1] Ver Marie De Santis, A solução da Suécia para a prostituição: porque é que ninguém tentou isto antes?, 2004 (n. IA).