|
Informação Alternativa |
|
Mundo |
|
Agosto 2005 Ignacio Ramonet Nada justifica os atentados de Julho que, em Charm el‑Cheikh, mataram oitenta e oito pessoas e, em Londres, cinquenta e seis dois. Porque matar inocentes em prol de uma suposta causa justa não é defender uma causa justa, mas simplesmente matar inocentes. Essas agressões criminosas eram previsíveis. «Para nós, esses atentados não foram uma surpresa», admitiu Christophe Chaboud, chefe da Unidade de coordenação da luta antiterrorista em França, «mas a confirmação de algo inevitável, tendo em conta o contexto internacional, nomeadamente a guerra do Iraque» [1]. Havia meses, responsáveis pela segurança repetiam que a questão não era mais de saber se os ataques iriam ocorrer, mas quando ocorreriam. A abertura da cimeira do G8 (grupo das sete potências mais ricas, mais a Rússia), em Gleneagles, na Escócia, forneceu a ocasião simbólica. E os famosos serviços de informações britânicos, conhecidos pelas siglas MI5 e MI6 (Military Intelligence), foram incapazes de evitar a carnificina. Isso confirma que, até ao momento, ninguém encontrou um refúgio seguro contra o terrorismo. Era claro que o alinhamento de Londres com o belicismo de Washington, invadindo e ocupando o Iraque, apesar de grande oposição popular, acabaria por ter consequências trágicas na própria Grã-Bretanha. Os atentados de Madrid, em 11 de Março de 2004, haviam sido, nesse sentido, um aviso sinistro. Tanto mais que a situação no Iraque continua caótica. As autoridades norte‑americanas – que, comprovadamente, mentiram para justificar a invasão – superestimaram a sua capacidade de administrar o pós-guerra. O Iraque tornou‑se não apenas um atoleiro para as forças de ocupação, mas um verdadeiro barril de pólvora internacional [2]. Ao contrário do que afirmara o presidente Bush, o mundo não está mais seguro desde que o Iraque foi ocupado. Bem pelo contrário. A rede Al Qaeda não foi desmantelada. Osama Bin Laden não foi preso. E a nebulosa jihadista atacou locais até então poupados: Istambul, Bali, Casablanca, Madrid, Londres... De acordo com os próprios serviços de inteligência norte-americanos, o Iraque tornou‑se uma «escola de guerrilha urbana», um verdadeiro «laboratório do terror» [3] que recebe centenas de voluntários, vindos de vários países. A violência atinge dimensões paroxísticas. Os insurgentes mataram mais de 12.000 pessoas nos últimos 18 meses. Actualmente, o número de iraquianos mortos em atentados eleva‑se a 200 por semana, 800 por mês! O Pentágono estima que a rebelião, essencialmente sunita, conta com cerca de 20.000 combatentes, apoiados por 200.000 ocasionais... As forças de ocupação não sabem o que fazer. Apesar de uma repressão que não recua perante o recurso aos raptos, às prisões secretas, à tortura – como os abusos na prisão de Abu Ghraib mostraram –, ou o uso desproporcionado da força. Um soldado norte‑americano, Jim Talib, que participou no ataque a Faluja testemunha: «Um dia, enquanto eu conduzia um detido à prisão, o graduado encarregado dos interrogatórios disse‑nos para não os trazer mais. “Despache‑os”, disse ele. Eu estava sem fôlego. Não conseguia acreditar que ele tinha realmente dito isso. Não estava a brincar. Alguns dias mais tarde, um grupo de veículos Humvee passou. Havia dois iraquianos mortos atados na capota, como caça. Um dos corpos tinha o crânio aberto, e o cérebro tinha começado a fritar sobre a capota do veículo. Era um espectáculo horrível. Fui testemunha de muito pouco respeito em relação aos vivos, quase nenhum em relação aos mortos, e quase ninguém tinha que prestar contas» [4]. No Tribunal Mundial sobre o Iraque, que teve lugar de 25 a 27 de Junho em Istambul, e que os grandes meios de comunicação ocultaram, um dos testemunhos mais perturbadores foi apresentado pelo jornalista libano‑americano Dahr Jamail. Ele relatou como um funcionário da administração de Bagdade, Ali Abbas, se deslocou a uma base norte‑americana para investigar a sorte de um dos seus vizinhos desaparecidos. Porque insistia, Abbas foi preso imediatamente, despido, encarcerado e obrigado a simular actos sexuais com outros prisioneiros. O procedimento padrão. Depois, soltaram cães sobre dele, foi golpeado nas partes genitais, recebeu descargas eléctricas no ânus. Enfiando‑lhe o cano de uma arma na boca, os seus algozes ameaçaram executá‑lo se ele gritasse. Por fim, deixaram-no chafurdar nos seus excrementos [5]... Anthony Blair estima que não há nenhuma relação entre estes abusos cometidos no Iraque e os atentados de Londres. E se houvesse? _______ [1] Le Monde, 12/07/2005. [2] Ler Howard Zinn, Que fazemos nós no Iraque?, Le Monde diplomatique, Agosto 2005. [3] International Herald Tribune, 22/06/2005. [4] Jim Talib pode ser contactado no endereço: jimtalib@yahoo.com. [5] Cf. http://dahrjamailiraq.com. Ler também John Pilger, Para que não esqueçamos: Estas foram “bombas
de Blair”, 11/07/2005. |